

O Destino em suas Mos

Elisa Masselli


Sinopse:

Esta  a histria de alguns imigrantes espanhis que vieram
para o Brasil em busca de riqueza. Assim que chegaram, 
viram seus sonhos destrudos, a vida de cada um precisava 
continuar. Lola e Carmem, duas mulheres que ficaram 
sozinhas, tiveram de lutar contra o preconceito, o cime, o 
sentimento de posse e o apego a coisas e pessoas.
Aprenderam atravs de muito sofrimento, que as pessoas a 
quem amamos no nos pertencem, que so espritos livres, 
com o direito de fazer suas prprias escolhas. O mesmo 
acontece com as coisas das quais precisamos para viver, 
tambm no so nossas apenas nos foram emprestadas. 
Ambas deviam conduzir Maria para que ela pudesse cumprir 
uma misso que serviria para o aperfeioamento da 
humanidade. Rafael e Julian foram peas importantes nessa 
evoluo e aperfeioamento.
Escolheram passar por um processo de autoconhecimento e 
sofreram por isso, mas tiveram ao seu lado espritos amigos, 
sempre dispostos a ajud-los em todos os momentos. Com o 
tempo, aprenderam que dinheiro sem amor no tem valor e 
que tinham O Destino Em Suas Mos. 
Sumrio
 
Prlogo
Planejando o futuro
A tempestade
Contando a histria 
Incompreenso
A ajuda sempre chega
Uma porta que se abre 
Triste notcia
Acordo preocupante
Intenes reveladas 
Fim da viagem
Chegando ao destino
Incio de uma nova vida 
O despertar
Nunca estamos ss
Ajuda providencial
Dissimulao
A festa da colheita
Reencontro
Conversa definitiva
O pior dos sentimentos 
Acerto de contas 
Deciso inesperada
Dominada pelo mal 
Momento de deciso 
A verdade sempre aparece
Persuaso
Maldade final
Deciso de vida
O destino de cada um
Eplogo


Prlogo

No final do sculo dezenove e incio do sculo vinte, a 
Europa passava por momentos difceis. Devido  pobreza do 
Estado, os impostos cresceram em demasia, tanto que 
muitos camponeses no tiveram como pagar suas dvidas e, 
por isso, perderam suas terras e, de um momento para outro, 
viram-se sem elas e sem um lugar para morar. A pobreza, 
que j era grande, piorou e se espalhou por todos os pases. 
As pessoas no tinham trabalho e, sem terra para cultivar, 
no tinham comida tambm. A situao era desesperadora. 
Nessa mesma poca, com o fim da escravido e a disperso 
dos escravos, o Brasil precisava de mo-de-obra para tocar 
suas lavouras. Para conquistar essa mo-de-obra, foram 
mandados, para os pases da Europa, folhetos, convidando os 
camponeses a irem trabalhar no Brasil, onde, alm de 
emprego, poderiam conseguir propriedades, pois o Brasil era 
um pas enorme, com muitas terras para serem cultivadas. 
Os folhetos diziam que a viagem seria confortvel e paga 
pelo governo brasileiro. Muitos agricultores, empolgados 
pela propaganda, se aventuraram, j que, em seus pases, no 
havia mais condio de vida. Assim que faziam a opo pela 
viagem, recebiam a passagem para embarcar, mas s a, na 
maioria das vezes, constatavam que os navios eram 
cargueiros, tendo alguns compartimentos internos 
transformados em dormitrios. A cozinha, embora grande, 
s tinha capacidade para atender aos marinheiros que 
trabalhavam no navio. Com mais de seiscentas pessoas a 
bordo, aliment-las tornou-se um problema. Por isso, na 
hora da refeio, quase sempre era servida uma sopa rala. O 
reservatrio de gua fora construdo para atender  
tripulao, por esse motivo, a gua tambm precisava ser 
poupada. Os banhos s eram permitidos uma vez por 
semana e com uma certa quantidade de gua. As pessoas 
dormiam em esteiras estendidas por aqueles compartimentos 
transformados em quartos. Neles, havia uma esteira para 
cada adulto, as crianas dormiam com os pais. Por isso, a 
maioria dos viajantes preferia ficar no convs, onde podia 
respirar ar puro, indo para os "quartos" somente  noite.
Mesmo assim, apesar de todo desconforto, viajavam 
esperanosos em conseguir uma vida melhor. A viagem, 
demorada e sofrida, estava sujeita s variaes climticas e s 
doenas. Aqueles que ficavam doentes e morriam eram 
enrolados em lenis e jogados ao mar. Somente estes 
recebiam um lenol, os outros precisavam se abrigar com 
seus prprios cobertores. A maioria no tinha cobertor 
algum e as famlias precisavam unir seus corpos para que 
pudessem se aquecer. O sofrimento era muito, mas a 
promessa de um futuro melhor os impulsionava. Sabiam que 
estavam indo em direo  terra prometida. Para eles, aquilo 
tudo, embora triste, lhes parecia belo e deslumbrante.


Planejando o futuro

Um navio navegava lentamente deixando atrs de si um 
extenso rastro de gua branca formada pelas ondas que 
batiam sobre o casco. O mar estava calmo, o que deixava 
tranqilas as pessoas que viajavam nele. Essas pessoas 
haviam deixado sua ptria, a Espanha, atendendo aos apelos 
dos folhetos que as convidavam a ir a uma terra com muitas 
oportunidades. Todos, por no terem mais o que perder, 
colocaram esperanas na nova terra e se aventuraram. Entre 
eles, havia uma moa que tinha o nome de Dolores, mas, 
por todos, era chamada de Lola. Trazia consigo uma menina 
com quase cinco anos idade e que estava sentada ao seu 
lado, tentando brincar com as outras crianas que, por serem 
mais velhas, no lhe davam muita ateno. s vezes, ela 
conseguia brincar tambm, mas era muito pequena e logo se 
cansava e corria para os braos da me que a afagava com 
carinho. Lola estava feliz, pois havia conseguido, atravs de 
uma amiga e de cartas, um emprego como cozinheira em 
uma fazenda no Brasil. No conhecia as pessoas para as quais 
iria trabalhar, apenas sabia que eram muito ricas.
Como todos que faziam aquela viagem, ela tambm estava 
temerosa, mas, ao mesmo tempo, esperanosa por poder 
recomear. Havia perdido tudo, estava sozinha, alm de 
saber que, na Espanha, nada mais lhe restava. Sua nica 
esperana era essa nova terra.
Sentada no convs do navio e, enquanto via sua filha ali 
tentando brincar com outras crianas, olhava para o cu e 
seu corao batia forte.
A embarcao em que viajava, era um cargueiro que at 
ento transportava gros e fora transformado em um 
precrio navio de passageiros. Durante o dia, algumas 
pessoas ficavam ali, no convs, tomando sol e respirando ar 
puro. Durante a noite, dormiam em esteiras espalhadas pelo 
cho dos quartos improvisados, onde era muito abafado, 
quente, ao mesmo tempo, muito mido e com um forte 
cheiro de mofo. Existia somente uma esteira por pessoa, as 
crianas dormiam com os pais. No havia muita gua doce, a 
pouca que havia era usada para beber e preparar 
alimentao. Por isso, s podiam tomar banho uma vez por 
semana e com pouca gua. Dormiam misturados homens e 
mulheres. O lugar era irrespirvel. Apesar de todo o 
sofrimento, sentiam-se felizes, pois iam ao encontro de uma 
vida melhor, de um sonho. Ouviram dizer que, naquela terra 
para onde estavam indo, poderiam trabalhar, conseguir 
muito dinheiro, terras e, assim, poderiam voltar para a 
Espanha, ricos. Lola tambm ouvira aquilo, porm estava 
fazendo a viagem no para ficar rica, mas para poder 
recomear e dar uma vida melhor para a filha. Todos que 
passavam por ela estranhavam. No entendiam como uma 
moa to bonita podia estar viajando sozinha e com uma 
criana. Aquilo era muito estranho, pois, naquele tempo, 
mulheres jamais poderiam sair de casa sozinha, muito menos 
fazer uma viagem como aquela. Lola sabia o que pensavam, 
mas no se importava. Somente ela conhecia o motivo de 
aquilo estar acontecendo e sabia que ningum, por mais que 
quisesse, poderia ajud-la. Afagando os cabelos da menina, 
lembrou-se de tudo o que havia acontecido para que 
estivesse ali apenas com a filha. Com os olhos perdidos no 
espao, pensou:
Por que tudo aquilo teve de acontecer, Manolo? Por que no 
pde ser diferente? O que vai ser da minha vida e da vida da 
nossa filha? Tomara que consiga sobreviver e dar a ela uma 
vida melhor do que a minha... Que ela possa ter a felicidade 
que nunca tive. Sei que no vai ser fcil. Meu Deus ajude-
me para que tudo d certo e eu possa recomear...
Lgrimas caram por seu rosto. Com as mos, secou-as e 
continuou relembrando como era sua vida e no dia em que 
foi trabalhar na casa de Manolo:
Meu pai era agricultor e, como todos iguais a ele passavam 
por momentos difceis. No conseguiu pagar os impostos 
que ficaram muito caros. Em uma manh, um homem veio 
at a casa e lhe deu um papel. Ele no sabia ler, somente eu 
e meu irmo havamos ido, por pouco tempo,  escola, pois 
precisvamos ajudar meu pai na lavoura, mas aprendemos a 
ler, no muito bem, mas o necessrio para entender o que 
estava escrito naquele papel. Eu li e depois disse ao meu pai:
 Pai, este papel est dizendo que o senhor tem um ms 
para pagar os impostos, se no o fizer, ter de abandonar a 
terra.
 Como? No pode ser? No tenho todo esse dinheiro! Para 
onde vamos? Isso no pode estar acontecendo! Estas terras 
sempre pertenceram a nossa famlia! Meu av, meu pai e eu 
nascemos aqui, no conhecemos outro lugar! No posso sair 
daqui! 
Ficamos calados, pois no sabamos o que responder. Assim 
como ele, estvamos amedrontados e pensando o que seria 
do nosso futuro. Apenas consegui dizer:
 Tambm no sei meu pai, mas  impossvel que Deus v 
nos abandonar...
No sei por que falei aquelas palavras, mas senti uma enorme 
vontade de dizer. Achava que, com elas, animaria meu pai, 
mas isso no aconteceu. Ele saiu e foi para o quintal. Ficou 
andando de um lado para outro. Com os olhos, acompanhei 
seus movimentos. Minha me, sempre calma e acreditando 
que Deus cuidava de todos ns, disse:
 No se preocupe meu velho. Lola tem razo, Deus no 
vai nos abandonar. Ele est sempre cuidando dos Seus filhos 
e vai encontrar um caminho...
Meu pai, que havia voltado do quintal e estava entrando em 
casa, ao ouvir o que minha me disse, nervoso, gritou:
 Que Deus, mulher? Deus no existe! Olha a vida que 
sempre tivemos?  Sempre plantamos e colhemos s o 
necessrio para a nossa sobrevivncia! Enquanto no temos 
nada, outros tm para jogar fora! Isso  justo? Onde est esse 
Deus que escolhe a quem vai dar tudo e a quem no dar 
nada! Nunca mais venha me falar de Deus!
Minha me, calma como sempre, respondeu:
 No sei qual  a razo de vivermos assim, s sei que 
algum motivo deve ter. No adianta se revoltar contra Deus, 
isso no vai fazer com que as coisas melhorem. O melhor 
que tem a fazer  se acalmar e pensar no que vamos fazer.
Meu pai ouviu o que ela falou. Desesperado, voltou outra 
vez para o quintal e continuou andando de um lado para 
outro. Assim que saiu, minha me foi para seu quarto e, 
diante da imagem de Nossa Senhora, comeou a rezar.
Lola estava longe dali, com os olhos parados em um ponto 
distante e s voltou  realidade, quando Maria comeou a 
chorar. Abraou-a com carinho e a menina, sentindo-se 
protegida, parou de chorar e ficou ao seu lado olhando as 
crianas que brincavam. Lola sorriu e continuou 
relembrando:
Eu era a mais velha de trs irmos e a nica mulher. Tinha 
dezoito anos e tambm estava com medo. Embora nossa 
casa fosse pobre, era o nosso abrigo, a nossa segurana. Por 
vrios dias, meu pai ficou andando de um lado para outro, 
tentando encontrar uma soluo ou, ao menos, um lugar 
para onde pudssemos ir, j que o dinheiro para pagar os 
impostos, ele sabia, no conseguiria. Por mais que pensasse, 
sabia que no poderia pedi-lo a ningum, pois todos os seus 
conhecidos estavam na mesma situao que ele, aceitando 
qualquer emprego. Muitos, at, somente para ter um lugar 
onde pudessem colocar a famlia. Sabendo disso, meu pai 
falou revoltado:
 No sei o que vai ser da nossa vida. No tenho dinheiro 
para pagar os impostos e no temos para onde ir. O que foi 
que fiz para merecer uma vida como esta? Por que, desde 
que nasci sempre tive de viver quase que na misria?
O tempo foi passando. O dia de sermos obrigados a 
abandonar nossa casa estava chegando e ele no havia 
encontrado soluo alguma. Ficava cada vez mais 
desesperado e revoltado. Minha me tentava acalm-lo:
 No adianta ficar revoltado, meu velho. Isso s vai fazer 
mal  sua sade. No se preocupe, alguma coisa vai 
acontecer. No vamos ficar desamparados. Deus vai nos 
ajudar...
Ele, cansado de ouvi-la sempre dizer aquilo, olhou para ela 
com raiva, calado, saiu de casa e foi para o quintal. Ela o 
acompanhou com os olhos. Sabia o que ele estava pensando. 
Confiante, voltou a rezar.
Em uma manh, depois de ter passado a noite toda andando 
pela casa, tomando caf e fumando, ele saiu. Assim que ele 
saiu, minha me voltou para seu quarto, ajoelhou-se e voltou 
a rezar. Eu, que a acompanhei, tambm me ajoelhei e repeti 
o que ela disse:
 Meu Pai, por favor, no nos abandone neste momento. 
Sabe que somos pessoa de bem e que no merecemos viver 
assim. Somente o Seu amor e compaixo podero nos 
ajudar... Confio na Sua bondade...
Eu ouvi quando ela disse aquelas palavras, mas, como meu 
pai, tambm no acreditava que pudesse haver um Deus, 
porm, sem ter outra coisa para fazer, fiquei ao lado dela, 
ouvindo e repetindo suas oraes. Quando meu pai voltou, 
j eram quatro horas da tarde. Estava feliz e disse, sorrindo:
 Conversei com Dom Antnio e como ele me conhece, 
sabendo que sou trabalhador, disse que quer comprar as 
nossas terras pelo mesmo preo que venderamos ao Estado.
Eu nada sabia sobre negcios, mas no entendia a felicidade 
de meu pai. Se vendssemos as terras, para o Estado ou para 
Dom Antnio, ficaramos na mesma situao que pela 
manh, pois o dinheiro que receberamos no daria para 
comprar uma casa, muito menos outras terras. As terras 
estavam sendo vendidas pelo valor dos impostos que meu 
pai devia. Embora para alguns nada representasse, para meu 
pai era uma fortuna. Vendendo ou no, no teramos para 
onde ir. Minha me parecendo ter tido o mesmo 
pensamento que eu, disse:
 No entendo por que est to feliz, pois continuamos da 
mesma maneira que estvamos pela manh. Se vendermos 
as terras, vamos ter de sair daqui sem ter para onde ir, pois o 
dinheiro que recebermos no vai dar para comprar outras 
terras ou ao menos uma casa pequena.
 Eu no disse tudo! Se vendermos as terras para o Estado, 
ficaremos sem ter para onde ir, mas se vendermos para Dom 
Antnio, embora seja pelo mesmo preo, ele disse que 
podemos ir morar e trabalhar na sua fazenda, pois l h 
muita uva para ser plantada e colhida. Vendendo para ele, 
vamos ter trabalho e uma casa para morar, mulher! Por isso 
estou to feliz!
A felicidade foi total. Animados, pegamos as poucas coisas 
que tnhamos e nos mudamos. A famlia de Dom Antnio 
possua uma imensa quantidade de terra cultivada por 
agricultores que recebiam uma misria como salrio. Meu 
pai no se importou, pois dizia: 
 Pouco  muito mais do que nada!
Assim que chegamos  fazenda, Dom Antnio nos olhou e 
disse:
 Seja bem-vindo a nossa casa, senhor Jos. Fez muito bem 
quando decidiu me vender suas terras. Por isso, pode ficar 
sossegado, aqui tem trabalho e moradia garantidos. Aqui, 
nesta fazenda, poder viver em paz.
Meu pai sabia que o salrio que ele ia pagar mal daria para 
comermos, mas como no havia outra maneira para 
sobreviver, disse:
 Obrigado, Dom Antnio. No se preocupe, prometo que 
vou trabalhar muito.
 Sei disso, j o conheo h muito tempo. Sua casa j est 
pronta  sua espera.
Olhando para todos ns, disse para um rapaz que estava ali:
 Juan, acompanhe o senhor Antnio e sua famlia at a 
casa que voc preparou.
Acompanhamos Juan. A casa que estava reservada, como 
todas as outras, era pequena para uma famlia de cinco 
pessoas como a nossa, e mal conservada, mas era tudo o que 
poderamos ter naquele momento. Meu pai sabia disso e ns 
tambm. Meu pai comeou a trabalhar. Eu e meu irmo Luiz 
o ajudvamos. A vida era difcil, mas conseguamos 
sobreviver. Uma manh, quando estvamos nos preparando 
para ir trabalhar, Juan, que era o secretrio de Dom Antnio, 
veio at a nossa casa. Disse:
 Senhor Jos, a dona Maria das Graas mandou perguntar 
se o senhor pode deixar a Lola ir trabalhar l na casa-grande.
 Por qu? Ela j tem empregada.
 A Lourdes ficou doente, precisa fazer uma operao e 
no vai poder trabalhar por um tempo. Por isso, ela est 
precisando de uma empregada para cuidar da casa. Ela disse 
que vai pagar separado.
 No sei... Lola nunca trabalhou em casa de famlia, no 
sei se vai conseguir...
 No se preocupe com isso. Ela aprende.
 Est bem. Se vier um dinheiro a mais, sempre  bom. 
Lola acompanhe Juan.
Amedrontada, acompanhei Juan. No conhecia a famlia. S 
havia visto dona Maria das Graas uma vez, no dia em que 
chegamos e fomos at a casa-grande para nos apresentar. 
Depois, nunca mais nos aproximamos dali, mas precisava 
obedecer ao meu pai. Com ele, no se discutia, apenas se 
obedecia. Assim que cheguei  casa-grande, dona Maria das 
Graas me recebeu com um sorriso:
 Que bom que veio. Estou precisando muito de sua ajuda.
 Desculpe senhora, mas nunca trabalhei em casa de 
famlia, no sei como fazer.
 No se preocupe, a Lourdes, antes de ser operada, vai 
ensinar-lhe. Logo aprender. Como  o seu nome?
 Lola...
 Muito bem, Lola, entre e v para a cozinha, conversar 
com a Lourdes. Ela vai lhe dizer qual  o seu trabalho.
Comecei a trabalhar. Lourdes, com muita pacincia, me 
ensinou e, realmente, em pouco tempo eu j cuidava de 
todo o trabalho da casa. Estava na cozinha, quando Dona 
Maria das Graas, acompanhada por um rapaz, entrou e 
disse:
 Lola, este  o meu filho Manolo. Ele  muito exigente 
com a comida, por isso, trouxe-o para conhec-la.
Eu, sem perceber, abaixei a cabea, levantando somente os 
olhos para poder v-lo. Assim que nossos olhos se 
encontraram, senti um arrepio pelo corpo, parecia que eu j 
conhecia aquele moo, embora soubesse que era impossvel, 
pois nunca eu estivera na fazenda, nem ele na minha casa. 
Ele estendeu a mo:
 Muito prazer, Lola. Espero que cozinhe bem. Gosto 
muito de comer.
Trmula e envergonhada, estendi-lhe minha mo, que ele 
apertou com fora. Sem conseguir evitar, apertei sua mo 
tambm. Ele, sorrindo, disse:
 Tenho certeza de que deve cozinhar muito bem. Tmida, 
abaixei a cabea e fiquei calada.
Eles saram da cozinha e eu os acompanhei com os olhos, 
tentando fazer com que meu corao parasse de bater com 
tanta fora. 
 Est pensando na vida, Lola?
Lola voltou-se e viu Carmem, uma moa que tambm 
viajava e com a qual havia conversado por alguns minutos, 
assim que entraram no navio. Ela sorriu e respondeu:
 Estou pensando no motivo pelo qual estou aqui neste 
navio, indo para um destino desconhecido.
 Por mais que pense Lola, no final, o motivo  o mesmo 
de todos os que esto aqui. Pobreza, vontade de progredir e 
de ter uma vida melhor.
 Tambm tenho outro motivo.
 Qual?
 Um dia eu conto a voc. Esta viagem  longa, vamos ter 
tempo. Voc tambm est viajando sozinha, Carmem?
 No, Lola. Meus pais e dois irmos, alm de Rafael, nosso 
vizinho, tambm esto aqui.
Lola olhou para o lado onde ela apontava e viu um rapaz que 
tambm olhava para elas. Os olhos se encontraram e 
sentiram uma estranha sensao. Ele, com os dentes 
perfeitos, sorriu e acenou com a mo. Ela, constrangida, 
tambm sorriu e respondeu ao aceno de mo. Carmem, 
olhando para Rafael, disse:
 Venha se sentar conosco, Rafael. J que estamos no 
mesmo navio e que a viagem vai ser longa,  bom fazermos 
amizade, no , Lola?
Lola, ainda impressionada com a beleza do rapaz e por 
aquilo que estava sentindo, timidamente, sorriu e 
respondeu:
 Sim, Carmem,  isso mesmo. Como estou viajando 
sozinha com a minha filha, sei que vou precisar de amigos.
Rafael, sorrindo, levantou-se e se aproximou delas. Ouviu o 
que Lola falou e, no mesmo momento, disse:
 Pois se esse  o seu problema, ele no existe mais. Eu e a 
Carmem estaremos ao seu lado sempre que precisar, no  
Carmem?
 Claro que sim, Rafael. J que estamos viajando para uma 
terra estranha,  bom termos amigos para podermos nos 
ajudar.
 Obrigada aos dois. Quando resolvi fazer esta viagem, sabia 
que no seria fcil, pois minha menina  ainda muito 
pequena, mas agora, conhecendo vocs, sei que no estou 
mais sozinha e que se precisar terei a ajuda dos dois.
 Pode ter certeza disso. Estive olhando sua menina, ela  
muito bonita e esperta.
 , sim, Rafael, e  toda a razo da minha vida.
Ficaram conversando por um longo tempo. Falaram de 
como resolveram tentar uma nova vida e na esperana de 
dias melhores. Logo, estavam rindo e sentiram que uma 
grande amizade surgia ali. Depois de algum tempo, Lola 
disse:
 Agora, preciso dar comida para minha menina. Est na 
hora de ela dormir. Maria! Venha, Maria, vamos at a 
cozinha ver o que temos para comer.
Maria, que agora brincava com outras crianas, amuada, 
disse:
 No t com fome, mame...
 Sei que no est, mas no adianta. Precisa comer. Precisa 
crescer... Sem vontade, a menina acompanhou a me. Rafael 
seguiu-a com os olhos e sorriu.
Ela  mesmo muito bonita. O que ser que aconteceu para 
uma moa como ela estar viajando, sozinha, somente com a 
filha? Onde estar o marido?
Carmem, com os olhos, tambm acompanhou os 
movimentos de Lola e de Rafael. Sorriu. Ele est gostando 
dela...
Lola, com um pano umedecido, deu um banho em Maria, 
depois lhe deu comida e colocou-a para dormir. A menina 
no queria, chorou um pouco, mas acabou dormindo. Lola, 
vendo que ela dormia tranqila, pensou:
O que vai ser da nossa vida, Maria? Como ser essa terra para 
onde estamos indo? Ser que no vou me arrepender de ter 
me arriscado nessa aventura? No sei... por outro lado, no 
tinha como continuar ali.... tudo , se acabou na minha vida 
e, se no fosse voc, nem sei o que teria feito... meu Deus... 
preciso de ajuda para poder continuar... no me abandone...

A tempestade

Assim que Maria adormeceu, Lola acomodou-a sobre a 
esteira e deitou-se ao seu lado. Olhando com carinho para a 
filha, voltou a relembrar o que havia acontecido.
Desde aquele dia na cozinha, Manolo no me deu paz. Vivia 
me procurando pela casa e pedindo que eu fizesse isso ou 
aquilo. Eu no podia me furtar, afinal, era a empregada. 
Sempre que estava ao meu lado, ele dizia:
 Lola, estou apaixonado por voc. Quero me casar e ter 
uma famlia com voc.
Eu sabia que aquilo no era verdade, que no passava de 
brincadeira, mas, no ntimo, me sentia feliz. Eu me 
apaixonei assim que o vi pela primeira vez. Em uma tarde, 
quando estava pendurando roupa no varal, sem que eu 
percebesse, ele se aproximou por trs, me abraou e com 
carinho fez com que eu me virasse, me beijou 
ardentemente. Correspondi quele beijo, pois era o que eu 
mais queria. Daquele dia em diante, sempre nos 
encontrvamos s escondidas e, a cada oportunidade, nos 
beijvamos. O meu amor por ele era imenso. Tanto que no 
me preocupava com o futuro, com o que poderia acontecer. 
Enquanto me abraava e beijava, ele dizia:
 No fique com medo, Lola. Sabe que estou dizendo a 
verdade. Amo voc e quero me casar.
 No diga isso, Manolo. Sabe que isso nunca ser possvel. 
Seus pais no vo permitir. Voc  de uma famlia rica e eu 
no passo da filha de um agricultor e empregada de sua casa.
 No me importo com o que meus pais pensam. Amo 
voc e quero me casar, ter filhos, formar uma famlia. Isso 
ningum vai impedir.
Eu ria, sabia que aquilo jamais aconteceria, mas no me 
importava, queria ficar ao lado dele para sempre. O tempo 
foi passando. Aqueles beijos que, a princpio, eram 
suficientes, com o tempo, foram tornando-se mais ardentes, 
at que um dia me entreguei totalmente. Ele no me 
enganou, eu sabia o que estava fazendo. Sabia que, se algum 
descobrisse, eu seria execrada e expulsa no s da casa de 
Manolo, como tambm da casa de meu pai. Ele jamais 
aceitaria uma filha que no fosse virgem, que no poderia se 
casar com um homem que ele escolhesse. Em parte, ele 
tinha razo, pois homem algum se casaria com uma mulher 
usada, como diziam. Quando eu falava dos meus temores, 
Manolo me abraava e falava:
 No fique preocupada, Lola. No posso assumir voc 
agora, ainda no terminei meus estudos, mas, quando 
terminar, ningum vai poder impedir que eu me case com 
voc.
 Mas, se algum descobrir?
 Se algum descobrir, nos casaremos e, quando for minha 
mulher, ningum poder apontar voc. Confie em mim, 
Lola, ningum poder nos separar.
Ao ouvir aquilo, suspirei e dei-lhe um beijo. Naquele 
momento, nada mais importava somente o nosso amor.
Estava distrada, pensando e no percebeu Rafael que se 
aproximou e, assustado, disse:
 Lola, precisa se abrigar e proteger sua filha!
 Por qu?
 Est se formando uma grande tempestade e o 
comandante avisou que devemos ficar aqui embaixo e nos 
proteger. Disse que o navio vai balanar muito. Venha, traga 
a menina para este canto. Aqui estar mais protegida.
Antes que ela dissesse alguma coisa, ele pegou a menina no 
colo e ajudou-a a se levantar. Lola, assustada com a atitude 
dele, carregou consigo a esteira onde dormia e a mala com as 
poucas roupas que tinha. Estendeu a esteira no cho e 
sentou-se. Rafael entregou-lhe a menina e sentou-se ao seu 
lado.
Aos poucos, as pessoas foram descendo e se acomodando. 
Carmem, sentada do outro lado, na companhia dos pais e 
dos dois irmos, seguia todos os movimentos de Rafael e 
sorria.
Ele est mesmo apaixonado...
Mesmo antes que todas as pessoas se acomodassem, a 
tempestade chegou. O navio comeou a balanar de um lado 
para outro. Raios cortavam o cu e troves soavam. Todos 
estavam assustados. Os ltimos a chegar, como os outros, 
foram para seus quartos improvisados e protegeram-se da 
melhor maneira possvel. No convs, o cho era feito de 
madeira e, por suas frestas, goteiras se formaram, a gua 
entrava e molhava a todos. Lola procurava proteger Maria da 
melhor maneira que conseguia. Rafael, percebendo sua 
dificuldade, pegou a menina em seu colo e abraou Lola que, 
tremendo de frio e de medo, aconchegou-se a ele.
O navio balanava de uma forma violenta para cima e para 
baixo e de um lado para outro. Pessoas eram arremessadas 
umas sobre as outras. Ouviam-se gritos desesperados e 
chamados por Deus e todos os santos. Lola, assustada, gritou:
 Rafael! Este navio vai virar e vamos morrer afogados! 
 No, isso no vai acontecer, Lola. A tempestade vai 
passar logo e o mar voltar a ficar calmo. Tente ficar calma e 
abraada a mim. Juntos, protegeremos a menina.
Enquanto dizia isso, ele abraava com mais fora as duas que 
tambm se abraavam a ele. Maria, como que por uma 
proteo desconhecida era a nica criana que no chorava. 
Sentia-se segura nos braos fortes de Rafael.
Lola, diferentemente da filha, chorava e rezava:
Meu Deus, no permita que nada de mal nos acontea. 
Todos os que vieram nesta viagem s esto fazendo isso por 
no encontrarem outro caminho, por desejarem seguir um 
sonho. O Senhor sabe o quanto sofri, mereo uma 
oportunidade. Proteja-nos, meu Deus.
Fazia mais de vinte minutos que a tempestade castigava a 
todos. Porm para eles, pareciam horas. Como se aquela 
prece fosse ouvida, a tempestade, aos poucos, foi passando, 
porm o navio continuou balanando. Algumas pessoas 
passavam mal. Quase duas horas depois, o navio voltou a sua 
velocidade normal e eles puderam se levantar e ajudar-se 
mutuamente.
Lola tambm se levantou. Estava toda molhada. Maria, no 
tanto, pois tanto ela como Rafael a haviam protegido com o 
corpo.
O casco estava todo molhado. Poas de gua se formaram. 
Por todo lado, ratos e baratas, tambm assustados, corriam 
desesperados. Todos procuravam se proteger deles. Os 
homens os afastavam com os ps e as mos. As mulheres, 
alm de procurar proteo, tambm gritavam, desesperadas, 
ao simples contato deles. Pessoas e malas boiavam. As 
roupas, assim como eles, estavam todas molhadas. No 
tinham como se trocar. Alguns marinheiros foram at os 
quartos e, parados nas portas disseram:
 Agora que a tempestade passou e o sol voltou a brilhar  
preciso que todos subam para o convs e coloquem as 
roupas para secar.
Foi o que fizeram. Aos poucos, foram subindo e se 
acomodando da melhor maneira possvel sobre o casco 
ainda molhado. Sabiam que logo estaria seco, pois o sol 
brilhava forte, como que se aquela tempestade no houvesse 
acontecido. Lola tirou de sua mala a pouca roupa que tinha, 
sua e de Maria, e a foi estendendo  sua volta. Lembrou-se 
do passaporte que estava em seu bolso, com a sua fotografia 
e a de Maria que estava em seu bolso. Para sua tranqilidade, 
embora estivesse mido, no havia se molhado nem 
estragado. Com cuidado, colocou-o ao seu lado para que 
secasse totalmente.
 Rafael, ainda bem que o meu passaporte no molhou. 
Sabe que na hora da tempestade nem me lembrei dele... J 
pensou o que eu faria quando chegasse ao porto e no 
tivesse um passaporte para apresentar? O que ia acontecer?
Ele, que tirava do bolso interno do palet o seu passaporte, 
sorrindo, disse:
 O meu passaporte tambm est seco, mas, mesmo que 
no estivesse no teria importncia. As autoridades 
encontrariam uma soluo de como fazer com aqueles que 
perderam seus documentos. Depois de chegar, de uma 
maneira ou de outra, teremos de entrar no pas. Deixe de se 
preocupar. O importante  que consigamos chegar e 
recomear a vida. Eu, voc e a Maria. Vamos ser uma famlia 
feliz, Lola, pode ter certeza disso. No que depender de mim, 
vou fazer de tudo para que isso acontea.
Ela estranhou, pois no haviam conversado sobre isso, mas 
sorriu ao ouvir aquelas palavras. Era o que mais ansiava; 
poder ser feliz.
Maria recusava-se a sair do colo de Rafael que a abraava 
com carinho. Ao ver aquilo, Lola disse:
 Parece que ela gosta mesmo de voc...
 Isso no me surpreende, pois tambm gosto muito dela. 
Quando crescer, vai ser uma linda mulher.  inteligente 
tambm. No viu como se comportou durante a tempestade? 
Embora assustada, no chorou.  uma lutadora e pessoas 
lutadoras conseguem tudo o que querem na vida. Ela vai ser 
feliz, Lola, pode ter certeza disso.
Lola sorriu.
Daquele dia em diante, Rafael ficou ao lado das duas. Estava 
apaixonado e esperando chegarem ao Brasil para poder pedi-
la em casamento. Lola tambm, embora no quisesse e um 
dia houvesse jurado que nunca mais teria outro homem e 
que s se dedicaria  filha, ao ver como ele era carinhoso 
com ela e com Maria, tambm estava se apaixonando por 
ele.
Isso no pode estar acontecendo... No quero outro homem 
em minha vida... Quero viver somente para minha filha...
Ela pensava isso, mas sentia que aquele amor no poderia ser 
evitado.
Algumas pessoas que passaram mal durante a tempestade 
foram colocadas deitadas e ajudadas por aqueles que estavam 
bem. Lola ajudava da melhor maneira que conseguia.
O navio continuava deslizando sobre o mar calmo. Dias aps 
a tempestade, algumas pessoas comearam a ter febre, o que 
assustou o comandante que disse:
 Elas precisam ser isoladas, o que menos quero que 
acontea  uma epidemia que, se for aquela dos ratos, vai ser 
uma desgraa.
Todos se assustaram com aquelas palavras, mas afastaram os 
doentes e aqueles que estavam bem cuidavam deles. 
Enquanto Rafael ficava com Maria, Lola cuidava dos 
enfermos.
Carmem tambm ajudava os doentes, principalmente sua 
me, que era a pior de todos. Ela temia que sua me no 
resistisse. Quando disse isso, Lola falou:
 Ela  forte, Carmem, vai se recuperar e logo estar bem.
Falava isso, mas sentia que os temores de Carmem tinham 
fundamento, pois sua me estava realmente muito mal. A 
febre era tanta que ela j no reconhecia ningum.
Muitas pessoas adoeceram. A me de Carmem, como o 
previsto, realmente no resistiu e, dois dias depois, morreu. 
O desespero foi geral, principalmente do comandante, pois 
j havia visto aquilo acontecer e temia pelo pior. Para evitar 
que a doena se propagasse, o corpo da me de Carmem foi 
enrolado em um lenol branco e jogado ao mar. O 
sofrimento de Carmem e de sua famlia era insuportvel. Ela 
chorava:
 Eu fui  culpada da sua morte...
 Por que est dizendo isso, Carmem?
 Ela no queria vir, Lola. Dizia j estar velha para 
enfrentar uma viagem como esta, mas eu insisti. Quando 
Rafael me falou do futuro que poderamos ter na nova terra, 
me entusiasmei e quis fazer essa viagem. Estvamos sem um 
lugar para morar. Nossas terras haviam sido vendidas por um 
pouco mais do que o valor dos impostos. O que sobrou foi 
muito pouco. Sem uma terra para trabalhar e uma casa para 
morar, no conseguiramos sobreviver por muito tempo. Se 
no tivesse insistido, ela estaria viva...
 Voc no tem culpa, Carmem. Isso teria acontecido aqui 
ou l. Chegou a sua hora,  a vontade de Deus, precisamos 
aceitar...
 Deus, Lola? Que Deus? Esse mesmo que nos deixou 
passar fome em nossa terra e nos obrigou a sair dela? Esse 
Deus que mandou aquela tempestade? Depois dela, a 
umidade e o mofo fizeram com que as pessoas ficassem 
doentes. Esse mesmo Deus que no permitiu que eu 
enterrasse minha me e que ela fosse deixada sozinha no 
fundo do mar? No acredito em Deus, no acredito mesmo! 
Ele nunca existiu,  pura inveno dos poderosos para 
manterem os pobres sob seu domnio!
 Pode ser que tenha razo e que Ele realmente no exista, 
Carmem, mas prefiro continuar tendo f, pois ela  a nica 
coisa que nos resta.
 Voc pode continuar tendo f, mas eu no tenho mais! 
Estou farta desta vida de pobreza e sofrimento! Por que 
alguns tm tantos e outros nada? No posso aceitar!
 No sei essa resposta, s sei que deve existir algo alm da 
morte. No sei se  Deus ou outra coisa qualquer, mas deve 
existir...
 Pois continue pensando assim! Enquanto isso vai 
continuar vendo os mortos serem jogados ao mar. Quantos 
sobrevivero?
 Ainda tenho f. Sei que, ao chegarmos, nossa vida 
mudar e teremos novas oportunidades de trabalho e 
felicidade...
Carmem estava revoltada e no conseguia mais ouvir aquela 
conversa. Afastou-se e foi para junto de Rafael que 
brincava com Maria. Assim que ela se aproximou, ele 
perguntou:
 Como voc est Carmem?
 Pode imaginar. No entendo por que isso tinha de 
acontecer, por que minha me tinha de morrer e ser jogada 
ao mar sem ter o direito a uma sepultura, Rafael? No 
consigo me conformar.
 Entendo que seja difcil, mas a vida  mesmo assim. Em 
um dia qualquer, todos vamos morrer, Carmem. A hora de 
sua me chegou e ela no ia querer que voc ficasse assim. 
Com certeza, queria que continuasse a sua vida. Uma vida 
melhor se aproxima.
No Brasil, teremos chances de felicidade, o que no 
acontecia mais na Espanha.
 Ser que isso  verdade? Ser que realmente teremos essa 
chance? 
 Claro que sim, Carmem! O Luiz me escreveu, disse que 
conseguiu terras e que est ganhando muito dinheiro!
 Espero que esteja certo, mas tenho minhas dvidas. Os 
fazendeiros at pouco tempo, tinham escravos, no 
precisavam pagar para terem suas terras plantadas. Ser que 
se conformar em ter de nos pagar?
 Justamente por no terem mais escravos,  que precisam 
da nossa mo-de-obra e, portanto, sabem que precisam 
pagar. No se preocupe mais, Carmem, tudo vai ficar bem.
 Espero que tenha razo, mas s terei certeza depois que 
chegarmos l.
 Eu, ao contrrio, no tenho dvida alguma. Sei que tudo 
vai dar certo e que um dia voltaremos vitoriosos para a 
Espanha e poderemos viver tranqilos no nosso pas.
 Voc est bem com a Lola, est gostando mesmo dela, 
no ?
 Estou sim. Ela, alm de ser uma linda mulher, tambm  
forte e corajosa. Acredito que ser uma tima companheira.
 Desejo a vocs dois toda a felicidade do mundo. Sabe o 
quanto gosto de voc e como quero que seja feliz.
 Sei, sim, Carmem, e posso lhe garantir que  o mesmo 
que desejo a voc. Voc  uma boa moa e muito bonita, 
merece toda a felicidade do mundo. Tenho certeza de que 
vai conseguir. Talvez esteja fazendo esta viagem somente 
para encontrar o amor de sua vida assim como aconteceu 
comigo e, quando isso acontecer, ser muito feliz. 
 No penso nisso, s estou pensando em como ser a 
nossa vida no Brasil. J conversou com Lola a respeito do 
seu amor? 
 Ainda no. Estou esperando o momento certo. 
 J descobriu por que ela est viajando sozinha? Ela me 
disse que o marido morreu, mas no sei como, no acreditei 
muito. Quando me disse isso, me pareceu um pouco 
distante, como se relembrasse alguma coisa que aconteceu e 
que a deixou muito triste.
 Tambm percebi isso, mas no me importa o que 
aconteceu antes, s me importa o futuro e este, quero passar 
ao lado dela e da Maria.  uma menina linda, no ?
 Sim,  linda mesmo e muito inteligente.
 E forte tambm! Voc no viu, mas durante a 
tempestade, foi  nica criana que no chorou. Abraou-se 
a mim e ficou quietinha.
 Em seus braos fortes, ela sentiu-se segura. Lola tambm 
estava protegida por voc. Ficou o tempo todo, abraada a 
voc. Apesar de todo aquele desespero, pude notar. Acho 
que ela tambm est gostando de voc, Rafael.
 Ser, Carmem?
 Tenho certeza. Pode conversar com ela e falar do seu 
amor. Tenho certeza de que  o que ela est esperando. 
 No sei se  a hora. No ser melhor esperar at 
chegarmos ao Brasil?
 No espere. Fale durante a viagem, assim, quando 
chegarem, podero se apresentar como casados. Muitas 
pessoas perderam os documentos, basta dizer que perderam 
os seus e tudo ficar bem. Ela e Maria tero o seu nome. 
Ouvi dizer que, para casados, as casas oferecidas so 
melhores. Vocs podero unir o til ao agradvel.
 Tem razo, hoje mesmo vou conversar com ela. 
 Faa isso. Voc merece ser feliz.
 Voc tambm, Carmem, sei que ainda vai encontrar o 
amor da sua vida.
 Tomara... Acho difcil, mas tomara...
 Precisa acreditar. Assim como o sol voltou a brilhar aps 
a tempestade, tambm a nossa vida vai mudar quando 
chegarmos no Brasil. Voc vai ver como tudo vai dar certo. 
Vamos ter a nossa terra, plantar e colher. Pelo contrato, 
precisamos trabalhar at a primeira colheita, depois, se 
quisermos, poderemos ir embora. Sabe que trabalho com 
ferro e que no sou bom agricultor, s tive de mentir que 
era para poder receber a passagem. Por isso, assim que 
terminar o contrato vou tentar abrir o meu prprio negcio 
com ferro e fazer belos portes e portas, Carmem. Eu e a 
Lola vamos nos casar, voc, bonita como , vai encontrar 
algum que a ame e que a faa feliz.
 No entendo como, depois de tudo o que passamos, pode 
ainda ter tanta esperana, Rafael.
 Precisamos ter esperana, Carmem. Ela  a nica coisa 
que nos resta. Vamos recomear a vida em um pas grande e 
bonito. Dizem que seu povo  amigo e acolhedor. No 
podemos desanimar. No agora que estamos quase chegando 
e to perto de encontrarmos a nossa felicidade.
Ao ver tanta esperana nos olhos dele, ela, por um tempo, 
no conseguiu emitir um som, apenas sorriu. Depois disse:
 Espero que esteja certo Rafael. Tem razo, merecemos ter 
essa felicidade sonhada por voc.

Contando a histria

Os dias foram passando. As pessoas continuaram a ficar 
doentes, algumas morreram e, como aconteceu com a me 
de Carmem, tambm, sem ter outra soluo, foram jogadas 
ao mar.
Em uma tarde, aps passar o dia inteiro cuidando dos 
doentes, Lola, cansada, estava sentada no convs olhando 
para o cu que tinha poucas nuvens, mas brilhante pela luz 
forte do sol. Rafael se aproximou:
 Como voc est Lola? Deve estar muito cansada.
 Estou cansada sim, mas bem. Estou mais tranqila, pois 
parece que a febre est passando. J h alguns dias, ningum 
fica com ela. Acho que o perigo passou. Tomara, porque  
muito triste ver as pessoas ficarem doentes e no ter como 
ajud-las.
 Ainda bem que ningum est ficando doente, Lola. 
Muitos morreram e j foi o suficiente. Chega de tanta dor.
 O que mais me deixa triste e desesperada  a impotncia 
diante da morte, nada podemos fazer para evit-la, isso me 
traz muita dor. Portanto, cuidar dos doentes  a nica coisa 
que podemos fazer, no ?
 Sim, diante de tanto sofrimento, somente o que podemos 
fazer  cuidar bem delas, Lola.
 Tem razo, Rafael, e o que mais me di  saber que essas 
pessoas no conseguiram realizar o desejo de ir para uma 
terra boa, onde acreditavam, assim como ns, que teriam 
toda a felicidade do mundo. Isso no  justo!
  verdade, Lola, mas o que podemos fazer. A vida  
mesmo assim.
 Sim, a vida  mesmo assim, mas, s vezes, sinto que algo 
est errado.
 O qu, Lola?
 No entendo por que algumas pessoas tm a vida to 
diferente das outras. Algumas so ricas, bonitas e conseguem 
tudo o que desejam, outras, nada tm e, por mais que lutem, 
nunca conseguem realizar um sonho qualquer. Por que isso 
acontece, Rafael?
 Tambm, algumas vezes, j pensei sobre isso, mas no 
encontrei resposta. No final, s posso dizer que Deus  
quem sabe das coisas, a ns, s resta esperar e procurar viver 
da melhor maneira possvel.
 Sim, Rafael, s Ele  quem sabe das coisas. Como voc 
disse, vamos entregar nossa vida nas mos Dele.
 Tem razo,  a nica coisa que podemos fazer.
Rafael olhou para Maria que brincava com uma boneca de 
tecido feita por Lola. Comentou:
 Maria est muito bem, no , Lola? Ela, na sua inocncia, 
no percebe o que est acontecendo.
 Graas a Deus que ela no percebe o que est 
acontecendo, agradeo tambm por no ter tido a febre. 
Agora, acho que o perigo passou. No sei como agradecer a 
voc e a Carmem por terem cuidado dela todo esse tempo e 
tentarem deix-la afastada o mximo possvel dos doentes.
 No foi trabalho algum. Gostamos muito dela e s 
cuidamos porque voc estava cuidando dos doentes. Era o 
mnimo que poderamos fazer.
 Apesar de eu ter cuidado deles, no adiantou muito, pois 
todos que ficaram doentes morreram.
 Adiantou, sim, Lola! Mesmo que tenham morrido, voc 
estava ao lado deles, dando-lhes conforto e carinho.
 Tentei fazer o melhor, mas gostaria de poder ter ajudado 
mais.
 Voc ajudou Lola. Eles, tendo voc ao seu lado, 
morreram em paz.
 Infelizmente, nada mais pude fazer...
Ele fixou um tempo com os olhos perdidos no espao, 
depois, disse:
 No sei se  hora, mas preciso lhe dizer uma coisa, Lola.
 O qu, Rafael? Pode dizer.
 Desde o primeiro dia em que a vi, me apaixonei. Estive 
esperando este tempo todo para me declarar. Agora que 
tudo est passando e estamos quase chegando ao nosso 
destino, acho que chegou a hora de eu lhe fazer uma 
pergunta.
 Que pergunta?
 Quer se casar comigo?
Lola levou um susto. Tambm estava apaixonada por ele, 
mas no pensou que ele se declararia daquela maneira. 
Emocionada, respondeu:
 No sei o que dizer. Tambm gostei de voc, mas jurei 
que nunca mais deixaria me envolver por homem algum. 
Pretendo viver somente para Maria.
 Voc  muito jovem para tomar uma deciso como essa. 
No sei o que aconteceu em sua vida e no me interessa. 
Gosto de voc e quero que seja minha mulher. Desejo viver 
ao seu lado e ajud-la a cuidar de Maria. Se aceitar o meu 
pedido, vou fazer tudo para sermos felizes.
 No sei... no sei... j sofri tanto...
 Isso foi no passado. Daqui para frente, vai ser diferente. 
Sei que na realidade, no sabemos o que nos espera no 
futuro, mas, seja o que for quero estar ao seu lado. Sei que, 
juntos, seremos felizes e conseguiremos ultrapassar qualquer 
dificuldade. Aceite o meu pedido, Lola... garanto que no se 
arrepender.
 Embora no quisesse, assim que o vi, tambm gostei de 
voc, mas, mesmo assim, estou com medo...
 No sei o que fizeram com voc, mas o que passou, 
passou, daqui para frente, uma nova vida surge para ns. 
Vamos pedir ao comandante que nos case. Ele pode fazer 
isso. Assim, quando chegarmos, poderemos nos apresentar 
como marido e mulher. 
Ela pensou por algum tempo. Depois disse:
 Est bem. Aceito seu pedido, mas  preciso que lhe conte 
o que aconteceu em minha vida, o porqu de eu estar 
viajando sozinha, somente com minha filha.
 Para mim, no far a menor diferena. No me interessa. 
O que passou, passou e s me interessa daqui para frente. 
Porm, se quiser, se achar necessrio, conte. Ouvirei com 
ateno.
 Preciso contar. Se vamos ficar juntos, no quero que haja 
segredo algum. Precisamos sempre ser sinceros um com o 
outro.
 Est bem. Embora saiba que no far diferena alguma, 
ouvirei o que quer dizer.
Lola contou at o momento em que Manolo estava se 
preparando para partir. Continuou:
 Estvamos felizes. Eu me sentia a mulher mais feliz deste 
mundo. Faltavam dez dias para ele partir, quando descobri 
que estava grvida. Aquilo me tomou de surpresa, pois, 
durante todo o tempo em que nos encontramos, nunca 
havia pensado nem passado pela minha cabea que eu 
poderia ficar grvida. Assustada, disse para Manolo:
 Estou grvida.
 Como? Grvida?!
 Sim, acabei de saber. No sei o que vamos fazer.
 No se preocupe com isso. Vou conversar com meus 
pais, nos casaremos e tudo ficar bem. Sei que eles ficaro 
felizes em saber que sero avs e, juntos, criaremos a nossa 
criana.
 Ser que eles entendero e me aceitaro? Sabe que no 
sou a mulher com quem eles sonharam para voc...
 Isso no importa. Eu vou escolher a mulher com quem 
quero ficar. Embora, hoje em dia, isso seja normal, no vou 
permitir que meus pais interfiram na minha vida. Eles sabem 
disso. Meu pai quer que eu me case com a filha de um rico 
fazendeiro, mas j lhe disse que no farei isso, pois ela no  
a mulher com quem quero me casar. Desde que a conheci, 
soube que era com voc que eu queria ficar, Lola.
 Tomara que eles entendam e me aceitem...
 Eles, a princpio, ficaro bravos, mas com o tempo tero 
de aceitar. Sei que, embora, para ns, parea que estejam 
errados, para eles no. Voc sabe que sempre foi assim, os 
pais que escolhem com quem os filhos se casam, mas, com 
os meus, ser diferente. Eles me amam e assim que tiverem 
a certeza de que nos amamos de verdade e de que o nosso 
casamento ser o melhor que poderia me acontecer, 
aceitaro e seremos felizes para sempre.
 Eu ouvi aquilo e fiquei tranqila. Sabia que Manolo me 
amava e que aquele amor enfrentaria qualquer dificuldade, 
mas...
 Mas o qu, Lola? O que aconteceu? Ele no cumpriu o 
prometido?
 Cumpriu! Manolo me pegou pela mo e fomos conversar 
com seus pais. Assim que entramos, os encontramos 
sentados em poltronas na sala de estar. Ainda segurando 
minha mo, Manolo me puxou e nos aproximamos. Seus 
pais acompanharam nossos movimentos com os olhos. Dom 
Antnio, nervoso, levantou-se e perguntou, gritando:
 Que significa isto, Manolo?
 Precisamos conversar com o senhor e com a mame, 
papai.
 Precisamos? O que est fazendo com essa moa e 
segurando-a pela mo?
  justamente por isso que estamos aqui. Eu quero me 
casar com a Lola e vim pedir a sua bno.
 Casar! O que est dizendo? Casar com uma servial, meu 
filho? Nunca, nunca!
 Sei que o senhor agora no est entendendo nem 
aceitando, mas sei tambm que, com o tempo, entender e 
aceitar Lola e o nosso filho que vai nascer. Sei que vamos 
ser felizes e que  isso o que o senhor quer, a minha 
felicidade.
 Dona Maria das Graas que at agora permanecia sentada, 
levantou-se rapidamente e tambm perguntou:
 Um filho? Est dizendo que ela est esperando um filho 
seu?
 Exatamente isso, mame. Ela est esperando um filho e 
eu estou muito feliz. Por isso, quero me casar com ela e dar 
um nome para essa criana.
 O pai dele ficou furioso e gritou:
 Meu nome? Acha que vou dar meu nome para uma 
criana qualquer que nem tenho certeza de que seja meu 
neto mesmo? Voc sabe ou imagina o que o nosso nome 
significa, Manolo? Voc sabe o quanto ele  respeitado?
 Sei que para o senhor isso tem muito valor, papai, mas 
para mim  simplesmente um nome, nada, alm disso.
 No, no  s isso, no senhor! Nosso nome  o mais 
respeitado neste lugar e em muitos outros! Como posso 
chegar aos meus amigos e dizer que meu filho se casou com 
uma camponesa sem ter onde cair morta? Voc louco 
mesmo, Manolo!
 No me importa o que as pessoas possam pensar ou dizer, 
papai! Amo Lola e quero me casar e ser feliz ao lado dela e 
do nosso filho!
 Manolo disse isso segurando forte a minha mo, que 
tremia muito. Seu pai olhou para mim e gritou com fria:
 Voc foi muito inteligente, menina, conseguiu envolver 
o meu filho e ele ingnuo como , se deixou levar por seus 
encantos. Ele  ingnuo, mas eu no. No vou permitir que 
ele cometa essa loucura! Quanto quer para deix-lo livre? 
Posso lhe dar dinheiro suficiente para ir embora desta cidade 
e ter uma boa vida onde quiser, voc e essa sua cria! Quanto 
quer? Pode pedir o valor que quiser! Eu pago!
 Ao ouvir aquilo, embora tentasse segurar, no consegui e 
lgrimas comearam a cair por meu rosto. Antes que 
Manolo ou eu dissesse alguma coisa, dona Maria das Graas, 
calma, disse:
 Espere a, Antnio, voc est nervoso e se esquecendo 
do principal, da felicidade do nosso filho e dessa criana que 
est vindo e que no tem culpa alguma. Essa criana  nossa 
neta, Antnio... No podemos abandon-la...
 Nossa neta? Como pode dizer isso, Graa? No sabe com 
quantos homens essa a se deitou!
 Manolo se ofendeu e correu em minha defesa:
 No admito que o senhor diga isso a respeito da mulher 
com quem vou me casar, com a sua aprovao ou no.
 Dona Maria das Graas, desesperada, voltou a intervir:
 Espere meu filho, tenha calma, pois se essa conversa 
continuar assim, no poder dar bom resultado. Vamos nos 
acalmar e encontrar uma soluo que faa a todos felizes...
 Cale a boca, mulher! Quem lhe autorizou a se intrometer 
em uma conversa como essa? Voc no tem que dar palpite 
algum, tem apenas que ouvir e aceitar a minha deciso! 
Quem manda nesta casa sou eu, mais ningum, entendeu? 
V para a cozinha junto s empregadas, l  o seu lugar! Esse 
assunto  meu!
 Para meu desespero, vi que dona Maria das Graas, 
chorando, abaixou a cabea e saiu da sala. Manolo, alterado 
disse:
 O senhor pode mandar nesta casa, na mame, nos seus 
empregados, mas no na minha vida! Quem manda nela sou 
eu e vou me casar com Lola, queira o senhor ou no!
 Vai se casar? Pois faa isso e no ter um tosto meu! 
Hoje mesmo vou ao tabelio e mandarei que tire o seu nome 
do meu testamento! Viva com aquilo que ganhar com o seu 
trabalho! Com aquilo que sabe fazer! Que  nada! Durante 
toda sua vida, viveu do meu dinheiro, s estudando! Agora, 
chega! Saia da minha casa e s volte quando pensar bem e 
entender que est estragando sua vida por uma mulher que 
no vale nada e que por qualquer tosto se entregaria a voc 
ou a outro qualquer!
 Manolo, ainda segurando minha mo, ficou calado e me 
arrastou dali. Eu, chorando, o acompanhei.
 Se ele saiu com voc dali, por que est fazendo esta 
viagem sozinha, apenas com sua filha?
Lola ia responder, mas Carmem se aproximou e, assustada, 
disse:
 Lola, Rafael, meu pai est com a febre, ser que ele 
tambm vai morrer?
Imediatamente, os dois se levantaram e foram para junto do 
pai de Carmem, que realmente tremia muito e delirava.
Lola olhou para Rafael e ele entendeu aquele olhar, no 
havia o que fazer. Eles sabiam que o velho senhor, assim 
como havia acontecido com os outros, tambm morreria. 
Carmem tambm sabia disso e, desesperada, comeou a 
chorar:
 Ele no pode morrer, Lola. Minha me j foi jogada ao 
mar e agora, se acontecer o mesmo com ele, s restaro 
meus irmos e eu. O que vamos fazer? Nunca tomamos 
deciso alguma sem eles, foi papai quem sempre decidiu a 
nossa vida...
 Fique calma, Carmem. Seu pai  forte, pode ser que ele 
consiga sobreviver, alguns esto conseguindo.
 Sim, mas todos so jovens e fortes, ele j est velho, sei 
que vai morrer. Alm disso, quem garante que aqueles que 
esto resistindo continuaro assim at chegarmos ao porto?
 Tem razo, no h garantia alguma, mas vamos rezar para 
que eles consigam e seu pai tambm. Precisamos cuidar dele 
da maneira que pudermos e esperar que se recupere.
 Lola est certa, Carmem. No adianta se desesperar. 
Vamos cuidar dele e esperar a vontade de Deus...
 Que Deus, Rafael? O mesmo Deus que fez com que todos 
chegassem a um extremo de pobreza que nos obrigou a 
abandonar as nossas casas e terras? O mesmo Deus que 
permitiu que tantas pessoas j to sofridas pegassem essa 
maldita febre, morressem e fossem jogadas ao mar como 
animais, sem ter um tmulo onde as pessoas que as amam 
possam rezar e chorar ou simplesmente acender uma vela? 
No posso acreditar nesse Deus! Ele nunca me deu nada, 
apenas tirou tudo. Alis, o pouco que eu tinha! No posso 
rezar, s posso amaldioar esse Deus!
 Voc est nervosa, Carmem, e no sabe o que est 
dizendo. Fique com Maria, eu cuido do seu pai. Voc no 
est em condies. Sabe que farei tudo o que puder e que 
estiver ao meu alcance.
  isso mesmo, Carmem. Voc est nervosa, tente se 
acalmar. Embora no seja o ideal,  a nica coisa que 
podemos fazer. Fique com Maria. Eu e a Lola cuidaremos do 
seu pai.
Carmem, chorando, pegou Maria dos braos de Lola e se 
afastou.
Lola e Rafael foram at onde o pai de Carmem estava. Ela, 
olhando primeiro para o senhor, depois para Rafael, abaixou-
se, colocou a mo na testa do velho senhor. Levantou-se, 
molhou um pano branco com gua e colocou sobre a testa 
dele. Fechou os olhos e comeou a rezar.
Rafael tambm se abaixou, perguntando:
 O que voc acha Lola, ele est mal? Ela respondeu 
baixinho:
 Est sim, Rafael, acho que no vai resistir...
 Isso  terrvel. Carmem j est revoltada o suficiente. No 
sei o que vai fazer.
 Tambm sinto isso, mas, se pensarmos bem, ela tem 
razo. J sofremos tanto, fomos obrigados a abandonar 
nossas casas, terras e at o pas e agora toda essa dor e 
tristeza. Tantos sonhos desfeitos...
 Infelizmente, o que est dizendo  a verdade, Lola, mas 
nada h o que se fazer. Sei que vai cuidar dele o melhor 
possvel.
 Com certeza, eu vou cuidar. Agora, v at onde a 
Carmem est e converse com ela. Est precisando de uma 
palavra amiga. Embora eu s a tenha conhecido agora, me 
considero sua amiga e, depois que tudo isto terminar, vou 
ficar ao seu lado. Ainda bem que estamos indo para a mesma 
fazenda. Vamos estar sempre juntos, no ?
 Claro que sim. Os irmos dela so ainda muito jovens, 
no saberiam viver sem o pai para encaminh-los.
  verdade... Mas ns lhes daremos toda a assistncia de 
que precisarem. Agora, v at l.
Rafael se levantou e foi para junto de Carmem, que olhava 
Maria brincar com as outras crianas.
 Ele no est bem, Carmem, precisa se preparar.
 Como me preparar, Rafael? Quando meu pai decidiu fazer 
esta viagem, foi pensando no nosso bem. Ele sempre dirigiu 
a nossa vida. Como vamos fazer para viver sem ele? Nem eu 
nem meus irmos temos experincia alguma da vida e do 
trabalho. Por que est acontecendo isso com a gente, 
Rafael? O que fizemos para merecer tanto sofrimento?
 No sei responder, Carmem. S sei dizer que todas as 
pessoas que conhecemos esto na mesma situao. s vezes 
chego a pensar igual a voc, parece que Deus se esqueceu de 
todos ns.
 Ele no existe, Rafael!
 Est bem, mas, agora, fique calma, estaremos sempre ao 
seu lado e ao de seus irmos. Estamos indo para a mesma 
fazenda, eu vou orientar seus irmos para o trabalho. No 
final, tudo vai passar e a vida vai continuar.
Carmem secou o rosto com as mos e disse:
 Obrigada, Rafael. Sei que sempre estaro ao meu lado. S 
posso agradecer por voc ter vindo junto conosco nesta 
viagem e eu ter conhecido Lola. Ela  uma boa amiga.
  sim e pode ter certeza de que ela vai fazer tudo o que 
puder para ajudar o seu pai.
Carmem ia dizer alguma coisa, mas Maria se aproximou 
correndo E se abraou a ela que, abraando a menina, 
recomeou a chorar.
Rafael, percebendo que Carmem se distrairia com a menina, 
se afastou e foi para junto de Lola, que continuava ao lado do 
pai de Carmem.
 Como ele est Lola?
 Nada bem. Acho que ele no vai passar desta noite. 
Precisamos estar preparados para ficar ao lado de Carmem e 
de seus irmos. Ainda bem que, segundo o comandante, 
faltam menos de quinze dias para chegarmos. Isso  bom, 
pois se algum mais ficar doente, em terra vai ser mais fcil 
receber atendimento.
 Vamos esperar que os dias que faltam passem depressa, 
Lola... 
Durante o resto daquele dia e toda a noite, Lola e Rafael 
ficaram ao lado do velho senhor. Carmem, que no 
suportava ver o pai naquelas condies, ficou ao lado dos 
irmos, cuidando de Maria, que, inocente queria brincar.
No eram ainda seis horas da manh, quando o senhor deu o 
ltimo suspiro. Lola, chorando pela impotncia diante da 
morte e pela falta de atendimento mdico que tanto ele 
como todos os outros tiveram, comeou a chorar.
Rafael se afastou e foi avisar a Carmem, seus irmos e ao 
comandante do navio que, nervoso, disse:
 Se eu soubesse que aceitando vocs no meu navio isso 
poderia acontecer, jamais teria aceitado a proposta! No final, 
o dinheiro que vou receber no vai valer  pena. Meu navio 
est contaminado, nem sei vou o quanto vou gastar para que 
ele possa navegar novamente.
 Desculpe senhor, mas essa doena chegou ao navio, 
devido  falta de condies e de higiene. O senhor deveria, 
ao invs de ficar preocupado s com o dinheiro que ia 
receber, se preocupar em dar uma melhor condio para 
aqueles que iam fazer essa viagem.  
Ao ouvir aquilo, o comandante ficou furioso e gritou: 
 O senhor sabe que eu sou o comandante, portanto sou a 
lei neste navio e no aceito que venha me criticar! Pelo 
dinheiro que me pagaram, no poderia oferecer nada 
melhor! Agora, vamos fazer o que tem de ser feito.
 Rafael, ao mesmo tempo em que ficou nervoso com o que 
ele disse, entendeu sua situao. Afinal, aquele era o seu 
meio de ganhar dinheiro para sustentar sua famlia e, no 
final, ele tambm era uma vtima como eles.
Carmem e os irmos, embora chorassem, sabiam que nada 
poderia ser feito.
A mesma cerimnia que ocorrera tantas vezes voltou a 
acontecer. O corpo do senhor, aps uma breve orao, foi 
jogado ao mar.
Carmem, durante todo o tempo, ficou calada e no permitiu 
que lgrima alguma casse de seus olhos.
Lola, cansada por todo o tempo em que ficou ao lado do 
doente, durante a cerimnia, chorando, pensou:
Por que, meu Deus? Por que tudo isso est acontecendo? 
Por que tanto sofrimento? Somos pessoas simples, nunca 
fizemos mal algum a ningum... No merecemos tanto 
sofrimento...
Aps a cerimnia, todos os que a acompanharam voltaram 
aos seus lugares. Estavam em silncio, no tinham o que 
falar. De todas as pessoas que embarcaram cheios de 
esperana, mais da metade havia morrido e o restante estava 
apavorado, com medo de tambm ser acometido por aquela 
febre, j que havia pouca chance de sobrevivncia.

Incompreenso

Lola, cansada por ter passado a noite toda em claro, 
recostou-se na rede, sem perceber, adormeceu. Rafael, ao 
v-la dormindo, sorriu e deitou-se ao seu lado, abraou-a e 
adormeceu tambm.
Carmem, que estava brincando com Maria no convs, 
desceu para falar com Lola. Ao v-la dormindo abraada a 
Rafael, voltou para o convs e continuou brincando com a 
menina. 
Depois de algum tempo, Lola acordou. Ao ver Rafael ao seu 
lado, sorriu e pensou:
Ele  um bom homem. Sinto que, ao seu lado, vou, 
finalmente, ser feliz. Ele gosta da Maria e ela dele. Pensar 
que tudo poderia ter sido diferente. Que hoje eu poderia 
estar ao lado de Manolo... Sei que seramos felizes... Ele bem 
que tentou, mas no conseguiu. Quando me lembro daquele 
dia, meu corpo todo treme. Quando samos da casa de seu 
pai, ele, tranqilo, disse:
 Lola, no importa o que meu pai diga, vou ficar com voc 
e com nossa criana que est chegando.
 No acho certo voc brigar com seu pai por minha causa. 
Em parte ele tem razo. Sou apenas a filha de um agricultor 
e voc tem um bom sangue e um nome respeitvel que no 
pode ser dado a qualquer uma...
 Como pode dizer isso? Voc no  qualquer uma,  a 
mulher que amo e com quem quero passar o resto da minha 
vida! Esse negcio de sangue, de nome,  tudo bobagem, 
porque, no final, tanto o sangue do meu pai como o do seu, 
tanto o meu nome quanto o seu, vo para o mesmo lugar, 
todos morrem e o nome, com o tempo, desaparece tambm, 
Lola! Acredito que estamos nesta terra para sermos felizes e 
sei que s serei feliz ao seu lado e ao da nossa criana. Ns 
nos amamos e nada nem ningum vai poder mudar isso ou 
impedir! Vamos ser felizes, voc vai ver! 
Eu gostei de ouvir o que ele disse, mas, ao mesmo tempo, 
senti muito medo. Desde o incio, sempre soube que aquele 
amor era impossvel. Disse: 
 Tenho medo de que seu pai queira se vingar no meu e 
nos expulse da fazenda. Se isso acontecer, no sei o que vai 
acontecer. Meu pai, com certeza, vai ficar muito bravo 
quando descobrir o que aconteceu. Ele respeita muito o seu 
por ter nos recebido na fazenda, nos dado trabalho quando 
no tnhamos para onde ir. Se seu pai o expulsar por minha 
causa, ele vai me odiar e me expulsar de casa e eu nunca vou 
me perdoar, Manolo...
 Fique tranqila, Lola. Meu pai no vai mandar o seu 
embora. Ele no os recebeu porque  bom ou porque gosta 
do seu pai. Ele os recebeu porque precisa de mo-de-obra 
barata e, na situao em que seu pai chegou, exigiria pouco 
para trabalhar. Ele sabia que seu pai, agradecido, trabalharia 
com vontade e no se importaria com o quanto receberia 
por isso. Ele poder fazer tudo contra ns, mas nada contra a 
sua famlia. No  o seu pai que precisa dele, ao contrrio,  
o meu que precisa do seu pai.
 Espero que esteja certo, pois minha famlia no tem para 
onde ir. No quero que nada acontea a ela por aquilo que 
estou fazendo.
 No se preocupe que nada vai acontecer com eles.
 Espero que esteja certo, mas, agora que voc enfrentou 
seu pai e saiu da sua casa, o que vamos fazer?
 Vamos at sua casa, preciso conversar com seu pai e 
pedir sua mo em casamento.
 Voc vai fazer isso?
 Claro que vou! Tinha alguma dvida sobre isso? At que 
eu resolva o que fazer com a nossa vida, pedirei ao seu pai 
que nos deixe ficar na sua casa por algum tempo. Acha que 
ele vai concordar?
 No sei Manolo. Meu pai  muito rgido quanto a 
questes morais. Assim que souber que estou esperando um 
filho, ficar possesso, no posso imaginar o que vai fazer. 
Alm do mais, voc no pode ficar morando na nossa casa, 
pois ela, alm de pequena,  muito pobre. No  lugar para 
voc...
 No se preocupe com isso, o meu lugar  ao seu lado seja 
onde for. No me importo em morar em casa simples. S 
quero ficar ao seu lado, nada mais.
 Est bem. Amo voc e vou fazer o que quiser. Vamos at 
a casa e ver o que meu pai diz. S quero lhe avisar que no 
deve esperar muito. Ele dificilmente far qualquer coisa que 
possa desgostar ao seu pai.
 Sei disso, mas precisamos saber o que ele vai fazer e isso 
s vai acontecer quando falarmos com ele. Vamos para sua 
casa e veremos o que ele vai dizer.
Quando chegamos a casa, era um pouco mais das onze horas 
da manh. Meu pai, que havia trabalhado durante toda a 
manh, estava no quintal, sentado em um banco com um 
prato de comida na mo. Estranhou ao nos ver chegar, 
perguntou:
 O que est fazendo aqui Lola? No devia estar 
trabalhando? 
 Ela no trabalha mais l em casa, senhor Jos.
 Como no? Por qu?
 Porque vamos nos casar e ela no vai precisar trabalhar 
mais. 
Meu pai levantou-se, assustado: 
 Casar? O que est dizendo?
 Estou dizendo que vou me casar com sua filha e que  
por isso que estou aqui. Quero pedir a mo dela em 
casamento. Espero que aceite e nos abenoe.
 Abenoar?! Acha que acredito que o senhor, sendo quem 
, pode querer se casar com uma moa como a minha filha? 
Pobre e sem instruo? O senhor deve estar brincando! Pois 
saiba que, embora pobre, sou uma pessoa honesta e no vou 
permitir que minha filha seja iludida pelo senhor! Lola! 
Entre em casa e no saia at eu mandar!
Eu conhecia meu pai, sabia como levava a srio a moral. 
Tremendo e sabendo que seria difcil fazer com que ele 
aceitasse a minha situao, chorando, entrei e fiquei 
ouvindo a conversa. Manolo, mantendo calma, disse: 
 No estou iludindo sua filha. Gosto dela e quero 
realmente me casar. Estou aqui para pedir o seu 
consentimento, mas, se no der, no teremos alternativa a 
no ser irmos embora.
 Nunca! Minha filha no sair da minha casa sem estar 
casada para acompanhar o senhor nem outro qualquer! Ela  
minha filha e no pode fazer nada sem minha autorizao! 
Sou o pai dela! Eu mando nela e na sua vida! Ela vai fazer o 
que eu quiser!
 Sinto muito, mas sua autoridade terminou. Ela est 
esperando um filho meu e, agora,  minha obrigao cuidar 
dos dois.
 Um filho? Est dizendo que ela est esperando um filho?
 Sim, por isso quero me casar para poder dar o meu nome 
a ela e  criana.
Ao lado de minha me, que apertava meu brao com fora, 
vi que meu pai ficou vermelho. Pareceu que todo o sangue 
de seu corpo subiu para a cabea. Nervoso, gritou: 
 Lola!
Tremendo muito, pois sabia que, quando contrariado, ele se 
tornava violento, sa. Fiquei junto a ele com a cabea baixa. 
Ele, gritando, disse:
 Levante a cabea, olhe nos meus olhos!
Com muito esforo e tremendo de medo, levantei a cabea e 
olhei em seus olhos. Ele, ainda gritando e muito nervoso, 
perguntou:
 Lola!  verdade o que esse moo est dizendo?
 , pai. Estou mesmo esperando uma criana.
 Como pde fazer isso? No foi para isso que a criei! 
Nunca pensei que minha filha se tornaria uma vagabunda! 
Voc sabe que, com essa sua atitude, enlameou o meu nome 
que, embora pobre, sempre foi honesto?
Eu sabia que ele, em parte, tinha razo. Eu havia mesmo 
praticado um erro horrvel. Sem saber o que dizer, continuei 
calada e abaixei a cabea. Ele levantou o brao para me 
bater. Manolo segurou sua mo:
 O senhor no vai bater nela! No vou permitir! Ela agora 
est sob a minha responsabilidade! Est esperando um filho 
meu!
Meu pai percebeu que, pela primeira vez, Manolo levantou a 
voz e que faria qualquer coisa para me proteger. Abaixou o 
brao, perguntado:
 Seu pai sabe disso?
 Sim, sabe. Acabei de conversar com ele.
 Ele aceitou?
 No, mas isso no me importa. Gosto da sua filha e quero 
me casar com ela.
Meu pai, vermelho de dio, voltou-se para mim e 
perguntou:
 Lola, voc percebeu o que fez? Dom Antonio foi bom 
para mim, me recebeu aqui, deu trabalho e voc paga dessa 
maneira? O que acha que ele vai fazer agora? Vai colocar 
todos ns para fora daqui! O que eu e seus irmos vamos 
fazer? Sabe que no temos para onde ir!
 No se preocupe com isso, senhor Jos, meu pai nada far 
com o senhor nem com sua famlia. Ele no os recebeu por 
bondade, mas porque precisa do seu trabalho quase escravo. 
Como ele no aceitou o meu casamento, sa de casa e 
preciso de algum tempo para resolver o que fazer. Quero 
saber se o senhor me acolhe na sua casa por esse tempo. 
Prometo que no vai demorar muito.
 Aqui na minha casa? Nunca! Se eu fizer isso, seu pai no 
vai me perdoar. Alm do mais, no quero, na minha casa, 
nem o senhor nem essa vagabunda que no  mais minha 
filha! Pode, por favor, sair da minha casa e levar essa perdida 
com o senhor! De hoje em diante, minha filha morreu e no 
me importa o que possa acontecer com ela!
 Est bem, vamos embora, mas no admito que fale assim 
da sua filha!
 J disse que ela no  mais minha filha! Ela acabou de 
morrer e j est enterrada! Saia, por favor!
Minha me, que estava dentro de casa, saiu, veio para junto 
de ns e tentou interferir:
 Espere Jos, voc est nervoso. Ela  nossa filha no pode 
ser colocada na rua, ainda mais esperando uma criana. 
Voc precisa ajudar os dois. Eles se gostam e o moo est 
com boas intenes... Quer se casar com ela... 
Ele olhou para ela com os olhos faiscando:
 No lhe pedi opinio! Fique no seu lugar! J mandei voc 
ir para a cozinha lavar a loua! L  o seu lugar! No aqui 
dando palpite no que no lhe diz respeito!
Ela olhou para mim, percebi que seus olhos estavam cheios 
de gua, no s por minha causa, mas tambm pela 
humilhao que estava sentindo. Eu sabia que, embora no 
gostasse, a vida era assim, a mulher nada representava. Era 
apenas a reprodutora e a domstica da casa. No tinha o 
direito de dar uma opinio nem de decidir. Olhei para ela e 
sorri, tentando dar-lhe um pouco de tranqilidade. Ela, com 
lgrimas nos olhos,
Sorriu e voltou para a cozinha. Assim que ela se afastou, 
embora preocupada com o que meu pai e Manolo 
resolveriam, pensei: Por que tem de ser assim? Por que a 
mulher no pode ser dona da sua vida, do seu destino? Deus 
queira que isso, um dia, mude. Que a mulher possa ser 
considerada como gente, no como um animal sem 
vontade...
Percebendo que nada mais poderamos fazer ali, Manolo 
pegou em minha mo e disse:
 Est bem. J que o senhor quer assim, estamos indo 
embora. Quando encontrarmos um lugar para ficar, 
mandarei avis-lo para que saiba onde sua filha est.
 No precisa se dar a esse trabalho! J lhe disse que, de 
hoje em diante, no tenho mais filha! Ela morreu e est 
enterrada.
Aquelas palavras entraram em meus ouvidos como se 
fossem flechas. Senti vontade de me ajoelhar e pedir perdo. 
Quando Manolo percebeu a minha inteno, segurou com 
fora meu brao:
 Vamos embora Lola. Nada mais temos para fazer aqui. 
Sem saber o que fazer, olhei mais uma vez para meu pai que 
permanecia com o rosto crispado e para minha me que, por 
detrs da janela acompanhava toda a conversa. Percebi que 
ela chorava. Entendi sua impotncia. Sorri e, com a ponta 
dos dedos, mandei-lhe um beijo. Ela, com lgrimas nos 
olhos, tambm sorriu e retribuiu.
 No que est pensando, Lola?
Ela, que estava com o pensamento distante, olhou para 
Rafael que perguntava e respondeu:
 Em nada, apenas em como a vida pode mudar de repente.
 Est certa. Em um momento estamos bem e em outro 
tudo muda. Ainda bem que algumas vezes  para melhor.
 Por que est dizendo isso, Rafael?
 Quando decidi fazer esta viagem, era porque estava 
desesperado, sem trabalho, sem futuro e nunca imaginei que 
encontraria voc e que sentiria esperana novamente.
 Minha me sempre diz que a vida  como uma roda, que 
algumas vezes estamos em cima e outras, embaixo.
Rafael deu uma gargalhada.
 Por que est rindo, Rafael?
 Se isso for verdade, estive sempre por baixo na roda. 
Minha vida sempre foi de muito sacrifcio. Nunca tive um 
momento de paz e felicidade, a no ser agora. Acho que 
minha roda est subindo e logo chegar ao alto. No sei por 
que, mas estou sentindo que agora chegou a minha vez.
Agora quem riu foi Lola:
 Sabe que estou sentindo o mesmo. Sinto que a seu lado e 
ao da Maria, tambm vou, finalmente, ter um pouco de 
felicidade.
 Claro que vai! Tem alguma dvida?
 No sei, diante de um futuro to bom, chego a sentir 
medo.
 Pois no tenha medo, Lola! Nada vai impedir que 
fiquemos juntos nem que sejamos felizes!
 Est bem, mas, antes, voc precisa saber o que aconteceu 
na minha vida e o porqu de eu estar aqui, sem marido, 
somente com a Maria.
 Quer saber com sinceridade, isso no me importa. S sei 
que est aqui e que vou fazer tudo para que seja feliz.
 Eu preciso lhe contar tudo. S assim vamos poder 
comear uma vida, sem segredos e com confiana.
 Est bem, se isso lhe fizer bem, pode contar.
Sorrindo e com carinho deu um beijo em sua testa. Nesse 
momento, Carmem, com Maria chorando nos braos, se 
aproximou:
 Ainda bem que acordou Lola. Maria est impaciente 
perguntando pela me. J no sabia mais o que fazer para 
que ela parasse de chorar.
 Por que no me acordou Carmem?
 Vim aqui, vrias vezes. Sabia que estavam cansados pela 
noite que passaram. Dormiam to profundamente que no 
tive coragem de acordar vocs.
 Obrigada, Carmem, por ter ficado com a Maria. Eu estava 
realmente cansada e precisava dormir.
Lola se levantou, pegou Maria e beijou-a:
        No precisa chorar, Maria. Mame est aqui e vai ficar 
para sempre, at que voc cresa e tenha seu marido e 
filhos.
Assim que Maria se viu nos braos da me, parou de chorar. 
Lola, segurando-a pela mo, saiu dali e foi lhe dar comida.
Carmem, com os olhos, acompanhou Lola se afastando, 
depois, sentou-se ao lado de Rafael e disse:
 Ela  uma boa moa. Estou feliz que estejam se gostando. 
Ele suspirou fundo e, sorrindo, disse:
 Tambm estou feliz, Carmem. Assim que a vi, meu 
corao bateu forte, senti que queria que ela fosse minha 
mulher e que vivesse ao meu lado at o fim dos meus dias. 
Acho que, agora, finalmente, serei feliz.
 Estou torcendo para que tudo d certo. Ns nos 
conhecemos desde criana, sou sua amiga e s desejo a sua 
felicidade.
 Obrigado, Carmem, no poderia esperar outra coisa de 
voc. Sei que  minha amiga. Como voc est?
 Pode imaginar. Estou perdida, sem rumo. Ao contrrio de 
voc, parece que minha vida est cada vez pior. Por mais 
que pense, no entendo por que isso acontece. Por que tudo 
que tento fazer nunca d certo? No sei o que fazer com 
meus irmos. Eles so ainda to jovens.
 J lhe disse para no se preocupar. Eu e a Lola estaremos 
sempre ao seu lado e daremos toda assistncia a vocs. Essa 
terra para onde estamos indo, segundo soube, tem muitas 
oportunidades para aqueles que querem trabalhar. Sei que 
voc e seus irmos no tm medo do trabalho. Tudo vai ficar 
bem.
 Como bem, Rafael? Perdi meus pais. O corpo deles foi 
jogado ao mar e nunca poderei visitar suas sepulturas.
 No sei Carmem, mas acho que a alma no fica presa na 
sepultura. Acho que l s fica o corpo. No seria justo para a 
alma ficar presa, depois de uma vida to sofrida como a de 
seus pais. Por isso, no precisa visitar a sepultura. L no tem 
nada, apenas pense com saudade neles. Foram boas pessoas. 
Ouvi dizer que cada um tem uma misso para cumprir, se 
isso for verdade, eles cumpriram bem a deles.
 Acredita mesmo nisso?
 Algum, no me lembro quem, no dia em que minha 
me morreu, disse isso. Naquele dia, eu estava triste e 
desesperado e no dei muita ateno, mas hoje acho que at 
pode ser. Ela, tambm assim como seus pais, cumpriu bem 
sua misso, por isso, deve estar em um lugar melhor que a 
sepultura.
 Seria bom se isso fosse verdade. Que a alma realmente 
continuasse, mas no acredito nisso, acho que quando a 
gente morre, acaba tudo e s resta o p.
 Pois eu no. Acho que, se fosse assim, seria muito triste e 
realmente Deus no existiria. No seria justo algum viver 
com toda dificuldade, sofrer todo tipo de privao e, quando 
morrer, tudo se acabar.
 Depois de tudo o que passou, do que viu acontecer neste 
maldito navio, ainda acredita em Deus, Rafael?
 Sim Carmem, acredito. No sei se  Deus, mas acho que 
uma fora maior nos protege e nos conduz.
 Onde aprendeu essas coisas, na igreja?
 No. Sabe que no sou de ir muito  igreja. No sei como, 
apenas sinto. Ainda mais agora que encontrei a Lola, s pode 
ser coisa de Deus, do destino, sei l, s sei que estou feliz 
demais para ficar triste com esse tipo de pensamento. S 
quero ser feliz ao lado dela e da Maria e de todos os outros 
filhos que vamos ter.
 Espero que sejam felizes. Agora vou para junto dos meus 
irmos. Eles tambm esto desesperados.
 Faa isso. Eles esto mesmo precisando de companhia. 
Carmem se levantou e se afastou. Rafael continuou ali, 
sentado.

A ajuda sempre chega

Lola pegou um pouco de smola, colocou em um prato, 
acrescentou gua e um pouco de acar, mexeu bem e deu 
para Maria. Enquanto a menina comia, ela pensava:
Sei que isso no  alimento para voc, minha filha, mas  s 
o que tenho. Quando chegarmos ao nosso destino, voc 
comer tudo o que  bom e do que gosta. Esse tempo ruim 
vai passar...
Rafael, aps conversar com Carmem, ficou com os olhos 
fechados, pensando no futuro. Quando decidi fazer esta 
viagem, jamais poderia imaginar que encontraria Lola e que 
me apaixonaria por ela.  uma mulher maravilhosa. Sinto 
que ao seu lado serei feliz. Vou ver onde est. Meu nico 
desejo  o de me casar com ela e proteg-la em todos os 
momentos. 
Levantou-se e foi em busca de Lola. Ela terminava de dar 
comida para Maria que, pelo choro manhoso, demonstrava 
que queria dormir. Lola que, desde o comeo da doena, 
evitava que Maria ficasse junto aos doentes, estava sentada 
em uma sombra. Ele se aproximou: 
 Parece que ela est com sono, no , Lola? 
 Est, sim, Rafael. Essa comida que estou lhe dando no  
suficiente, mas  tudo o que tenho. Logo estaremos em terra 
e isso mudar. Ela poder tomar leite e ter uma alimentao 
saudvel. Quando decidi fazer esta viagem, embora soubesse 
que seria difcil, no imaginava que fosse tanto e que no 
haveria uma alimentao decente. Ns, os adultos, 
conseguimos superar, mas as crianas precisam se alimentar 
bem. Minha esperana  que cheguemos logo em terra e 
que, em breve, tenhamos uma boa cama para dormir, boa 
alimentao e gua pata tomar um banho decente. Maria, 
apesar de tudo, est reagindo bem.
 Ela  valente Lola. Puxou a quem, a voc ou ao pai? 
Lola sorriu, sabia que, embora no admitisse, ele desejava 
saber o havia se passado em sua vida. Sorriu enquanto dizia: 
 Vou lhe contar o que aconteceu.
 No precisa Lola. S se isso no lhe trouxer sofrimento.
 No traz Rafael. No posso negar que sofri muito, mas 
tudo j foi superado. Agora, s penso no meu futuro ao lado 
da minha filha e no desejo de que ela seja feliz.
Ele sorriu e disse:
 No se esquea de me incluir nesses planos.
Ela tambm sorriu, mas permaneceu calada. Algum tempo 
depois, comeou a contar o que havia acontecido. Contou 
at o momento em que foram expulsos por seu pai. 
Continuou:
 Sem destino, samos dali. Como brigou com o pai, 
Manolo no teve tempo de pegar dinheiro algum e s tinha 
alguns trocados. Ainda segurando firme em minha mo, 
disse:
 Lola, sabe que, daqui para frente, teremos de enfrentar 
um tempo difcil, mas logo passar. Vamos at a cidade. L, 
tenho um amigo que poder nos dar abrigo por um tempo e 
me ajudar a encontrar um trabalho.
 Trabalhar em que, Manolo? Voc, durante sua vida, 
somente estudou e ainda no terminou. O que acha que 
poder fazer?
 No sei Lola, mas sinto que alguma coisa vai aparecer. 
Vamos, continue andando. No se preocupe, antes de o 
nosso filho nascer, teremos uma casa para morar e comida 
no vai lhe faltar. Ele ou ela ser feliz. Pode ter certeza disso 
que estou lhe dizendo. 
 Eu, no sei por que, acreditei naquilo que ele disse e, 
tambm segurando sua mo com fora, confiante o 
acompanhei. Embora fosse cedo, o sol estava forte e, por 
muitas vezes, tivemos de parar sob uma rvore para 
descansar. Embora no demonstrasse, eu sabia que ele 
estava preocupado, mas permaneci calada. A hora do 
almoo chegou. Comecei a ficar com fome, mas, sabendo 
que no havia o que comer me calei. Ele, entendendo a 
minha situao e querendo me animar, perguntou:
 Lola, como voc quer que eu construa a nossa casa?
 Como casa, Manolo? Estamos caminhando sem destino. 
Como construir uma casa?
 No custa sonhar, Lola! Hoje estamos nesta situao, mas 
tudo vai mudar! Encontraremos um lugar para ficar, 
arrumarei um emprego e construirei uma casa! Por isso 
quero saber como voc quer que ela seja.
 Entendi o que ele estava fazendo, Rafael, e resolvi entrar 
na brincadeira. Pensei um pouco, depois disse:
 Quero uma casa toda branca e com as janelas pintadas em 
azul. No precisa ser muito grande. Uma sala para eu colocar 
uma mesa bem grande de madeira de lei. Uma cristaleira 
para eu colocar os cristais que vou ter. Um quarto para a 
nossa criana que est vindo. Quero um bero bonito. Vou 
colocar um vu sobre ele para os mosquitos no a 
incomodarem. Claro que quero o nosso quarto. Este precisa 
ser bem espaoso. As paredes precisam ser pintadas de verde 
bem claro. Na cama, vou colocar uma colcha de cetim verde 
tambm s que um pouquinho mais escuro. O quintal 
precisa ser grande. Quero fazer a minha horta e ter muitas 
rvores frutferas. Ela deve ser toda cercada com muros 
brancos e um porto azul.
 Ele comeou a rir e disse:
 S isso? Quer uma casa simples assim?
 Comecei a rir Rafael, sabendo que ele estava sendo 
irnico e continuei a brincadeira.
 Pode ser simples para voc, mas, para mim, que sempre 
morei em casa muito pobre, seria como se morasse em um 
castelo.
 Est bem. Um dia ter sua casa e vai ser da maneira como 
sonhou.
 Eu sorri feliz. Desejava ardentemente uma casa como 
aquela, mas sabia que, naquele momento, era impossvel. 
Continuamos andando e chegamos em frente a um porto 
de uma casa mal pintada e com uma pequena cerca feita 
com bambu. Manolo disse:
 Lola, sei que est com fome, mas, como sabe, por 
enquanto, no temos o que comer, mas logo tudo isso 
passar. Vamos pedir um pouco de gua nesta casa.
 Paramos. Manolo bateu palmas. Da porta que, 
provavelmente, deveria ser da sala, uma senhora apareceu. 
De longe, nos olhou e se aproximou:
 Posso ajudar?
 Manolo, ainda segurando minha mo, respondeu:
 Desculpe senhora, mas estamos viajando, o sol est forte 
e estamos com sede. Ser que poderia nos dar um pouco de 
gua para bebermos?
Ela nos olhou e, sorrindo, respondeu:
 Claro que sim. Esperem um pouco, vou buscar.
 Ela entrou e ns nos sentamos em um pequeno banco 
feito sobre um tronco de rvore que havia do lado de fora do 
porto. Estvamos no s cansados, mas com fome tambm. 
Minutos depois, ela voltou, trazendo uma leiteira e duas 
canecas de alumnio. A gua estava fresca, provavelmente 
ela havia tirado de uma moringa. Aquela gua, enquanto 
descia por nossas gargantas, era com se fosse o man dos 
deuses. Enquanto bebamos, ela continuou a nos olhar. 
Quando lhe devolvemos as canecas, ela disse:
 Vocs so muito jovens. Est parecendo que esto 
fugindo de casa.  isso que est acontecendo?
 Manolo olhou para mim, sorriu e respondeu:
 No, senhora. No estamos fugindo, estamos indo 
embora. Fomos expulsos. Nossos pais no aceitam o nosso 
amor. So dominados pelo preconceito. Sendo assim, como 
no queremos ficar separados, no nos restou alternativa e 
aqui estamos, indo para um destino ainda no bem definido, 
mas sempre juntos.
 Ela ouviu com ateno. Enquanto ele falava, ela no 
moveu um msculo do rosto. Assim que ele terminou de 
falar, ela disse:
 Pelo que estou vendo, da maneira como o senhor est 
vestido e da maneira como voc tambm est vestida, pode-
se dizer que so de classe social diferente. Esse foi o motivo 
de seus pais no terem aceitado? Foi  diferena social?
 Manolo, com a voz firme, respondeu:
 Sim, senhora. Infelizmente, foi esse o motivo. Meu pai 
tem um nome conhecido e poderoso, julga-se, por isso, 
quase um Deus. Eu no me importo com nome, s quero 
ficar ao lado de Lola, a mulher que amo e que escolhi para 
me casar e com quem quero ficar para o resto da minha 
vida. Ele nos expulsou, mas isso no tem importncia. Assim 
que chegarmos  cidade, vou conversar com um amigo e ele 
me arranjar um trabalho.
 Parece que esto, mesmo, dispostos a ficar juntos.
 Estamos sim e nada nem ningum vai impedir que isso 
acontea.
 Est bem, moo. Pelo visto, alm de sede, devem estar 
com fome tambm. Entrem. Vou lhes preparar um prato de 
comida. No  muito, mas o suficiente para que consigam 
chegar  cidade.
 Entramos e, intimamente, agradecemos a Deus por 
aquela mulher que Ele havia colocado no nosso caminho. 
Assim que entramos por aquela porta por onde ela havia 
sado, constatamos que realmente era a sala. Em seguida, nos 
levou at a cozinha e nos mostrou duas cadeiras junto a uma 
mesa. Voltou-se para o fogo de lenha e comeou a mexer 
nas panelas que estavam sobre ele. Eu, sem saber o que 
dizer, olhei para Manolo. Ele tambm permaneceu calado, 
mas pegou minha mo e, sorrindo, beijou-a. Logo depois, a 
senhora nos apresentou dois pratos contendo batata e 
verduras cozidas e um pedao de carne. Enquanto colocava 
os pratos sobre a mesa,
Disse:
 Desculpe, mas s tenho isso para oferecer. Espero que 
consiga sustentar vocs por algum tempo.
 Felizes por estarmos diante de um prato com comida, 
nada dissemos, apenas comeamos a comer. Era uma comida 
simples, mas saborosa e representou muito para ns. 
Enquanto comamos, ela ficou junto a pia lavando loua. 
Percebemos que fez aquilo para que nos sentssemos bem. 
Quando terminamos, ela, enquanto recolhia os pratos, disse:
 Enquanto comiam, estive pensando. Minutos antes de 
chegarem, eu estava pensando que precisava tomar uma 
providncia para que minhas terras no continuassem 
abandonadas. Sou viva, meu marido morreu faz seis anos. 
Ele trabalhava na Prefeitura, por isso, recebo uma pequena 
penso. Mesmo trabalhando na Prefeitura, ele, com a ajuda 
de meus dois filhos, plantava e, depois de tirar o nosso 
sustento, vendia o resto na cidade. S tive dois filhos que se 
casaram, moram na cidade e tambm trabalham na 
Prefeitura. Desde que se casaram, nunca mais se 
interessaram pelo stio ou plantao. Eles querem vender as 
terras e me levar para morar na cidade com eles, mas eu no 
quero. No vou vender minhas terras nem sair da minha 
casa. Aqui me sinto em segurana. Eu e meu marido 
trabalhamos muito para consegui-la e s sairei daqui quando 
morrer. Meus filhos, de vez quando, aparecem por aqui, eu 
entendo que no possam vir mais vezes, pois sei que tm 
suas famlias, suas prprias vidas e no me importo. Sei que 
se precisar, eles me acudiro. Meu marido morreu e eu, 
sozinha, no tive como cuidar da casa e da plantao e tudo, 
como podem ver, est abandonado. Voc  forte e, como 
me parece que esto caminhando sem destino, poderiam 
morar aqui comigo. Alm de eu no ficar mais sozinha, 
teriam um teto para ficar. Tenho dois quartos e s preciso de 
um. 
 Manolo olhou para mim e, pelo brilho dos meus olhos, 
percebeu que eu concordaria. Eu estava cansada e, como ela 
disse, no tnhamos mesmo um lugar para ir. Se o amigo de 
Manolo no nos ajudasse, no imaginaria como seria. Ele 
tambm, sabendo disso, disse:
 A senhora tem razo. Estamos indo para a cidade, mas 
no sabemos se realmente encontraremos um lugar para 
ficar. Se a senhora quiser nos dar essa chance, ficaremos 
aqui e eu trabalharei na plantao e na casa tambm. A 
senhora no vai se arrepender.
 Sei disso, meu filho. Assim que os vi, percebi que eram 
pessoas de bem e que, se ficarem aqui, tudo ser diferente. 
No precisarei mais me preocupar com a solido nem com 
minha plantao.
 S podemos agradecer senhora, mas, antes de ficarmos, 
precisamos lhe contar que Lola est esperando uma criana.
 Isso, para mim, no ser problema algum. Ao contrrio, 
faz tempo que eu no ouo o choro e a risada de uma 
criana aqui nesta casa. Essa criana ser bem-vinda e, na 
medida do possvel, ter tudo o que precisar alm de muito 
amor.
 Ficamos ali. Manolo, como havia dito e embora nunca 
antes houvesse trabalhado, muito menos em um servio 
pesado, para minha surpresa se dedicou muito. Cuidou da 
terra, plantou, fez alguns pequenos reparos na casa, pintou. 
Em pouco tempo, ela no lembrava nem de longe aquela 
que encontramos pela primeira vez. Dona Isabel estava feliz 
e ns tambm. Ela me ensinou a bordar, fazer tric e croch 
e, juntas, preparamos o enxoval da Maria. Seus filhos, 
durante o tempo em que estivemos ali, s apareceram uma 
vez e ao verem como o stio se encontrava, admiraram-se:
 Me, como tudo est bonito por aqui! Parece que a 
plantao vai render muito!
 Vai sim. Manolo e Lola esto trabalhando muito.
 Isso  muito bom, pois, alm do bom trabalho que esto 
fazendo, ficamos sossegados em saber que a senhora no 
est sozinha.
 Tambm estou mais tranqila.
 Daquele dia em diante, Rafael, eles nunca mais voltaram. 
Manolo construiu um galinheiro, comprou galinhas que, 
durante o dia, andavam pelo quintal e,  noite, dormiam no 
galinheiro. Com isso, tnhamos ovos e carne. Construiu 
tambm um chiqueiro, comprou dois pequenos leites que 
seriam engordados. A idia era que, quando estivessem no 
ponto, fossem mortos. Uma parte da carne seria salgada e 
guardada para o nosso uso e a outra seria vendida. Plantou 
trigo que crescia alm do imaginado, o que demonstrava que 
a colheita seria boa e que, quando fosse feita, teramos um 
bom dinheiro.
Rafael, que a ouvia com ateno, interrompeu-a:
 Se tudo estava to bem, se Manolo assumiu voc e a 
criana, no entendo qual  o motivo de ele no estar aqui 
ao seu lado, Lola...
 A vida  estranha, Rafael. No mesmo instante em que 
estamos bem, ela pode dar uma volta e tudo mudar.  aquela 
histria da roda.
Foi isso o que aconteceu. Desde que chegamos  casa de 
dona Isabel, a roda comeou a subir e ficou no alto por um 
bom tempo, mas, depois comeou a descer novamente.  
O que aconteceu, Lola?
 Faltavam dois meses para Maria nascer. Manolo havia 
calculado que, assim que ela nascesse, seria  hora de fazer a 
colheita. Eu passava bem. Todo ms amos  cidade fazer 
consulta. Manolo, todas as manhs aps tomar caf, ia para a 
plantao. Eu, no incio, o acompanhava, mas como faltava 
pouco tempo para a criana nascer e como eu estava muito 
pesada, tanto ele como dona Isabel me proibiram. Ele ia 
sozinho pela manh e s voltava na hora do almoo. 
Naquele dia, quando chegou a hora do almoo, ele no 
voltou. A princpio, ficamos preocupadas, mas dona Isabel 
disse:
 No precisa ficar nervosa, Lola. Conhece o seu marido. 
Enquanto no terminar o trabalho, no vai sair da plantao. 
Deve estar chegando.
 Eu sabia que ela tinha razo, pois Manolo era mesmo 
assim. Esperamos at as duas horas da tarde. Vendo que ele 
no chegava, resolvemos ir at l. Assim que chegamos, 
percorremos os corredores plantados e, de longe vimos 
Manolo deitado. Corremos para ele e, aps chamar muito, 
dona Isabel colocou a mo no pescoo dele. Chorando disse: 
 Ele est morto, Lola.
 Ao ouvir aquilo, no quis acreditar. Parecia que eu estava 
sonhando. Aquilo no podia estar acontecendo. Desesperada 
e, com dificuldade, baixei e comecei a chamar por ele. Eu 
chorava, gritava e o sacudia: 
 O que aconteceu, dona Isabel? Por que ele morreu? 
 Ao perceber o meu desespero, embora entendesse, sabia 
que nada mais poderia ser feito. Colocou as mos em meus 
ombros e me ajudou a levantar. Depois, disse:
 No sei o que aconteceu, mas nada mais podemos fazer 
Lola. Vamos para casa. Vou pedir ao Paco que v chamar a 
polcia. S eles podem responder a essa pergunta. Rafael, ao 
ouvir aquilo, nervoso, perguntou: 
 Nossa Lola! Como isso foi acontecer?
 Tambm no sabia e no entendia Rafael. Como dona 
Isabel disse, ela chamou o Paco, nosso vizinho, contou o 
que aconteceu e pediu que fosse at a cidade chamar a 
polcia. A polcia veio, levou o corpo de Manolo e, um dia 
depois, constatou-se que ele havia tido um ataque no 
corao. Provavelmente, ele sofria de algum mal ou talvez 
tenha sido o esforo sob o sol forte. Eles no tinham certeza, 
mas tambm no me importava. A nica coisa que eu sabia 
era que Manolo estava morto e que eu estava sozinha com 
uma criana que ia nascer. Pode imaginar o meu desespero. 
Pedi a Paco que fosse at a fazenda avisar aos meus pais e aos 
pais de Manolo o acontecido. Ele foi e quando voltou, disse:
 O pai de Manolo disse que ele no conhece Manolo 
algum e que no tem filho. Disse que seu filho morreu no 
momento em que saiu de sua casa para ficar com voc.
 Embora eu soubesse que a sua reao poderia ser essa, 
pedi que Paco fosse avis-lo apenas por obrigao. Sabia que 
ele era um homem muito orgulhoso, jamais perdoaria ao 
filho, no por ter sado de casa, mas, sim, por no ter feito 
sua vontade e ter desobedecido a uma ordem sua. Perguntei:
 E a me dele, o que disse Paco?
 Quando ouviu o que eu falei, comeou a chorar e queria 
vir imediatamente, mas o pai dele, com dio na voz, gritou:
 No sei por que est chorando, Graa? Essa pessoa que 
morreu  um estranho!
  nosso filho, Antonio...
 J lhe disse que no temos filho algum! Aquele que tinha 
morreu no dia em que saiu desta casa!
 Eu, com tristeza, ouvi aquilo e disse:
 Eu imaginava que essa seria sua reao, Paco, mas achei 
que deveria avis-lo. Sinto pena de dona Maria das Graas 
que no vai poder dar o ltimo adeus para o filho. Posso 
imaginar o que est sentindo. At quando a mulher ser 
tratada como uma coisa, como uma domstica sem salrio?
 No, sei Lola, mas  muito triste mesmo. Embora seja 
homem, tambm julgo um exagero como a mulher  tratada.
 Voc  diferente, Paco. Est sempre disposto a nos 
ajudar.
 Tem razo, Lola. Gosto de dona Isabel como se fosse 
minha me e agora, depois que voc veio para c, gosto da 
mesma maneira de voc, como se fosse minha irm, assim 
como gostava do Manolo. Minha mulher entende toda essa 
ateno que tenho para com vocs e no se incomoda. Ela 
tambm gosta de dona Isabel. Nasci aqui e fui estudar na 
cidade. L conheci minha mulher, nos casamos e 
continuamos ali. Minha me morreu, queria que meu pai 
fosse morar comigo, mas ele no quis. Um dia, recebi uma 
carta de dona Isabel, dizendo que ele estava muito doente. 
Viemos o mais rpido possvel. Quando chegamos, constatei 
que ele, realmente, estava muito mal. Dona Isabel ficou ao 
seu lado durante todo o tempo. Cuidou com muito carinho. 
Por mais que eu faa, nunca poderei lhe pagar. Depois que 
ele morreu, viemos morar aqui e nunca mais iremos 
embora.
 Tenho certeza de que ela no quer pagamento algum. Fez 
com seu pai o mesmo que fez comigo e Manolo. Quando 
percebeu que precisvamos de ajuda, nos acolheu sem nada 
perguntar. Acho que ela nasceu para ajudar as pessoas em 
momentos crticos da vida. 
 Tambm penso assim, Lola. 
 Contou aos meus pais?
 Sim, e a resposta foi  mesma. Seu pai disse quase a 
mesma coisa, no entendo como as pessoas podem agir 
dessa maneira, nem diante da morte permitem que seu 
orgulho seja afastado.
 Tambm no entendo Paco, mas o que h de se fazer. 
Cumpri minha obrigao, o resto fica por conta dele. E 
minha me, o que disse?
 Coitada dela. Tentou falar, mas seu pai tambm no 
permitiu. Disse que dependiam do pai do Manolo para 
viverem ali e que, de maneira alguma, faria algo que o 
desagradasse. Sua me entrou em casa depois, chorando e, 
disfarando, saiu e me deu este dinheiro. Ela no disse nada, 
deduzi que  para voc.
 Coitada da minha me e o mesmo posso dizer tambm do 
meu pai. Ele tem razo, precisa do trabalho e de um lugar 
para morar. Fui eu que me afastei da famlia, por isso tenho 
de encarar, sozinha, o meu destino.
 Por tudo o que me contou voc no teve outro caminho. 
No se culpe Lola,  muito jovem, tem a vida toda pela 
frente. Deus no pode ficar distante por tanto tempo. Logo 
tudo passar e voc nem acreditar que passou por tudo isso. 
O que importa, agora,  essa criana nascer e, tomara, com 
sade. Ela vai preencher sua vida. Tenha f, Lola...
 Eu ouvia o que Paco dizia Rafael, mas aquelas palavras 
nada representavam. Estava revoltada. Ele me falava para ter 
f em um Deus em que, aps a morte de Manolo, eu j no 
acreditava mais. Ele, realmente, no poderia existir, pois, se 
existisse, no permitiria que um homem orgulhoso e 
pretensioso como o pai de Manolo tivesse tudo na vida e 
meu pai, que sempre fora honesto e trabalhador, no tivesse 
nada. No permitiria jamais que Manolo morresse e que eu 
ficasse sozinha com uma criana que estava para nascer. 
Como acreditar em um Deus mau como aquele? Naquele 
momento e at agora, no entendo, mas fiquei calada, sabia 
que Paco no entenderia o que eu estava pensando.
 Tudo o que est me contando, Lola,  compreensvel. 
Voc, realmente, teve motivo para estar revoltada. Acho 
que todas as pessoas, em algum momento de suas vidas, 
pensam assim, mas no posso deixar de estar de acordo com 
Paco, realmente, tudo passa. Hoje, voc est aqui e eu estou 
feliz por isso. Quer continuar contando o que se passou 
depois? Se no quiser, pode deixar para outra hora. Sinto que 
essas lembranas fazem mal a voc.
 Preciso contar tudo, Rafael. Realmente, as lembranas me 
trazem tristeza, mas sei que preciso continuar. Agora, ao seu 
lado, acho que encontrarei um pouco de paz.
 Pode ter certeza disso. No que depender de mim, nunca 
mais vai ter motivo para chorar.
 Sinto que est dizendo a verdade. Vou continuar. Manolo 
foi enterrado. Enquanto a terra era jogada sobre seu caixo 
pobre, eu parecia estar sonhando e achava que, a qualquer 
momento, ele acordaria. No queria aceitar que aquilo estava 
realmente acontecendo. No acreditava que estava sozinha 
com uma criana prestes a nascer. Durante muitos dias, 
chorei sem parar. Dona Isabel permitiu que eu expressasse 
minha dor, at que um dia disse:
 Sei o que est sentindo Lola. Seu marido foi embora, mas, 
antes, lhe deixou uma criana a quem deve amar. Se 
continuar chorando assim, s poder fazer mal a ela que no 
tem culpa do que aconteceu. De hoje EM diante, precisa 
pensar s nela. Esperar que ela nasa e lhe dar todo o 
carinho que puder. Essa ser a nica maneira de homenagear 
Manolo. Infelizmente, a vida  mesmo assim. Um dia, todos 
morrero.
 Ouvi o que ela disse e entendi que tinha razo, Rafael. 
Meu marido fora embora, mas minha criana estava vindo e 
precisava ter carinho e ateno. Eu sabia disso, mas, ao 
mesmo tempo, sentia que no poderia cri-la, pois no tinha 
mais vontade de viver. Sentia que no poderia lhe dar amor, 
pois, dentro de mim, esse sentimento no existia mais. S 
tinha muita revolta por tudo o que havia acontecido comigo. 
Desde o momento em que nasci nunca havia sido feliz. Os 
poucos momentos de felicidade que passei foram ao lado de 
Manolo, mas, agora, ele no estava mais ali. Embora no 
contasse para dona Isabel, pensei:
No quero mais viver, mas sei que essa criana vai nascer e 
precisa viver. Sei que no tenho o direito de impedir que 
isso acontea, mas, assim que ela nascer, vou pegar o 
veneno de rato que Manolo tem guardado e terminar com 
esta vida cheia de sofrimento. Morrendo, vou me encontrar 
com ele. A criana ser criada, com muito carinho, por dona 
Isabel e sei que ficar muito bem. Embora dona Isabel e 
Paco digam o contrrio, eu  que no posso continuar minha 
vida sem Manolo... Neste momento, s quero morrer... 
 Daquele dia em diante, fiquei ansiosa, esperando o 
nascimento dela. O tempo todo pensava em Manolo. No 
conseguia esquec-lo por um instante sequer. Contava os 
dias que, para mim, passavam lentamente. Sabia que meu 
sofrimento terminaria assim que eu morresse e fosse ao 
encontro dele. Pensava:
Falta pouco tempo, Manolo, logo mais vou estar ao seu lado. 
 Pensou isso Lola? Pensou em se matar? Em abandonar 
sua filha?
 Pensei Rafael. Com a morte de Manolo, para mim, nada 
mais restava. Quanto a abandonar a minha filha, eu ainda 
no a conhecia, mas pensei sim. No entendia o porqu de 
aquilo ter acontecido nem de Deus haver permitido que ele 
morresse, j que nos amvamos tanto e estvamos esperando 
uma criana. Conversando com dona Isabel, ela disse:
 No adianta ficarmos perguntando o porqu das coisas, 
Lola. Elas simplesmente acontecem. No sei, mas acho que 
temos um tempo de vida e acho que, nesse tempo, 
precisamos cumprir uma misso e, quando essa misso  
cumprida, nada mais nos resta a fazer nesta terra a no ser 
voltamos para o Pai.
 Misso? Que misso, dona Isabel? Mesmo que isso fosse 
verdade, no posso aceitar, pois a misso de Manolo estava 
apenas comeando, ele precisava ficar ao meu lado para 
criarmos a nossa criana.
 No sei Lola, mas talvez a misso dele fosse a de permitir 
que essa criana nascesse, foi a de ser pai dela.
 Ao ouvir aquilo, fiquei pensando por um instante e disse:
 A senhora nunca me disse que tinha uma religio. Nunca 
a vi se arrumando para ir  igreja. Onde ouviu isso?
 No tenho religio mesmo. Quando criana, freqentava 
a igreja, mas, quando cresci, ela deixou de me dar s 
respostas que procurava, por isso, deixei de freqentar, mas 
no de acreditar em Deus e nos Santos. Quanto ao lugar 
onde eu ouvi isso, no sei... No tenho a menor idia. Talvez 
no tenha ouvido, apenas sentindo.
 Ouvi o que ela disse Rafael e, embora no concordasse 
com aquela teoria, sabia que nada poderia fazer. Achava 
errada, pois, para mim, Manolo no havia cumprido sua 
misso. Eu estava sozinha com uma criana que no 
conheceria seu pai nem sua me, pois, assim que ela 
nascesse eu me mataria. J estava decidido e nada faria com 
que eu mudasse de idia. Para mim, aquilo no estava certo e 
eu passei no s a no acreditar em religio, como no 
prprio Deus. Coloquei em dvida sua existncia.
 Diante de tudo o que me contou, no posso conden-la 
por isso. Realmente, foi muito triste. Mesmo assim, no 
entendo o porqu de voc querer se matar, achando que ia 
encontrar com seu marido.
 Por que no acredita nisso, Rafael? Se existe uma alma, 
ela est em algum lugar e  para l que todos vamos, no ?
 Acredito que sim, mas acredito tambm que existe uma 
enorme diferena entre morrer naturalmente, como 
aconteceu com seu marido, e tirar a nossa prpria vida. No 
sei qual foi o motivo que fez com que voc mudasse de 
idia, mas graas a Deus isso aconteceu. Ainda no me disse 
o motivo de estar aqui, sozinha, somente com sua filha. 
Dona Isabel me pareceu ser uma boa pessoa e, com certeza, 
deve ter-lhe dado todo apoio, por que no continuou ao lado 
dela?
 Tem razo, Rafael, ela realmente foi uma me para mim, 
mas a vida nem sempre  como imaginamos ou desejamos. 
Minha roda continuou descendo. O tempo foi passando. 
Embora triste, eu esperava com ansiedade que a criana 
nascesse, pois, assim, poderia completar o meu plano. Em 
uma manh, acordei com uma forte dor na barriga, pelos 
meus sintomas, dona Isabel disse:
 No se preocupe Lola,  assim mesmo. Prepare-se, pois a 
dor que vai sentir, nunca imaginou que poderia existir, mas, 
ao mesmo tempo, assim que vir o rostinho da criana, essa 
dor passar. Vou pedir ao Paco que v chamar dona Anita. 
Ela est aguardando o nosso chamado. No se preocupe, ela 
 a parteira daqui e j ajudou muitas crianas a nascer.
Aprendeu com sua me que havia aprendido com a sua. Foi 
ela quem me ajudou com meus dois filhos. Tudo vai ficar 
bem. No vejo a hora de ver o rostinho da criana.
 Eu sorri pela animao dela. Estava aliviada, pois, para 
mim meu momento havia chegado ao fim. Depois que a 
criana nascesse eu me mataria. No sentia curiosidade nem 
de olhar para seu rosto. Ela no me interessava e nada 
representava para mim. Eu havia traado o meu destino e 
nada faria com que mudasse.
 Como pde pensar isso, Lola?
 Hoje tambm no entendo, mas, naquele tempo, eu 
achava que seria a nica soluo. Sentia o peito apertado, e, 
s vezes, parecia que no conseguia respirar. Meu nico 
pensamento era s o de estar ao lado de Manolo.
 Ainda bem que no levou esse plano  frente.
 Realmente. Sempre que olho para Maria, sinto remorso 
por ter pensado aquilo. Dona Anita chegou acompanhada 
por Paco. Ficou ao meu lado durante todo o dia. A dor era 
imensa, muitas vezes achei que no ia agentar, mas dona 
Isabel segurava minha mo e dizia:
 Tenha calma, Lola. Agente mais um pouco. Logo ter a 
sua criana nos braos e nem se lembrar dessa dor.
 Era quase meia-noite quando, finalmente, Maria nasceu. 
Ela demorou um pouco para chorar, at que deu uma 
espcie de grunhido. Eu estava feliz por ter cumprido aquilo 
que eu julgava ser minha misso: permitir que ela nascesse, 
mas sabia que meu papel terminava ali e que tambm no 
era obrigada a ficar com ela, no que no quisesse, mas por 
sentir que minha vida havia terminado e que ela seria mais 
feliz sem minha tristeza, pois sendo criada por dona Isabel, 
s conheceria alegria e felicidade. O quarto era iluminado 
por lampies e lamparinas a querosene, cuja luz tremulava 
pelas paredes. Como no queria olhar para a criana, desviei 
meu olhar para a janela e vi que, apesar da falta de luz, ele 
estava iluminado pela lua que, naquele momento estava 
sobre a janela. As estrelas ao lado da lua piscavam e me 
pareceu que danavam. Fiquei encantada com aquela viso. 
Dona Isabel parecendo saber das minhas intenes, pegou a 
menina no colo, deu a volta e colocou-a sobre o meu peito. 
Eu, que olhava para a janela, continuei. Ela tambm olhou 
para a janela e disse:
 Olhe Lola, que bela noite! Olhe como a lua e as estrelas 
esto lindas! Parece que esto saudando a vinda da sua filha! 
Acho que ela vai sei muito feliz e vai fazer outros felizes 
tambm. Esta menina  abenoada, Lola!
 Maria, chorando, colocou sua mozinha sobre o meu 
peito. No d para descrever a emoo que senti. Segurei-a 
pelo corpinho, olhei em seu rostinho e, naquele momento, 
percebi que nada poderia me afastar daquela criana. 
Chorando, aconcheguei-a ao meu peito e disse:
 Dona Isabel, a senhora tinha razo, no existe felicidade 
maior do que a de se ter uma criana nos braos. Vou cuidar 
dela, ela vai crescer e se tornar uma linda mulher. Como  
senhora disse, ela  a nica coisa que me restou de Manolo, 
vou am-la muito, muito, muito...
 Ainda bem que isso aconteceu, no foi?
 Foi sim, Rafael, hoje, quando me lembro daquele dia e no 
que pensava fazer, sinto um arrepio pelo corpo e peo 
perdo a Deus. Minha filha est linda. Agora, nessa nova 
terra para onde estamos indo, sei que seremos felizes.
 Pode ter certeza de que ser sim, e tudo o que depender 
de mim vou fazer para que isso acontea. Amo voc e amo 
Maria tambm. Os caminhos esto se abrindo, a roda da 
nossa vida est subindo novamente e ficar no alto por 
muito tempo, voc vai ver! Juntos, conseguiremos tudo o 
que desejarmos.
 Voc  muito bom, Rafael. Novamente, preciso agradecer 
a Deus por t-lo colocado em minha vida.
Antes que Lola dissesse algo, Carmem se aproximou:
 Parece que a conversa est boa...
 Est sim, Carmem. Lola est me contando a sua vida e o 
motivo de estar viajando sozinha com a Maria. Voc no 
pode imaginar o que ela j passou.
 Gostaria de conhecer sua historia, Lola. Confesso que 
estou curiosa, pois no  comum se ver uma mulher 
sozinha, sem um marido.
 Sente-se, Carmem. Vou contar. No  nada demais, 
somente a vida foi que me conduziu at aqui.
Carmem sentou-se ao lado deles. Maria brincava com as 
outras crianas.

Uma porta que se abre

Lola tornou a contar at o momento em que Maria havia 
nascido. Rafael j sabia da histria, mas, mesmo assim, 
continuou ouvindo com ateno. Quando terminou de 
contar, Carmem, emocionada, disse:
 Nossa Lola! Por quanta coisa voc passou. Quando vi 
voc sozinha fazendo essa viagem, nunca imaginei que 
tivesse passado por tanta coisa.
 Quando estava passando, tambm achava que era muito, 
mas, hoje, vejo que no foi tanto assim. No momento de 
maior tristeza, sem um caminho para eu e Manolo 
seguirmos, apareceu em nossa vida dona Isabel, um anjo que 
Deus nos mandou. Ao lado dela, tivemos momentos de paz 
e tranqilidade e Maria pde nascer.
 Sim, mas seu marido no precisava ter morrido...
 Nisso voc tem razo, Carmem, mas quem somos ns 
para tentar entender os motivos de Deus...
 Deus? No sei como ainda pode acreditar Nele!
 Como no acreditar Nele, Carmem?
 Voc no viu o que passamos aqui? No viu as pessoas 
ficarem doentes, em poucos dias morrerem e serem jogadas 
ao mar sem o direito a uma sepultura? No viu a pobreza em 
que, assim como ns, todos sempre viveram? No viu seu 
marido morrer e voc ficar sozinha com uma filha para 
criar! Como pode existir um Deus, Lola? Aquele que dizem 
ser o Pai de todos, se Ele permite que alguns tenham tudo e 
outros nada! Que as mulheres sejam tratadas como animais, 
no como seres humanos, assim como aconteceu com sua 
me e a me de Manolo e tantas outras. Com minha me foi 
 mesma coisa e comigo tambm. No fui preparada para 
enfrentar um momento como este. No sei o que fazer com 
meus irmos. No sei o que dizer. Se eu tivesse sido criada 
de modo diferente, hoje no estaria to insegura e com 
medo do futuro.
 No se preocupe com seus irmos, eu estarei ao lado 
deles e lhes ensinarei o trabalho e, quando precisar, vou ter 
com eles uma conversa de homem. Eles ficaro bem e voc 
tambm, Carmem.  bonita e encontrar um homem para se 
casar e ter algum que cuide de todos.
 No acabei de dizer que no quero isso, Rafael? No 
quero um homem para cuidar de mim. Quero eu mesma 
cuidar de mim! Preciso provar a mim mesma que isso  
possvel. De tudo isso, a nica coisa certa  que estou 
sozinha no mundo e responsvel por meus irmos que ainda 
so quase crianas. De agora em diante, eu sou a dona da 
minha vida e ningum mandar nela! Desculpe-me, Lola, 
mas no posso acreditar em Deus ou em nada parecido.
 Pois eu, apesar de tudo, continuo acreditando. Acho que 
nossa vida  comandada por uma fora maior, que temos de 
passar alguns momentos de tristeza e sofrimento, mas nesses 
momentos, aprendemos nos modificamos e caminhamos 
para o bem ou para o mal. Todo sofrimento por que passei 
me conduziu at aqui. No sei, ainda, como ser a minha 
vida, mas estou com o corao cheio de esperana. Sinto 
que, daqui para frente, tudo ser para o melhor. Acho que j 
usei toda minha cota de sofrimento e s mereo a felicidade. 
Carmem, se no pensarmos assim, se no tivermos 
esperana no futuro, no conseguiremos sobreviver.
 Penso igual a ela, Carmem. Ns no podemos ter nascido 
do nada e sem propsito. Deve existir uma razo, tambm 
no sei qual, mas que existe, existe. Deus, com toda sua 
sabedoria, no nos colocaria no mundo apenas para viver e 
morrer. Precisa existir algo mais. Alm do mais, o homem s 
protege a mulher, porque vocs so frgeis e precisam de 
proteo.
 Quem disse isso, Rafael? Nosso corpo pode ser frgil, mas 
nossa cabea  igual  de qualquer homem. Pensa e sonha 
igual. Acho que temos a mesma capacidade de escolher o 
caminho que desejarmos
 Est certa em pensar assim, mas sabe que, entre pensar e 
realizar existe uma distncia considervel. A mulher  frgil 
e precisa de proteo. Voc no pode negar que ela no tem 
a mesma fora fsica que os homens.
 Pode no ter a mesma fora fsica, mas pensa igual ou 
melhor que eles. Pode decidir o que quer fazer com a sua 
vida, fazer suas escolhas. O crebro  igual, Rafael.
 No sei, no. Acho que, embora no queira admitir, existi 
uma grande diferena entre os dois, mas isso no quer dizer 
que sejam tratadas como escravas, mas que precisa de 
proteo, isso precisa.
 Pois continue pensando assim, Rafael. Eu mudei... Sou 
outra pessoa e tenho f que, um dia, tudo isso mudar. 
Chegar o tempo em que a mulher ser responsvel por sua 
vida, poder se casar com quem quiser, trabalhar, ter seu 
dinheiro, enfim, ser independente. Esse dia h de chegar, 
Rafael... H de chegar...
 Sabe muito bem que isso que est dizendo no passa de 
um sonho, de uma utopia, Carmem. Esse dia jamais chegar. 
A mulher  e continuar para sempre sendo dependente de 
um homem.
 Eu no serei mais, Rafael! Disso pode ter certeza!
 Est bem, Carmem. Entendo o que est sentindo. Vamos 
esperar para ver o que acontece, mas, no momento, estou 
mais interessado em saber o motivo de voc, Lola, estar 
viajando sozinha, pois, por tudo o que contou, morava com 
dona Isabel e ela, da maneira como gostava de voc e da 
Maria, jamais permitiria que fizesse uma viagem como esta.
 No permitiria mesmo, mas a vida nem sempre  como a 
gente quer ou imagina. Muita coisa aconteceu at que eu 
chegasse aqui. 
 O que aconteceu?
 Vou contar Carmem. Depois que Maria nasceu toda nossa 
ateno foi voltada para ela. Manolo havia trabalhado muito. 
A plantao de trigo estava linda. Chegou a hora da colheita. 
Eu e dona Isabel no conseguiramos fazer esse trabalho. 
Embora Paco quisesse ajudar, tambm no podia, pois 
precisava cuidar de sua prpria plantao. Dona Isabel 
resolveu ir at a cidade e conversar com seus filhos. Assim 
que chegou, reuniu-os e disse:
 Vocs foram at o stio e viram como a plantao est 
bonita. Foi tudo obra do Manolo. Agora, chegou a hora de 
colher e ele no est mais l para fazer isso. Estou aqui para 
propor uma coisa a vocs. 
 O que, mame?
 A colheita precisa ser feita. Vocs so meus filhos e sei 
que, se quiserem, podem tirar alguns dias de frias e 
contratar alguns homens para fazer a colheita. Quando tudo 
estiver colhido, vocs vendem e me do o dinheiro. Assim 
vou poder ficar tranqila por mais um ano e no precisarei 
incomodar vocs.
 Mas, mame, sabe que no gostamos do trabalho no 
stio...
 Sei disso, mas  uma emergncia. A plantao est bonita 
e vai dar um bom dinheiro. Com ele, eu e a Lola vamos ficar 
bem e poderemos cuidar da Maria com tranqilidade. 
Depois da colheita e que tudo for vendido, com esse 
dinheiro, posso contratar algum para plantar novamente e 
ainda guardarei um pouco. Assim, na prxima colheita, no 
precisarei incomodar mais vocs. Mas, hoje, preciso da ajuda 
de vocs. No vejo outra soluo.
 Eles, a contragosto, atenderam ao seu pedido. 
Contrataram alguns homens e, em pouco tempo, tudo havia 
sido colhido. Como dona Isabel havia previsto, a colheita foi 
boa. Quando estavam colocando as ltimas sacas na carroa, 
Francisco, um de seus filhos disse:
 A senhora tinha razo, mame, a colheita foi boa mesmo 
e vai dar um bom dinheiro. Vamos levar para vender, 
depois, voltaremos com o dinheiro.
 Faam isso, meus filhos. Estou muito feliz e seu pai 
tambm ficaria, pois, apesar de trabalhar muito, nunca 
conseguiu uma colheita como esta.
 Eles ensacaram todo o trigo e partiram. Dona Isabel ficou 
esperando que retornassem com o dinheiro. Passaram-se 
dez dias e nada. Preocupada, me disse:
 Eles devem ter tido algum problema com a venda, Lola. 
Estou preocupada. Vou at a cidade para ver o que 
aconteceu.
 Eu tambm estava preocupada e concordei. Ela pediu ao 
Paco que a levasse at a cidade, j que ele possua uma 
carroa. Eu queria ir junto, mas ela achou melhor que eu 
ficasse com Maria em casa, pois ela era muito pequena e 
uma viagem como aquela, embora no fosse muita longa, 
com certeza a cansaria. Concordei. No dia seguinte, bem 
cedinho ela subiu na carroa e, acompanhada por Paco, foi 
para a cidade. Eu preocupada, fiquei em casa esperando sua 
volta. Estava com um mau pressentimento e fiquei rezando, 
pedindo a Deus que nada de ruim tivesse acontecido com 
eles. A manh demorou a passar. Eu fiquei cuidando de 
Maria, mas com os olhos presos na estrada, esperando a 
volta deles. Isso s aconteceu quase  uma hora da tarde. 
Assim que se aproximaram, pela expresso do rosto de dona 
Isabel e de Paco e vendo que ela estava com os olhos 
vermelhos de chorar, me aproximei:
 O que aconteceu, dona Isabel? Por que demoraram tanto 
e por que est com os olhos vermelhos de chorar? 
Aconteceu alguma coisa com um de seus filhos?
 Ela me olhou e, sorrindo, disse:
 Vamos entrar Lola. Estou cansada e, depois de tomar um 
pouco de gua, contarei o que aconteceu.
 Paco, tambm com o rosto crispado, se despediu e foi 
para sua casa. Eu e ela entramos. Depois de tomar gua, ela 
comeou a falar:
 Assim que chegamos  cidade, fomos para a casa dos 
meus filhos. Como voc sabe, eles moram vizinhos. Assim 
que chegamos, estranhei ao ver que as casas pareciam 
abandonadas. Mesmo assim, bati palmas, mas ningum 
atendeu. Quem saiu na janela foi a Joana, vizinha deles que 
estranhou em me ver ali e, intrigada, perguntou:
 O que aconteceu, dona Isabel? A senhora no sabia que 
seus filhos mudaram?
 Ao ouvir aquela pergunta, um arrepio percorreu meu 
corpo, com a voz embargada, perguntei: 
 Eles se mudaram?
 Sim, disseram que a senhora havia lhes dado o dinheiro 
da colheita para que se mudassem. Abandonaram o emprego 
dizendo que, com o dinheiro, abririam seu prprio negcio 
na Capital. 
 O que est me dizendo, Joana?
 Estou dizendo o que aconteceu. Faz uma semana que 
foram embora. A senhora no sabia? 
 No, eu no sabia, mas est bem. Eles, com certeza, 
fizeram o melhor e tm razo. Com o dinheiro, podero 
melhorar de vida. 
 Ela percebeu a minha frustrao, mas se calou e, sem 
saber o que dizer nos despedimos e viemos embora. Durante 
a volta, s chorei por no acreditar que aquilo havia 
acontecido, que meus filhos, apesar de saberem da 
necessidade que eu tinha do dinheiro, no se importaram e 
me roubaram. Estou triste, porque eles no precisavam ter 
feito isso. Se essa era a vontade deles, se queriam ir embora 
da cidade, bastava me dizer e, como toda me, eu lhes daria 
o dinheiro. No precisavam ter me roubado...
 Ao ouvir aquilo, fiquei sem saber o que dizer. Tambm 
no entendia que um filho pudesse roubar sua me, mas 
havia acontecido. Tentei argumentar.
 No faz mal, dona Isabel. Vamos sobreviver. Temos um 
resto da colheita, galinhas, uma horta e com o leite que o 
Paco nos fornece, no precisamos de nada mais.
 Eles fizeram isso Lola? Roubaram a prpria me?
 Fizeram Carmem. Roubaram a me e foram embora da 
cidade.
 Como pode acontecer uma coisa como essa? Como um 
filho pode roubar uma me, ainda mais sendo idosa?
 No sei Rafael, mas aconteceu. Eles pegaram o dinheiro e 
desapareceram sem deixar endereo.
  difcil, para mim, acreditar que uma coisa como essa 
possa acontecer. Como ela ficou?
 Pode imaginar Carmem. Daquele dia em diante, deixou 
de ser a mulher que sempre fora. Quase no falava e ficava 
pelos cantos chorando. Eu no sabia o que fazer. Lembrava-
me de quando Manolo morreu e das coisas que ela me dizia, 
mas eu no tinha a mesma facilidade com as palavras como 
ela e no sabia como consol-la. Alm do mais, sabia que 
nada que dissesse poderia fazer com que se conformasse 
pois, o que aconteceu, o que os filhos fizeram foi muita 
maldade com uma mulher to boa como aquela.
 O que aconteceu depois, ela morreu?
 No, no morreu. Ficou assim por alguns dias. Eu, sem 
saber o que fazer apenas a observava. At que em uma noite, 
Maria acordou chorando. Eu e dona Isabel nos assustamos, 
pois ela costumava dormir a noite toda. Levantamos e 
constatamos que a menina ardia em febre. Ficamos 
assustadas, pois era alta madrugada, no tnhamos como ir 
at a cidade. Dona Isabel sabia que, se precisasse, Paco nos 
levaria, mas no quis incomod-lo, pois sabia que ele teria de 
trabalhar no dia seguinte. Disse:
 Vamos fazer um ch e, assim que amanhecer vamos ver 
o que fazer e, se no houver alternativa, se ela no melhorar, 
pedirei ao Paco que nos leve at a cidade.
 Foi o que fizemos, demos o ch e, em poucos minutos, 
Maria estava dormido. Ficamos acordadas por mais um 
pouco de tempo e vendo que a febre baixara e que ela estava 
bem, fomos nos deitar novamente. No dia seguinte, Maria 
acordou bem, como se nada houvesse acontecido. Ficamos 
aliviadas. Percebi, naquela manh, que dona Isabel brincou 
com Maria e conversou muito comigo. Ela voltou a ser 
como antes. Fiquei feliz, pois estava triste por ela e no sabia 
o que fazer. Depois de alguns dias, perguntei:
 Dona Isabel, fiquei preocupada de ver a senhora 
chorando pelos cantos. Estou feliz por ver que est bem, 
mas preciso confessar que estou curiosa. O que fez com que 
a senhora voltasse a ser como antes? 
 Quando vi Maria doente, lembrei-me de quantas vezes 
meus filhos ficaram doentes e eu me apavorei. Lembrei-me 
daqueles dias e em como eu ficava feliz quando eles se 
recuperavam. Fiz a minha parte, Lola. Criei, dei carinho e 
amor. Cabe a cada um deles fazer sua parte. No entendo 
por que fizeram isso, se eu fosse aquele tipo de me que fica 
cobrando dos filhos dedicao total durante a vida toda, por 
ter tido trabalho ou sofrido para cri-lo e por se julgar ter 
sido uma boa me, eu atenderia, mas nunca fui assim. 
Sempre achei que ser boa me no devia ser qualidade, mas, 
sim, obrigao. Eles nasceram porque eu quis. O mnimo 
que eu poderia fazer era dar-lhes toda assistncia, amor e 
carinho, e tudo que estivesse ao meu alcance para o bem-
estar deles. Por isso achava que no tinha o direito de lhes 
cobrar coisa alguma. Embora tenha dado tudo de mim, sabia 
que, um dia, teriam suas famlias e eu, embora continuasse 
sendo amada, passaria a um segundo plano. Deixei que 
vivessem suas vidas da maneira como quisessem. Sabia que 
muitas vezes eles errariam nas escolhas e sofreriam, mas 
sabia tambm que tudo isso seria necessrio para que eles 
crescessem e aprendessem a escolher melhor. Eles sempre 
souberam que, quando algo no desse certo, eu estaria 
pronta a acolh-los sem nada perguntar ou cobrar, 
simplesmente amar. Por me lembrar de tudo isso, foi que 
decidi no ficar mais triste. Enquanto eu viver, ajudarei voc 
a cuidar da Maria com todo carinho. Quando eu morrer, 
continue dando a ela o melhor de voc e, se quando ela 
crescer, for ingrata, assim como os meus filhos foram, nada 
poder fazer, mas agora, cumpra a sua obrigao, para 
quando, e se, acontecer, possa se sentir tranqila e falar 
como eu estou fazendo agora: fiz a minha parte e entreguei 
nas mos de Deus. 
 Ela disse isso, Lola? Disse que ser me no  qualidade, 
mas, sim, obrigao?
 Disse Carmem. Ela dizia que teve os filhos porque quis e, 
portanto, devia a eles todo carinho e ateno e que nunca 
lhes cobraria ou obrigaria que tivessem por ela os mesmos 
sentimentos. Cabia a eles darem isso de boa vontade e no 
obrigados.
 Bem, se pensarmos dessa maneira, ela tem razo. Os 
filhos nascem porque os pais querem e devem gostar dos 
pais porque querem, no por obrigao. No entendo como 
ela pensava e falava assim, em um tempo como este, em que 
a mulher no tem direito algum, nem mesmo o de pensar e 
dar uma opinio.
 Ela  especial. s vezes, acho que ela nasceu cem anos 
antes do nosso tempo, Carmem. Acho que Deus, de vez em 
quando, faz com que nasa pessoas como ela, para nos 
ajudar a caminhar.
 Tem razo Lola. O que aconteceu depois? Desculpe, mas 
estou curiosa. J que estava vivendo com ela, tinha amor e 
segurana, por que est aqui sozinha?
 A vida nem sempre  como a gente imagina ou deseja. 
Dona Isabel cuidava de Maria com todo carinho. Eu voltei  
plantao e, dentro das minhas possibilidades, iniciei o 
plantio da nova safra. O trabalho era pesado, mas eu no me 
importava. Trabalhava o dia inteiro. Algumas vezes,  tarde, 
depois de cuidar de sua plantao, Pato vinha at o stio para 
nos ajudar. Sua esposa, que tambm gostava muito de dona 
Isabel, no se importava e at, quando podia, nos ajudava 
tambm. Costurava para fora e, com isso, ganhava algum 
dinheiro para ajudar nas despesas. Tudo corria bem. Nunca 
mais conseguimos contratar algum para o plantio nem para 
a colheita, mas com o que conseguamos, mais a penso que 
ela recebia, vivamos relativamente bem. Com o tempo, 
dona Isabel deixou de falar e, quem sabe, at de pensar nos 
filhos. Estvamos bem. Maria crescia forte e bonita. Suas 
gracinhas faziam com que rssemos e esquecssemos nossos 
problemas. Maria ia fazer quatro anos. Eu e dona Isabel 
estvamos pensando em fazer um bolo para que as crianas 
de Paco cantassem parabns. Maria estava animada com a 
sua festa. Tudo corria bem at que, em uma manh, dona 
Isabel acordou com uma forte dor de cabea. Tomou um 
ch, mas a dor no passou.  tarde, sem agentar mais a dor, 
pediu que eu fosse chamar o Paco. Assim fiz e ele atendeu 
imediatamente. Colocou-a na carroa e foram para hospital 
que havia na cidade. Demoraram muito. Ele voltou sozinho. 
Assustada, perguntei:
 O que aconteceu, Paco, onde est dona Isabel?
 O mdico no sabe o que ela tem Lola, e me chamando  
parte, disse que, pelo sintoma, desconfia de que esteja com 
um tumor ou cogulo na cabea. Eu no sabia o que era 
aquilo e perguntei ao doutor o que era aquilo. Ele explicou 
que  uma bolha de ar que se forma e percorre o corpo e, s 
vezes, se aloja na cabea.  um caso muito srio. Um dia, 
talvez se encontre um remdio para isso, mas, hoje no h 
nenhum. Perguntei o que podamos fazer e ele respondeu 
que nada, s mesmo esperar e ver se o prprio corpo 
responde e afasta essa doena. 
 O que mais, Paco?
 Disse que ela  uma mulher forte e pode resistir. Disse 
que ia dar um remdio para acalmar a dor.
 Ouvi aquilo e fiquei assustada. Eu adorava dona Isabel e a 
considerava como se fosse minha me. No conseguia me 
imaginar vivendo sem ela por perto.
 No era para menos, tambm teria ficado preocupada, 
Lola. Posso imaginar o seu desespero.
 Foi isso mesmo que aconteceu, Carmem. Fiquei 
desesperada. No s por ela ser a minha nica companhia, 
mas tambm pelo muito que gostava dela. Mas essa 
preocupao no adiantou. Trs dias depois, com muita dor, 
ela morreu. O mdico nos avisou que sua situao havia 
piorado, por isso deixei a Maria com a esposa do Paco e fui 
para o hospital. Fiquei ao seu lado. Ela ficou o tempo todo 
adormecida, mas, de um momento para o outro, abriu os 
olhos. Ao me ver ali, sorriu e disse:
 Lola, voc est aqui? Com quem est a Maria? 
 No se preocupe dona Isabel, ela est com Dora. Como 
est se sentindo?
 Estou bem. Sonhei com meu marido, ele sorria feliz. 
 A senhora vai ficar boa bem depressa e logo vai voltar 
para casa. 
 No, Lola. Sinto que no vou voltar para casa. Estou velha 
e cansada. Acho que est na hora de eu ir ao encontro do 
meu marido. Estive pensando, se for verdade que cada um 
de ns tem uma misso aqui na terra, sinto que cumpri a 
minha. Minha nica preocupao  com voc e Maria. 
Embora voc no saiba, h muito tempo, sabendo da minha 
idade e de que a qualquer momento poderia morrer, deixei, 
na segunda, gaveta da cmoda do meu quarto, uma carta 
para meus filhos, dizendo que, enquanto voc viver, esta 
casa ser sua e da Maria, para que voc possa ter a 
tranqilidade necessria para cri-la. Essa  a minha ltima 
vontade e sei que meus filhos a atendero. Eles no precisam 
do stio. Afinal, nunca gostaram dele e, agora, nem moram 
mais aqui na cidade. 
 Aps dizer isso, sorriu, fechou os olhos e deu o ltimo 
suspiro. 
 Ainda bem que ela pensou em voc.
 Sim, ela pensou, mas os filhos no aceitaram. No tive 
como avis-los da morte da me, pois no tinha o endereo. 
Com a ajuda de Paco, chorando e sofrendo muito, enterrei-
a. Eu no me conformava por aquilo ter acontecido. Ela era 
uma mulher to boa. Havia nos dado abrigo quando 
estvamos perdidos e sem um caminho. Por que Deus estava 
fazendo aquilo comigo? Por que havia me tirado Manolo e, 
agora, dona Isabel? Eu no entendia e me revoltei 
novamente, mas, ao mesmo tempo, tinha Maria e precisava 
cri-la. Continuei minha vida. Passaram-se quinze dias, 
quando os filhos dela apareceram. Francisco perguntou:
 Por que no nos avisou da morte da mame?
 Eu no tinha o endereo. No sabia para onde tinham 
mudado. Apesar de estar muito triste com o que fizeram, ela 
falou at o ltimo momento no quanto gosta de vocs.
 Ela no tinha motivo para ficar triste. O dinheiro que 
levamos era nosso. Afinal, quem comprou e cuidou deste 
stio o tempo todo foi o nosso pai e o dinheiro tirado dele  
nosso e no para ser dado a uma pessoa como voc, que 
surgiu do nada s para explorar a nossa me.
 Nunca explorei sua me! Ela nos recebeu, a mim e ao 
meu marido, nos deu carinho e amizade. Embora nunca haja 
dinheiro suficiente para pagar o bem que ela nos fez, meu 
marido trabalhou muito para pagar sua bondade. Ela foi um 
anjo em nossa vida e eu serei agradecida para sempre.
 Tudo bem que seja agradecida. No faz mais do que sua 
obrigao, mas agora chega! Decidimos vender o stio. 
Como sabe, no moramos mais aqui na cidade e no temos 
como cuidar dele. Estamos aqui parta lhe dizer que tem 
noventa dias para sair daqui. Nenhum dia a mais.
 Sair daqui? No tenho para onde ir! Sou sozinha com a 
minha filha!
 A filha  sua, no nossa! O problema  seu!
 Sua me deixou uma carta para que eu lhes entregasse. 
Vou pegar.
 Entrei, voltei com a carta, entreguei a Francisco que, aps 
ler entregou para o irmo que tambm leu. Depois disso, um 
olhou para o outro. Francisco, por ser o mais velho, disse:
 No nos interessa o que fez para que nossa me 
escrevesse algo como isso. Deve t-la ameaado de alguma 
maneira.
 Ao ouvir aquilo, comecei a chorar. Disse:
 No fiz isso nem sabia dessa carta! Sua me s me contou 
quando estava no hospital e no ltimo momento...
 No acredito nisso! Alm do mais, o que nossa me podia 
querer no importa mais! Ela est morta e este stio  nosso. 
Precisamos de dinheiro, portanto, arrume um lugar para ir!
 Eles fizeram isso, Lola? Leram a carta e, mesmo assim, 
no fizeram a ltima vontade da me?
 No acreditaram que era vontade dela, Rafael. Depois de 
Francisco dizer isso, saiu. Eu fiquei desesperada. No tinha 
para onde ir e no sabia o que fazer da minha vida. Fui 
procurar Paco e aps lhe contar tudo, perguntei:
 O que vou fazer Paco? No tenho para onde ir...
 Eu esperava que isso acontecesse, Lola. Conheo aqueles 
dois. Numa deram a menor ateno para os pais. Nunca 
entendi a atitude deles. Foram criados com carinho e 
ateno. Nunca lhes faltou O que vestir ou comer. Sempre 
puderam freqentar a escola, coisa difcil por aqui. Os pais 
no se preocupam muito com a educao dos filhos. Como 
eles prprios no sabem ler, acham que os filhos tambm 
no precisam. Sabem que, assim como eles, s trabalharo 
na lavoura, portanto, no precisaro perder tempo indo para 
a escola. Eu mesmo, s aprendi a ler por causa de uma nossa 
vizinha que me ensinou e contra a vontade de meu pai. 
Dizia que, enquanto eu perdia tempo estudando, deixava de 
trabalhar. Mesmo que eu estudasse s  noite.
 Sei como , Lola. Tambm no aprendi a ler. S sei 
assinar o meu nome.
 Tambm no sei Rafael. Meu pai dizia que mulher no 
precisava ler, porque nasceu para cuidar da casa, do marido e 
dos filhos.  disse Carmem.
 Para ver como , Carmem. No  s a mulher que no 
tem direitos, as crianas tambm no.
 Tem razo, Lola, mas o que aconteceu depois? 
 Paco continuou falando:
 Dona Isabel foi uma tima me e o seu Francisco 
tambm, um timo pai. Esses meninos so muito 
gananciosos. Gostaria de poder ajud-la, mas, como sabe, 
minha casa  pequena para mim, minha mulher e meus 
filhos. No temos como abrigar voc e a menina. Tenha f 
que alguma coisa vai acontecer para que tudo seja resolvido. 
 Que situao, Lola! O que voc fez?
 Voltei para casa, Rafael. Com Maria no colo, fiz a nica 
coisa que poderia fazer. Chorei e pedi a Deus que me 
ajudasse. Embora tivesse me revoltado com a morte de dona 
Isabel, sabia que era o nico que podia fazer alguma coisa 
por mim. Sabia que, em ltimo caso, precisaria voltar para 
casa, mas sabia tambm que meus pais no me receberiam. 
Passaram-se trs dias e eu ainda no havia encontrado uma 
soluo. Em uma manh, o carteiro me entregou uma carta. 
Era para dona Isabel, de uma amiga sua que morava no 
Brasil. Dona Isabel j havia me falado sobre ela.
 A Maria Augusta foi para o Brasil. Est gostando de morar 
l.
 Assim que peguei a carta na mo, fiquei sem saber se 
devia abrir ou entregar para os filhos dela. Voltei  casa de 
Paco e perguntei:
 O que acha que devo fazer Paco, abrir a carta ou entregar 
para os filhos dela?
 Acho que deve ler. Afinal, eles nunca ligaram para a me, 
no deve lhes interessar o que uma amiga tinha para lhe 
contar.
 Nisso ele teve razo, Lola. Voc leu a carta?
 Naquele mesmo momento, abri a carta e li:

Querida amiga Isabel:
Estou lhe escrevendo para dizer das ltimas novidades. 
Estamos bem aqui. No comeo, foi difcil me adaptar, mas, 
com o tempo, aprendi a gostar desta terra e deste povo que  
muito hospitaleiro. Gostaria que viesse me visitar e descobrir 
as belezas desta terra. Meu nico problema continua sendo a 
comida, pois tenho problema com o idioma e, por mais que 
tente me comunicar com a cozinheira e ensinar-lhe, ainda 
no consegui. O governo brasileiro, depois da abolio, 
precisa de mo-de-obra e est pagando para que as pessoas 
de outros pases venham trabalhar aqui. Estou lhe 
escrevendo para, alm de lhe dar notcias, pedir para que me 
consiga uma boa cozinheira. Sei que a situao na Espanha 
no esta boa e que muitos esto querendo sair da e tentar a 
vida em outros lugares. Se conseguir algum, mande-me os 
documentos da pessoa que eu providenciarei tudo para que 
possa vir. Quanto ao resto, est tudo bem. Berenice est a, 
morando com av, mas, antes de se casar, est se preparando 
para vir nos visitar. Estamos bem de sade e meu marido, 
com a fazenda que comprou e plantando caf, est 
ganhando muito dinheiro.
Sem mais, um abrao
Maria Augusta

 Assim que terminei de ler a carta, olhei para Paco, que 
disse: 
 Olha a a sua oportunidade, Lola! Voc sabe cozinhar. 
Aprendeu com dona Isabel. Responda a essa carta e v para 
o Brasil. Dizem que  terra de oportunidades e que todos 
que vo para l conseguem suas terras e ficam ricos!
 Ao ouvir aquilo, uma luz de esperana surgiu ao mesmo 
tempo em que fui tomada de muito medo.
 Tenho vontade de ir, Paco, mas tenho medo tambm. 
Nunca sa daqui, no imagino como ser a vida em outro 
lugar, muito menos em outro pas. E se no me acostumar 
em uma terra estranha?
 Claro que vai se acostumar, Lola! Em todo lugar  a 
mesma coisa, pessoas acordam de manh, tomam caf e vo 
trabalhar.  tudo igual! O que voc tem aqui? No tem para 
onde ir com sua filha nem famlia para acolher voc. No se 
preocupe com o futuro, ele vir de qualquer maneira e, 
quando chegar a hora, voc resolve o que fazer. Por 
enquanto, deve aproveitar essa oportunidade e seguir o 
caminho que lhe est sendo mostrado! Faa isso, responda a 
essa carta, conte tudo o que aconteceu e o seu desejo de ir 
para l. Deus nunca abandona Seus filhos!
 De onde tirou essa idia?
 No sei, apenas deduo. Se o pai, aqui da terra, est 
sempre ao lado do filho e no o abandona nunca, no se 
importando com o que o filho fez, imagine Deus. Ele 
sempre estar ao nosso lado, Lola, nos amparando e nos 
mandando ajuda nos momentos difceis. Olhe o que est 
fazendo com voc. Olhe a porta que est abrindo. No pense 
muito! Aceite!
 Pensei por algum tempo, depois, disse:
 Voc tem razo, Paco. Nada mais me resta aqui. Vou 
responder a carta e, assim como voc disse, vou entregar 
tudo nas mos de Deus. Seja feita a Sua vontade.
 Assim que se fala Lola. Sei que no vai se arrepender. 
Tenho certeza de que, nessa terra, vai encontrar um homem 
que goste de voc e da Maria e que vai proteger as duas.
 No estou interessada em homem algum, Paco. O nico 
homem que amei foi o Manolo e ele foi embora. No dia em 
que ele morreu, jurei que viveria somente para criar a minha 
filha e dar a ela todo o conforto que nunca tive.  isso o que 
pretendo fazer.
 No diga isso, Lola. Voc  muito jovem, tem uma vida 
toda pela frente e no vai poder ficar sozinha para sempre. O 
ser humano no sabe viver sozinho precisa viver em grupo, 
ter uma companhia.
 J tenho a Maria, no preciso de nada mais.
 Est bem, no vamos falar mais nisso. O importante  que 
responda a essa carta e que v para o Brasil. O que vier 
depois ser resolvido na hora.
 Tem razo, Paco. Vou agora mesmo para casa responder a 
essa carta.
 Fui para casa. Escrevi uma carta, contando tudo o que 
havia se passado na minha vida, de como dona Isabel havia 
nos acolhido, da morte de Manolo, da sua prpria morte e da 
atitude dos filhos. Contei que eles haviam roubado o 
dinheiro da plantao e que agora queriam vender o stio, 
mesmo no atendendo ao ltimo pedido da me. Escrevi 
que estava sozinha no mundo e j que eu havia aprendido a 
cozinhar com dona Isabel, poderia ser a cozinheira de que 
ela precisava. Escrevi tambm que, se ela me aceitasse, eu 
poderia ir, mas que no tinha dinheiro para a passagem do 
navio. Escrevi o meu nome e o da Maria. Esperanosa, 
mandei a carta junto com os nossos documentos e fiquei 
esperando a resposta.
 Pelo jeito, ela respondeu.
 Respondeu Rafael. Quase dois meses depois, chegou uma 
carta. Nela ela dizia da sua tristeza em saber que a amiga 
havia morrido, pois se conheciam desde a juventude. Disse 
que queria, sim, que eu fosse para o Brasil trabalhar em sua 
casa. Como eu havia lhe mandado os meus documentos, e 
com uma carta de chamada escrita por seu esposo, 
conseguira duas passagens que tambm estavam no 
envelope. Disse para eu ir at as autoridades espanholas que 
elas providenciariam o meu passaporte com a minha 
fotografia e a da Maria e me indicariam o navio que deveria 
tomar. Disse que, embora a nossa viagem fosse por conta do 
governo brasileiro, lhe garantiram que seria confortvel. 
Carmem comeou a rir. Eles estranharam. Rafael perguntou: 
 Por que est rindo, Carmem?
 
 Porque disseram que a viagem seria confortvel, imagine 
se no fosse?
Os dois no se contiveram e comearam a rir tambm. 
Depois, Rafael disse:
 Foi muito triste o que aconteceu com voc, Lola, mas se 
nada disso tivesse acontecido, ns no teramos nos 
conhecido. Como o seu amigo Paco disse voc encontrou 
um homem que gosta de voc e da sua filha. Prometo, mais 
uma vez, que farei tudo para que sejam felizes.
 Ele tem razo, Lola. Conheo Rafael desde que nasci e sei 
que  um homem de bem e de palavra. Tenho certeza de 
que ser feliz ao lado dele.
Lola ficou calada, apenas olhou para ele e, com os olhos 
brilhantes de felicidade, sorriu.
Rafael beijou sua testa. Ela, um pouco constrangida, 
levantou-se, pegou Maria que at o momento brincava com 
as outras crianas, mas por um motivo qualquer, comeara a 
chorar.

Triste notcia

O tempo foi passando lentamente. De acordo com o 
comandante faltavam, agora, dez dias para chegarem ao 
Brasil. As pessoas, embora no na mesma quantidade, 
continuavam adoecendo e morrendo. Por vrias vezes a 
cerimnia de jogar o corpo ao mar foi feita. Lola e algumas 
outras mulheres continuavam cuidando dos doentes que 
ficavam juntos em um dos compartimentos na parte mais 
baixa do navio, separados dos que ainda estavam bem. 
Enquanto ela cuidava dos doentes, Carmem e Rafael ficavam 
com Maria que se entregava a eles totalmente. Carmem era 
quem, na maior parte do tempo, limpava, alimentava e fazia 
a menina dormir. Lola se dedicava totalmente a ajudar os 
doentes.
Em uma manh, aps passar a noite toda cuidando dos 
doentes e de ter respirado, o tempo todo, aquele ar viciado e 
com cheiro de doena, Lola, cansada, sentiu vontade de ir 
at o convs. Antes, passou pelo compartimento 
transformado em quarto, onde Carmem, seus irmos, Rafael 
e Maria dormiam.
Em seguida, foi at o convs do navio. Assim que se sentou 
no cho, sentiu uma brisa fresca sobre seu rosto e pde 
respirar o ar puro. Sorriu e sentiu um prazer enorme.
Como  bom respirar um ar puro. Meu Deus, at quando 
essa doena vai durar? Chega de tanto sofrimento, as pessoas 
que esto neste navio no merecem...
Depois de algum tempo e de ter respirado profundamente 
vrias vezes, percebeu que seu corpo tremia, que estava 
suada e com dificuldade para respirar. Levantou a manga da 
blusa que vestia e, aterrorizada, viu que seus braos estavam 
cobertos de pequenas manchas vermelhas. Levantou um 
pouco a saia e teve a certeza daquilo que muito temia. Suas 
pernas tambm estavam tomadas pelas manchas. Assustada, 
pensou:
Meu Deus, estou com a doena! Por tudo o que vi acontecer 
com as pessoas quando estas manchas comearam a 
aparecer, sei que no h cura! Isso no pode estar 
acontecendo! No  justo! Depois de tudo o que passei.
Logo agora, que estou prestes a reiniciar uma nova vida ao 
lado de Rafael! Com a minha morte, o que vai ser da Maria? 
Quem vai cuidar dela? Ela no pode ficar sozinha... Manolo 
me ajude a ficar boa. Nossa filha precisa da minha presena.
Lembrou-se de todos os doentes de que havia cuidado e que 
haviam morrido.
J vi muitos morrerem, sei que o sofrimento  terrvel. Por 
que isso teve de acontecer? Estou com muito medo. Sei que, 
como aconteceu com os outros, meu corpo tambm ser 
jogado ao mar. Isso na realidade no me importa o que me 
deixa mais triste  no poder acompanhar o crescimento da 
minha filha nem saber o que vai acontecer com ela. Por 
favor, meu Deus, no permita que eu esteja com essa doena 
nem que eu morra. Preciso criar a minha filha...
Por ter visto o sofrimento das pessoas, desesperada, chorava. 
Tinha medo, no s pela dor que sabia, aconteceria, mas pela 
morte.
Sei o que vai me acontecer e toda a dor e sofrimento quer 
vou ter de passar at o ltimo momento, mas minha 
preocupao maior  com Maria. Ela  to pequena. Queria 
tanto v-la crescer. No entendo como isso foi acontecer. 
Sempre tive muito cuidado enquanto cuidava dos doentes. 
Sempre mantive certa distncia e coloquei um pano sobre o 
rosto para evitar respirar diretamente o mesmo ar. Achei 
que estava protegida, mas, pelo visto, no estava. O que fiz 
de mal para merecer tanto sofrimento? Tenho medo de 
morrer. No sei o que vai me acontecer depois da morte. 
Ser que vou para o cu ou para o inferno? No, para o 
inferno no posso ir. Nunca fui m. Nunca fiz mal a 
ningum. Ser que sou boa o bastante para ir para o cu? 
Tambm acho que no. Embora no seja m para ir para o 
inferno, tambm no sou boa o suficiente para ir para o cu. 
Meu Deus do cu, o que vai acontecer comigo?
Impotente, continuou chorando.
Rafael acordou. Sorriu ao ver que Maria segurava sua mo. A 
menina tambm acordou, olhou para ele e, apertando ainda 
mais sua mo, sorriu. Ele no pde deixar de abra-la e de 
dizer:
 Voc  muito querida. Daqui para frente, vai ter uma vida 
cheia de felicidade, pois, no que depender de mim, farei de 
tudo para que isso acontea.
Beijou sua testa e olhou para o lugar em que Lola costumava 
dormir. Ao ver que ela no estava ali, pensou:
Ela deve estar cuidando dos doentes. Estranho, pois, sempre 
pela manh costuma pegar Maria para lhe dar algo para 
comer.
Levantou-se, pegou Maria pela mo e foi at onde os 
doentes ficavam, mas no viu Lola. Subiu ao convs e, assim 
que saiu da escada, viu que ela estava ali. Aproximou-se:
 Bom dia, Lola. Quando acordei, procurei por voc e no a 
encontrei. Imaginei que estivesse aqui.
Ela olhou para ele e disse:
 Cheguei h pouco.
Ele, percebendo que ela chorava, preocupado, perguntou:
 O que aconteceu, Lola? Por que est chorando?
Ela levantou a manga da blusa e nada precisou dizer. Ele 
arregalou os olhos e, quase chorando, disse:
 No pode ser, Lola! Deve estar com alguma alergia!
 Sabe que no  alergia, Rafael. Estou com a doena e 
como todos os outros tambm vou morrer.
 No, Lola! Isso no pode acontecer! Estamos indo para a 
terra das oportunidades, vamos nos casar, criar a Maria e ter 
outros filhos!
Desde que a vi tenho sonhado com isso! Vamos comear 
uma vida e seremos felizes!
 Tambm tenho sonhado, mas parece que no nasci para 
ser feliz, Rafael. Por que, na minha vida, foi sempre assim? 
Por que, sempre que me julgo tranqila e feliz, algo 
acontece? Tudo o que me aconteceu at agora foi triste, mas, 
embora estivesse sozinha, venci. Agora  diferente. Tenho 
Maria. Quando eu morrer, o que vai ser dela? No quero que 
seja levada a um orfanato. Ela  to pequena e querida. No 
merece ser criada por estranhos. O que vou fazer, Rafael?
 No, Lola, no fale assim! Voc no vai morrer! No pode 
morrer. Vai criar a Maria e a ver se transformar em uma 
linda moa!
 Vimos muitos doentes, Rafael. Sabemos que no h cura. 
Sei que vou morrer e que meu corpo, como aconteceu com 
os outros, tambm ser jogado ao mar. Estou desesperada, 
pensando no quanto vou sofrer antes que isso acontea.
 No se preocupe Lola. Essa doena no vai tomar conta 
do seu corpo, mas, se realmente ficar doente, ficarei ao seu 
lado e o meu amor far com que se cure. Com o meu amor, 
sei que conseguir resistir. Faltam poucos dias para 
chegarmos e l, com certeza, deve haver algum hospital para 
cuidar de voc. Resista s um pouco de tempo.
 Vou tentar, mas sabe que no vai adiantar...
Ele dizia aquelas palavras, mas seu corao estava apertado. 
Sabia que Lola tinha razo, pois todos os que ficaram 
doentes, aps sofrerem muito, morreram. Realmente, no 
havia cura. Estava desesperado, mas tentou disfarar. 
Estendeu os braos para que Lola se aconchegasse, mas, para 
sua surpresa, ela o afastou e, nervosa, disse:
 No, Rafael, afaste-se de mim! Voc no pode ficar 
doente! No sabemos se essa doena  contagiosa, mas 
parece que ...
Rafael sabia que ela tinha razo, mas, mesmo assim, disse:
 No sabemos se essa doena  contagiosa ou no. A nica 
coisa que sei  que no saberei viver sem voc. Portanto, 
no me importo de ficar doente e morrer, desde que 
continue com voc...
Carmem tambm acordou e ao ver que nem Rafael nem 
Lola estavam nos seus lugares, levantou-se e foi  procura 
dos dois. Logo os encontrou. Ao se aproximar, viu que Lola 
chorava e pde ouvir as ltimas palavras dele. Pelo 
semblante deles, percebeu que estavam preocupados, ou 
melhor, assustados. No podia imaginar o que estava 
acontecendo. Preocupada, perguntou:
 O que aconteceu? Por que est chorando, Lola, e voc, 
Rafael, por que est to preocupado?
Lola, que estava sentada, olhou para ela, sem responder. 
Levantou a manga da blusa e mostrou o brao. Carmem, 
embora no quisesse deixou transparecer em seu rosto o 
susto. Queria dizer algo, mas no sabia o qu. Ficou calada. 
Lola, sabendo o que ela pensava, disse:
  isso mesmo o que est pensando, Carmem. Estou com a 
doena e vou morrer...
 No, Lola! Isso no pode acontecer. Voc vai conseguir 
reagir.  jovem...
 No precisa tentar me animar, Carmem. Ningum 
melhor do que eu sei que no h cura. J vimos vrias vezes 
isso acontecer. Todos os que ficaram doentes no 
conseguiram sobreviver. Sabemos que vou morrer...
 No, Lola. Isso no pode acontecer! No  justo! Voc 
ficou o tempo todo cuidando dos doentes!
 Mas est acontecendo, Carmem. No entendo como 
pde acontecer, pois tomei todos os cuidados. At a pouco, 
estava com medo morrer, mas agora no estou mais, pois sei 
que a morte  inevitvel. Minha nica preocupao  Maria 
e o que vai ser dela. No quero que seja criada em um 
orfanato com pessoas estranhas. Ela no merece isso, precisa 
de muito amor e carinho. Somente essa est sendo a minha 
preocupao.
Carmem olhou para Rafael e percebeu que ele no estava em 
condies de falar. Disse:
 Fique calma, Lola. Vamos cuidar de voc e ficar bem e 
voc mesma vai cuidar da Maria.
 Sabe que isso no  verdade, Carmem. No h cura, todas 
as pessoas que adoeceram morreram rapidamente.
 Sei disso, mas voc  jovem e tem muita vontade de 
viver. Vai ficar boa, mas se algo pior acontecer, Maria vai 
ficar bem! Vamos cuidar dela, no , Rafael?
Rafael no respondeu, pois ouvia a voz de Carmem distante 
e no prestou ateno ao que ela disse. Estava desesperado, 
pensava: 
Meu Deus, ela no pode morrer. O que ser da minha vida 
sem ela? Isso no  justo. Logo agora que nos encontramos e 
que temos tantos planos para o futuro. Faa com que ela 
fique bem.
Carmem, percebendo que ele no a havia escutado, tornou a 
perguntar:
 Nada vai acontecer, no , Rafael? Lola vai conseguir 
superar, estamos quase chegando e ela vai ter ajuda, mas se 
algo acontecer, tomaremos conta da Maria e ela no vai 
precisar ir para um orfanato, no ? 
Rafael, voltando de seus pensamentos ao ouvir o que 
Carmem perguntou, respondeu:
 Ela vai ficar boa, Carmem, nada vai acontecer! 
Lola, que ainda chorava, disse:
 No adianta tentarmos nos enganar, Rafael. J me 
conformei com minha morte, pois sei que no h 
alternativa, mas preciso saber como vai ficar a Maria. A 
Carmem disse que vocs tomaro conta dela, posso confiar 
nisso?
 Voc no pode morrer, Lola.  o amor da minha vida!  a 
mulher com quem sonhei a vida toda e que demorei tanto 
para encontrar...
 Esse tambm  o meu desejo, mas sabemos que ningum 
que ficou doente resistiu, por isso preciso saber, voc tomar 
conta da Maria?
 Voc no vai morrer, mas se acontecer, claro que vou 
tomar conta dela, Lola! Essa menina  como se fosse minha 
filha. Vou fazer tudo para que seja feliz, mas, de preferncia, 
ao seu lado.
Lola, por entre lgrimas, sorriu:
 Obrigada a vocs dois. No entendo por que isso est 
acontecendo, mas a minha maior preocupao  ela. 
Sabendo que ficar bem, posso morrer tranqila.
Ele, com lgrimas nos olhos, tentou abra-la novamente, 
mas ela, outra vez, o afastou:
 No, Rafael, nem voc nem Carmem podem ficar 
doentes. Precisam cuidar da Maria.
Ele no queria aceitar aquilo, mas sabia que ela tinha razo e 
que, infelizmente, no havia cura e que ela morreria logo. 
Fazendo fora para no deixar que lgrimas cassem por seu 
rosto, disse:
 Est bem, Lola, se  assim que quer, vou cumprir o seu 
desejo. Daqui para frente, ficaremos ao seu lado, mas 
tomando cuidado para no nos contagiar, no , Carmem?
 Isso mesmo, Lola. Vamos cuidar de voc, mas distante o 
bastante e tomando cuidado para no nos contagiar. 
Quanto  Maria, no se preocupe. Ela vai ficar bem. Agora, 
vou pegar um pouco de gua e lavar os lugares onde as 
manchas esto. Vamos rezar para que elas no aumentem.
 Obrigada, Carmem, mas, assim como eu, sabe que no vai 
adiantar. Em breve essas manchas se transformaro em 
feridas. A dor e a febre sero imensas. Sei que chegar um 
momento que, por no suportar tanta dor, pedirei a Deus 
para morrer. J vimos isso acontecer muitas vezes.
 No fale assim, Lola! Com voc vai ser diferente! Voc  
forte e seu corpo vai reagir!
Impotente, Lola permaneceu calada, apenas sorriu.
Como o previsto, em poucos dias, as manchas tomou conta 
do corpo de Lola e se transformaram em bolhas. A febre 
tambm aumentou. Eles sabiam que o fim se aproximava. 
Rafael estava inconsolvel:
 Isso no pode estar acontecendo, Carmem! Ela no pode 
morrer, no  justo! Logo agora que parecia que minha vida 
tinha um sentido. No consigo me conformar...
Carmem, tambm chorando, tentava consol-lo:
 Tem razo, Rafael, mas o que podemos fazer. Tantos j 
ficaram doentes e morreram e nada pde ser feito. Tambm 
no entendo por que isso est acontecendo, tambm no 
acho justo, mas o que podemos fazer?
Ele ouvia, mas no conseguia se acalmar.
 Sei que ela no est bem, e, embora no queira que eu me 
aproxime, vou at l e vou ficar com ela, at o ltimo 
momento. No quero desperdiar um momento sequer que 
tiver para ficar ao seu lado.
 Ela no quer que nos aproximemos Rafael, e eu entendo 
seu motivo. Sabe que vai morrer e tem medo de que Maria 
fique sozinha sem ter quem cuide dela e v para um 
orfanato. Ela confia em ns dois para que isso no acontea. 
Sabe que cuidaremos muito bem dela e que, em nossas 
mos, estar protegida.
 Ela nunca ir para um orfanato! Isso nunca vai acontecer, 
Carmem! Vou cuidar dessa menina como se fosse minha 
filha e ao lado da Lola!
 Tomara que ela consiga sobreviver, mas se isso no 
acontecer, se Lola morrer, para que possa cuidar da Maria, 
voc precisa estar vivo, Rafael.
 Voc precisa me prometer uma coisa, Carmem.
 O qu? Pode falar.
 No quero nem acredito que acontea, mas se Lola 
morrer e acontecer alguma coisa comigo, promete que 
cuidar da Maria?
 Nada disso vai acontecer, Rafael! Porm, se acontecer, 
claro que cuidarei dela e vou fazer tudo para que seja feliz, 
mas no ser a mesma coisa. Voc ama Lola e sei que a 
amar a mesma maneira.
 Sei que voc tem razo, mas no posso deixar que Lola 
morra sozinha. Vou at l.
 No adianta Rafael. A ltima notcia que tive foi a de que 
ela est com muita febre, quase inconsciente e delirando. 
No vai ver voc ali.
 No importa! Quero desfrutar de sua presena at o 
ltimo momento.
Sem que Carmem pudesse impedir, ele se levantou e desceu 
para o compartimento inferior, onde os doentes se 
encontravam. 
Ao entrar no compartimento, ele pde notar que j no 
havia muitas pessoas doentes como nos primeiros dias o que 
o levou a pensar:
Parece que a doena est indo embora. Por que, meu Deus, 
teve de atacar Lola? Ela no pode morrer, temos muita 
felicidade pela frente.
Viu Lola que estava deitada em uma esteira. Aproximou-se e 
constatou que, como Carmem havia dito, ela realmente 
parecia inconsciente. Ajoelhou-se e pegou sua mo. Com a 
voz embargada, disse:
 Lola, estou aqui. Como voc est?
Ela estava olhando para o lado. Pareceu no ouvir o que ele 
disse. Para espanto dele, ela sorria. Intrigado, perguntou:
 O que voc est vendo, Lola? Com quem est 
conversando? 
Ela continuou da mesma maneira que estava. Rafael, 
desesperado por entender que ela no estava bem e que o 
fim se aproximava, calou se e, segurando sua mo, comeou 
a chorar.
Lola, por sua vez, continuava olhando e, sorrindo, disse:
 Eu no posso morrer Manolo. Preciso cuidar da Maria...
Ao ouvir aquilo, Rafael se assustou. Ele no podia ver, mas 
ali, ao lado dela, estavam Manolo e dona Isabel que, com as 
mos abertas, jogavam luzes brancas sobre ela. Rafael no se 
conteve e perguntou:
 Com quem voc est falando, Lola?
Ela, parecendo no ouvir, continuou na mesma posio 
anterior. Ele percebeu que no adiantaria insistir, que ela j 
no estava mais ali Entendeu que nada mais lhe restava a 
fazer a no ser chorar e lamentar pelo amor perdido. 
Continuou ali, ao lado dela, segurando sua mo e chorando.
Ela, sem que ele visse ou ouvisse, continuou olhando para 
Manolo que disse:
 No se preocupe Lola. Voc est voltando para casa. Eu e 
dona Isabel estamos aqui para lev-la com segurana. Seu 
tempo terminou, j cumpriu sua misso. Est tudo bem.
Ela se mexeu com violncia, o que assustou Rafael que, 
desesperado, perguntou:
 O que est acontecendo, Lola?
Ela no ouviu o que ele disse. Continuou olhando para o 
mesmo ponto. Manolo continuou falando:
 No se preocupe com Maria. Ela est iniciando sua 
jornada que ser longa. Eu, voc e dona Isabel a 
acompanhamos neste primeiro momento, mas, daqui para 
frente, ter de seguir o seu caminho. Sua misso terminou 
no momento em que a entregou para Rafael e Carmem. 
Cabe a eles darem a ela toda segurana. No sabemos se isso 
vai acontecer, mas estamos torcendo para que acontea. 
Tudo est certo, Lola. Voc teve uma vida terrena muito 
difcil, mas foi necessrio para que os trs pudessem se 
encontrar e, juntos, resgatar erros passados. Tenha calma. J 
est quase na hora. Quando chegarmos a casa, assim como 
aconteceu comigo, que tambm me revoltei por ter morrido 
e ter deixado voc sozinha, conhecer toda a histria, 
entender e ver que foi necessrio que tudo isso 
acontecesse.
Rafael no ouvia o que Manolo dizia, mas percebeu que as 
mos de Lola foram ficando frias. Desesperado, comeou a 
esfreg-las para que se aquecessem. Disse:
 Lola, meu amor, volte para mim! Voc no pode morrer. 
Precisamos realizar os nossos sonhos. No saberei viver sem 
voc... 
Ela, parecendo ouvir o que ele disse, voltou os olhos para 
ele, sorriu e respirou fundo. Ele percebeu que a mo dela 
amoleceu e que rosto comeou a ficar branco, como se no 
houvesse mais sangue. No demorou muito para entender 
que ela havia morrido. Seu desespero foi total. Chorando, 
chamava-a e sacudia-a, tentando reanim-la. Ficou assim at 
que uma senhora que estava ali cuidando dos doentes se 
aproximou:
 No adianta mais, Rafael. Ela se foi.
 No pode ser dona Lcia! Ela no pode morrer! Isso no  
justo, no est certo?
 Voc est nervoso e assustado. Eu entendo, mas o tempo 
 o senhor de tudo. Essa dor logo passar.
 Nunca vai passar! Acabei de perder a nica mulher que j 
amei e que amarei para o resto da minha vida! Por mais que 
o tempo passe, isso no vai mudar!
Dona Isabel estendeu sua mo em direo  garganta de 
Lcia que, sem saber como ou por que, disse:
 Est bem, Rafael. Chore e lamente tudo o que sentir e 
puder. Voc tem esse direito, mas, agora, acho melhor que 
se afaste daqui. Embora parea que a doena foi embora, ela 
 traioeira e voc poder atacado. Suba para o convs e, 
olhando para o mar, diga adeus  Lola. Deixe que v em paz. 
No se esquea de que, um dia, todos ns iremos tambm e 
nos reencontraremos com aqueles que foram na nossa 
frente. Ningum ficar aqui para sempre.
 No quero sair daqui! Quero ficar ao lado dela...
 Se quiser, pode ficar, mas nada mais poder fazer e voc 
ainda pode ficar doente. V para cima e fique ao lado da 
menina dela. Ela, sim, vai precisar do seu amor e proteo. 
Quando Lola ainda estava consciente, ela me disse que voc 
e Carmem prometeram que cuidariam da menina. Faa isso, 
Rafael. Assim, poder demonstrar o amor que sente por ela. 
Faa isso, cuide da menina, pois, somente dessa maneira, 
Lola ficar em paz. Agora v, pois, se continuar aqui e pegar 
a doena, no vai poder cumprir a ltima vontade dela.
Ele pensou por um curto tempo. Depois, disse:
 A senhora tem razo, dona Lcia. No posso ficar doente, 
preciso cuidar da Maria. Falar muito sobre sua me e o 
quanto ela a amava. No que depender de mim, ela crescer 
feliz.
  isso que tem de fazer, Rafael. No entendemos por que 
certas coisas acontecem, mas elas acontecem e s nos resta 
aceitar. Eu mesma estou aqui cuidando das pessoas. No 
tenho medo de ficar doente, mas se acontecer ser at bom. 
Iniciei esta viagem com meu marido e quatro filhos. 
Estvamos esperanosos, mas os cinco ficaram doentes e 
morreram. No sei o que vai ser da minha vida, sozinha, em 
uma terra estranha, mas o que posso fazer? Por no entender 
o motivo de tudo isso ter acontecido e por saber que nada 
pode ser mudado, s me resta esperar e pedir a Deus para 
tambm ficar doente e morrer. Porm, Deus  quem sabe.
Ao ouvir falar em Deus, Rafael olhou para ela que, 
parecendo saber o que ele estava pensando, disse:
 No se revolte contra Deus, Rafael. Ele sabe o que faz. Se 
Lola teve de morrer, algum motivo deve existir. Continue 
sua vida, cuide da menina.
Realmente, ele, que sempre acreditara em Deus, naquele 
momento estava revoltado e duvidando de sua existncia, 
mas, diante do que ela disse se calou. Continuou segurando a 
mo de Lola.
Dona Isabel recolheu a mo.
Rafael, nem por um segundo, poderia imaginar o que se 
passava com ela nem viu que, assim que ela deu o ltimo 
suspiro, seu esprito se desprendeu do corpo e Manolo o 
segurou. Com ela nos braos, ele e dona Isabel desapareceu.
Rafael ficou ali segurando a mo de Lola, deixando que 
lgrimas escorressem por seu rosto. Olhava para aquele rosto 
sem vida que at poucos dias sorria e sonhava com o futuro. 
Por mais o que dona Lcia houvesse lhe dito, por mais que 
quisesse, no conseguia aceitar e pensava:
Isso no est certo. No podia ter acontecido... 
Ao seu lado, sorrindo, sua me jogava sobre ele luzes 
brancas. 
 Fique tranqilo, meu filho. No est sozinho. No 
poderei ficar aqui, mas, mesmo assim, sempre ter 
companhia.
Mandando um beijo com a ponta dos dedos e sorrindo, 
desapareceu.
Lcia voltou a falar:
 Agora, Rafael, voc precisa sair daqui. Sabe o que precisa 
ser feito. Vou preparar o corpo dela para que possamos lhe 
dar o ltimo adeus.
 Ela vai ser jogada ao mar, dona Lcia?
 Sabe que precisa ser assim. Mesmo que pudesse ser 
diferente, no haveria lugar no navio para tantos corpos, 
mas no se preocupe. Acredito que somente o corpo dela 
est aqui, sua alma deve ter ido para outro lugar e com 
certeza bem melhor do que este.
Ele sabia que ela estava certa no que dizia, pois ele mesmo 
havia dito aquelas mesmas coisas para Carmem, quando seus 
pais morreram. Entretanto, naquele momento, seu corao 
estava apertado e era difcil aceitar.
Dona Lcia, com carinho, segurou-o pelos ombros e o 
obrigou a levantar. Ele, sem pensar que poderia tambm 
pegar a doena, deu um beijo na testa de Lola, levantou-se e 
se afastou em direo  escada que o levaria para o convs.
Assim que surgiu no alto da escada, viu Carmem brincando 
com Maria. Pela expresso do rosto dele, ela pde deduzir o 
que havia acontecido. Comeou a chorar.
 Ela se foi, Rafael?
Ele, ainda com lgrimas, respondeu:
 Sim, Carmem, neste momento. O que vai ser de mim 
agora? Como vou viver sem ela?
Carmem no sabia o que dizer. J havia passado por aquilo e 
sabia como doa. 
Abraou-o e tambm comeou a chorar.
Ficaram abraados por algum tempo, tendo Maria no meio 
dos dois. A menina no entendia o que estava acontecendo 
e nem podia imaginar que, daquele momento para frente, 
estava sozinha no mundo.
Ficaram abraados e chorando por muito tempo. Os outros 
passageiros foram se aproximando e tomando conhecimento 
do que havia acontecido. Consternados, mas j acostumados 
com aquela cena, se afastavam e temiam ser o prximo.
Dona Lcia, com carinho, preparou o corpo de Lola que, 
aps uma breve orao feita pelo comandante, foi jogado ao 
mar.
Rafael queria gritar, impedir que aquilo acontecesse, mas 
sabia que nada poderia fazer. Ele estava sozinho. Olhou para 
Maria que estava perto de Carmem e pensou:
Nada pude fazer para evitar que isso acontecesse, meu amor, 
mas, neste momento, diante deste mar e deste sol, prometo 
que cuidarei de sua filha como se fosse minha e que farei 
tudo o que estiver ao meu alcance para que ela seja feliz...
Depois do fim da pequena cerimnia, todos voltaram a 
ocupar seus lugares. Estavam nervosos e assustados, pois 
faltavam ainda alguns dias para chegarem ao destino e 
temiam no conseguir terminai a viagem.

Acordo preocupante

Aps a cerimnia, Rafael, no convs e com os olhos 
perdidos no horizonte, olhava o imenso oceano que parecia 
no ter fim. Embora tivesse conscincia de que tudo aquilo 
havia acontecido, sua cabea e seu corao no conseguiam 
entender nem aceitar:
Isso no podia ter acontecido. Aprendi, desde criana, que 
existe um Deus que  justo, Pai, e que est sempre ao nosso 
lado. Tenho vontade de continuar acreditando, mas como 
posso fazer isso? Como posso aceitar que Ele  pai, justo e 
que est sempre ao nosso lado, se permitiu algo como o que 
aconteceu aqui, neste navio? Como permitiu que tantas 
pessoas que s estavam atrs de um pouco de felicidade 
sofressem da maneira como sofreram e continuam sofrendo? 
Como pde permitir que Lola morresse, logo agora depois 
de uma vida to sofrida, tinha diante de si um futuro feliz ao 
meu lado? Como posso acreditar nesse Deus que fez com 
que eu a conhecesse para depois tir-la de mim? No! No 
posso acreditar! No existe Deus algum, o que existe somos 
ns, pessoas que nascem, vivem e morrem e viram p. Nada 
mais!
Carmem, embora triste com tudo o que havia acontecido em 
sua vida cuidava de Maria, que dormia, e tambm pensava:
Agora, com a morte de Lola, Rafael vai sofrer muito, mas, 
com o tempo, ele vai esquecer e vai voltar a ter paz. Quando 
meus pais morreram, tambm fiquei desesperada, mas, 
agora, vendo que no h nada que eu possa fazer, s me 
resta aceitar e seguir vivendo. Porm, por mais que pense, 
no consigo entender por que tudo isto est acontecendo. 
Tantas famlias desfeitas, tantas pessoas sozinhas. Pessoas 
que esto indo para um pas desconhecido sem saber 
realmente o que vo encontrar. Como nunca fui educada 
para tomar deciso, como vou poder levar a minha vida e 
cuidar dos meus irmos? 
Olhou para Maria que, sonhando, sorria e continuou 
pensando: 
Rafael tambm est l pensando e tenho certeza de que, se 
no estiver pensando o mesmo que eu, deve estar pensando 
algo parecido. O que ser da nossa vida? O que vamos 
encontrar quando chegarmos ao nosso destino? No sei... 
no sei...
Maria acordou e comeou a chorar. Ela pegou a menina no 
colo e disse:
 Sei que est chorando por ter acordado e por no ver sua 
me. Voc no pode imaginar o que est acontecendo em 
sua vida nem o que ser do seu futuro. Est com fome? Vou 
tentar encontrar algo para que voc coma. Sei que o que h 
aqui no  suficiente para que uma criana cresa saudvel, 
mas  tudo o que temos.
Segurando a menina pela mo, foi em busca de um dos 
tripulantes que, aps ouvir o que ela disse, falou:
 Sabe que no temos muita comida, mas vou ver o quer 
posso fazer.
Saiu dali, pouco depois, voltou trazendo um pouco de 
smola e gua. Constrangido, disse:
 Foi a nica coisa que consegui.
 Est bem e agradeo. Embora no seja muito, servir para 
que ela se alimente por algum tempo.
Ele sorriu sem vontade e saiu dali.
Carmem misturou a gua na smola e deu para Maria, que 
comeu com vontade.
O tempo foi passando. Carmem continuou cuidando de 
Maria e dos irmos que, por serem jovens, estavam 
assustados com tudo o que havia acontecido. Rafael, por sua 
vez, ficava calado o tempo todo, s pensando.
Na noite anterior  chegada, o comandante, do alto do 
navio, falou para aqueles que estavam no convs:
 Amanh pela manh, chegaremos ao porto. No posso 
lhes dizer o que vai acontecer com cada um, pois, nas outras 
viagens que fiz, no houve problema algum e, assim que 
chegamos, todos foram levados a um lugar e encaminhados 
ao destino. Desta vez  diferente. Com a doena que tomou 
conta do navio, serei obrigado a comunicar s autoridades e 
s elas sabero o que fazer.  preciso que todos tenham seus 
documentos s mos para que possam ser apresentados.
Quando terminou de falar, percebeu que as pessoas 
comearam a conversar entre si. Por estar em um lugar mais 
alto, no conseguiu entender o que estava acontecendo. 
Pediu a um dos tripulantes que estava ao seu lado para que 
descesse e fosse ver o que estava acontecendo. O tripulante 
obedeceu, desceu e logo depois voltou, dizendo:
 Esto preocupados porque muitos, durante a tempestade, 
perderam os documentos. No sabem o que acontecer com 
eles.
O comandante, com a voz grave, disse:
 Como havia dito, nunca em viagem alguma que fiz, tive 
problemas como tive nesta. No sei o que acontecer com 
aqueles que no tm documentos, mas, assim que 
chegarmos, falarei com as autoridades, contarei o que 
aconteceu e, provavelmente, eles entendero e daro 
documentos novos, bastando para isso que vocs dem os 
seus nomes.
Abatidos e cansados, ouviram com felicidade o que ele disse. 
No sabiam o que encontrariam nem o que seria feito com 
eles, mas tinham esperana de que teriam assistncia, um 
banho decente e, quem sabe, uma comida melhor.
Carmem e os irmos tambm estavam felizes por terem 
conseguido chegar. Rafael tambm estava e pensava:
Ainda bem que chegamos.  uma pena, Lola, que voc no 
est aqui para sentir a mesma emoo que estamos sentindo. 
Eu, por minha vez, embora preferisse ter morrido tambm, 
vou continuar vivendo e cuidando de Maria. Farei o possvel 
para que ela tenha uma vida feliz.
Aps abraar os irmos, Carmem olhou para Rafael para 
abra-lo tambm. Percebeu que ele estava com o 
pensamento distante. Ao lado de Maria, aproximou-se dele:
 Finalmente chegamos, Rafael. Vamos torcer para que 
tudo o que foi prometido naqueles folhetos seja realmente 
verdade.
 Sim, Carmem, agora  que vamos ver.
 Rafael, estive pensando.
 Em que, Carmem?
 O que vamos fazer com a Maria?
 Ela vai ficar comigo e com voc.
 Sim, mas como vamos fazer isso?
Ele pensou por um momento, depois disse:
 Vai ficar e pronto. Lola, antes de morrer, pediu que 
cuidssemos dela e  isso que vamos fazer.
 Claro que vamos cuidar dela, mas no pode ser assim, 
Rafael. Se contarmos s autoridades que sua me morreu na 
viagem, eles vo lev-la para um orfanato.
 Eles no podem fazer isso, Carmem! Lola, antes de 
morrer, pediu para que cuidssemos dela!
 Pode ser que eles aceitem a nossa palavra, mas se no 
aceitarem? O que poderemos fazer?
Ele, ao mesmo tempo em que pensava, comeou a ficar 
nervoso. Carmem, tambm aps pensar, disse:
 S vejo uma soluo, Rafael.
 Qual, Carmem?
 Como vrias pessoas perderam os documentos na 
tempestade e o comandante disse que basta dizer os nomes e 
cada um ter novos documentos, podemos dizer que 
perdemos os documentos, que somos casados e que Maria  
nossa filha.
 Isso no pode ser Carmem.
 Por que no?
 Se fizermos isso, estaremos casados e no acho justo com 
voc.
 No estou entendendo, Rafael.
 Sabe que, depois de casados, nunca mais poderemos nos 
separar. Somos amigos, mas nunca poderemos viver como 
marido e mulher. Voc  jovem e bonita, se aparecer 
algum de quem goste, no poder se casar e seguir sua 
prpria vida.
 Voc acha que, depois de tudo o que passei, de ter sido 
dominada por meu pai, de nunca ter tido liberdade, vou 
querer me casar para ter um homem que comande a minha 
vida? Isso no vai acontecer, nunca vou me casar.
 Est dizendo isso agora, mas, com o tempo, sentir 
necessidade de ter algum ao seu lado e, quando isso 
acontecer, estar presa a mim, que nunca poderei lhe dar 
amor. Amizade, sim, mas amor, no, Carmem.
 No estou pensando em ns, Rafael, mas na Maria. 
Precisamos tomar uma deciso. Depende disso o destino 
dela. No penso em me casar ou ao menos ter algum, mas 
se, e quando acontecer, vamos encontrar uma soluo. Por 
enquanto, nossa prioridade  Maria.
Rafael estava confuso. Sabia que uma deciso como aquela 
poderia afetar suas vidas para sempre. Depois de pensar por 
um tempo, disse:
 Tem razo, Carmem. Vamos fazer isso. Maria estar 
protegida ao nosso lado e ser criada com todo amor e 
carinho.
Carmem sorriu e abraou Maria com mais fora. No dia 
seguinte, ao olharem para o horizonte, viram terras muito 
verdes. Rafael disse:
 Estamos chegando, Carmem. Tomara que tudo d certo. 
Preciso ganhar muito dinheiro para dar a Maria tudo o que 
merece.
 Sinto que tudo vai dar certo, Rafael. Vamos ganhar muito 
dinheiro e, depois, voltaremos para casa. Com dinheiro, no 
existe melhor lugar para se viver. L est a nossa raiz, os 
nossos amigos.
Um pouco mais tarde, viram que uma pequena cidade se 
aproximava. Viram casas e prdios baixos.
O navio atracou. O comandante, daquele lugar alto no qual 
sempre conversava com os passageiros, avisou:
 Chegamos. Agora, precisamos desembarcar com calma. 
Primeiro eu, para conversar com as autoridades. Depois, 
todos desembarcaro e devero ser encaminhados. Os 
doentes vo desembarcar primeiro para que possam ser 
atendidos. Depois, em ordem, ser a vez de todos. Espero 
que tudo o que passaram seja esquecido e que tenham muita 
sorte nessa terra.
Os passageiros estavam animados. Pegaram suas coisas e 
ficaram Esperando a hora de poderem desembarcar.
Rafael, Carmem e seus irmos permaneceram juntos. Ela 
ficou o tempo todo com Maria segura pela mo. Tinha 
avisado aos irmos sobre o que ela e Rafael haviam 
combinado. Eles, que tambm gostavam da menina, assim 
como todos os passageiros, concordaram e prometeram 
apoiar a histria.
O comandante, como havia dito, foi o primeiro a 
desembarcar. A escada de ferro do navio foi baixada. Em 
terra, foi recebido por um policial. Os passageiros, que a 
tudo acompanhavam, perceberam que, enquanto ele falava, 
o policial demonstrava preocupao em seu rosto. 
Deduziram que devia ser por saber da doena que havia 
tomado conta do navio. Ficaram conversando por um bom 
tempo, depois o policial se afastou e o comandante voltou 
para o navio. Disse:
 Conversei com o policial responsvel pelo desembarque 
de vocs e contei sobre a doena. Ele ficou preocupado e foi 
perguntar aos seus superiores o que pode ser feito. Ele disse 
que talvez no tenhamos ordem para desembarcar. Vamos 
esperar que volte com uma soluo que seja outra.
Ao ouvirem aquilo, um enorme murmurinho tomou conta 
do navio. Todos, desesperados, falavam ao mesmo tempo. O 
comandante, ao ver aquilo, disse:
 Eu disse que talvez isso possa acontecer. Quem disse foi o 
policial, mas s quem poder tomar essa deciso ser um 
superior seu. Vamos nos acalmar e esperar.
Aquilo fez com que os passageiros fossem tomados pelo 
desespero. No queriam nem imaginar ter de voltar naquele 
mesmo navio no qual haviam sofrido tanto e, o pior, 
deixarem seus sonhos para trs.
O tempo foi passando e o policial no voltava. Algumas 
horas depois, embarcaram no navio cinco mdicos 
acompanhados por enfermeiras que foram examinar 
aqueles que ainda estavam doentes. No eram muitos, mas 
precisavam de ateno.
Aps examinar, um dos mdicos, nervoso, disse ao 
comandante:
 Examinamos os doentes e deduzimos que, pior que a 
doena,  a condio de falta de higiene neste navio. Como 
o senhor trouxe essas pessoas nessas condies?
 Pelo preo que me pagaram, no poderia oferecer coisa 
melhor. Alm do mais, meu navio  um cargueiro, no  de 
passageiro.
 Por isso mesmo, o senhor no deveria ter aceitado trazer 
pessoas. Isso foi uma irresponsabilidade.
 Durante a viagem e diante da doena, tambm pensei 
isso, mas nunca havia acontecido coisa igual e j viajei 
muito.
 Bem, agora no adianta lamentar. No deveria, mas foi 
feito. Ainda no sabemos que doena  essa. Precisam ser 
feitos alguns exames. Por enquanto, vou providenciar 
remdios para os doentes, assim, no sentiro tanta dor. As 
enfermeiras os limparo e passaro pomadas nas leses.  
preciso que o navio seja lavado e pintado. Forneceremos cal 
para isso. Os que esto doentes permanecero aqui, s que 
em um compartimento mais limpo e arejado. Quanto aos 
outros, no podemos permitir que desam e tenham contato 
com a populao da cidade, mas tambm no podero 
continuar no meio de tanta sujeira. Continuaro no navio 
por mais alguns dias. Veremos se a doena deixa de atacar, 
mas, diante das condies do navio, realmente isso no  
possvel, pois ela faz com que a doena tenha facilidade de 
se espalhar. Precisamos providenciar um lugar para que 
possam ficar afastados, sim, mas com uma condio de vida 
melhor. Vou comunicar aos meus superiores o que vi aqui e 
o senhor ter notcias do que foi decidido.
Aquilo fez com que os passageiros fossem tomados pelo 
desespero.
No se imaginavam ter de ficar nem mais um minuto 
naquele mesmo navio no qual haviam sofrido tanto.
Mais de trs horas depois, o comandante foi avisado que 
deveria descer. Ele, sob os olhos nervosos e assustados dos 
passageiros, desceu. 
Enquanto descia, os passageiros foram para o lado do navio 
em que ele descia e ficaram olhando. Os passageiros viram 
que o primeiro policial, agora, estava acompanhado por mais 
dois homens. No conheciam a graduao dos policiais, mas, 
por seu uniforme, parecia ser uma autoridade maior.
Assim que o comandante chegou junto aos policiais, 
perguntou:
 O que foi decidido? Meus passageiros podem 
desembarcar? Aquele que, por suas estrelas, parecia ser o 
mais graduado, respondeu:
 Estivemos todo esse tempo tentando encontrar uma 
soluo. Algo como isto nunca havia acontecido. Sabemos 
que no h como impedir que essas pessoas desam nem 
podemos mand-las de volta.
 Com certeza. Isso no pode acontecer. Eles sofreram 
muito durante a viagem e no conseguiriam.
 O senhor, como comandante, sabe bem o que eles 
passaram, ns s podemos imaginar. Por isso, sabemos que 
no seria humano exigir isso deles.
O policial balanou a cabea concordando e continuou 
falando:
 Por outro lado, tambm temos medo de que essa 
epidemia se espalhe pela cidade. Depois de conversarmos 
muito, chegamos  concluso de que, embora no seja o 
ideal, o melhor que podemos fazer  esperar que os mdicos 
faam uma avaliao. S a poderemos tomar providncias. 
No temos como oferecer comida de qualidade para tantas 
pessoas, durante muito tempo. Por isso, s podemos 
oferecer leite, caf, acar, folhas e legumes para que possa 
ser preparada sopa. Infelizmente, o tempo que ficarem aqui 
tero de se alimentar s com isso.
No tero boa alimentao nem muito conforto, mas  tudo 
que, em uma emergncia como esta, pode-se fazer. Alm do 
mais, embora tenham de sofrer por mais algum tempo, ser 
melhor do que voltarem para a Espanha. Logo mais, alguns 
mdicos e enfermeiras subiro no navio para cuidarem dos 
doentes. Os demais tero de esperar at que consigamos 
providenciar todo o necessrio.
 Quanto tempo vai levar para que possam ser liberados?
 No posso precisar, pois as providncias que tero de ser 
tomadas so muitas. Vai ser difcil transformamos os 
galpes em dormitrios, mas faremos o possvel para que 
no demore muito.
 Depois que estiverem instalados, quanto tempo acha que 
vai levar para que possam seguir at os lugares de trabalho?
 Isso quem vai decidir sero os mdicos.
Aps dizer isso, despediu-se do comandante e foi embora.
O comandante retornou ao navio e, do mesmo lugar de 
sempre, comunicou aos passageiros aquilo que havia 
conversado. Quando terminou, novamente o murmurinho 
recomeou. Alguns ficaram desesperados, pois no 
suportavam mais ficar no navio. Outros tambm estavam 
desesperados, pois queriam pisar em terra firme. 
Novamente, o comandante teve de tomar uma atitude firme 
e, com a voz grave, disse:
 Ningum melhor do que eu, sabe o que esto sentindo, 
mas precisam entender que as autoridades brasileiras esto 
fazendo o melhor que podem. Poderiam, simplesmente, 
impedir que desembarcssemos. Ao contrrio, resolveram 
nos ajudar da melhor maneira possvel. Precisamos ter um 
pouco mais de pacincia
Aos poucos, todos foram se acalmando. Carmem, segurando 
Maria pela mo, disse:
 Como est difcil chegarmos  terra dos sonhos, Rafael. 
Tomara que valha a pena.
 Tomara Carmem... Tomara...
Ficaram no navio. Ansiosos e com pacincia, que j quase 
no tinham mais. Esperaram a notcia, to desejada, de que 
poderiam desembarcar, pisar novamente na terra.
Algumas horas depois, os mdicos e as enfermeiras voltaram 
e foram at os doentes. Limparam e fizeram curativos nas 
feridas e deram remdios para que no sentissem mais dor. 
Enquanto isso era feito, um dos mdicos disse ao 
comandante:
 Estamos cuidando daqueles que apresentam sintomas. 
Eles no podero ter contato com os demais passageiros. As 
enfermeiras devidamente protegidas, cuidaro deles e os 
alimentaro. Isso precisa ser feito para evitarmos futuros 
contgios. Os demais, por enquanto no podem ter contato 
com a populao da cidade. Precisaro ficar no navio por 
mais quarenta dias. S a, se ningum mais ficar doente, 
podero desembarcar e ser encaminhados. Providenciarei 
para que seja trazido para o navio gua, sabo e bacias para 
que as pessoas possam tomar banho e lavar suas roupas. 
Essas esteiras onde dormem precisam ser levadas a terra para 
serem queimadas. Colches esto sendo providenciados e, 
por isso, durante algum tempo, tero de dormir sem elas, 
mas sob roupas que cada um deve ter. As roupas tambm 
tero de ser lavadas com gua e sabo. Como aqui o sol  
forte, no tero problema algum para secar. Vou comunicar 
aos meus superiores como tudo est encaminhando. O 
senhor deve providenciar para que tudo o que eu falei seja 
cumprido, para o bem de todos. Logo ter notcias.
Os mdicos desceram, as enfermeiras continuaram cuidando 
dos doentes.
O comandante comunicou aos passageiros o que havia 
conversado com o mdico. Claro que o desespero foi geral, 
mas, por outro lado, sabiam que no havia o que fazer. S 
restava esperar.
Tripulao e passageiros lavaram todo o navio e passaram 
uma mo de cal. Com isso, esperavam que a doena no 
encontrasse um ambiente propcio e fosse embora. O 
trabalho ajudou a no sentirem, com tanta intensidade, o 
tempo passar. Aquelas providncias deram certo. Muitos 
daqueles que chegaram doentes, vivendo em um ambiente 
limpo e com tratamento adequado, conseguiram sobreviver.
Rafael se entregou de corpo e alma ao trabalho. Estava triste 
e sem vontade de conversar. Carmem tentava fazer com que 
ele se animasse:
 Embora tenhamos de esperar mais alguns dias, Rafael, 
estamos aqui e teremos uma vida melhor. Ao menos, temos 
sopa para comer e gua para tomar banho. No suporto mais 
o cheiro de sujeira que sai, no s do meu corpo, como do 
de todos.
 Quando entrei neste navio, tinha muita esperana de 
encontrar a felicidade, mas essa esperana se foi, Carmem. 
Sinto que sem Lola ao meu lado, nunca vou ser feliz.
 No fale assim, Rafael. Tambm perdi meus pais, fiquei 
sozinha com dois irmos, quase crianas, mas no 
desanimei.  impossvel que no vamos ter um pouco de 
felicidade nesta vida.
 J pensei vrias vezes se vale a pena continuar vivendo. 
No sei, Carmem, sinto uma vontade imensa de morrer e ir 
me encontrar com a Lola. O que mais posso esperar desta 
vida?
 No sei o que podemos esperar, mas acho que devemos 
viver para ver.
 No sei Carmem... No sei. Embora esteja vivo na 
realidade, minha vida terminou no dia em que Lola morreu. 
Nada mais me resta...
Maria, que estava sentada no cho, ao lado deles, se levantou 
e, sorrindo, abriu os bracinhos para Rafael e jogou-se sobre 
ele que, surpreso, abraou-a, chorando.
 Preciso viver por voc, pequena... Prometi a sua me...
A menina, embora no entendesse o que aquelas palavras 
queriam dizer, abraou-o com fora.
Carmem acompanhou aquela cena e no resistiu, tambm 
permitiu que lgrimas cassem por seu rosto.
Sem alternativa, continuaram no navio. Com as verduras e 
legumes oferecidos pelo governo brasileiro, alimentaram-se 
somente com sopa, mas, para eles que haviam passado tanta 
privao, parecia um manjar dos deuses.
Quase um ms se passou sem que houvesse notcia alguma 
de como ficariam. No houve mais casos de doena. Aqueles 
que estavam doentes e morreram foram retirados. Os outros 
continuaram sendo atendidos pelos mdicos e enfermeiras.
Mesmo parecendo que nunca chegaria ao fim, a quarenta 
terminou. No dia anterior, o policial embarcou e conversou 
com o comandante:
 Parece que a doena foi dizimada, pois no houve mais 
casos. Os mdicos autorizaram o desembarque.
O comandante ficou eufrico:
 At que enfim! Depois que desembarcarem, poderei 
seguir viagem! Perdi muito tempo com esse povo todo! 
Nunca mais vou carregar passageiros no meu navio. O 
dinheiro que me pagaram no compensou!
O policial, mesmo com raiva daquele homem que s 
pensava em dinheiro, continuou:
 Assim que desembarcarem, todos tero de mostrar os 
documentos para que possam entrar no pas.
Alguns passageiros que estavam prximos e ouviram o que 
ele disse comearam a murmurar. O policial, sem entender o 
que estava acontecendo, curioso, perguntou para o 
comandante:
 O que est acontecendo?
 Esto preocupados, pois alguns, durante a tempestade que 
tivemos de enfrentar, perderam seus documentos.
O policial pensou por algum tempo, depois, disse:
 No precisam se preocupar. Sabemos que todos so 
espanhis E que se esto aqui  porque j tm um destino 
certo, algum tipo de contrato ou uma carta de chamada. 
Quem tiver documentos, a carta ou o contrato de trabalho, 
deve apresent-los. Aquele que no tiver, d o seu nome e 
providenciaremos novos documentos.
Todos respiraram aliviados. Carmem olhou para Rafael e 
sorriu. O plano deles estava dando certo. O policial 
continuou:
 Assim que receberem os documentos, sero 
encaminhados a uma hospedaria destinada aos imigrantes 
que chegam. Ficaro por uma noite e amanh, bem cedo, 
sero levados at a estao de trem e seguiro para So 
Paulo. De l, cada um seguir o seu destino. No se 
esqueam de pegar os seus pertences.
Depois de dizer isso, sorriu e desceu do navio.
Novamente o murmurinho comeou. S que, agora, era de 
euforia. Felizes e com o corao cheio de esperana, 
comearam a arrumar seus pertences.
No dia seguinte, como o policial havia dito, logo pela manh 
comearam a desembarcar. Em mesas espalhadas, logo na 
sada, aqueles que tinham, apresentaram seus documentos, 
os que no, davam os nomes e uma autorizao de entrada 
lhes era dada.
Quando chegou a vez de Rafael e Carmem, eles disseram 
que haviam perdido os documentos. Um homem, falando 
em espanhol, perguntou:
 So uma famlia?
Carmem, seus irmos e Rafael se olharam. Ele respondeu:
 Sim. Eu, minha mulher, seus irmos e nossa filha. Meus 
sogros nos acompanhavam, mas morreram com a doena.
 Muito bem. Vocs ao menos sabem para onde esto 
indo?
 Sim, para a fazenda Pinheiral na cidade de Oeste Grande.
 Muitos esto indo para essa fazenda.
 O dono dela, antes de vir para o Brasil, morava em nossa 
cidade.
 Tm contrato de trabalho?
 Tinha, mas se perdeu junto com os outros documentos.
 Est bem. Os nomes, por favor.
Rafael deu seu prprio nome. No de Carmem acrescentou o 
seu. Os irmos tambm deram seus prprios nomes e o de 
Maria recebeu o sobrenome de Rafael.
O homem foi anotando. Colocou Rafael como chefe da 
famlia, Carmem como sua esposa e Maria como sua filha. 
Os irmos de Carmem, como uma nova famlia. O homem 
entregou alguns papis para Rafael, dizendo:
 Com estes documentos no tero problema algum. Pela 
quantidade de pessoas que esto indo para essa fazenda, 
acredito que, quando chegarem a So Paulo, ter algum 
para contat-los e lev-los at ela, mas se no tiver ningum, 
podero ficar por alguns dias em uma hospedaria reservada 
para vocs at conseguirem entrar em contato com seus 
empregadores.
 Obrigado, senhor.
O senhor sorriu e continuou:
 Agora sigam essa fila e chegaro  hospedaria.
Tanto as pessoas que os conheciam, por morarem na mesma 
cidade, como aqueles que no os conheciam, mesmo 
diante daquela mentira, entenderam e se calaram. 
Conheceram Lola e sabiam que, antes de morrer, ela havia 
pedido para que eles tomassem conta da menina.
Com os documentos na mo, se retiraram, felizes. Longe do 
homem, abraaram-se, rindo. Rafael, abraando Maria, disse 
rindo:
 Agora voc  minha filha e ser muito feliz! Sempre 
estarei ao seu lado! Vou cumprir o que prometi a sua me. 
Agora, voc precisa prestar bem ateno no que vou dizer. 
Sabe que sua me est no cu, mas ela, antes de ir, pediu 
para eu e a Carmem cuidarmos de voc. Para que isso possa 
acontecer sem problema, e possa ficar ao nosso lado para 
sempre, de hoje em diante, voc precisa me chamar de pai e 
Carmen de me. Entendeu o que eu disse?
A menina, sem entender o que estava acontecendo, mas 
percebendo que ele estava feliz, riu e o abraou com 
carinho.
 Est bem, pai.
Carmem ouviu e viu aquilo, mas permaneceu calada. Maria, 
ainda rindo, voltou-se para ela e, abraando-a, disse:
 Me...
Carmem, diante da felicidade de Rafael, abraou-a e, 
sorrindo, disse:
 Sou sua me, Maria, e vou ser a melhor do mundo... 
Juntos, seguiram para o local que lhes era indicado.

Intenes reveladas

Seguindo a fila apontada pelo senhor, chegaram a um galpo 
grande com corredores separados por armrios. Em cada 
corredor, havia muitas camas. As pessoas foram 
encaminhadas para um dos corredores. Cada famlia tinha o 
direito de usar um dos armrios, onde guardaram suas 
poucas coisas.
Rafael conduziu sua nova famlia. Carmem, sempre 
segurando Maria pela mo, acompanhou Rafael e os irmos. 
Assim que chegaram s camas que seriam deles por aquela 
noite, Pepe, um dos irmos de Carmem, se jogou sobre ela e 
disse feliz:
 At que enfim uma cama decente para se dormir! Minhas 
costas no agentavam mais dormir naquele cho duro!
Todos riram e seguiram o exemplo dele. Por alguns minutos, 
ficaram deitados, saboreando aquele momento de felicidade. 
Aps algum tempo, Carmem disse:
 Depois de me deitar em uma cama de verdade, o que 
mais desejo e preciso  tomar um banho decente.
 Todos ns precisamos, minha irm.
 Ser que tem um lugar reservado para isso, Rafael?
 Deve ter. Esperem aqui, vou me informar.
 Est bem. Enquanto isso, vou abrir as malas e tirar 
algumas roupas para que possamos nos trocar. Ainda bem 
que temos roupas limpas. Como vamos ficar aqui s por um 
dia, no tirarei todas.
Pepe disse:
 Tambm vamos com voc, Rafael. Venha, Pedro. Vamos 
ver como  tudo por aqui.
Os homens saram. Carmem se levantou para pegar as 
roupas. Maria continuou deitada sobre a cama.
 Agora voc vai ficar bem quietinha. Vou pegar um 
vestido bem bonito para voc colocar.
A menina, sem entender o que estava acontecendo, 
obedeceu e ficou deitada, quieta, apenas observando tudo.
Depois de algum tempo, eles voltaram. Rafael se aproximou 
da cama onde Carmem estava deitada ao lado de Maria. 
Disse:
 Encontramos o lugar onde as pessoas tomam banho. Tem 
um enorme fogo a lenha com caldeires grandes onde a 
gua fica esquentando. Existem vrias bacias. Basta pegar a 
gua, misturar com um pouco de gua fria e levar para um 
compartimento separado por lonas. No  muito 
confortvel, mas bem melhor do que o que tnhamos no 
navio.
Ao ouvir aquilo, Carmem se assustou:
 Separados por lona? As pessoas no podero nos ver?
 Sim, Carmem, basta levantar a lona, mas para que tenham 
tranqilidade, vamos para l. Enquanto um toma banho, o 
outro vai ficar tomando conta para que nada acontea.
Embora soubessem que no era o ideal, sabiam tambm que 
no havia alternativa. Precisavam urgente de um banho. 
Pegaram suas roupas e foram para l.
Aps tomarem banho e com roupas limpas, foram 
encaminhados at outro galpo, onde havia grandes mesas e 
bancos feitos de madeira. Viram que uma enorme fila se 
formava diante de outra mesa, tambm muito grande, e que 
as pessoas, com pratos nas mos, passavam. Entraram na fila.
No incio da mesa, havia tigelas feitas de barro e colheres. 
Cada um deles pegou uma tigela e uma colher e continuou 
seguindo a fila. Sobre a mesa, havia vrios caldeires e 
panelas. Conforme iam passando, mulheres colocavam sopa 
em seus pratos. Embora fosse apenas sopa, ela no era rala, 
mas com muitos legumes e folhas.
 Esta sopa parece estar muito boa.
 Tem razo, Pepe. Melhor do que aquela que temos 
comido desde que embarcamos no navio.
 Preferia algumas tortilhas e um copo com vinho.
 Eu tambm, mas depois de toda fome que passamos no 
navio, qualquer prato de sopa como este ser bem-vindo.
As mulheres que serviam comida conversavam entre si. Eles 
no entendiam uma palavra e perceberam que teriam outro 
problema pela frente: aprender o idioma.
Com as tigelas nas mos, foram at uma das mesas, 
sentaram-se e comearam a comer.
Enquanto comia, Rafael disse:
 Vocs viram que aquelas mulheres conversavam e que 
no entendemos palavra alguma. Assim que chegarmos  
fazenda, vamos precisar aprender o idioma, seno, tudo ser 
mais difcil.
 Ser que vamos aprender Rafael?
 Vamos, no, Pedro, precisamos. Sem o idioma, no 
conseguimos nos comunicar e, sem comunicao, no 
conseguiremos nada.
 Ser que na fazenda tem algum que vai nos ensinar?
 Deve ter, Carmem. No se esquea de que o dono  
espanhol e deve se lembrar da dificuldade que teve quando 
chegou aqui sem saber falar portugus.
 Tem razo, Rafael. Ele deve se lembrar. Mas, mesmo 
assim, acho difcil aprender...
 Difcil deve ser, mas nada  impossvel. Ns vamos 
aprender, Carmem. Precisamos vencer nesta terra e voltar 
para a Espanha, vitoriosos. Preciso ganhar muito dinheiro 
para dar  Maria tudo o que ela merece e que prometi a Lola. 
Sei que ela, de onde estiver, deve estar nos ajudando.
Carmem, ao ouvir aquilo, permaneceu calada, apenas 
balanou a cabea concordando.
Depois que terminaram de comer, Pepe disse:
 Vamos caminhar um pouco? Gostaria de ver como  a 
cidade.
 Vamos, sim, no temos outra coisa para fazer. Tambm 
quero conhecer a cidade.
Levantaram-se e comearam a caminhar. Queriam ver o 
mximo que pudessem. Maria, dando as mos para Carmem 
e Rafael, caminhava no meio deles. Carmem disse:
 Estamos aqui, Rafael, ser que tudo vai dar certo?
 Tem de dar, Carmem. Depois de tudo o que passamos, 
no seria justo se no desse.
Saram do galpo e foram para a cidade para ver o que havia. 
Caminharam bastante. Para eles, tudo era novidade. 
Perceberam que a cidade era pequena, com poucas casas, 
mas, ao longe, viram uma serra colorida por flores e folhas 
muito verdes.
 Ser que vamos ter de subir essa serra, Rafael? 
 Vamos, sim. So Paulo fica l no alto.
 Como vai ser feito?
 O homem disse que seria por trem, voc no se lembra?
 Ser que vai demorar muito tempo?
 No sei, precisamos esperar at amanh.
 No vejo a hora de chegarmos  fazenda e podermos 
comear a nossa vida. Tomara que aqui, consigamos muito 
mais do que tnhamos na Espanha.
Pedro, ao ouvir o que ela disse, srio, falou:
 Qualquer coisa que conseguirmos aqui, Carmem, ser 
muito mais do que tnhamos...
 Tem razo, Pedro...
Depois de andarem bastante e verem tudo o que podia ser 
visto, voltaram para o galpo onde estavam as camas.
 noitinha, voltaram ao galpo restaurante para comer, s 
que dessa vez no foi servida sopa, mas uma comida que, 
para eles, era estranha. No lugar das tigelas, havia pratos, 
garfos e facas. Ao passarem pelas mulheres que serviam a 
comida, ficaram olhando. A primeira mulher colocou um 
pouco de arroz. A segunda jogou feijo por cima e a terceira 
um pedao de carne cozida com batatas. Com o prato na 
mo, procuraram um lugar em uma das grandes mesas feitas 
com tbuas. Encontraram e se sentaram. Olhando para o 
prato Pepe agoniado, perguntou:
 Que comida  essa, Rafael?
 No sei, mas, como no tem outra, precisamos comer.        
 Pelo menos conhecemos a batata. 
Comearam comendo, primeiro, as batatas. Como elas 
estavam saborosas pelo molho da carne, comeram a carne e, 
por fim o arroz e o feijo.         
Quando terminaram, um olhou para o outro. Pepe foi quem 
disse:
 Afinal, embora a aparncia seja feia, a comida  boa.         
 Tem razo, Pepe, bem melhor do que a sopa que temos 
comido. 
Aps comerem, foram para o galpo onde estavam as camas. 
Deitaram-se.
Naquela noite, nenhum dos passageiros do navio conseguiu 
dormir. Depois de todo o sofrimento por que passaram 
durante a viagem, finalmente estavam em terra firme, longe 
dos perigos do mar e bem perto de realizarem seus sonhos.
Rafael, deitado de barriga para cima, olhando o teto, tambm 
pensava:
Lola quando resolvi vir para c, nunca imaginei que a 
encontraria,mas a encontrei e tivemos um breve momento 
juntos e que foram de esperana e de felicidade.  
Infelizmente, a nossa esperana, os nossos sonhos no 
deram certo. No sei qual foi o motivo de voc ter ido 
embora. Sinto tanta saudade. Queria estar ao seu lado. Por 
que Lola, por que voc teve de morrer? No entendo. S de 
uma coisa posso ter certeza, sua filha ser muito feliz. Ela  
sua lembrana viva. Nunca me casarei e viverei somente 
para ela. Assim, quando eu morrer, poderemos nos 
encontrar. Infelizmente, voc teve de ir na minha frente, 
mas sei que, um dia, irei tambm.
Para ser sincero, no vejo a hora que esse dia chegue. 
Carmem deitada ao lado de Maria, tambm pensava: 
Finalmente chegamos e, se nada mais acontecer, meu sonho 
foi realizado. Estou casada com Rafael. Isso, desde que eu era 
pequena, foi sempre o que mais desejei. Ele nunca 
demonstrou ter alm de amizade por mim, mas, agora 
estamos casados. Com o tempo, ele vai descobrir que me 
ama, vai ser o meu marido de verdade e vai me enxergar 
como mulher. Nesse dia, serei a mulher mais feliz do 
mundo. Quando me lembro da tristeza que fiquei quando 
ele me disse que ia embora da Espanha, que ia para um pas 
distante e que talvez nunca mais voltasse. Fiquei 
desesperada. No suportava a idia de no o ver nunca mais. 
Lembro-me de que, aps chorar muito, tive uma idia. Fui 
at meu pai e disse:
 Pai o Rafael est indo para o Brasil.
 Brasil, onde fica isso?
 No sei bem, mas parece que  na Amrica do Sul. Ele 
disse que l vai poder ganhar muito dinheiro e que, por 
fora de um contrato, vai trabalhar por um ano em uma 
fazenda. Depois, com o dinheiro que ganhar durante esse 
ano, vai para uma cidade grande. Quer montar o seu negcio 
com ferro.
 Ele trabalha muito bem com ferro, mas isso  sonho, 
minha filha. Pobre no fica rico em lugar nenhum do 
mundo.
 No, pai! Ele disse que viu alguns folhetos. O pas  muito 
grande, tem muita terra e pouca gente para cultivar. Ele 
disse que todos os que foram para l esto ricos.  Isso  
sonho minha filha, somente isso.
 No  no, pai! Ns tambm podamos ir.
 Est louca! Com a minha idade como vou me aventurar 
dessa maneira?
 Velho nada, pai. Aqui no temos mais nada. Perdemos 
nossas terras e logo seremos expulsos da nossa casa. Quando 
isso acontecer, no teremos onde morar. L existe uma 
esperana. Vamos com ele, pai..
 No, Carmem! Isso no  possvel.
 Por que, pai?
 J lhe disse, estou muito velho e voc e seus irmos so 
ainda crianas. Alm do mais, no quero morrer longe 
daqui.
 Por isso mesmo que devemos ir, pai. O senhor diz que  
muito velho, mas no . Nem fale nessa coisa de morrer! Vai 
viver muito tempo ainda! No tem nem cinqenta anos. Eu 
e os meninos somos jovens e poderemos trabalhar muito. 
Com o nosso trabalho, vamos conseguir muito dinheiro e 
poderemos voltar. Com dinheiro, o senhor poder comprar 
um stio maior do que este!
 Pare de pensar nisso, Carmem. No vou sair daqui.
Embora ele dissesse aquilo, no parei de sonhar. No 
conseguia suportar a idia de ficar longe de Rafael, muito 
menos de no o ver nunca mais. Resolvi que, se meus 
irmos me ajudassem, tudo seria mais fcil. Pensando assim, 
fui conversar com eles:
 Pedro, Pepe. O Rafael vai para o Brasil. Ns podamos ir 
junto!
 Brasil? O que ele vai fazer l?
 Ficar rico, Pepe!
 Ficar rico, como?
 L tem muita terra para ser cultivada e poucos 
trabalhadores. Ele disse que muitos que foram j 
conseguiram suas prprias terras!
  verdade?
 Ele disse que sim. Est entusiasmado. Tambm aqui no 
temos mais futuro algum. Sabe como est difcil. Quem sabe 
se, indo para l, no consigamos uma vida melhor!
Eles pensaram por um tempo. Pepe disse:
 No sei, Carmem. A idia parece ser boa. Aqui no temos 
mais nada. Mas o pai nunca vai querer ir e muito menos vai 
nos deixar ir sozinhos.
 Sei disso, mas se todos falarmos com ele, vai ter de 
aceitar. Deixe isso por minha conta. O importante  que 
queiram ir e que me ajudem a convencer o pai.
 No sei no, tenho s quinze anos. No sei se vou 
conseguir viver em um pas estranho.
 Por isso mesmo, Pepe! Por ter s quinze anos  que deve 
ir. Tem muito tempo pela frente.  forte, poder trabalhar 
bastante e conseguir muito dinheiro! Voc tambm, Pedro. 
Com treze anos, poder voltar para c, comprar um stio s 
seu, um cavalo, uma carroa nova e quem sabe at tua 
carruagem! J imaginaram a cara das mocinhas quando 
virem vocs andando de carruagem s suas?
Eu sabia que aquilo que estava dizendo era o sonho de todo 
adolescente. Por isso, insisti por muitos dias, at que 
concordaram. Juntos, fomos falar com meu pai.
 Pai, eu e os meninos estivemos conversando e no 
achamos justo que o senhor faa com que percamos a 
oportunidade de ficarmos ricos.
 O que est falando, Carmem?
 Estou falando que, se formos para o Brasil, poderemos 
ficar ricos e, dentro de alguns anos, vamos voltar com muito 
dinheiro.
 Voc enlouqueceu, mesmo! J conversamos sobre isso.  
impossvel!
 Impossvel, por qu?
 J lhe disse que estou velho e que no posso me 
aventurar em uma viagem como essa!
 No est velho, nada, pai! Ainda  forte e poder 
trabalhar muito!
 No posso fazer isso...
 Pode, sim, pai! Sei que no vai se arrepender! Os meninos 
acompanhavam a conversa. Em dado momento, Pepe disse:
 Pai, sabe que aqui no temos futuro algum. Por isso, se 
existe mesmo a oportunidade de ficarmos ricos, o senhor 
no pode impedir. No queremos ser como o senhor que 
trabalhou a vida toda e no conseguiu nada e que agora 
perdeu suas terras e a casa em que mora e que construiu 
com tanto trabalho. Precisamos ir...
Ao ouvir aquilo, meu pai, ficou pensativo, depois disse:
 Est bem, vou pensar. Depois eu dou uma resposta.
Saiu da cozinha onde estvamos e foi para o quarto. Ns 
ficamos esperando, cruzando os dedos para que aceitasse. 
Durante quatro dias, ele ficou pensativo e quase no falava. 
Eu no toquei mais no assunto e, seguindo o meu conselho, 
meus irmos tambm no. No quinto dia, logo pela manh 
enquanto tomvamos caf, ele, com o rosto srio, disse:
 Pensei bastante a respeito dessa viagem que querem 
fazer. Para mim,  uma loucura, pois estou velho, mas, para 
vocs que so jovens, pode representar um futuro melhor. 
No sei se o que esto dizendo  verdade. Se realmente 
existe tanto dinheiro assim nesse pas, nem se dar certo, 
mas se  o que desejam, que seja feito. No tenho o direito 
de impedir que vocs, meus filhos, tenham a oportunidade 
de ter uma vida melhor do que foi a minha. Vamos vender 
tudo o que restou de mveis e animais. Vamos nos 
aventurar nessa viagem. Deus  quem sabe o que vai 
acontecer, se  para o melhor ou pior.
Sem conseguir nos conter, nos atiramos sobre ele e o 
beijamos com carinho. Minha me, que acompanhou tudo o 
que aconteceu, embora no pudesse dar opinio por ser 
mulher, tambm estava com medo, mas sabia que era a 
nica sada que havia para uma vida melhor. Eu no cabia 
em mim de felicidade. Alm de no ficar longe de Rafael, 
poderia, com o tempo, conquist-lo. Muitas vezes me senti 
culpada pela morte deles. Sei que, se tivessem continuado na 
Espanha, no teriam morrido. Depois de muito pensar, 
resolvi que vou aceitar o que todos dizem: foi a vontade de 
Deus e todos morrem na hora certa. No entendo por que 
isso aconteceu e no aceito, mas nada posso fazer. Sinto falta 
deles, porm a vida precisa continuar. Neste momento, o 
que mais me interessa  conquistar Rafael e fazer com que se 
torne meu marido de verdade.
Maria, que estava deitada ao lado dela, se mexeu: Ela olhou 
para a menina e continuou pensando: Ainda bem que sua 
me morreu. Com sua morte e deixando voc, me deu a 
oportunidade de realizar meu sonho. O que me preocupa 
agora  a sua presena. Sei que, enquanto estiver por perto, 
Rafael no vai esquecer sua me. Preciso pensar em uma 
maneira de tirar voc da nossa vida para sempre. Assim que 
chegarmos  fazenda, me dedicarei a isso...
Rafael, que estava deitado na outra cama, viu quando Maria 
se mexeu e perguntou:
 Ela est bem, Carmem?
Tentando evitar dizer o que ela pensava realmente, 
respondeu:
 Est, sim, Rafael No se preocupe.  uma menina muito 
forte e lutadora.
  verdade, Carmem. To forte como foi sua me. Embora 
esteja feliz por estar aqui, tambm estou triste pela Lola no 
estar aqui ao meu lado. Sinto que nunca mais vou conseguir 
gostar de outra pessoa. Por isso decidi que me dedicarei 
totalmente a Maria. Vou viver por ela, para que cresa e seja 
feliz.
Aquelas palavras pareceram flechas que a atingiam 
mortalmente, mas, disfarando o que sentia e pensava, disse:
 Faa isso, Rafael... faa isso. Agora, vamos tentar dormir. 
Amanh, teremos um dia longo. A viagem parece ser 
demorada.
 Tem razo. Pelo menos agora, estamos perto. Sinto que 
assim que chegarmos  fazenda, nossa vida mudar.
 Espero que seja para melhor, Rafael.
 Vai ser, Carmem. Tomara que esta noite passe bem 
depressa. 
Carmem sorriu e, olhando para Maria que dormia, pensou: 
No tem jeito mesmo, preciso encontrar uma maneira de 
tirar voc da nossa vida. S assim ele vai se esquecer da sua 
me.
Olhando para Rafael que estava com os olhos fechados, 
pensou: 
Pode pensar o que quiser, mas tenho certeza de que vou 
fazer com que me ame e seja meu marido de verdade, voc 
vai ver...
 
Fim da viagem

Embora no fosse o desejo deles, a noite demorou a passar. 
Dormiam e acordavam a todo instante. Estavam ansiosos 
para, finalmente, chegarem ao destino e poderem ganhar 
muito dinheiro, pois, s assim, poderiam voltar. Rafael, 
olhando para o lado e vendo Maria dormir, pensou:
Se sua me estivesse aqui, estaria muito feliz e eu tambm. 
No sei por que voc nasceu e perdeu os pais to cedo. No 
sei por que veio parar nos meus braos, mas no importa. 
Voc  minha filha e a amo muito.
Maria, parecendo ouvir o que ele pensava, se mexeu na 
cama e sorriu.
Ele tambm sorriu e continuou pensando:
Voc est sonhando, minha pequena. Continue a sonhar 
com uma vida maravilhosa que eu vou tentar dar a voc...
Finalmente, o dia amanheceu. Antes da hora marcada, todos 
os que chegaram no cargueiro estavam prontos para 
seguirem viagem. Rafael e Carmem tambm. Ela terminou 
de vestir Maria e, vendo que Rafael olhava, abraou a 
menina e a beijou, demonstrando carinho e amor quer na 
realidade no sentia. Ele, ao ver aquela cena, sorriu e disse:
 Voc gosta muito dela, no , Carmem?
Ela, vendo que atingira o que desejava, sorriu, abraou Maria 
novamente e respondeu:
 Como poderia deixar de gostar? Ela  to linda!  a minha 
filha!
 Minha tambm. Vamos fazer de tudo para que ela seja 
feliz, no ?
 Claro, Rafael. Tudo o que estiver ao meu alcance, eu vou 
fazer. Agora, vamos pegar as malas e ver para onde temos de 
ir.
Rafael pegou duas malas. Carmem seguiu, segurando Maria 
pela mo. Pepe e Pedro tambm estavam prontos. Pegaram 
o resto das coisas e, com os coraes cheios de esperana, 
foram at o galpo restaurante, onde estava sendo servido 
caf e po com manteiga.
Aps tomarem caf, foram encaminhados at a estao de 
trem, onde embarcariam rumo a So Paulo, cidade que eles 
no conheciam e que s tinham visto onde ficava atravs de 
um mapa que acompanhava os folhetos de propaganda.
Dos muitos que haviam feito contrato com o dono da 
fazenda Pinheiral e embarcado no cargueiro, sobraram 
apenas dezoito. Os outros no conseguiram chegar. Durante 
a viagem, morreram no navio.
Na estao, enquanto esperavam o trem, ouviram um dos 
passageiros perguntar a um funcionrio que passava por ali:
 O trem vai demorar muito para chegar a So Paulo?
 Vai, sim, moo. O motor a vapor no tem fora para subir 
a serra.  preciso amarrar o trem que sobe no trem que 
desce e um vai segurando o outro. Isso demora muito 
porque precisa ser feito bem devagar.
 Um segura o outro? E se soltar.
 No solta, no moo.  bem amarrado.
Rafael, que ouvia a conversa, ficou pensando de que maneira 
aquilo poderia acontecer. Olhou para o lado em que a serra 
se encontrava e, embora j a tivesse visto antes, s a notou 
como ela era alta.
Bem, no sei como isso acontece. Como um trem pode 
segurar o outro, mas logo mais vou saber. Falta pouco tempo 
para embarcarmos.
Logo depois, todos embarcaram e o trem saiu lentamente da 
estao. Embora os passageiros no pudessem ver como era 
um preso ao outro, notaram que ele subia a serra bem 
devagar. Enquanto subia, eles observavam a paisagem 
colorida por folhas verdes e flores coloridas. No houve 
ningum que no se deslumbrasse com aquela paisagem. 
Uma das senhoras, emocionada, disse:
 Parece uma colcha de retalhos!  lindo!
No sabiam precisar quanto tempo havia demorado a subida, 
tambm aquilo no os preocupava, pois a viagem estava 
sendo agradvel. Finalmente, o trem comeou a deslizar em 
um terreno plano. Algum tempo depois, chegaram a uma 
estao onde foram informados de que deveriam descer.
Desceram do trem. Algumas pessoas corriam para outras que 
as estavam esperando na estao. Outras se reuniam em 
grupos  espera de que algum da fazenda para onde 
deveriam ir estivesse  espera deles. Rafael juntou-se queles 
que iam para a mesma fazenda e ficaram esperando algum 
aparecer.
Ficaram ali, conversando e ansiosos, aguardando. Todos 
falavam de seus sonhos e do desejo que tinham de voltar 
para a Espanha, s que com muito dinheiro.
Viram um negro, trazendo uma placa nas mos e, 
levantando-a para o alto, andava no meio da multido. A 
maioria no sabia ler, mas aquilo que estava escrito na placa, 
todos conheciam: Fazenda Pinheiral. 
Juntos, acenaram para o negro que, sorrindo com dentes 
muito brancos aproximou-se, dizendo:
 Ainda bem que encontrei vocs. Meu nome  Tonho. 
Eu me atrasei um pouco. O senhor Pablo mandou que eu 
viesse at aqui para buscar vocs. Ele est ansioso para que 
cheguem logo. Tem muito trabalho l na fazenda.
Pegou na mo de cada um, cumprimentando-os, depois 
disse:
 O trem que vai para Oeste Grande s chega amanh cedo. 
Por isso vamos ter de passar a noite aqui. Procurem 
descansar, pois vamos viajar por quase oito horas.
Um deles perguntou:
 Onde vamos ficar?
 Tem uma hospedaria para vocs ficarem. Eu no posso, 
mas estou em um hotel l perto. Vou levar vocs at a 
hospedaria e amanh a gente se encontra s cinco horas. 
Ningum pode perder a hora, porque o trem sai na hora 
certa e quem no estiver aqui, vai ficar para trs.
Todos riram. Sabiam que no perderiam a hora. Depois de 
tanto tempo e sofrimento, isso no aconteceria. Seguiram o 
negro que os levou at um galpo um pouco maior do que 
aquele onde tinham ficado. Mostraram o papel que haviam 
recebido e puderam entrar. L dentro, constataram que era 
praticamente igual ao outro. Havia grandes corredores 
separados por armrios. Foram encaminhados at as camas 
em que ficariam. J conheciam a rotina. Sabiam que devia 
haver lugar para tomar banho e um restaurante para serem 
alimentados. Assim que chegaram, Carmem, segurando 
Maria pela mo e aps se sentar, disse:
 Mais um dia, Rafael, parece que nunca vamos chegar...
 Agora est perto, Carmem. O pior j passou. Amanh, 
estaremos na fazenda.
O dia e a noite demoraram a passar, mas, como j estavam 
acostumados e, durante a viagem, aprenderam a ter 
pacincia, esperaram chegar a hora de irem para a estao. 
Todos os que iam para o mesmo lugar, reuniram-se e foram 
juntos para a estao que ficava bem perto. Quando 
chegaram, encontraram Tonho, que os recebeu com o 
mesmo sorriso:
 Chegaram na hora. Esto todos aqui? Com a cabea, 
disseram que sim.
 Est bem. Logo mais o trem vai chegar e poderemos ir 
embora. Sentem-se nos bancos. No vai ter para todos, por 
isso, mulheres e crianas primeiro.  disse, rindo.
O trem chegou e eles, em ordem, foram entrando e se 
acomodando. As poucas crianas, fizeram questo de se 
sentar s janelas, o que os adultos, embora sem vontade, 
permitiram. Todos queriam ver a paisagem, conhecer aquele 
pas to elogiado nos folhetos.
Carmem sentou-se ao lado de Maria e junto  janela. Rafael 
sentou-se em frente a ela. Maria olhou para ele, estendeu os 
bracinhos. Ele, com carinho, pegou-a, abraou-a e disse:
 Voc  linda, mesmo! Parece com sua me.  uma pena 
que ela no est aqui, mas sei que estar sempre ao nosso 
lado, nos amando como ns ainda a amamos, no ?  a 
menina sorriu e acenou com a cabea. Depois, voltou a 
olhar pela janela.
Carmem ouviu aquilo e sentiu um arrepio correr por sua 
espinha, pensou:
Essa menina  realmente muito parecida com a me. Acho 
que quanto mais for crescendo, mais parecida vai ficar. Se 
ela continuar ao nosso lado, Rafael nunca vai se esquecer de 
Lola e no vai querer viver comigo como marido. Preciso 
dar um jeito nessa situao.
Enquanto o trem andava, Rafael ficou brincando com Maria. 
Levantou-se, andou com ela pelo vago. Ela, sorridente, 
mexia com as pessoas, que ao verem uma criana to linda e 
inteligente como aquela, no conseguiam deixar de rir e 
brincar com ela.
Depois de andar bastante com Maria, Rafael voltou para 
junto de Carmem. Sentou-se e colocando a menina ao lado 
dela, disse:
 Carmem, preciso agradecer a voc por ter tido a idia de 
mentirmos que ramos casado para podermos ficar com a 
Maria. Se no tivssemos feito isso, no sei onde ela estaria 
agora.
Ela, beijando o rosto de Maria, disse:
 Era a nica coisa que podamos fazer. Se no fosse isso, 
agora, ela no estaria aqui ao nosso lado. Teria sido mandada 
para um orfanato.
 Tem razo, mas sabemos que o que fizemos poder trazer 
conseqncias.
 Que conseqncia, Rafael?
 Eu j decidi a minha vida. Nunca mais vou me interessar 
por mulher alguma. No quero me casar. Vou viver somente 
para criar Maria. Quanto a voc, ainda  jovem e bonita. 
Poder, a qualquer momento, encontrar um homem de 
quem goste e que goste de voc tambm e com queira se 
casar. Sendo casada comigo, vai complicar.
Ela comeou a rir. A vontade que sentiu foi de falar que no 
queria outro homem, que o homem de sua vida era ele, mas 
se conteve e disse:
 J lhe falei que nunca vou me casar, Rafael. Vou viver 
somente para o trabalho, dar uma educao e uma boa vida 
para meus irmos e ajudar voc a criar a Maria.  tudo o que 
quero.
 Voc diz isso agora, mas no sabemos o que vai 
acontecer no futuro.
 Nada vai acontecer, Rafael. Tudo vai continuar como est 
agora. Continuaremos juntos,  s isso que importa. Voc 
me ajuda com meus irmos e eu o ajudo com a Maria.
 Est bem. Sei que, por hora, pensa assim, mas, se 
aparecer um homem na sua vida, basta me contar. 
Conversarei com ele e contarei o que aconteceu. Direi que, 
embora estejamos casados no papel, nunca tivemos uma 
vida como marido e mulher. Se ele gostar mesmo de voc, 
entender.
Ela, abraando e beijando a menina novamente, disse:
 No vamos nos preocupar com isso, agora, Rafael. Isso 
no vai acontecer, mas, se acontecer, na hora certa, vamos 
saber o que fazer. Por enquanto, s o que interessa  o nosso 
trabalho e o muito dinheiro que vamos ganhar e os cuidados 
com essa coisa linda!
Voltou a beijar a menina e, enquanto fazia isso, pensou:
Nada disso vai acontecer, porque voc vai ser meu marido 
de verdade! Para isso, estou disposta a fazer qualquer coisa. 
Estamos juntos e nunca mais vamos nos separar!
Rafael sorriu feliz, ao ver o carinho dela para com Maria.
Um dos passageiros perguntou:
 Tonho, disseram que tem muito trabalho na fazenda,  
verdade?
 E dinheiro tambm!  disse outro. Tonho olhou para 
um e para outro e respondeu:
 Trabalho tem bastante, mas dinheiro... no sei no...
 Como, no? Os folhetos diziam que havia muito dinheiro!
 Diziam, ?
Todos os que estavam no vago voltaram-se para Tonho, 
que continuou:
 J vi muitos que vieram de pases distantes achando que 
aqui ficariam ricos, mas no ficaram no. Aqueles que 
conseguiram, foram embora para uma cidade maior, outros, 
no tendo como ir embora, ficaram por aqui mesmo.
Os passageiros, assustados, ficaram olhando para ele.
 Quando chegou a proposta de trabalho, o senhor Pablo 
disse que a fazenda era muito grande e por isso precisava de 
muitos trabalhadores.
 A fazenda  grande mesmo. O patro tinha mais de cem 
escravos, mas, quando veio a liberdade, todos foram embora. 
Por isso, ele precisa de muita gente para tocar a lavoura.
Desorientados, uns olharam para os outros e permaneceram 
calados.
Rafael olhou para Carmem e seus irmos que tambm 
estavam atnitos e assustados. Ela perguntou:
 Ser que  verdade, Rafael? Ser que no vamos conseguir 
ganhar muito dinheiro? Ser que todo o sofrimento desta 
viagem foi para nada?
 No sei, Carmem. Agora no tem volta. Precisamos 
chegar para ver.
 E se for verdade, o que vamos fazer? No temos como 
voltar para a Espanha! No sobrou dinheiro algum!
 Fique calma. Vamos esperar para ver o que acontece. 
Estamos quase chegando. Depois de conversarmos com o 
senhor Pablo, vamos ver o que pode ser feito.
Ela sabia que ele estava certo. Nada poderia ser feito naquele 
momento. Preocupada, ficou olhando pela janela do trem 
que seguia lentamente.
Estava muito calor. Todos comearam a abrir as janelas. A 
fumaa que saa da chamin da mquina do trem entrou no 
vago. Eles ficaram com as roupas e rostos pretos de fuligem, 
mas no se importaram, pois estavam perto de realizarem 
seu sonho.
Eram quase trs horas da tarde, quando o trem parou mais 
uma vez. Tonho levantou-se e disse:
 Chegamos.  aqui nesta estao que vamos descer. 
Peguem suas coisas e fiquem todos juntos na estao. Temos 
ainda um longo caminho para percorrer antes de chegar  
fazenda.
Todos, agora sem muito entusiasmo, obedeceram e, em 
ordem, desceram.
Assim que desceram, o trem partiu e eles, com os olhos, o 
acompanharam. Seguindo Tonho, saram da estao. J l 
fora, ele disse:
 A fazenda fica a quase duas horas daqui, andando a p. 
Como tem muita gente, no dava para mandar transporte. 
Por isso, vamos ter de andar.
Cansados, preocupados e agora sem saber se tinham feito o 
melhor, concordaram e comearam a caminhar. O sol estava 
forte e o dia quente, o que fazia com que a caminhada se 
tornasse cansativa. Tiveram de parar vrias vezes. Sentiam 
necessidade de beber gua, mas no havia. Passaram por um 
rio com gua cristalina. Tonho disse:
 Se quiserem, podem beber desta gua, ela  boa. Vem de 
uma nascente aqui perto.
Eles no resistiram e foram at a gua. Alguns beberam, 
lavaram mos e rostos. Carmem e as outras mes que tinham 
crianas pequenas as banharam. Os irmos de Carmem e 
outros jovens como eles entraram na gua. Ficaram parados 
ali por mais de uma hora. Em seguida, continuaram a 
caminhada que parecia interminvel.
Caminharam por mais de meia hora, quando, finalmente 
viram, ao longe, uma casa que parecia ter muitos quartos. Ela 
era branca e suas janelas, pintadas de azul. Tonho disse:
 Ali est a casa-grande da fazenda. Agora falta pouco e 
vocs podero descansar.
Embora desanimados com o que estava acontecendo, 
ficaram felizes por, finalmente, aps tanto sofrimento e 
tantas vidas perdidas, chegarem ao destino. Uns ajudando 
aos outros, continuaram caminhando e sendo castigados por 
aquele sol forte ao qual no estavam acostumados.
Chegaram frente a um porto grande. Tonho o abriu e 
todos puderam entrar naquela que fora o motivo de se 
lanarem em uma aventura e de terem deixado seu pas com 
o sonho de felicidade e riqueza.
Aps caminharem mais ou menos cinqenta metros, 
chegaram diante de um grande ptio em frente a uma escada 
que levava  porta principal da casa.
Tonho novamente se dirigiu a eles:
 Agora podem se sentar a no cho mesmo.
Todos se sentaram. No s por Tonho ter dito, mas por 
estarem exaustos, com sede e fome. Olhavam-se, 
desacreditando de tudo o que estava acontecendo. Aquilo 
no era o que esperavam encontrar no pas das 
oportunidades. Abatidos e fracos, ficaram olhando para a 
casa que, por fora, parecia ser muito grande e confortvel.

Chegando ao destino

Logo a porta principal da casa se abriu e dela saiu Pablo, o 
dono das terras, um homem forte e bem vestido. Ao seu 
lado, estava uma senhora, tambm bem vestida. Do alto da 
escada podiam ver todas aquelas pessoas com as roupas sujas 
e com aparncia cansada. Sorriu e com a voz imponente e 
falando em espanhol, disse:
 Ainda bem que chegaram! Sejam bem-vindos! Meu nome 
 Pablo, sou o dono da fazenda. Esta  minha esposa, Maria 
Augusta. Soube que tiveram alguns contratempos durante a 
viagem, mas tudo isso vai passar. Quando enviei o 
agenciador para conseguir trabalhadores, foi porque tenho 
muitas terras e preciso plantar. Os negros foram embora e 
aqui no h quem queira trabalhar. Eu mandei o agenciador 
dizer que todos vocs poderiam trabalhar e receber um 
salrio. Isso  verdade. Mas, enquanto viajavam para c, 
fiquei pensando que se eu desse um salrio, alguns 
trabalhariam mais que os outros, por isso resolvi que ao 
invs de pagar um salrio, vou dar um pedao de terra para 
cada famlia.
Ao ouvir aquilo, embora cansados, ficaram animados e 
comearam a conversar entre si. Rafael perguntou:
 O senhor vai mesmo nos dar terras?
 No, meu jovem. Vou alugar a vocs. As terras 
continuaro sendo minhas. Todos podero trabalhar. 
Plantaro e o que colherem ser dividido metade para vocs 
e metade para mim.
 Metade? Por qu?
 Ser o pagamento do aluguel pelas terras.
 Pensamos que nos daria a terra.
 Ora, meu jovem, quem daria terras? Elas me custaram 
dinheiro e foram caras. Aqui, diferente da Espanha, vocs 
podero trabalhar e ter uma vida melhor do que aquela que 
tinham l.
 Da maneira como est falando, nunca conseguiremos ter 
as nossas prprias terras. Somente trabalharemos nela?
 Vocs tero oportunidade de comprar suas prprias 
terras, basta, para isso, que, depois da colheita, economizem 
tudo o que puderem e guardem o dinheiro. Logo tero o 
suficiente para comprar as terras que quiserem. Este pas  
grande! Tem muita terra para ser cultivada.
Aquelas palavras fizeram com que todos se animassem 
novamente. O homem continuou:
 Todos vocs, junto com os meus trabalhadores, dividiro 
um pedao da terra em partes iguais e depender de cada 
famlia de como se empenharo. Quanto mais plantar, mais 
vai colher e mais dinheiro vai ter.
A animao foi geral. Todos conversavam e riam. Ento era 
verdade mesmo, naquele pas iam ficar ricos e poderiam 
voltar para a Espanha levando muito dinheiro. Para isso, 
bastava s trabalhar. Quando decidiram fazer a viagem, 
sabiam disso e no tinham medo do trabalho. Dentre todos, 
somente Rafael no estava to animado. Perguntou:
 Por tudo o que o senhor disse, vamos plantar e, se 
trabalharmos muito, depois da colheita, vamos ter dinheiro. 
No temos medo do trabalho, mas como vamos viver at l?
 No se preocupe com isso. Aqui na fazenda, tem um 
armazm com alimentos, roupas, calados, enfim tudo o que 
precisam para viver. Durante o plantio e enquanto esperam 
a colheita, podero comprar aquilo que quiserem. Tudo o 
que comprarem ser marcado em uma caderneta e s 
pagaro depois da colheita, na hora da diviso do dinheiro. 
Como esto vendo, estou facilitando a vida para todos vocs.
Pablo falava com animao, o que fez com que todos 
ficassem animados tambm. Ele continuou:
 Como no sabia quantos conseguiriam chegar at aqui, 
no preparei casas. Por isso, ficaro no galpo que era a 
senzala, onde os negros ficavam. Apontou com a mo e eles, 
ao longe, viram um grande galpo. Olhando para aquele 
outro lado, podem ver aquela mata. Ali ser feita a plantao, 
mas para isso  preciso limpar o terreno. As rvores 
precisam ser cortadas e o terreno, capinado. Podero 
aproveitar os troncos e galhos das rvores que, depois de 
misturados com barro, serviro para que as casas sejam 
construdas. Garanto que, dependendo do capricho de cada 
um, podero construir belas casas. Cada famlia poder 
construir a sua prpria ou todos podero construir juntos. 
Isso vai depender de vocs. Depende tambm de cada 
famlia, o tempo que levar para ter sua casa. Estou vendo 
que trouxeram crianas pequenas. Isso no  bom, pois elas, 
alm de no poderem trabalhar, linda dificultam o trabalho 
das mes. Se eu soubesse que tinham crianas pequenas, no 
teria contratado seus pais. Porm, j que esto aqui que 
fiquem. Voltando a falar das casas, claro que tero de pagar 
um pequeno aluguel por elas.
Rafael, preocupado, perguntou:
 Vamos ter de pagar aluguel? Assim no vai sobrar 
dinheiro algum...
 Claro que vo ter de pagar, ningum mora de graa, no 
? Mas no precisa se preocupar. A colheita vai dar muito 
dinheiro e, no final dela, sobrar muito.
Carmem que, calada, a tudo ouvia, falou baixinho:
 Vamos ter de pagar por uma casa feita de madeira e barro, 
Rafael? Nunca vi uma casa assim...
 Tambm nunca vi, mas, agora, precisamos aceitar tudo o 
que ele nos oferece. Nada mais temos para fazer.
Ela sabia que ele tinha razo, por isso se calou e ouviu 
quando Rafael perguntou:
 Como poderemos construir casas de madeira e barro se 
nunca vimos ou moramos em uma? No saberemos como 
fazer...
 No se preocupe com isso. Tenho aqui muitos homens 
que sabem como fazer. Eles ensinaro a vocs.
Amanh, quando o armazm abrir, podero comprar 
serrotes, enxadas e ps para a derrubada da mata.
 Ns vamos ter de comprar?
 Claro que sim, vocs no so os donos da terra e da 
plantao? 
Novamente olharam-se. Pablo continuou:
 Bem, parece que j disse tudo. Agora, Tonho vai lev-los 
at a senzala. L podero descansar o resto do dia e amanh, 
bem cedo, comearemos a limpar a mata para, depois, 
dividirmos as terras. Hoje, mandei que fosse feita sopa para 
que todos pudessem se alimentar. A partir de amanh, 
podero comprar no armazm. Enquanto as casas no ficam 
prontas, podero cozinhar em um fogo a lenha que est 
perto da senzala. Bem, acho que j disse tudo. At mais, 
bom trabalho e boa colheita para todos.
Dona Maria Augusta que, at a permaneceu calada, disse:
 Eu estou esperando uma moa chamada Lola que vinha 
no mesmo navio. Ela est aqui?
Carmem olhou para Rafael que respondeu:
 No, senhora. Infelizmente ela no conseguiu chegar, 
morreu no navio.
 E a menina dela, est aqui?
Carmem, ao ouvir aquilo, sentiu um arrepio correr por sua 
espinha e, antes que Rafael respondesse, disse:
 No, senhora. A menina morreu tambm.
Todos que estavam ali conheceram Lola e sabiam que era 
mentira, mas como, desde o incio, haviam concordado em 
mentir, se calaram.
Maria Augusta demonstrou no rosto um sentimento de 
tristeza, mas ficou calada e, sob o olhar de todos, se afastou.
Tonho, com aquele seu sorriso de sempre, disse:
 Agora, meu povo, vamos ver onde vocs vo dormir. 
Sigam-me, por favor...
Novamente eles os seguiram. Andaram dez minutos, 
passaram por um grande fogo, onde a lenha queimava alta. 
Viram que, sobre ele, havia dois caldeires enormes que 
ferviam. Pelo cheiro, perceberam que se tratava da sopa da 
qual Pablo havia falado. Em seguida, chegaram diante de um 
grande galpo. Entraram. O que viram l os assustou.
O galpo, construdo com madeira e barro, e coberto com 
uma espcie de grama que, mais tarde, vieram a saber que se 
chamava sap. Tinha grandes frestas por onde, quando 
chovesse, com certeza entraria gua. O cho de terra pisada 
estava muito sujo. Em um dos cantos havia uma pilha de 
esteiras sujas e usadas. Era um lugar em que, na Espanha, 
nem os bichos ficariam. Tonho, que j havia visto muitas 
vezes aquela cena, de outros imigrantes que vieram antes, 
disse:
  aqui que vo ficar at construrem as casa. Vai 
depender de cada um quanto tempo vai demorar.
Ficaram revoltados. Julian, um dos imigrantes, alto, moreno, 
forte e com a idade mais ou menos igual  de Rafael, 
nervoso, disse:
 No vamos ficar em um lugar como este! Na Espanha 
nem porco dorme em um lugar sujo como este!
Tonho olhou para ele e, agora, sem sorrir, com rosto 
crispado e a voz firme, disse:
 Isso  l na sua terra. Por que no ficou l? O que veio 
fazer aqui? Eu sei. L vocs no tinham trabalho... no 
tinham como sobreviver... no ?
  verdade, mas no viemos para c para sermos tratados 
como bichos!
 Sei que no vieram. Acharam que iam vir para c, ganhar 
terras, ficar rico e poder voltar, mas a coisa no  bem assim. 
Vocs vo ter de trabalhar muito para conseguirem o que 
pensaram que encontrariam aqui..
Julian, mais nervoso ainda, disse:
 O agenciador disse que este pas  muito grande e que 
tem muita terra!
 O pas  grande, como o patro disse. Tem muita terra, 
sim, mas cada pedao de terra tem um dono e ningum vai 
dar de mo beijada, no. Todos que possuem terras pagaram 
por elas. 
Julian, ao ouvir aquilo, olhou para os outros e gritou:
 Fomos enganados! Nada do que disseram  verdade! 
Os outros tambm estavam revoltados. Tonho, ao ver 
aquela reao e j estando acostumado com aquela atitude, 
gritou mais alto:
 O negcio  o seguinte. Ningum aqui  escravo, est 
amarrado em correntes ou  prisioneiro. Tem duas coisas 
que vocs podem fazer. Primeiro, entrar na senzala, 
escolher um lugar para ficar at as casas ficarem prontas. 
Cada um pega uma esteira e se acomoda. L naquele canto, 
tem sabo de soda, quem quiser, pode ir at o rio tomar 
banho. Ele no  fundo, no. Como j viram, no tem 
cobertor, tambm no vo precisar porque aqui faz muito 
calor, mas se algum sentir frio, amanh, pode ir ao 
armazm comprar. L tem cobertor muito bom. Depois, 
como o patro  muito bom, mandou preparar uma sopa 
para que todos possam tomar uma tigela. Hoje vocs vo 
comer s isso, mas, a partir de amanh, podero ir at o 
armazm e comprar o que quiserem. Aqueles que 
resolverem ficar, amanh bem cedo iro para a lavoura, 
depois,  tarde, quando terminarem o servio, podero ir at 
a mata escolher as rvores que querem derrubar para pegar 
os troncos e os galhos. Assim, as casas logo estaro prontas. 
Segunda coisa que podem fazer  ir embora, ningum vai 
impedir. O patro no se importa, porque sabe que l na 
terra de vocs tm muitos que esto querendo vir para c e 
ficar ricos. Vocs  que precisam escolher o que fazer.
Novamente uns olharam para os outros. Julian, adivinhando 
o que estavam pensando, disse:
 Ouviram o que ele disse. Pelo que parece, fomos 
enganados. Precisamos decidir o que fazer.
 No temos como ir embora, Julian! No temos dinheiro! 
Tudo o que tnhamos foi gasto com a viagem! Sem dinheiro, 
para onde poderemos ir?
 Sei disso, Rafael. Vejo que vamos ter de ficar aqui, 
trabalhar at conseguirmos dinheiro para ir embora.
 Por enquanto  somente isso que podemos fazer. Algum 
deseja falar alguma coisa?
Ningum se apresentou, pois todos estavam na mesma 
situao. Tonho, vendo que estavam todos calados, disse:
 Bem, agora que j decidiram o que fazer, podem entrar 
na senzala.
Impotentes diante daquela situao, entraram na senzala. 
Pegaram as esteiras e escolheram o lugar onde iam ficar. 
Cada um pegou um pedao de sabo e foi para o rio. Alm 
de cansados, estavam pretos de fuligem. Entraram na gua 
que, por causa do sol quente, estava morna. Tomaram banho 
com a roupa sobre o corpo e aproveitaram para lav-las 
tambm.
Depois do banho, com as roupas ainda molhadas sobre o 
corpo, foram para junto do fogo, tomar sopa. A sopa era 
rala e quase sem tempero, mas para eles que estavam com 
muita fome, estava boa. Aps tomarem a sopa, comearam a 
andar pela fazenda para que as roupas secassem com o sol. 
Tambm queriam conhecer tudo. Carmem, com Maria ao 
seu lado, caminhou junto a Rafael e disse:
 Rafael, agora que estamos aqui e vimos que no era nada 
do que imaginvamos, o que vamos fazer?
 Precisamos continuar aqui at conseguirmos um pouco 
de dinheiro. Depois, veremos o que fazer. Por enquanto, 
nada pode ser feito. O homem disse que vai nos dar um 
pedao de terra para plantarmos. Eu, o Pepe e o Pedro, se 
trabalharmos muito, quando chegar a colheita, pagamos a 
metade do dono e, com o que sobrar, poderemos ir embora.
 Embora para onde, Rafael?
 No sei, Carmem, talvez para a Capital ou outra fazenda 
que nos d um melhor meio de vida. Quando chegar a hora, 
resolveremos.
Julian, que caminhava logo atrs deles, se aproximou:
 O que est achando de tudo isso, Rafael?
 Est ruim, Julian. Tenho a impresso de que essa viagem 
foi intil, mas o que h de se fazer. Agora que estamos aqui, 
precisamos danar de acordo com a msica.
 Tem razo. Estive pensando e tenho uma proposta para 
lhe fazer.
 Que proposta?
 Como sabe, eu viajava com meus trs irmos, mas, 
infelizmente eles morreram no navio. Estou sozinho. O 
dono da fazenda disse que vai nos dar um pedao de terra. 
Poderamos juntar as nossas e todos trabalharmos juntos, 
assim, teremos mais dinheiro na colheita, que acha?
Rafael, que conhecia Julian desde criana, pensou um pouco 
e respondeu:
 Acho que  uma boa idia. Quanto mais terras 
plantarmos, mais dinheiro vamos ganhar.
 Est feito, se o homem der mesmo a terra, vamos ficar 
juntos.
 Estamos cansados da longa viagem de trem e da 
caminhada. Agora que j est anoitecendo, acho melhor 
irmos para aquele galpo imundo, dormirmos, porque 
amanh ser um dia de muito trabalho.
Foi o que fizeram. Entraram na senzala, olharam para o lugar 
onde estavam as esteiras. No havia cobertor, mas tambm 
no estava frio. Deitaram-se.

Incio de uma nova vida

Embora estivessem acostumados a dormir em esteiras, pois 
passaram muitos dias no navio, no conseguiram dormir 
bem. Alm da frustrao por verem seus sonhos desfeitos, o 
corpo todo doa.
s cinco horas da manh, Tonho entrou na senzala:
 Bom dia, gente! Est na hora, temos muito trabalho!
A maioria deles j estava em p. Estavam com fome, mas 
no sabiam como seria. Tonho, parecendo adivinhar o que 
eles pensavam, disse:
 O armazm j est aberto. Quem quiser pode ir at l e 
comprar tudo o que precisar. Trouxe uma carroa para que 
possam carregar tudo. Sei que algumas mulheres sabem fazer 
po. Podem comprar a farinha e, atrs da senzala, tem um 
forno onde podero assar. 

Realmente, ele tinha razo, a maioria das mulheres sabia 
fazer po. Animados, homens, mulheres e crianas 
acompanharam Tonho o armazm. L tinha de tudo. Desde 
alimentos at roupas e calados.
Depois de tanto tempo de privao, sem terem comido algo 
decente, ao ver toda aquela carne salgada, ovos, frutas e 
verduras, quase perderam a razo. Pegaram tudo o que 
tinham vontade. No quintal, galinhas ciscavam por toda 
parte. Tonho disse:
 Aquele que quiser pode levar uma dessas galinhas. Elas 
esto a para serem mortas e comidas. Claro que cada uma 
tem um preo.
Eles no se importaram. A vontade de comer era tanta que 
pegaram algumas galinhas. Tonho apontou para um rolo de 
tecido. Era listado de vrias cores. Disse:
 Este tecido serve para fazer colcho e travesseiro. Tem 
linha, agulhas e tesouras. Ali, naqueles sacos, tm palha e 
folhas secas para que possam encher. Tem tambm 
cobertores, lenis, fronhas e toalhas de banho. Aquele que 
quiser, poder comprar.
S de se imaginarem dormindo em um colcho macio, com 
lenis limpos, no pensaram nem por um instante e todos 
comearam a pegar os pedaos de tecido que o rapaz que 
ficava no armazm ia cortando, os cobertores e lenis. 
Tonho voltou a dizer:
 No se esqueam de levar as ps, os serrotes e as enxadas. 
Claro que tudo o que pegavam era marcado em uma 
caderneta. Tudo o que compraram no coube na carroa, 
por isso, algumas coisas foram carregadas dentro de sacos de 
estopa.
Chegaram novamente  senzala. Foram ver o forno do qual 
Tonho havia falado. Constataram que ele era grande e que 
poderiam ser assados muitos pes. A lenha devia ter 
queimado durante a noite toda, porque ele estava quente, 
pronto para ser usado. Ao lado dele, havia uma mesa 
enorme, onde a massa poderia ser feita.
Fizeram ch que tomaram com leite. Comeram alguns 
biscoitos de polvilho. Embora fosse pouco, era muito mais 
do que comeram durante a viagem. Antes de sair com os 
homens, Tonho disse para as mulheres:
 Sei que vocs esto loucas de vontade de assar po. 
Espero que para a hora do almoo j estejam prontos.
Os homens, carregando as ps, os serrotes e as enxadas 
acompanharam Tonho e mais alguns trabalhadores da 
fazenda.
As mulheres decidiram que, enquanto as casas no ficassem 
prontas e no tivessem seus prprios foges, o melhor seria 
que todos comessem juntos. Para isso os alimentos 
comprados foram divididos.
Trs mulheres se prontificaram em fazer o po. As outras 
foram para a senzala, pegaram todas as esteiras e tudo o mais 
que estava l dentro e levaram para fora.
Com as esteiras nas mos, foram at o rio e, usando sabo de 
soda, as lavaram e colocaram para secar ao sol, que acabava 
de nascer. Sabiam que logo ele ficaria forte e as esteiras 
secariam rapidamente. Voltaram para a senzala. Com 
vassouras feitas de galhos de rvore e folhas, varreram e 
limparam tudo da melhor maneira possvel. Depois, juntas, 
sentaram-se no cho do terreiro e comearam a costurar os 
colches. Por terem de dormir todos juntos, resolveram que 
os colches deveriam ser de solteiro. Assim, evitariam 
constrangimentos.
Enquanto a massa crescia para ser assada, as trs mulheres 
mataram quatro galinhas e as colocaram em grandes panelas 
para cozinhar. Em outra panela, colocaram gua para fazer 
macarro.
Carmem, enquanto costurava e olhava Maria que brincava 
com as outras crianas, pensava:
Isto aqui est bem longe daquilo que imaginei ou com o que 
sonhei, mas no me importo. O que interessa  que estou 
casada com Rafael e que viverei com ele para o resto da 
minha vida. Sei que este casamento  de mentira, mas vai 
ser por pouco tempo. Logo mais vai ser meu marido de 
verdade. E, quando isso acontecer, vou ser a mulher mais 
feliz do mundo!
Olhou para Maria que ria feliz:
Meu nico problema  essa menina. Enquanto ela estiver 
por perto, Rafael no vai conseguir se esquecer da Lola.
A manh passou. Na hora do almoo, os homens voltaram. 
Estavam suados e cansados. Carregavam troncos e galhos de 
rvores que foram empilhados no terreno.
Ao verem a comida que elas haviam preparado, sorriram. 
Um deles, abraando a mulher que era uma das cozinheiras, 
disse:
 Finalmente uma comida decente! E foi feita pela minha 
mulher! No existe nada melhor nesta vida!
Os maridos das outras duas disseram.
 Pelas nossas tambm e elas, sim, so as melhores 
cozinheiras do mundo!
Com pratos feitos de barro, aproximaram-se do fogo e 
pegaram aquela comida que h muito no viam e comeram 
com vontade.
 noite, assim que se deitaram nos colches macios e 
forrados com lenol limpo, sentiram-se as pessoas mais 
felizes deste mundo.
Essa rotina durou mais de trs meses, quando uns ajudando 
aos outros terminaram a ltima casa. A terra j estava pronta 
para o plantio. Logo mais, poderia se dividida.
A felicidade que cada um sentia de poder estar em sua 
prpria casa fez com que at se esquecessem de que seus 
sonhos eram outros. As casas foram feitas com troncos, 
galhos que, preenchidos com barro, davam uma relativa 
proteo contra o frio e a chuva. Foram cobertas com aquela 
mesma grama que tinham visto na senzala. Ao ver a cara de 
espanto deles quando lhes disseram que as casas seriam 
cobertas com aquela grama, Tonho disse:
 No se preocupem. Na casa de vocs no vai entrar gua 
quando chover. Embora sejam cobertas com sap, ele ainda 
 novo e vai dar toda proteo.
Desconfiados, mas sem alternativa, continuaram o trabalho. 
As casas foram construdas na forma de um grande 
quadrado, com outro menor, ao lado, que seria a cozinha. 
Nela, seria construdo o fogo a lenha, feito de barro. No 
quadrado grande, colocaram uma mesa com as cadeiras 
necessrias para cada famlia e, do outro lado, as camas. 
Todos os mveis foram feitos tambm com troncos de 
rvores e galhos fortes. Do lado de fora, construram os 
banheiros. Era um espao pequeno com um buraco no cho 
e um engradado de madeira onde as pessoas colocavam os 
ps e, com muita dificuldade, faziam suas necessidades. Para 
o banho, havia sempre um caldeiro cheio de gua que 
ficava sobre um dos lados do fogo a lenha. Aqueles que 
queriam podiam tomar banho no rio. 
Foram construdas duas casas, uma ao lado da outra. Uma 
para Rafael, Carmem e Maria, outra, para Pepe, Pedro e 
Julian.
Na hora de receber a casa, Rafael disse para Carmem.
 Carmem, no acha melhor contarmos a verdade? 
Dizermos que no somos casados? Assim, voc poder 
morar com seus irmos. Eu e a Maria ficaremos morando 
com Julian.
Carmem, embora no demonstrasse, ficou apavorada com 
aquela idia e pensou:
Isso no pode acontecer! Ele precisa ficar ao meu lado, pois, 
se isso no acontecer, no vou ter a oportunidade de 
conquist-lo e de me tornar sua mulher!
Com a voz calma, disse:
 No podemos fazer isso, Rafael. Maria s est conosco, 
porque mentimos. Se dissermos a verdade, o senhor Pablo 
pode tir-la de ns. Sabe que ele no gosta de crianas, pois 
elas, alm de no poderem trabalhar, ainda dificultam que as 
mes trabalhem. Vamos continuar da maneira como estamos 
e ele nunca descobrir e a Maria continuar ao nosso lado.
Ele pensou por um tempo, depois disse:
 Realmente, voc tem razo. Ele j disse que se soubesse 
que viriam crianas pequenas, no teria contratado seus pais. 
Vamos continuar como estamos.
Ela sorriu, intimamente, e ficou calada.
Cada um recebeu sua casa. Embora nunca tivessem visto 
uma casa construda como aquela, para eles representava um 
lugar que os abrigaria, mas no acreditavam que os 
protegeria totalmente da chuva do frio.
Apesar de saber que no era aquilo com que haviam 
sonhado, naquela noite, fizeram uma fogueira, compraram 
bebida no armazm fizeram uma festa.
No dia seguinte, aps e apesar da noite de festa, todos se 
levantaram muito cedo. Estavam ansiosos para comearem a 
plantar. Sabiam que, depois de plantar, colheriam e, assim, 
teriam dinheiro para ir embora. Estavam ainda tomando 
caf, quando Tonho chegou:
 Bom dia, gente!
Todos, no com muita vontade, responderam: 
 Bom dia.
Tonho olhou  sua volta e viu que o terreno todo estava 
desarrumado. Restos de comida e bebidas demonstravam 
que a festa havia sido boa. Com um sorriso malicioso, disse:
 Parece que a festana foi boa mesmo. Bem que eu queria 
ter vindo, mas no fui convidado...
Todos ouviram o que ele disse, mas no responderam. Ele 
continuou:
 Bem, o patro mandou que eu dividisse a terra. Cada 
famlia vai receber um pedao. Aqueles que esto sozinhos 
devem se juntar tom outros para receber um pedao s. 
Agora, quero que faam uma fila. As famlias devem 
permanecer juntas e deste lado. Aqueles que esto sozinhos, 
fiquem deste.
Logo todos estavam em fila. Carmem, Rafael e Maria ficaram 
de um lado. Pedro, Pepe e Julian do outro. Tonho estendeu 
um grande papel sobre o cho. Nesse papel estava desenhada 
toda a terra com algumas divises por metragem. Ele foi 
mostrando, a cada um, o lugar onde deveriam cercar e 
plantar.
Depois da diviso, Tonho disse:
 O patro mandou dizer tambm que cada um vai receber 
de acordo com o que colher. Por isso, se quiserem ter 
bastante dinheiro no fim da colheita  melhor comearem 
logo. L no armazm tem sacos com sementes. Cada saco 
que comprarem ser marcado na caderneta de vocs. 
Metade ser pago pelo patro, a outra metade por vocs.
Julian o que menos se conformava com aquela situao, 
perguntou:
 Ns vamos ter de pagar a metade das sementes?
 Claro que sim. Vocs no querem receber metade da 
colheita?
 Sim.
 Ento, precisam pagar metade das sementes.
 Isso no est certo!
 Se acha que no est certo, pode pegar suas coisas e ir 
embora. Ningum vai impedir que faa isso.
Tonho, Julian e todos l sabiam que, embora quisessem, 
ningum poderia sair. Julian se calou.
Imediatamente, em silncio, todos foram se dirigindo para o 
armazm. Assim que chegaram, pegaram os sacos com as 
sementes, assinaram a caderneta e foram para o local que j 
estava limpo e pronto para comear a semeadura.
 
O despertar

Lola abriu os olhos. Olhou  sua volta e viu que estava em 
um quarto desconhecido. Assustada, sentou-se na cama e 
continuou olhando e pensando:
Que quarto  este? As paredes so pintadas de verde. A 
colcha tambm. Nossa! Este quarto  igual quele que eu 
disse a Manolo que queria, naquele dia, quando estvamos 
andando sem destino, logo depois que ele brigou com o pai. 
Como pode ser isso?
 Eu no disse que ia lhe dar a casa com que sonhava?
Ela ouviu a voz, mas no acreditou. Voltou-se e, para sua 
surpresa l estava ele, feliz e sorridente. Abriu os braos para 
ela que, chorando e rindo ao mesmo tempo, correu para a 
porta onde ele estava. Abraaram-se com muita saudade e 
amor.
Os dois choravam. Naquele momento esqueceram-se de 
onde estavam e daquilo que havia acontecido.
Ficaram assim por muito tempo. Depois se afastaram. 
Surpresa e curiosa, Lola perguntou:
 Que lugar  este, Manolo? Como vim parar aqui?
 Este  o quarto que voc desejou ter. Alis, no s o 
quarto, mas a casa toda. Venha, vou lhe mostrar.
Ela se olhou e viu que estava vestida com uma camisola 
tambm Verde. Disse:
 No posso sair vestida dessa maneira, Manolo! Preciso me 
vestir.
 Depois poder usar a roupa que quiser. Ali naquele 
armrio h roupas que eram suas e novas, mas, agora, venha 
ver a casa. No se preocupe, estamos sozinhos.
Empolgada, ela o acompanhou. Ele segurava sua mo. Abriu 
a porta do quarto e viram-se diante de uma sala grande com 
mveis construdos em madeira de lei. Depois, foram para a 
cozinha e, finalmente, para o quintal, onde havia uma horta 
muito verde de folhas e legumes. Logo  frente, um pomar 
com rvores frutferas. Lola no cabia em si de tanta 
felicidade. Disse:
 Manolo, tudo aqui  igual ao que sonhei! No falta um 
detalhe!
 Sei disso, levei um bom tempo para que tudo fosse 
construdo. Queria que ficasse tudo pronto para quando 
voc chegasse.
Ela se afastou e ficou olhando, um pouco distante.
 Espere, Manolo. Como pode estar aqui? Voc morreu! 
Ele comeou a rir:
 Acha que estou morto?  perguntou, rindo.
 Parece que no, mas sei que est, fui ao seu enterro. 
Nunca poderia me esquecer daquele dia...
 Voc, naquele dia, enterrou o meu corpo, mas o meu 
esprito est vivo, bem vivo.
 No estou entendendo. Como pode ser apenas um 
esprito, se voc est igualzinho ao que era antes?
 E voc tambm...
 Eu?
 Sim, lembra-se da doena no navio?
Como se fosse um raio, ela lembrou e, imediatamente, 
entrou em desespero. Chorando, perguntou:
 Eu morri, Manolo? A Maria... onde est a Maria? Ele 
voltou a abra-la e respondeu:
 Acalme-se, por enquanto ela est bem. Rafael e Carmem 
esto cuidando dela.
 Eles no morreram com a doena? Esto vivos?
 No morreram. Esto vivos e bem. Maria tambm est 
bem ao lado de Rafael. Ele cuida dela como se fosse sua filha.
 Eles conseguiram chegar  fazenda?
 Sim. Esto vivendo a vida que escolheram.
 Quero ver a Maria, Manolo!
 Voc vai ver. No se preocupe. Por enquanto, ela est 
bem. Tenho estado ao seu lado todos os dias.
 Por enquanto? O que quer dizer com isso?
 Ela tem um longo caminho a percorrer. Nasceu com uma 
misso especial, mas, antes de conseguir cumprir o 
destinado, vai ter de passar por muita coisa.
 No estou entendendo o que est dizendo...
 No se preocupe. Por hora, aproveite para admirar tudo o 
que tem aqui. Quando cheguei, tambm fiquei assustado e 
levou um tempo para me acalmar. Ainda bem que tinha a 
minha av que estava me esperando e me esclareceu.
 Como posso no me preocupar se estou distante da 
minha filha?
 Est distante, mas poder v-la sempre que quiser. Vamos 
entrar. Troque de roupa e vamos andar pela cidade. Posso 
lhe garantir que nunca viu um lugar como este.
 No estou entendendo uma coisa, Manolo.
 O qu?
 Voc diz que estou morta, mas sinto meu corpo, sinto as 
mesmas sensaes de fome e frio.
  assim mesmo. Seu corpo, embora no seja mais de 
carne, mantm a mesma forma e, por algum tempo, vai 
sentir as mesmas necessidades de antes.
 Como?
 Isso  difcil de explicar, mas tambm no importa. O que 
importa  que estamos juntos e vamos fazer o possvel para 
ajudar Maria na sua misso.
 Ela vai conseguir?
 No sei. Vai depender do que vai acontecer agora. Ela, 
alm de uma misso que tem para cumprir quando ficar 
moa, neste momento tem outra pela qual vai ter de passar. 
Depende de como se sair agora, para que possa seguir.
 No entendo, Manolo. Como ela pode resolver alguma 
coisa? Ela no passa de uma criana!
 Hoje seu esprito est vivendo em um corpo de criana, 
mas ela j teve muitas vidas anteriores e, nessas vidas, 
cometeu muitos erros ou enganos. Precisa resgat-los.
 No estou entendendo. Vidas passadas, o que  isso que 
est dizendo, Manolo?
 Sei que  complicado. Quando vivos, na Terra, nunca 
pensamos que isso poderia existir. Aprendemos que, depois 
da morte, se ia para o cu ou para o inferno. Nunca nos 
disseram que, ao morrer, iramos para um lugar onde a vida 
continuaria e poderamos escolher trabalhar para nos 
aperfeioar.
 Trabalhar? Aperfeioar? A cada palavra que diz, fico mais 
confusa.
 Sei disso. Porm, imagine que, se, ao morrer, fssemos 
realmente para um cu, onde no teramos nada para fazer, 
onde ficaramos eternamente rezando, em estado de graa. 
Conhecendo-nos como nos conhecemos, acredita que 
seramos felizes?
Ela pensou um pouco. Rindo, respondeu:
 Tem razo... no sei se eu conseguiria ficar feliz sem ter o 
que fazer...
 Est vendo? Deus, o nosso criador, pensou em tudo. Ele 
tudo faz para que sejamos felizes e nos d todas as 
ferramentas para que isso acontea.
 No estou entendendo o que est dizendo, Manolo, nem 
sei se  verdade, mas no posso negar que existe uma 
lgica...
 No precisa entender tudo. Isso, com o tempo, vai 
acontecer, mas, agora, quero levar voc a um lugar. Sei que 
vai ficar feliz. V, troque de roupa.
 Espere, Manolo. Voc disse que eu estou morta. Voc 
tambm, sendo assim, onde est dona Isabel? Ela deve estar 
aqui tambm.
 No sei, Lola. Nem todos vo para o mesmo lugar. Vamos 
procurar saber onde ela est, mas, agora, vamos. Sei que vai 
gostar do que vou lhe mostrar.
 Est bem. Mas, antes de ir para qualquer lugar, quero ver 
a Maria. Quero ver com meus prprios olhos como ela est.
 Ns iremos logo, mas antes quero que veja uma coisa. 
Ela sorriu:
 Est bem, conhecendo voc como conheo, sei que no 
vai desistir de me mostrar essa coisa que parece ser to 
importante. Vou com voc, mas precisa me prometer que, 
depois, vamos ver Maria.
 Claro que vou levar voc. Tambm estou com saudade 
dela. Entraram em casa. Manolo abriu a porta do armrio e 
ela pde ver que havia muitos vestidos. Alguns, ela 
conhecia, eram escuros, como costumava usar. Outros eram 
diferentes, coloridos e estampados. Ela ficou encantada:
 Estes vestidos so lindos, Manolo! Nunca usei um 
estampado como este!
 Pois agora pode usar. Escolha o que quiser, eles so seus.
Ela pegou um com estampa em azul, branco e um tom de 
rosa claro.
Depois, ele lhe mostrou onde ficava o banheiro. Ela entrou 
e, para sua surpresa, tudo era igual. No havia diferena 
alguma daqueles banheiros que existiam na Terra. S que, 
nesse, havia uma pia com torneira e um chuveiro, coisas que 
ela no conhecia. Ele abriu a torneira e pediu a ela que 
colocasse a mo. Ela colocou e, encantada, percebeu que a 
gua que saa dela era quente. Espantada, disse:
 Nossa, Manolo, a gua j sai quente? Nunca tinha visto 
algo igual...
 Tem mais para ver. Olhe.
Abriu o chuveiro e ela ficou espantada ao ver a gua caindo 
de cima e com toda aquela intensidade.
 Para que serve toda essa gua, Manolo?
 Para tomar banho. Voc, aqui, no precisa tomar banho 
em bacias, como est acostumada. Pode tomar banho em p 
e com gua limpa escorrendo por seu corpo.
 Nunca imaginei que algo assim pudesse existir.
 Voc vai ver muita coisa que no conhece e vai se 
surpreender cada vez mais. Mas, agora, apresse-se.  disse, 
rindo.
Em pouco tempo, ela estava pronta. Manolo no pde deixar 
de dizer:
 Voc est linda, Lola, e amo voc sempre mais.
Ela sorriu, lisonjeada, deu um beijo no seu rosto e, 
abraados, saram.
Quando chegaram  frente do porto da casa, Lola se voltou, 
olhou para ela e, feliz, disse:
  mesmo a casa com que sempre sonhei, Manolo...
 Agora, esta  toda sua.
 Estou contente por tudo o que est me acontecendo. 
Estar com voc nesta casa com que sempre sonhei  
maravilhoso! Se no fosse por causa de Maria, diria que 
nunca estive to feliz, mas, ao mesmo limpo, no acho justo.
 O que no acha justo?
 Por que tudo isso no aconteceu quando eu estava viva? 
Por que tive de passar por tanta coisa e ter morrido to cedo, 
deixando nossa filha sozinha? Ns no poderamos ter tudo 
isto enquanto estvamos l? Todos, na Terra, no poderiam 
ter a mesma vida que aqui? Por que alguns passam por tanto 
sofrimento e no tm nada e outros, alm de no sofrerem, 
tm muito, tudo do que precisam e at mais? No entendo, 
Manolo. No consigo entender.
 No estou surpreso por voc estar fazendo essas 
perguntas. Tambm, quando cheguei aqui, fiz as mesmas.
 Teve alguma resposta? Conseguiu entender?
 Sim. Fui esclarecido e, para minha surpresa, fiquei 
sabendo que cada um escolhe a vida que quer ter na Terra.
 O que est dizendo, Manolo? Est dizendo que eu escolhi 
passar por tudo aquilo? Nascer em uma famlia pobre? Ter 
conhecido e perdido voc? Ter passado tantos dias dentro 
daquele navio imundo, ver tantas pessoas, to pobres como 
eu, morrerem com aquela doena que ningum sabia de 
onde tinha vindo e, depois, serem jogadas ao mar sem 
direito a uma sepultura! Depois de presenciar tanto 
sofrimento, depois de sofrer tanto. Est dizendo que fui eu 
quem escolhi? Acha justo eu ter morrido e ter deixado a 
Maria sozinha em um mundo cheio de sofrimento? Acha 
justo ela, daquele tamanho, ficar sozinha? No, Manolo, 
ningum com um pingo de juzo escolheria viver daquela 
maneira!  estava nervosa e revoltada.
 Sei que tudo o que disse parece ser verdade, mas a 
realidade  outra. Escolhemos, sim, Lola. Maria tambm 
escolheu essa vida que est tendo. Ns viemos para lhe dar a 
vida, mas o resto ser por conta dela. Fizemos a nossa parte. 
Todo esprito nasce criana, depois cresce e, por toda a vida, 
poder fazer suas escolhas. Durante a vida, embora j saiba, 
voltar a aprender o que  certo e errado. Ns fizemos as 
nossas escolhas. Cumprimos nossa parte no acordo firmado, 
antes de nascermos. Agora, cabe  Maria fazer a parte dela. 
Deus  um Pai to amoroso que nos d a oportunidade de 
resgatarmos nossos erros e maldades da maneira que 
quisermos.
 Erros? Que erros, Manolo? No tive tempo para cometer 
erros ou maldades! Nunca fiz mal algum para ningum!
 Nesta vida foi assim, mas e nas outras?
 Que outras, Manolo? Nunca tive outras vidas!
 Teve sim, Lola. Assim como eu e todas as pessoas que 
conhece. Tivemos outras vidas e nem sempre fomos bons 
como somos nesta. Por isso, escolhemos a vida que 
desejvamos ter para podermos nos aperfeioar.
 No acredito nisso. Mesmo que acreditasse que realmente 
tive uma outra vida, como nunca lembrei e no lembro 
agora?
 Novamente  a bondade de Deus que se faz presente.
 Como?
 O esquecimento faz parte do aprendizado. Se ns nos 
lembrssemos do que fizemos em outras vidas, como 
poderamos encarar o inimigo de outrora? Como 
poderamos perdoar e ser perdoados? O esquecimento  um 
bem maior,  a nossa proteo e a ajuda que precisamos para 
amar, perdoar e evoluir. O esprito vem de longa data, 
sempre aprendendo e caminhando para a Luz.
 Tudo isso  muito complicado. Mas, por mais que queira 
me explicar, no consigo aceitar.
 No se importe com isso. Com o tempo, entender e 
aceitar. Agora, vamos? Sei que vai gostar daquilo que vou 
lhe mostrar.
 No tenho a menor idia do que vai me mostrar, porm, 
se diz que vou gostar, j estou curiosa.
 No precisa ficar curiosa. Vamos?
Ele pegou na sua mo e, em poucos segundos, estavam 
diante de um porto reconhecido por Lola, que, 
deslumbrada, disse:
  o sitio da dona Isabel? Ela est aqui? 
Ele sorriu.
A porta da casa se abriu e por ela saiu, sorrindo, dona Isabel, 
que, caminhando lentamente, disse:
 Estou aqui, Lola, e ansiosa por reencontrar voc. Eu e 
Manolo resolvemos fazer uma surpresa a voc. Por isso, ele 
disse que no sabia onde eu estava.
Lola, ao v-la, no se conteve e, com os braos abertos, 
correu em sua direo. Dona Isabel tambm abriu os braos 
e elas, chorando, se abraaram e se beijaram no rosto.
Aps o abrao, Lola disse:
 Precisei tanto da senhora? Soube o que me aconteceu?
 Soube. Estive ao seu lado durante todo o tempo. Sei que 
meus filhos, no atendendo a um pedido meu, a expulsaram 
da minha casa.
 Eles fizeram isso e eu fiquei sem saber o que fazer. Fiquei 
quase louca de preocupao.
 Sei disso, como todo esprito, quando renascido, no 
confiou na bondade de Deus, no acreditou que um 
caminho surgiria e que tudo ficaria bem. O dia em que o 
esprito aprender a confiar, muito sofrimento intil ser 
evitado. Voc nunca esteve sozinha. Eu e Manolo estivemos 
ao seu lado o tempo todo.
 Agora sei disso, mas, quando estava passando por todo 
aquele problema, no sabia. Por isso sofri tanto.
 Como pode ver, foi um sofrimento intil. Perdeu horas 
de sono, horas valiosas que poderiam ser dedicadas  
felicidade, mas, como j disse,  sempre assim. A ansiedade 
e a falta de pacincia so as causas de muito sofrimento. Um 
dia, todo esprito aprender que deve sempre confiar em 
Deus e na sua sabedoria. Aprender que nada acontece sem 
que seja programado individualmente. Somos donos do 
nosso destino, Lola.
 Quanto aos seus filhos, a senhora ficou triste?
 Eles, embora no saibam, chegar o dia em que se 
arrependero do que fizeram e sofrero por isso. Embora 
tenha parecido maldade, na realidade, no foi. Precisavam 
fazer aquilo, para que voc fosse obrigada a ir embora, a 
conhecer Rafael e Carmem. Eles fazem parte das escolhas de 
Maria.
 Manolo me falou sobre isso, mas preciso confessar que 
no entendi muito bem e que no aceito que eu tenha 
escolhido uma vida to triste, que tenha escolhido ter 
deixado a minha filha sozinha.
 Ela no est sozinha, Lola! Estaremos sempre ao seu lado, 
ajudando-a com bons pensamentos nos momentos difceis, 
dando-lhe boa intuio para que possa escolher o melhor 
caminho. Porm, no final, tudo depender dela, do seu 
livre-arbtrio. Agora, vamos entrar. Preparei aquela "paella" 
de que voc gosta tanto.
Entraram e Lola, ao reconhecer em detalhes a casa onde 
havia morado com Manolo, curiosa, perguntou:
 Estamos no stio, dona Isabel? Isabel riu e respondeu:
 No, Lola. Se estivssemos l, ele seria assombrado.  
disse, rindo.  Quando cheguei aqui, aps algum tempo me 
perguntaram onde eu queria morar. Respondi que o nico 
lugar em que viveria feliz seria naquele lugar em que vivi 
toda a minha vida. Atenderam ao meu pedido e aqui estou, 
vivendo no stio.
 Mas  igual ao outro!
 Sim. Foi da maneira que eu quis. Venha, sente-se a nessa 
cadeira e vamos comer.
 Sabe de uma coisa, dona Isabel? Embora Manolo tenha 
dito que eu estou morta, custa-me a crer, pois estou com 
muita fome. Como isso pode ser?
 Isso acontece no incio. Mas, com o passar do tempo, 
perceber no h necessidade de se alimentar. Eu, embora j 
esteja aqui h algum tempo, ainda sinto falta. Outros, porm, 
logo deixam esse hbito para trs.
Em seguida, ela colocou sobre a mesa a comida de que Lola 
tanto gostava e comearam a comer.
Quando terminaram, satisfeita, Lola disse:
 Que saudade que eu sentia da sua comida, dona Isabel! 
Ningum cozinha igual  senhora!
Isabel sorriu:
 Cozinhei para voc, Lola. Manolo j est acostumado, 
passa sempre por aqui.
  verdade. Gosto de vir at aqui, pois podemos nos 
lembrar do tempo em que passamos juntos e que, apesar de 
tanta pobreza, ramos felizes.
 ramos mesmo, Manolo. Pena que durou to pouco 
tempo. Ainda no entendo por que voc teve de morrer to 
cedo me deixando sozinha.
 Tambm tive essa dvida, mas depois de ser esclarecido, 
entendi que era necessrio.
 Ainda no entendo e acho que tambm preciso ser 
esclarecida, mas, agora, o que mais quero  ver a minha 
menina. Podemos ir at ela?
 Sim, Lola. Na fazenda est amanhecendo e eles, embora 
estejam dormindo, esto prestes a acordar. Esse  o melhor 
momento para que possamos nos ver e conversar. Vamos?
 Vamos, sim, dona Isabel! Estou morrendo de saudade 
deles e, principalmente, da Maria.
Saram dali e, em poucos segundos, estavam na fazenda. 
Lola olhou tudo e disse, admirada:
 Como  grande!
 Sim,  muito grande. Mas vamos entrar naquela casa.  ali 
que eles esto.
Lola olhou para o casebre e se admirou:
 Eles esto morando nessa casa?
 Sim. Foi tudo o que encontraram quando aqui chegaram.
 Como pode ser, dona Isabel? E a riqueza que diziam ter 
neste pas?
 O pas realmente  rico, tem terras boas para o plantio, 
mas cada pedao delas tem dono.
 Ento no conseguiram as terras to sonhadas?
 No, Lola. Esto trabalhando e recebero a metade de 
tudo o que colherem.
 Isso me parece muito bom. Afinal, no so empregados. 
Isabel ia dizer mais alguma coisa, porm Manolo falou:
 Precisamos nos apressar. Est quase na hora de eles 
acordarem. Entraram na casa. O primeiro lugar que viram foi 
a cozinha. No fogo, algumas brasas ainda estavam acesas. 
Quando entraram no quarto, viram Carmem dormindo ao 
lado de Maria em uma cama de casal e Rafael dormia em um 
colcho colocado no cho. Olhou para Maria e, com 
lgrimas nos olhos, disse:
 Como ela cresceu, Manolo! Est linda!
 Cresceu, sim. J se passou muito tempo desde que tudo 
aconteceu. Os imigrantes trabalharam muito e j est quase 
na hora de colherem o que plantaram. A colheita vai ser 
boa.
Lola no deu muita ateno para o que ele disse. S se 
importava com Maria. Correu para junto dela. Queria abra-
la, mas foi impedida por Manolo:
 No, Lola! Espere!
Ela, sem saber o motivo daquela atitude, parou, 
perguntando:
 O que aconteceu, Manolo? Por que no posso abraar e 
beijar a nossa filha?
 Embora no parea, Lola, voc est morta, no est mais 
usando o corpo fsico, portanto sua energia  diferente 
daqueles que ainda esto presos ao corpo. Por isso, se tocar 
nela agora, sua energia, por ser diferente, poder lhe fazer 
muito mal.
 Est dizendo que no posso abraar minha filha?
 Infelizmente, essa  a verdade. Poder olhar, ficar ao seu 
lado sempre que quiser, mas mantendo sempre uma certa 
distncia.
Lola comeou a chorar:
 Isso no  justo, Manolo...
 Pode parecer que no seja justo, mas  necessrio.
Isabel, que a tudo acompanhava, disse: 
 Ele est certo, Lola. Precisa ser assim. Por outro lado, por 
voc ter sido um esprito bom, que cumpriu o que 
prometeu, dando  Maria a oportunidade de nascer, pode, 
hoje, estar aqui ao lado dela. Se tivesse agido de maneira 
diferente, talvez nunca mais pudesse v-la. Lola, em 
pensamento, agradeceu a Deus por aquela oportunidade. De 
longe e com lgrimas nos olhos ficou olhando para Maria 
que dormia tranqila.
Estava quase na hora de acordarem. Lola, Isabel e Manolo 
continuavam ali, esperando. Carmem foi a primeira a v-los. 
Embora seu corpo ainda estivesse dormindo, seu esprito 
estava alerta. Abriu os olhos e olhou para Maria, depois para 
Rafael. Pensou:
Por mais que eu faa, ele no se esquece da Lola. Sempre 
que chega a casa, seus olhos e ateno so s para voc, 
monstrinho! Sei que, enquanto existir, ele no se esquecer 
da sua me. Por isso preciso encontrar uma maneira de me 
livrar de voc, assim como fiz com sua me...
Lola, ao ouvir aquilo, ficou sem entender o que estava 
acontecendo. Olhou para Manolo e Isabel que 
acompanhavam o que Carmem pensava. Isabel colocou um 
dos dedos sobre a boca num sinal para que Lola se calasse e 
olhou novamente para Carmem. Lola entendeu o que ela 
queria dizer com aquele gesto. Calou-se e voltou sua ateno 
para Carmem, que continuava a pensar:
Do que adiantou eu ter provocando a morte da sua me, se 
voc continua aqui? Pensei que, ao colocar um pedao de 
tecido contaminado sobre ela sempre que dormisse e o 
retirasse algum tempo depois, tudo terminaria. Quando ela 
pegou a doena e morreu, ningum desconfiou e eu pensei 
estar livre, mas isso no aconteceu. Do que adiantou? Rafael 
no me quer. S pensa nela e em voc. Embora eu tenha 
pensado muito, ainda no encontrei uma maneira de me 
livrar de voc sem levantar suspeita sobre mim, vou 
encontrar e no pode demorar muito. Rafael, a cada dia que 
passa, mais gosta de voc e no se esquece de sua me. Por 
que voc precisava ser to parecida com ela? Se continuar ao 
nosso lado, ele nunca me ver como uma mulher, somente 
como amiga... como irm...
Lola, horrorizada, ouviu aquilo. Seu primeiro impulso foi o 
de se atirar sobre Carmem e soc-la, mas foi impedida por 
Manolo:
 No faa isso, Lola. Voc est acima de toda essa 
maldade. Entregue nas mos de Deus. Ele saber como agir... 
no cabe a voc...
 Como no, Manolo? Ela me matou, me afastou da minha 
filha! Como pode continuar impune? Precisa ser presa!
 Muitas vezes a justia dos homens falha, mas a de Deus, 
no. Ela ter a punio que merece e no cabe a ns dizer 
qual ser.
 Por que ela fez isso? Parecia ser minha amiga!
 Nunca foi sua amiga e essa inimizade vem de muito 
tempo. Vrias vezes renasceram juntas para resolverem, mas 
nunca aconteceu. Dessa vez, tiveram uma nova 
oportunidade, que no foi aproveitada.
 Ela pensa em matar nossa filha, Manolo! No podemos 
deixar isso acontecer! Precisamos proteger Maria!
 Acalme-se, Lola. Entendo o seu desespero, mas nada 
poderemos fazer. Cabe a ela, usando do seu livre-arbtrio, 
escolher o que fazer.
 No entendo o que se passa aqui deste lado!
 O que voc no entende?
 Por tudo o que vocs me disseram, posso ter a casa que 
quiser, viver da maneira com que sempre sonhei, mas no 
posso impedir que um crime seja cometido?
 No pode impedir, Lola. Embora possa ter, aqui, tudo 
com o que sonhou, existem leis que precisam ser cumpridas. 
Entre elas, a do livre-arbtrio  uma das mais srias. No 
podemos interferir nas escolhas que qualquer um fizer. 
Carmem est vivendo um momento importante, que poder 
ser de perdo, de arrependimento e de resgate, mas cabe a 
ela decidir, s a ela.
 Est dizendo que ela pode matar a Maria e que nada vai 
lhe acontecer?
 No, Lola. Estou dizendo que ela pode criar Maria com 
amor, dar-lhe toda segurana, ou pode, como voc diz, 
mat-la, carregando, assim, mais uma culpa para ser 
resgatada.
 Desculpe, mas no posso aceitar isso! No vou permitir 
que faa mal  minha filha!
Dizendo isso, jogou-se sobre Carmem, que no mesmo 
instante, sentiu tontura e falta de ar. Desesperada, acordou 
totalmente e gritou:
 Rafael, acorde! No estou bem...
Ele, assustado, acordou, sentou-se na cama e perguntou:
 Que aconteceu, Carmem, por que est assim? 
Ela, com dificuldade, respondeu:
 No sei, estava bem. Estava dormindo, me senti mal e 
acordei com falta de ar.
Ele, sem saber o que fazer, levantou-se, foi at a cozinha, 
pegou uma caneca de alumnio e, de uma moringa, pegou 
gua. Colocou um pouco de acar e voltou para o quarto. 
Entregou a caneca para Carmem, dizendo:
 Beba um pouco de gua e, se no melhorar, vou falar com 
o senhor Pablo. Ele deve ter algum tipo de remdio. 
Carmem, assustada e com dificuldade, bebeu a gua. 
Nesse mesmo instante, Isabel e Manolo, cada um de um 
lado, seguraram os braos de Lola e fizeram com que ela se 
afastasse de Carmem. Isabel, com a voz firme, disse:
 Afaste-se dela, Lola! Se lhe fizer algum mal, passar de 
vtima a agressora e ter de responder por isso!
Com muita raiva, Lola se afastou, mas no se conformava:
 Como posso responder? Foi ela que me fez tanto mal! Fez 
com que eu morresse e agora quer matar a minha filha? Ela 
no vai responder por isso?
 Claro que vai, Lola, mas no por suas mos. Todos 
responderemos por nossos atos. Ela pode querer matar sua 
filha, mas ser que vai conseguir? Ser que, no ltimo 
momento, no vai se arrepender e no far isso?
 A senhora est dizendo que ela no vai conseguir?
 No sei, Lola, apenas estou desejando que ela se 
arrependa. Mas, em ltima instncia, s ela poder decidir. 
A ns cabe ficarmos ao lado de Maria e tentar fazer o 
mximo que pudermos para proteg-la, nada alm disso.
 Maria  ainda uma criana, no tem como se defender! 
 Ela, agora,  apenas uma criana, mas j foi adulta e 
cometeu alguns erros. Alis, erros no. O certo e o errado 
dependem da poca em que se vive. O que foi errado 
ontem, hoje j no  mais. Cometeu alguns enganos e ter 
de responder por eles. A hora do confronto sempre chega. 
Essa  a hora em que os inimigos se encontram para resgatar 
enganos cometidos. A hora delas  esta.
 No acredito que vou ter de ficar ao lado da minha filha, 
vendo-a sofrer sem nada poder fazer...
 Poder fazer muito, Lola.
 O qu?
 Orar, enquanto eu e Manolo jogamos muita luz sobre 
Carmem e pedimos que ela no cometa mais uma loucura.
 Orar por ela? Como posso fazer isso? Ela me matou e est 
querendo matar minha filha!
 Isso no faz com que no seja um esprito companheiro 
do mesmo grupo ao qual muitos pertencem e que esto 
caminhando para a Luz. J lhe disse que no cabe a ns o 
julgamento, somente amor, perdo e desejo de que nossos 
inimigos encontrem a paz que s ser conseguida, quando 
entenderem que a vida terrena  curta e que temos toda uma 
eternidade para viver e aprender. S assim, podero 
continuar a jornada. Por isso, minha filha, acalme-se, 
entregue a vida da sua filha nas mos de Deus. Somente Ele 
saber o que fazer. Nunca se esquea de que somos apenas 
aprendizes.
 Entendo que o que est dizendo  o certo, mas no sei se 
vou conseguir. Estou com muita raiva e medo daquilo que 
ela possa fazer com a minha filha.
 No adianta ter medo e esta palavra, raiva,  muito forte. 
Tudo ser como tem de ser.
 Nunca desconfiei de que ela gostasse de Rafael, sempre 
pensei que fossem apenas amigos.
 Para ele, ela sempre foi uma amiga. Ele gosta dela como 
irm, mas ela no se conforma com isso. Gosta dele desde 
criana. Esse amor foi ficando cada vez mais forte, o que a 
levou a cometer a loucura de matar voc e, da maneira que 
est, matar qualquer uma que se aproximar dele. Ela no 
sabia, mas voc morreria de qualquer maneira e ela teria de 
criar sua filha. O seu papel foi apenas o de permitir que 
Maria nascesse saudvel. O resto cabe a Rafael e a Carmem.
 Como pode ser? O que faz com que a senhora fale isso?
 Somos espritos que caminham juntos h muito tempo. 
Antes que renascssemos, houve muito planejamento. 
Todos ns o acompanhamos e aceitamos como seria nossa 
vida na Terra. Sabamos que nos encontraramos e o que 
precisvamos fazer.
 Fazemos parte de um mesmo grupo? Por qu? Existem 
outros?
 Sim, muitos outros. No comeo, alguns foram formados 
pela afinidade. Depois, ao longo do caminho, o dio, a 
mgoa, o cime e a inveja foram afastando uns dos outros. 
Agora, precisam se reencontrar.
Precisam fazer com que a afinidade e o amor inicial voltem, 
para, assim, poderem continuar caminhando.
  muito difcil entender o que a senhora est dizendo.
 Sei que parece difcil, mas no . Com o tempo, vai 
entender. Por agora, vamos voltar para casa. Daqui a pouco, 
Rafael vai para a plantao e Carmem ficar em casa 
cuidando da Maria.
 Cuidando, no, dona Isabel! Procurando encontrar uma 
maneira de mat-la.
 Por ora, esquea isso, Lola. J lhe disse para entregar a 
vida da sua filha nas mos de Deus. Olhe, assim que 
conseguimos afastar voc de Carmem, ela est melhorando. 
Viu o que a sua energia pode fazer se tentar tocar Maria? Foi 
por isso que a avisamos para no fazer isso. Lola voltou o 
olhar para Carmem e disse:
 Sei que a senhora tem razo em tudo o que disse, mas 
no sei se vou conseguir perdoar.
 J lhe disse para no se preocupar. D tempo ao tempo. 
Na hora certa, escolher o que fazer. No se esquea de que 
voc tem seu livre-arbtrio. Assim sendo, se, no final, 
resolver que quer mesmo se vingar, nada poderemos fazer. 
Vamos ver o que vai acontecer agora. 
Lola olhou para Rafael que estava assustado segurando a mo 
de Carmem. Disse:
 Ainda bem que voc melhorou, Carmem. Sua aparncia 
estava muito ruim. Parecia que no tinha um pingo de 
sangue no corpo, pensei que fosse morrer.
 No entendo o que aconteceu. Estava dormindo e de 
repente me senti mal.
  preciso ir a um mdico para descobrir o que houve.
 Sabe como  difcil, Rafael. S h um mdico na cidade e 
agora que est perto da colheita, no podemos nos afastar 
daqui. Sempre fui muito forte. Nunca estive doente, por isso 
deve ter sido apenas um mal estar. Tudo vai ficar bem. No 
se preocupe. 
Ela disse isso rindo e feliz por ele estar segurando sua mo 
numa demonstrao de carinho. Pensou:
No final, foi at bom acontecer isso. Rafael, talvez, agora, 
segurando mim mo, sinta alguma coisa, como estou 
sentindo e olhe para mim de uma maneira diferente.
Rafael retirou sua mo da dela e disse:
 Quando vi voc daquela maneira, Carmem, me lembrei 
do dia em que Lola morreu e na dor que senti. Se Maria no 
existisse, no sei o que seria de mim. Sinto que no teria 
suportado. Amo essa menina, assim como amei e ainda amo 
sua me. No sei se Lola pode me ouvir, mas, se puder, 
quero que saiba que eu a amei muito e que nunca haver 
outra mulher em minha vida. Minha nica inteno  criar 
Maria at que ela se torne uma linda moa.
Ao ouvir aquelas palavras, Carmem sentiu um arrepio pelo 
corpo. Com muito dio, pensou:
Ele precisa esquecer aquela mulher! Ele precisa me enxergar!
Lola tambm ouviu o que ele disse. Viu tambm um imenso 
facho de luz sair do corao dele e atingi-la imediatamente. 
Sentiu-se envolver por uma paz nunca sentida antes. Apesar 
de estar feliz por receber aquela luz, intrigada, perguntou:
 Que luz  essa?
Dona Isabel, sorrindo, respondeu:
  a luz do amor, Lola. Rafael sempre esteve ao seu lado. 
Viveram juntos momentos difceis, mas de muita 
aprendizagem. Antes de renascer, ele se props a ser o 
guardio da Maria e, pelo que estamos vendo, far o possvel 
para cumprir o que prometeu.
 Essa luz me fez muito bem. At a revolta que estava 
sentindo por ver Carmem desejar o mal da minha filha se 
amenizou.
  isso o que acontece com todos ns, espritos 
encarnados ou reencarnados. Sempre que algum se lembra 
de ns com carinho e amor, recebemos um facho de luz 
como esse, ou, s vezes, at maior. Essa luz, como 
aconteceu com voc, sempre traz muita paz.
 O que vai acontecer agora, dona Isabel?
 No posso responder a essa pergunta, Lola. Embora, 
quando vivemos na Terra, achamos que a pessoa quando 
morre sabe tudo, na realidade, no  verdade. No sabemos 
o que vai acontecer porque tudo depende do livre-arbtrio 
de cada um. Esperamos e desejamos que Carmem no 
coloque em prtica o que est pensando.
Lola olhou para Manolo que a tudo ouvia em silncio.
 O que voc acha, Manolo?
 No sei Lola. Assim como voc, tambm, quando 
descobri o que acontecia com nossa filha, me revoltei, mas, 
depois, entendi que nada poderia fazer e, aceitando o 
conselho de dona Isabel, entreguei sua vida nas mos de 
Deus. Sempre estou ao seu lado, procurando ajud-la de 
alguma maneira, mas sei que poderei fazer muito pouco.
Maria abriu os olhos e olhou para o lado onde sabia que 
Rafael dormia. Ele no estava l. Assustada, voltou-se para o 
outro lado e viu que ele estava sentado na cama de Carmem. 
Sorrindo, chamou:
 Papai.
Ele, ao ouvi-la, levantou-se, deu a volta na cama e abaixou-
se para poder levant-la. Assim que ficou em p, perguntou:
 Bom dia, minha filha. Dormiu bem?
 Dormi, papai.
 Que bom, mas ainda  muito cedo para voc acordar. 
Vou reparar o caf e, depois, voc vai voltar a dormir.
Ela olhou para o lado onde Lola estava. Sorriu e, com a 
ponta do dedo, mandou um beijo. Rafael e Carmem viram 
aquele gesto. Ele, intrigado, perguntou:
 O que est fazendo, Maria?
A menina, encantada por ver Lola, respondeu:
 Minha me... Ela est aqui...
Eles, intrigados, olharam-se. Ele perguntou:
 Sua me, Maria? No pode ser...
  ela, sim. Tem o cabelo preto... e, com o dedo, est me 
mandando um beijo...
No mesmo instante em que dizia isso, rindo, tambm e, com 
a ponta dos dedos, mandou um beijo para Lola, que sorriu 
feliz.
Rafael olhou para Carmem que, sabendo o que ele pensava, 
se calou. Depois, ele voltou o olhar para Maria e disse:
 Quando voc crescer um pouquinho mais, vou lhe contar 
uma histria. Sua me deve estar muito preocupada com 
voc.  olhando para o lado onde a menina olhava, 
continuou.  Precisa dizer a sua ela que est feliz e bem. Sei 
que ela vai ficar feliz. J que a est vendo, no se esquea de 
dizer que eu mando um beijo e que estou com muita 
saudade dela.
Lola ouviu aquilo e, sem conseguir controlar, deixou que 
uma lgrima escorresse por seu rosto. Manolo percebeu. Ela 
ficou um pouco constrangida. Ele sorriu e disse:
 No se preocupe, Lola. Rafael  um grande amigo nosso. 
Estamos h muito tempo caminhando juntos. O sentimento 
que voc tem por ele  o mesmo que eu tenho. No existia 
melhor pessoa para cuidar de Maria e encaminh-la.
 Sei disso. Eu queria tanto poder abraar e beijar a minha 
filha...
 Eu tambm queria, mas sabe que no podemos.
Carmem tambm ouviu o que Rafael disse e, de seus olhos, 
lgrimas caram, s que no eram de emoo e saudade, mas 
de muito dio por Maria:
Essa menina vai me pagar! Por que tinha de fazer Rafael se 
lembrar de Lola?
Ao ouvir aquilo, Lola se desesperou:
 Dona Isabel, o que ela vai fazer com a Maria?
 No sei, Lola. Precisamos esperar.
 No acredito que no possamos fazer nada! Se eu 
estivesse viva, teria como proteger a minha filha!
 Acalme-se. No adianta ficar assim. Estamos aqui e 
faremos tudo o que for possvel para proteger Maria. Se 
estivesse viva, seria diferente. Poderia, mesmo, defender 
Maria e at se vingar de Carmem, mas estaria tambm 
contraindo dvidas, que precisariam ser pagas de alguma 
maneira.
 Isso no est certo! Ela me fez mal e est fazendo mal 
para minha filha e eu nada posso fazer?
 Pode fazer algo e eu j lhe disse o qu...
Sabendo do que ela falava e no estando ainda pronta para 
orar por Carmem, Lola comeou a chorar e, com as mos no 
rosto, acompanhava o que se passava.
Rafael viu as lgrimas caindo pelo rosto de Carmem e, com 
voz amorosa, perguntou:
 Voc gostava muito da Lola e tambm sente saudade 
dela, no , Carmem?
Ela, com o rosto triste, fingindo uma saudade que na 
realidade no sentia, respondeu:
 Sinto saudade, sim, Rafael. Embora a tenha conhecido 
por to pouco tempo, era minha amiga. Agora, est quase na 
hora de ir para a lavoura e ainda precisa tomar caf.
 Tem razo. Vou avivar o fogo.
Ele foi at o fogo, colocou lenha e, com a tampa de uma 
panela, comeou a abanar.
Carmem, fingindo um carinho que no sentia, disse:
 Agora, minha menina, depois de comer, volte a dormir. 
Ainda  muito cedo para se levantar.
Rafael ouviu o que ela disse e sorriu. Lola, ainda desesperada, 
perguntou:
 O que vamos fazer agora?
 Vamos esperar, Lola.
Sem alternativa, Lola, olhando com amor para a filha, 
esperou.
 
Nunca estamos ss

Aps ver que as chamas estavam fortes e que logo se 
transformariam em brasas, Rafael colocou uma leiteira com 
leite ao lado das chamas, sobre a lateral do fogo que, por ser 
feito de barro, fazia com que a frente e as laterais estivessem 
sempre quentes. Depois, pegou um filo de po que algumas 
mulheres da colnia assavam e forneciam aos demais. Como 
precisavam pegar no armazm os ingredientes, cobravam 
uma pequena quantia por filo.
Assim que a gua ferveu, Rafael colocou p em um coador 
feito de flanela e coou o caf. Em seguida, cortou trs fatias 
grandes de po, passou manteiga e, colocando o leite em trs 
canecas, disse:
 Agora j podem se levantar. O caf da manh est 
servido.
Carmem sorriu e, enquanto colocava o colcho onde Rafael 
dormia sob a cama de casal, disse:
 Vamos, Maria! Seu pai j preparou o caf. Ainda  muito 
cedo. Por isso, assim que terminarmos de tomar o caf, 
vamos voltar a dormir.
Maria, sorrindo, levantou-se e sentou-se  mesa, em uma 
cadeira perto de Rafael. Comearam a comer.
Estavam comendo, quando Julian chegou. Cumprimentou 
Rafael e Carmem.
 Bom dia.
Rafael e Carmem responderam ao cumprimento e ela disse:
 Como sempre, chegou bem na hora. Entre e tome caf. 
Julian sentou-se e, tomando caf, disse.
 A partir de hoje, vamos ter muito mais trabalho, no , 
Rafael?
 , sim, mas, por outro lado, depois que a colheita for feita 
e vendida, poderemos, finalmente, receber um bom 
dinheiro e pensar o que fazer com a vida. Definitivamente, 
no podemos mais continuar aqui. No foi para ter uma vida 
como esta que deixamos o nosso pas.
 Tem razo. Pelo volume plantado, acho que, mesmo 
depois de ir limos a metade ao patro e a nossa conta no 
armazm, ainda vai sobrar um bom dinheiro.
 Precisa sobrar, Julian.
 Eu gostaria de ir com vocs.
 Seria bom se pudesse ir, Carmem, mas voc sabe que no 
pode. Precisa cuidar da Maria. Ela  ainda muito pequena e 
na lavoura existem muitas cobras e insetos venenosos.
 Ele tem razo, Carmem. Maria  ainda muito pequena e 
no sabe diferenciar um inseto de outro ou uma cobra.
  uma pena. Fico pensando em quanto trabalho tem e no 
muito que poderia ajudar.
 Arrumando as casas, lavando as nossas roupas, fazendo a 
nossa comida e cuidando da Maria, j faz muito.
 Isso no  o suficiente, Julian. Na lavoura, eu poderia 
ajudar mais.
 No se preocupe, Carmem. Eu, seus irmos e Julian 
vamos dar conta. Agora est na hora de ir. Estamos 
atrasados.
 No se esqueam de pegar a comida. J preparei uma 
marmita para cada um, embora continue achando que seria 
melhor se viessem almoar em casa. Poderiam comer uma 
comida feita na hora.
 Sabe que tambm queramos fazer isso, Carmem, mas se 
viermos at aqui, perderemos muito tempo e atrasaremos o 
trabalho. Estando l, cada um come em um horrio e o 
trabalho rende mais.
 Sei disso, mas deve ser ruim comer comida fria.
 , sim, mas vai ser por pouco tempo. Assim que 
terminarmos a colheita, vamos pegar o dinheiro e vamos 
embora daqui.
 Para onde, Rafael?
 No sei, Carmem, talvez para uma cidade maior ou at 
para a Capital. L deve ter melhor oportunidade de trabalho. 
Posso tentar abrir o meu prprio negcio com os trabalhos 
que fao com ferro. Acho que, com esse trabalho, vou poder 
ganhar muito dinheiro. No se preocupe, quando chegar a 
hora, vamos resolver.
 Para onde vocs forem, vou tambm.
Carmem e Rafael olharam para Julian que, at ali, apenas 
ouvia a conversa. Rafael riu:
 Claro que vai, Julian. Voc j faz parte da famlia.
 Ainda bem, pensei que no iam querer que eu fosse 
junto.
 No diga bobagem. Vamos, estamos atrasados.
 Vamos, sim.
Quando estavam saindo, encontraram Pedro e Pepe que, 
como sempre, estavam atrasados. Rafael disse:
 Eu e o Julian j estamos indo. Tomem caf e no 
demorem.
 Ns tambm j estamos indo, Rafael. Vamos tomar um 
caf rpido e vamos alcanar vocs no caminho.
Novamente, Rafael sorriu, j estava acostumado. Todos os 
dias era mesma coisa. Os jovens tinham dificuldade para 
acordar cedo, mas, depois, trabalhavam muito.
Enquanto Rafael e Julian se afastavam, Carmem ficou  
porta, quando no os viu mais, entrou em casa. Logo depois, 
Pepe e Pedro saram correndo.
Com dio, Carmem olhou para Maria que, no entendendo 
o que ocorria, ficou olhando para ela.
Nervosa, Carmem se aproximou, pegou a menina pelos dois 
braos e comeou a sacudir, dizendo:
 Voc  um inferno na minha vida! Por sua causa no 
posso ir com Rafael na lavoura! Por sua causa, preciso ficar 
distante dele! No sei por que voc no morre!
De uma altura considervel, jogou Maria sobre a cama. 
Maria, agora, chorava desesperada.
 Cale a boca, menina! Vai chamar a ateno dos vizinhos! 
Se no parar de chorar, vou colocar sua mo ali no fogo e a 
voc vai chorar com motivo!
Maria, horrorizada, no conseguia parar de chorar. Carmem, 
mais nervosa ainda, pegou-a pelo brao, levou-a at o fogo 
e colocou sua mozinha na lateral onde estava sempre 
quente. Ficou alguns segundos, o suficiente para queimar. 
Maria deu um grito de dor. O grito foi to alto que, em 
poucos segundos, as vizinhas do lado da casa chegaram. 
Uma delas perguntou:
 O que aconteceu, Carmem? Por que ela est gritando e 
chorando assim?
Demonstrando um desespero que no sentia, ela respondeu:
 No sei, Ana. Eu estava distrada e no vi quando ela 
colocou a mo no fogo. Olha que queimadura horrvel.
Voltando-se para Maria, que chorava, Carmem continuou:
 Como voc foi mexer no fogo, Maria? Venha aqui no 
meu colo.
Comeou a beijar a menina. Josefa, comovida com todo o 
carinho demonstrado, disse:
 Espere, vou at a casa. L eu tenho um ungento que 
serve para queimadura. Com ele, a dor logo vai passar.
Ela saiu e Carmem, sob o olhar tambm comovido de Ana, a 
outra vizinha, comeou a embalar Maria que, por causa da 
dor, no conseguia parar de gritar.
Lola tambm chorava:
 Como ela pde ter coragem de fazer uma coisa como 
essa, Manolo? Nossa filha  ainda um beb. No podemos 
fazer nada para afast-la dela?
Quem respondeu foi dona Isabel:
 No, Lola. Carmem est tendo a oportunidade de 
redeno, mas parece que no vai aproveitar. Maria renasceu 
para ajud-la e prometeu que tudo faria para que isso 
acontecesse.
 Est dizendo que Maria pediu para ter sua mo queimada 
e sofrer toda essa dor, dona Isabel?  perguntou revoltada.
 No, Lola. Ningum renasce para ser infeliz! A vontade 
de Deus  que todos sejam felizes e s no so por agirem 
como Carmem est fazendo agora, ao ir contra Suas leis. 
Estou dizendo que renasceram juntas para poderem aparar 
arestas e redimir erros passados. Maria no sofreria dessa 
maneira, se Carmem cumprisse o que prometeu. Alm do 
mais, o esprito de Maria, por enquanto, est em um corpo 
de criana que, por suas limitaes, ainda no pode 
demonstrar o que far quando tiver um corpo adulto.
 No me interessa se  um esprito adulto, dona Isabel. O 
que sei  que, agora,  uma criana e no sabe se defender!
 Essa tambm  uma prova pela qual no precisa passar, 
mas para ajudar Carmem a se redimir, aceitou passar. Queira 
Deus que esse tipo de atitude no revolte o seu esprito.
 Revoltar? Acha que ela vai se tornar uma pessoa m, dona 
Isabel?
 No sei responder, Lola. Estou dizendo que nada 
sabemos. Isso depender de seu livre-arbtrio.
 Sendo criada por Carmem, com todo tipo de sofrimento, 
acha que ela se tornar o qu? Claro que um adulto 
revoltado! Ruim!
 Nem sempre isso acontece, Lola. O esprito, quando est 
preparado, sabe superar tudo. Muitas pessoas que sofreram 
na infncia se tornaram adultos bons e outras, que tiveram 
tudo, amor e carinho, tornam-se adultos maldosos.
 No consigo entender isso. Por que uma criana como 
Maria pode sofrer nas mos de um monstro como Carmem e 
nada pode ser feito?
Manolo abraou Lola e disse:
 s vezes,  difcil, mas sempre existe uma resposta para 
tudo. Com o tempo, entender, assim como entendi.
 No posso aceitar que seja castigada por algo que fiz em 
outra encarnao sem que lembre! O mesmo acontece com 
Maria. Tambm, fez algo ruim e no lembra, no h o 
porqu de sofrer dessa maneira.
 Ela no est sofrendo em causa prpria, mas para ajudar 
Carmem, de quem  companheira faz muito tempo. Ela 
escolheu, Lola.
Dona Isabel continuou:
 O esquecimento  mais uma bondade de Deus. Se nos 
lembrssemos do que fizemos, talvez no agentaramos. 
Carmem no se lembra do que fez  Maria. Maria no se 
lembra do que Carmem fez a ela, por isso esto juntas. 
Maria, que foi vtima e que perdoou a Carmem, aceitou 
renascer e, dependendo da atitude de Carmem, sabia que 
poderia passar por isso, mas, mesmo assim, aceitou.
Lola ia dizer alguma coisa, mas Josefa voltou com o 
ungento, com a voz carinhosa, disse:
 D a mo, Maria. Assim que eu passar esse remdio, vai 
parar de doer.
Maria, no colo de Carmem, ainda chorando muito, estendeu 
o bracinho. Josefa, com cuidado, passou o ungento. Aos 
poucos, a dor foi passando e Maria, finalmente, parou de 
chorar. Olhou para Carmem , soluando, falou:
 Me... Fogo...
Ao ouvir aquilo, Carmem estremeceu. Pensou rpido e, 
beijando rosto da menina, falou:
 Sei que foi no fogo que voc se queimou, mas eu j lhe 
disse vrias vezes para no chegar perto dele. Agora, com 
esse remdio que a Josefa passou, no vai doer mais e, j 
sabe, nunca mais se aproxime do fogo. Voc  muito 
pequena e sempre pode tropear.
A menina ia dizer algo, mas Carmem, ainda embalando-a, 
continuou falando:
 Ainda  muito cedo. Agora, voc vai tentar dormir. 
Obrigada, Josefa pelo ungento. Fiquei to assustada que no 
consegui pensar em nada para ajudar minha filha.
 No precisa agradecer, Carmem, nem ficar preocupada.  
assim mesmo. Para tomar conta de uma criana, 
precisaramos ter vinte olhos. Elas so curiosas. Como estou 
criando trs, sei como . Voc no teve culpa. Sei tambm 
que, quando acontece alguma coisa com nossos filhos, na 
hora, no sabemos o que fazer. Vou deixar o ungento aqui 
e, quando a dor voltar, passe novamente. Agora est 
vermelho, mas depois, dependendo da profundidade da 
queimadura, pode criar uma bolha.  preciso manter o local 
sempre umedecido com o ungento e limpo para no 
inflamar.
 Est bem, Josefa. Vou cuidar bem dela.
 Preciso ir. Agora, seria melhor, mesmo, que ela dormisse.
 Vou fazer isso. Obrigada novamente. A voc tambm, 
Ana. Ana, desconcertada, sorriu:
 No se preocupe, Carmem, pois, assim como voc, 
tambm fiquei paralisada, imaginando a dor que ela estava 
sentindo, e no consegui ajudar.
 S de ter vindo, ajudou muito, Ana. Eu estava sem saber 
o que fazer.
As duas sorriram e saram. Quando Carmem teve a certeza 
de que elas estavam distantes e no poderiam ouvir, nervosa, 
voltou a balanar Maria, que ainda soluava. Com muito 
dio, descontrolada, disse:
 Voc, agora, vai parar de chorar! No quero que d mais 
um pio! No se atreva a contar para o Rafael o que 
aconteceu! Se fizer isso, eu queimo sua outra mo!
Maria arregalou os olhos. Com medo, voltou a chorar, s 
que, agora, baixinho.
 Eu j falei para parar de chorar!
 Est doendo...
 Vai doer muito mais se no parar de chorar e se contar 
para algum o que aconteceu! Vou apertar com muita fora 
o lugar que est queimado.
Com raiva, jogou a menina sobre a cama e foi at o fogo, 
tomou um pouco de caf.
Maria, com medo, continuou chorando, s que baixinho.
 Maria no pode continuar com ela, assim, sem proteo, 
dona Isabel. Precisamos fazer alguma coisa para que Rafael 
descubra.  Lola falou chorando e desesperada.
 Tem razo, Lola. No podemos interferir no livre-arbtrio 
de Carmem, mas podemos ir at onde Rafael est e o 
intuirmos para que volte e, tambm, permitir que Maria nos 
veja.
 Podemos fazer isso, dona Isabel? Pode fazer com que 
Rafael volte e que Maria nos veja?
 A criana, por ainda ser pura, na carne, e ainda trazer 
alguma lembrana do tempo vivido na espiritualidade, tem 
facilidade para ver os espritos. Vamos envolv-la com 
amor. Ela vai nos ver, principalmente a voc, Lola. Embora, 
quando voc partiu, ela ainda fosse no pequena, tem ainda 
sua imagem presente. Quanto a Rafael, todos, mesmo sem 
saber, recebem, a todo momento, intuio do plano 
espiritual. Ao lado de cada esprito, reencarnado ou no, 
quando necessrio, existe sempre um ou mais amigos 
espirituais que fazem o possvel para evitar sofrimento. 
Porm, isso s acontece quando no se trata de livre-
arbtrio. Muitas pessoas dizem que deixaram de passar por 
um determinado lugar, de fazer alguma coisa, uma viagem, 
por exemplo, e depois, quando algo acontece e no sofreram 
dano, dizem que foi como se houvessem tido um aviso, que 
foi um milagre. Na realidade, no deixam de ter razo. 
Foram, sim, intudos, como estamos fazendo agora com 
Rafael. Somente quando no pode ser evitado  que no 
interferimos. Muitas vezes, os encarnados se perguntam por 
que tinham de passar naquele lugar, naquele minuto e 
sofrerem um acidente. Pois, se passassem alguns minutos 
depois, nada sofreriam. Porque aquele era um momento que 
no podia ser evitado. Era um momento planejado.
Lola e Manolo, em silncio, ouviram o que ela disse e 
ficaram calados.
 Agora, vocs devem ir at onde Rafael est e tentem 
fazer com que volte para casa. Enquanto isso, eu ficarei 
jogando luzes sobre Maria para que a dor diminua.
Lola respirou aliviada e, pegando nas mos de Manolo, 
ambos desapareceram.
Rafael j havia chegado  lavoura e trabalhava ardentemente. 
Enquanto trabalhava, pensava:
Assim que recebermos o dinheiro da colheita, iremos 
embora daqui. Ainda no sei para onde, mas que vamos, 
vamos. Chega de tanta misria! Sei que, em outro lugar, 
vamos ter uma melhor condio de vida.
Eles se aproximaram dele. Manolo disse:
 Agora, Lola, eu vou jogar luzes sobre ele, e voc, 
converse. Faa com que volte para casa.
Lola, agoniada e preocupada, concordou com a cabea. 
Manolo comeou a jogar luzes. Lola se aproximou e, com a 
voz embargada, disse:
 Rafael, Maria est sofrendo muito e precisa da sua 
proteo. Precisa voltar agora para casa. Ela  to pequena e 
s tem a voc para proteg-la. Por favor, oua o que estou 
dizendo.
Rafael, que estava colhendo os frutos do caf, parou por um 
instante, levantou a cabea e olhou para o cu. Manolo 
sorriu:
 Ele est ouvindo, Lola. Continue!
  isso mesmo, Rafael. Precisa voltar para casa... Maria est 
precisando...
No mesmo instante, ele voltou-se para Julian que estava a 
alguns metros e disse:
 Julian, vou at em casa.
 H esta hora? Por qu?
 No sei, mas estou sentindo que preciso ir. Acho que 
aconteceu alguma coisa ruim.
 Faz pouco tempo que samos e estava tudo bem.
 Sei disso, mas, mesmo assim, vou at l, Julian.
 Sabe que vai atrasar o trabalho, no sabe?
 Sei, mas preciso ir. Volto logo e vou trabalhar at mais 
tarde para compensar.
 Parece que no vai mudar de idia. V e no se preocupe, 
tenho certeza de que nada aconteceu.
Sem esperar um minuto a mais, Rafael saiu correndo.
Lola sorriu, pois sabia que na companhia dele Maria estaria 
bem.
Saram dali e, em poucos segundos, estavam de volta ao 
quarto onde Maria estava.
A menina, amedrontada, estava encolhida na cama. Seus 
olhos estavam cheios de lgrimas pela dor que sentia, mas 
tinha medo de chorar. Isabel, com as mos estendidas, 
jogava luzes em direo a Maria. Logo a menina estava 
envolvida de muita luz branca. A dor que sentia tambm 
desapareceu. Em seguida, disse:
 Ela est nos vendo, Lola.
Emocionada, Lola se aproximou um pouco mais e, 
mantendo distncia, disse:
 Maria, sou eu, a mame... Estou aqui ao seu lado... 
A menina, quando a viu, sorriu e, entre lgrimas, disse:
 Mame...
 Estou aqui, minha filha, e vou fazer o que puder para que 
voc no sofra.  Lola disse sorrindo, tambm com 
lgrimas nos olhos.
 Mame, est doendo...  Maria disse, extasiada diante 
deles e de toda aquela luz que a envolvia.
 Sei que est doendo, minha filha, mas vai passar. Agora, 
voc precisa dormir, assim no vai sentir mais dor...
Carmem, que estava junto ao fogo tomando caf, ouviu 
Maria falando. Voltou-se e, ainda com raiva, viu que ela 
olhava e sorria para o lado onde eles estavam. No sabia o 
que estava acontecendo. Perguntou:
 O que est acontecendo, por que me chamou? 
Maria pareceu no ouvir. Ela voltou a perguntar:
 O que voc quer? Por que me chamou?
Maria, sorrindo para Lola, no ouviu o que ela perguntou e 
no respondeu.
Carmem se aproximou da cama e sacudindo a menina voltou 
a perguntar:
 O que voc quer?
Maria, ainda olhando para Lola que sorria e, com a ponta dos 
dedos, lhe mandava beijos.
 Mame... mame...
Carmem, sem entender o que estava acontecendo, disse, 
raivosa:
 No entendo voc, menina! Como, depois do que 
aconteceu, voc ainda pode me chamar com tanto carinho?
A menina no ouviu. Continuou olhando para Lola e a dizer:
 Mame... mame...
Carmem, com a voz firme e gritando, disse:
 Trate de dormir! Voc  mesmo um empecilho na minha 
vida! Olhe o que me obrigou a fazer! No sei por que no 
morre!
A menina, ainda no ouvindo, continuou olhando para Lola 
que continuava sorrindo.
 Tente dormir, minha filha. A dor logo vai passar. Estou 
aqui ao seu lado, nunca se esquea disso.
Aos poucos, sob a paz de toda aquela luz, ela adormeceu. 
Carmem voltou ao fogo, pegou outra caneca com caf e 
ficou pensando:
Como fui fazer uma coisa como essa? Se essa menina contar 
para o Rafael, ele nunca vai me perdoar! Se eu no tivesse 
interferido, ela teria contado para a Ana e a Josefa. Preciso 
dar um jeito nela, mas no pode ser dessa maneira! No 
posso deixar espao para dvida alguma a meu respeito. 
Preciso fazer alguma coisa, mas o qu?
Assim que adormeceu, Maria abriu os olhos espirituais e 
pde ver mais nitidamente Lola. Esta olhou para Isabel que, 
entendendo o que ela queria, disse:
 Agora, sim. Lola. Voc pode abra-la, beij-la e fazer 
todo o carinho que quiser.
Lola, chorando e rindo ao mesmo tempo, abraou e beijou a 
menina muitas vezes. Maria, sem entender o que estava 
acontecendo, apenas falava:
 Mame... mame...
 Estou aqui, minha filha, e vou ficar todo o tempo que 
puder. A menina mostrou a mozinha:
 Doeu muito... muito... muito...
 Sei, meu amor, mas nada pude fazer para evitar. Agora 
est doendo?
 No, agora no...
 Preste ateno e no se esquea, sempre que alguma coisa 
ruim acontecer a voc, precisa se lembrar de que eu estou 
do seu lado, bem pertinho. Est bem? No vai se esquecer?
 No... no vou...mame...
Ficou ali com a menina no colo, embalando-a com muito 
carinho. Depois de algum tempo, Isabel disse:
 Agora ela precisa voltar ao corpo, Lola.
 J, dona Isabel? Queria ficar mais tempo com ela no 
colo...
 Sei que queria, mas no  possvel. Por outro lado, voc 
talvez no tenha percebido, mas disse algo muito importante 
para todos ns, espritos encarnados ou no.
 O que eu disse?
 Disse que, nos momentos difceis, sempre estar ao lado 
dela.
 Eu disse, mas no sei se  possvel...
  sim, Lola, e acontece sempre. Por pior que seja o 
momento por que estamos passando, sempre teremos ao 
nosso lado amigos espirituais que estaro nos ajudando a 
conseguir a nossa evoluo. Nunca estamos ss, Lola. 
Nunca. Mesmo ns, os desencarnados, assim como 
encarnados, precisamos sempre da ajuda de amigos. E 
sempre temos.
 Saber isso  um alvio...
 Sim, tem razo, se todos soubessem e acreditassem nisso, 
veriam que os momentos ruins passam bem depressa. Agora, 
coloque-a na cama. Dentro de alguns minutos, vai despertar.
 A dor vai voltar?
 Vai, mas no se preocupe, Rafael est chegando. Ele vai 
cuidar dela.
Com carinho, Lola beijou o esprito da filha mais uma vez e 
colocou ele volta ao corpo e na cama.
O esprito da menina, antes mesmo se ser colocada na cama, 
j estava adormecido.
Eles permaneceram ali, ao seu lado.

Ajuda providencial

Rafael chegou cansado de tanto correr e quase no 
conseguia falar. Olhou para a cama de Maria e viu que ela 
estava dormindo. No pde ver a mo, pois um cobertor a 
cobria. Assustado e nervoso, perguntou:
 O que aconteceu aqui, Carmem? 
Ela tambm se assustou ao v-lo ali, pois isso nunca 
acontecia. Eles, depois que iam para a lavoura, s voltavam 
quando comeava a escurecer. Pensou rpido e comeou a 
chorar, enquanto dizia:
 Voc nunca vai me perdoar...
 O que aconteceu, Carmem?
Ela, agora, chorava desesperada. Ele ficou mais nervoso 
ainda. Perguntou novamente:
 Pare de chorar, Carmem, e me diga o que aconteceu!
 Sei que sou a culpada, mas nunca pensei que poderia 
acontecer uma coisa como essa...
 Por favor, Carmem, diga logo!
 Eu me distra e no vi quando a Maria foi para junto do 
fogo. No sei o que aconteceu, acho que ela tropeou. 
Quando ouvi um grito, me voltei e ela estava com a 
mozinha sobre o fogo. Corri, mas quando consegui tir-la, 
j havia se queimado muito.  Ela queimou a mo?
 Sim. Perdo, Rafael... foi culpa minha... me distra...
Ele no a ouviu mais. Correu para junto de Maria que 
dormia. Com cuidado, levantou o cobertor, olhou para a 
mo da menina que, agora, estava toda vermelha.
 Meu Deus, Carmem... deve ter dodo muito...
 Doeu, sim. Ela gritou to alto que Josefa e Ana correram 
para c. Depois de ver o que tinha acontecido, Josefa trouxe 
um ungento. Assim que terminou de passar, a dor sumiu e 
Maria dormiu.
Ela chorava desesperada. Tanto que Rafael, comovido com 
tanta devoo, disse:
 No precisa ficar assim, foi um acidente. Sabe que criana 
 muito curiosa. Voc no teve culpa. Sei com que 
dedicao cuida dela. O importante  que parece que ela est 
bem...
Intimamente, Carmem sorriu e pensou:
Ele acreditou na minha histria. S falta essa peste acordar e 
contar o que aconteceu realmente.
Rafael ficou ali, olhando para Maria. Disse baixinho:
 Como pde fazer isso, Maria. Sei que  criana e que 
ainda no tem a real noo do perigo. Quando acordar, 
vamos conversar. Preciso lhe explicar algumas coisas.
Carmem estremeceu. O medo tomou conta de todo o seu 
ser: Preciso fazer alguma coisa para impedir que ela conte a 
verdade! Disfarando o medo que estava sentindo, 
perguntou:
 Como voc soube, Rafael?
Ele se voltou, foi at o fogo, colocou caf em uma caneca e 
respondeu:
 No sei, Carmem. Estava trabalhando e, de repente, senti 
uma sensao ruim e uma vontade imensa de vir para casa. 
No sabia o que havia acontecido, mas sabia que era algo 
muito ruim.
 Que estranho...
 Tambm achei. Acho que foi um anjo que me avisou. 
Mesmo assim, no consegui evitar que acontecesse.
 Voc no tem culpa, Rafael. Fui eu quem me distra e no 
olhei o que ela estava fazendo.
 Ningum teve culpa. Carmem. Essas coisas acontecem. 
Bem, apesar da queimadura, parece que ela est bem. Preciso 
voltar ao trabalho. Sei que no preciso dizer, Carmem. 
Todos sabem com que carinho voc cuida dela, mas, por 
favor, no descuide nem por um minuto, est bem?
 Desculpe, Rafael. No vai acontecer novamente. Vou 
ficar com vinte olhos abertos.
 Tambm no precisa tanto, bastam os seus dois.  disse, 
rindo.  J que ela est bem, preciso voltar ao trabalho. Sa 
de l correndo sem dar explicao. Julian e seus irmos no 
devem ter entendido nada. Vou, mas, se acontecer alguma 
coisa, se ela sentir muita dor, mande me chamar. Se for 
preciso, ns a levaremos at a cidade. L deve ter um 
mdico.
 Est bem, Rafael. Pode ir tranqilo. Vou cuidar dela com 
todo carinho.
Ele sorriu. Ia saindo quando ouviu:
 Papai...
Ao ouvir a voz da menina, ele se voltou e foi at a cama. 
Perguntou:
 O que aconteceu, Maria? Como foi fazer isso? Maria 
comeou a chorar. Ia dizer o que aconteceu, mas, Carmem, 
por detrs dos ombros de Rafael, fez com a cabea um gesto 
e de seus os pareciam sair fascas. Antes que a menina 
respondesse, falou:
 Voc tropeou, no foi, Maria?
Tremendo de medo, a menina, sem responder, concordou 
com a cabea.
 Precisa tomar cuidado, minha filha. No chegue nunca 
mais perto do fogo...
 No vou chegar, mas est doendo muito.
 Deve estar mesmo. Carmem, a Josefa deixou o ungento? 
 Deixou, est aqui.
Entregou para ele, que, com carinho, passou por toda a 
queimadura. Aos poucos com a ajuda do ungento e das 
luzes que Isabel e Manolo jogavam sobre ela, a dor foi 
desaparecendo. Maria respirou aliviada. Disse:
 Parou de doer, papai. Sabe. Eu no disse que tinha 
sonhado com a minha me de verdade?
 Disse, mas por que est me perguntando isso?
 Sonhei com ela de novo... me pegou no colo, me beijou, 
abraou e falou alguma coisa, mas no lembro o que foi.
 Que bom, minha filha. Ela deve estar sempre por aqui. 
Ela amava muito voc...
 Acho que ela no  minha me. Acho que ela  um anjo 
com a cara da minha me...
 Voc se lembra da sua me? Como ela , Maria?
 Lembro. Ela tem os cabelos muito pretos e os olhos 
grandes.  muito bonita, mesmo. Acho que gosta de mim, 
de verdade...
Rafael e Carmem lembraram-se de Lola. Ele, com lgrimas 
nos lhos, disse:
 Claro que gosta, minha filha. Estou tranqilo por saber 
que ela est cuidando de voc...
Lola, que estava ali, viu uma bola de luz que saa do peito de 
Rafael e que a atingiu totalmente. Sentiu-se muito bem e 
disse:
 Obrigada, Rafael, por todo esse amor que sente por mim. 
Eu e Manolo vamos, sim, ficar ao lado dela e fazer todo o 
possvel para evitar que ela sofra.
Sem saber que ela estava ali, Maria perguntou:
 Ser que ela vai voltar, papai?
 Vai, sim, minha filha. Claro que vai. Acho at que ela est 
aqui. Ela gosta muito de voc. Agora, eu preciso voltar ao 
trabalho.
Maria olhou para Carmem e, com lgrimas nos olhos, disse:
 No vai, papai. Fica aqui comigo...
 Bem que eu gostaria, mas no posso. Prometo que, assim 
que terminar a colheita, vou receber muito dinheiro e 
vamos mudar daqui para um lugar melhor. Vou arrumar 
outro emprego at conseguir montar o meu negcio e vou 
passar mais tempo com voc. Promete que vai ficar deitada e 
quietinha sem mexer muito a mo?
 Prometo, mas, papai, me leva com o senhor?
 No pode, minha filha. A lavoura  um lugar muito 
perigoso. Tem muitos insetos e cobras. Mas no se 
preocupe, Carmem gosta muito de voc e vai cuidar para 
que nada mais de mal lhe acontea, no , Carmem?
A menina olhou para Carmem que, com medo que ela 
dissesse alguma coisa, falou rpido:
 Claro que vou cuidar, Maria. Sabe o quanto gosto de 
voc. Pode ir trabalhar sossegado, nada mais vai acontecer. 
Vou ficar o tempo todo ao lado dela.
 Est bem, estou indo. Hoje talvez eu chegue um pouco 
mais tarde. Preciso compensar o tempo em que estou aqui.
 No se preocupe. Tudo vai ficar bem.  Carmem disse, 
sorrindo. Rafael beijou a testa de Maria e saiu. A menina se 
encolheu e fechou os olhos, fingindo dormir.
Carmem sabia quanto tempo Rafael levava para chegar  
lavoura. Esperou um pouco. Quando teve certeza de que ele 
estava distante, com fora e sacudindo Maria, levantou-a, 
dizendo:
 Voc no toma jeito mesmo, no ?
A menina, tremendo com muito medo, disse:
 Eu no falei nada... no contei que foi a senhora que 
queimou a minha mo...
 No contou por pouco! Pensa que eu no sei que queria 
contar? 
Maria agora chorava:
 No vou contar...
 Nunca mais fale com ele sobre sua me ou sei l com 
quem diz sonhar!
 Por qu? Ela gosta de mim...
 Gosta coisa nenhuma! Voc fica inventando essa histria. 
Para se esquecer de que no  para falar mais dela, voc vai 
se levantar e ficar em p ali naquele canto sem se mexer!
 Eu no quero. Minha mo est doendo...
 Pode no querer e no me importo se sua mo est 
doendo ou no! Fique sabendo que quem manda aqui sou 
eu! Levante logo!
Sem ter o que fazer e sabendo que Carmem era violenta, 
chorando, Maria se levantou e foi para o canto que Carmem 
lhe mostrava com a mo.
 Fique a e no se mexa!
Lola, ao ver aquilo, no suportou e mais uma vez se jogou 
sobre Carmem que sentiu novamente aquele mal-estar e 
quase caiu. 
Isabel e Manolo a retiraram.
 Sabe que no pode fazer isso, Lola.
 Como no, dona Isabel! Ela est maltratando a minha 
filha, uma criana sem defesa!  disse, furiosa.
 Ela est errada, mas voc no pode errar tambm. Ao 
invs disso, vamos ajudar Maria de uma outra maneira.
 De que maneira?
 Venha.
Saram dali e foram at a casa de Josefa que preparava o 
almoo, Isabel, estendendo a mo sobre ela, disse:
 Josefa, voc precisa ajudar Maria. V at l, agora. 
Josefa, que estava fazendo arroz, no mesmo instante, 
pensou: 
Como ser que Maria est? Ser que a dor passou? Assim que 
colocar gua no arroz, vou at l. 
Lola sorriu. Isabel disse:
 No lhe disse que no  preciso usar de violncia, Lola.
 A senhora disse, tambm, que no podia interferir no 
livre-arbtrio.
 No interferi. Carmem j usou o seu livre-arbtrio no 
momento em que queimou Maria e fez com que ela se 
levantasse e ficasse em p sem se mexer. O que estamos 
fazendo agora  ajudar a menina. So coisas diferentes.
Maria estava em p j h algum tempo. Suas perninhas 
estavam tremendo e comeando a doer, mas, com medo, ela 
fazia o possvel para no se mexer. 
Carmem, aps sentir aquela tontura, ficou preocupada e, 
olhando para a menina, pensou:
O que  isso que estou sentindo? Por que essa tontura, esse 
mal-estar?  o nervoso que estou passando com essa 
menina! Rafael  todo carinhoso com ela e para mim no 
tem um olhar ou uma palavra de carinho! Quando se lembra 
da Lola, seus olhos brilham. At quando isso vai continuar 
assim? J sei...vai durar enquanto essa menina viver, ele no 
vai se esquecer da outra!
Com dio, foi em direo de Maria que no viu porque 
estava de costas para ela, olhando para a parede. Carmem 
levantou a mo, ia bater nela, mas, neste momento, Josefa 
apareceu na porta.
 Carmem, a Maria est bem?
Carmem, ao ouvir a voz dela, se assustou. Voltou-se e, 
rindo, disse!
 Ela est bem, sim. Disse que no di mais.
 Por que est em p?
 Ela  muito teimosa. No quer ficar deitada, eu estava 
agora mesmo, tentando fazer com que voltasse para a cama.
Josefa entrou na casa e foi para junto de Maria que, rpido, 
secou as lagrimas que corriam por seu rosto. Josefa chegou 
perto dela, virou a e perguntou:
 Por que quer ficar em p, Maria?
Maria olhou para Carmem que estava atrs de Josefa. Pelo 
seu olhar, percebeu que no devia contar a verdade, disse:
 Eu gosto de ficar em p, dona Josefa.
 Como pode gostar de ficar em p, ainda mais com essa 
mo queimada que deve estar doendo muito.
 Est doendo s um pouquinho.
Josefa a abraou e, com carinho na voz, disse:
 Para que voc possa sarar  preciso ficar quietinha, sem 
mexer muito a mo. Deve ficar deitada, Maria. Venham, vou 
colocar voc na cama.
Maria, muito assustada, olhou para Carmem que, com a 
cabea, disse que sim.
Josefa colocou-a sobre a cama, cobriu-a, deixando a mo 
queimada para fora e disse:
 Agora vou passar mais um pouco do ungento e voc vai 
ficar quietinha. Est bem?
Novamente, Maria olhou para Carmem que voltou a 
concordar com a cabea.
A menina fechou os olhos e pensou:
Me bonita, cuida de mim... faz ela no me machucar mais... 
Lola, chorando, disse:
 Estou aqui, minha filha. Por que voc no conta ao 
Rafael? Ele precisa saber...
Depois, voltou-se para Isabel e, nervosa, disse:
 Isso no  justo, dona Isabel! Por que eu tive de morrer e 
abandonar a minha filha nas mos dessa louca? Por que a 
minha menina tem de sofrer tanto? No est certo, no est 
certo...
 Tudo est sempre certo, Lola. Nada acontece que no 
tenha sido desejado ou previsto. Carmem, infelizmente, est 
perdendo uma grande oportunidade que lhe foi dada, mas 
ainda tenho esperana de que ela mude.
 Mudar? Ela no vai mudar nunca! Ela vai judiar at matar 
a minha filha!
 Tenha calma. Estamos aqui e vamos fazer tudo para 
ajudar Maria. Voc viu como foi fcil?
 Dessa vez foi, mas e daqui para frente?
 Voc, por ter voltado recentemente, traz ainda 
sentimentos encarnados. Aqui, no nos preocupamos com o 
que vai acontecer no futuro, somente com o presente. Do 
futuro, a nica coisa que nos importa  a nossa evoluo. A 
ansiedade no  boa companheira. No se desespere, no 
final, tudo d sempre certo. 
Lola, olhando para Maria que estava com os olhos fechados, 
continuou chorando. Manolo, carinhoso, abraou-a:
 Fique calma, meu amor. Estamos juntos novamente e 
nossa filha ter toda a proteo permitida.
Ela se aconchegou em seus braos e, juntos, ficaram olhando 
para a menina. Isabel sorriu.
O resto do dia, Carmem, com medo de que Josefa ou Rafael 
descobrissem o que ela fizera com Maria, no fez mais 
maldade alguma.
Somente no passou o ungento, quando a menina 
reclamou de estar sentindo dor. S fez isso na hora em que 
sabia que Rafael ia chegar.
J estava anoitecendo, quando Rafael, Julian e os irmos dela 
voltaram. Traziam em suas mos pacotes com mantimentos, 
enrolados em folhas de jornal. Assim que entraram, Rafael 
foi para junto de Maria, beijou-a, perguntando:
 Como voc est, Maria. A dor passou?
Ela olhou para Carmem que tambm a olhava. Com medo, 
voltou a mentir:
 No estava doendo, mas agora comeou a doer.
 Vou passar mais um pouco de ungento e vai passar.
Viu que o ungento estava na mo de Carmem que, 
demonstrando estar preocupada, disse:
 Est aqui, Rafael. Durante o dia, passei vrias vezes, mas a 
dor continua. No sei o que fazer.
 Queimadura di mesmo, Carmem. Maria, deixe eu ver 
como est. Maria mostrou a mo que, agora, tinha se 
transformado em uma grande bolha.
Rafael olhou e, preocupado, disse:
  assim mesmo, Maria. Quando essa bolha estourar, vai 
surgir uma casca e, quando a casca cair, voc vai estar boa. 
Carmem, precisa limpar, pois, se inflamar, ela poder ter 
problemas.
 Pode deixar, vou limpar. Ela logo vai estar bem e, com 
certeza, no vai mais passar perto do fogo, no , Maria?
Rafael, com carinho e cuidado, passou o ungento. Depois, 
disse:
 Agora, vamos jantar e, antes de dormir, vou passar 
novamente e voc vai conseguir dormir a noite toda.
A menina sorriu, mas uma lgrima se formou.
Julian, Pedro e Pepe tinham ido at a casa ao lado, onde 
moravam, para trocar de roupa. Voltaram. Julian se 
aproximou de Maria e, sorrindo, disse:
 Seu pai me contou o que aconteceu. Voc precisa ter 
cuidado, Maria. A Carmem tem muito para fazer e no pode 
ficar olhando voc a todo instante.
Maria olhou para Carmem e depois para ele, mas 
permaneceu calada. Pedro e Pepe tambm se aproximaram, 
mas nada falaram. Apenas beijaram a testa da menina.
Carmem, para que o assunto fosse mudado, disse: 
 O jantar j est pronto. Vamos comer logo, antes que 
escurea de vez. Acendi as lamparinas, mas mesmo assim, 
sabem que ilumina muito pouco.
Todos concordaram e se sentaram. Carmem colocou a 
comida sobre a mesa e eles se serviram. Rafael, antes de se 
servir, pegou um prato, colocou comida e foi at Maria. 
Perguntou:
 Consegue comer com a mo esquerda.
 No sei, acho que no.
 No tem problema, vou dar a voc.
Com pacincia, ele foi dando a comida. Carmem, que tudo 
acompanhava, pensava:
Ele s tem olhos para essa menina! Eu a odeio!
Enquanto eles comiam e Rafael dava comida para Maria, 
Julian disse:
 Carmem, temos uma boa notcia!
 Que notcia?
 O Tonho esteve l na lavoura e disse que o patro est 
muito contente com a colheita. Disse que foi bem maior do 
que pensava e muito melhor do que na poca dos escravos e 
que nunca teve uma colheita assim.
 Tambm trabalhamos feitos loucos!  Pepe falou. 
Rafael, que ouvia o que falavam, disse:
 Tem razo, Pepe. Trabalhamos muito mesmo, mas valeu 
a pena. J que a colheita foi boa, vamos ganhar muito 
dinheiro e poderemos ir embora daqui.
 Ainda bem, no consigo viver mais nesta misria. A vida 
aqui  pior do que aquela que a gente tinha na Espanha.
Julian voltou a falar:
 Bem, de qualquer maneira, o que importa mesmo  que o 
patro, por estar feliz, vai dar uma festa muito grande. Com 
muita carne, msica e cachaa! Vamos comer, beber e 
danar  vontade!
 Uma festa, Julian?
 Isso mesmo, Carmem. Uma festa! Acho que merecemos!
 Rafael, preciso de um vestido novo. Vou comprar tecido 
no armazm e pedir para a Ana costurar.
 Faa isso, Carmem, e compre um tecido tambm para 
fazer um vestido novo para a Maria. Voc quer, minha filha?
Com dio, mas tentando disfarar, ela disse:
 Claro que vou mandar fazer um vestido novo para ela 
tambm. Voc vai ficar linda, Maria.
 Ela no precisa de um vestido para ficar linda, Carmem. 
J  linda por natureza!
Carmem sorriu, mas queria mesmo era avanar no pescoo 
de Rafael e de Maria.
Aps o jantar, Rafael passou mais uma vez ungento na mo 
de Maria e deitou-se na cama de Carmem ao lado da menina. 
Ficou ao seu lado at que adormecesse, depois, se levantou, 
puxou o seu colcho que estava sob a cama e deitou-se 
tambm.
Carmem, que acompanhava todos os seus gestos, tambm se 
deitou. Cheirou o travesseiro no qual Rafael at h pouco 
estivera deitado e pensou:
Como eu queria ser sua mulher, Rafael. Sei que vou ser, 
quando isso acontecer, eu no vou querer mais nada nesta 
vida...
Lola e os outros, que a tudo acompanhavam, respirou fundo.
 Agora Maria vai ficar bem, no , dona Isabel?
 Vai sim. Ao lado de Rafael, nada de mau pode lhe 
acontecer. Vamos esperar que adormeam bem. Em seguida, 
eles nos vero e poderemos conversar.
 Poderemos conversar com Carmem?
 Sim, Lola. Quando o corpo adormece, o esprito fica 
livre. Est vendo aquele fio prateado que sai do corpo deles?
 Estou.
 Esse fio  que prende o esprito ao corpo. Assim, quando 
o corpo est adormecido, os encarnados podem ir para 
qualquer lugar sem perigo. A isso, costuma-se dar o nome de 
sonhos.
 No existem sonhos?
 Pode-se dizer que sim. A nossa presena pode ser 
considerada como sonho. Quando o corpo est adormecido, 
o esprito fica sempre alerta. Quando as pessoas adormecem, 
nos do a oportunidade de conversarmos, lev-las para 
lugares conhecidos ou no. Aps conversar conosco e ao 
acordar no se lembram de quase nada, mas o mais 
importante  podermos lembr-los dos compromissos 
assumidos.
Lola olhou para Rafael que, cansado do dia duro de trabalho, 
dormia profundamente.
 
Dissimulao

Isabel esperou algum tempo, at que dormissem 
profundamente. Em seguida, acordou-os. Rafael foi o 
primeiro a despertar e, assim que viu Lola, correu para ela e 
abraou-a com carinho e saudade:
 Lola, que bom que est aqui! Sinto tanto sua falta!
Lola olhou para Manolo, que sorriu. Tranqila, abraou-se a 
Rafael, dizendo:
 Tambm estou com saudade de voc, Rafael. Estou feliz 
por ver que est cuidando muito bem da Maria.
 Eu lhe prometi que faria isso, mas, mesmo que no 
tivesse prometido, no deixaria de fazer, amo essa menina. 
Ela  tudo para mim. Minha vida s tem sentido por causa 
dela.
 Sei disso e s posso lhe agradecer.
Separaram-se e s ento ele viu Manolo e dona Isabel. 
Olhou para Lola, indagando com os olhos. Ela entendeu e, 
sorrindo, disse:
 Esta  dona Isabel, o anjo bom que Deus colocou na 
minha vida e na de Manolo, quando mais precisvamos. E 
este  Manolo. Quando despertei, eles estavam ao meu lado.
Rafael olhou para os dois e demorou um pouco mais 
olhando para Manolo, que disse:
 No se preocupe, Rafael. Sei do amor que sente por Lola 
e posso lhe garantir que esse amor  antigo. Voc no se 
lembra, mas somos companheiros de jornada h muito 
tempo. Estou feliz por poder conversar com voc.
Rafael, sem entender bem o que estava acontecendo, sorriu. 
 No estou entendendo muito bem o que est 
acontecendo, pois pensei que todos estivessem mortos, mas, 
ao mesmo tempo, feliz por estar aqui.
Isabel, entendendo a confuso dele, disse:
 A morte no existe, Rafael.  somente uma passagem 
rpida de uma dimenso para outra. A presena de vocs era 
necessria. Por isso ficamos aqui esperando que 
adormecessem para podermos conversar.
 A senhora est dizendo que no morremos, que a vida 
continua e que realmente existe o cu e o inferno?
 Sim, no morremos. Existe uma vida vibrante aps a 
morte fsica. Quanto ao cu e ao inferno, eles existem, sim, 
mas dentro de cada um. A vida pode ser um cu, como 
tambm um inferno, dependendo de como vivemos e das 
escolhas que fazemos.
 No estou entendendo...
 Sei que  difcil, mas se pensar no tempo em que viveu 
ao lado de Lola, pode-se dizer que voc estava no cu, no  
mesmo?
 Sim e quando ela morreu, passei a viver no inferno.  
isso que a senhora est dizendo?
 Mais ou menos isso. Mas esse foi s um exemplo. Pode-se 
estar no inferno, quando trazemos dio, mgoa ou desejo de 
fazer mal a algum. Pode-se viver no inferno, quando 
sentimos um cime doentio que, muitas vezes, pode nos 
levar a fazer loucuras das quais nos arrependeremos para 
sempre. Estamos no inferno, quando nos recusamos a 
perdoar e ficamos remoendo o mal que nos fizeram. Esses 
sentimentos s fazem mal queles que os sentem, pois, 
quase sempre queles aos quais so dirigidos, na maioria das 
vezes, no se lembram, pois nunca reconhecem terem 
cometido ofensa alguma. Muitas vezes, porm, esquecemos 
o quanto prejudicamos outras pessoas. E como aquele velho 
ditado que conhecemos: "quem bate esquece". Pode-se 
viver no inferno, quando deixamos que a ansiedade nos 
domine, sem entendermos ou aceitarmos que Deus est 
tomando conta de tudo. Portanto, se algo que queremos 
muito no acontecer,  porque no era bom para ns, nem 
para o nosso aprendizado e evoluo. Sempre, l na frente, 
quando as coisas no saram da maneira que queramos, 
depois que o tempo passar, vamos ver que foi bom no ter 
acontecido. Pode-se viver no inferno, quando precisamos 
tomar uma atitude, necessria no momento, e por medo ou 
covardia, deixamos de tom-la. Pode-se viver no inferno, 
quando no aceitamos a nossa condio de vida e 
praguejamos. Como pode ver, existem muitas maneiras de 
vivermos no inferno.
 Tudo isso que a senhora disse  muito bonito, mas, na 
vida real,  impossvel conseguir. Como podemos esquecer 
um mal que nos fazem? Como podemos acreditar em Deus, 
quando vemos tanta injustia? Como podemos deixar de 
sofrer, quando nossa vida  mudada contra nossa vontade e 
sofremos por isso? Um exemplo foi o que aconteceu 
comigo. Depois de sonhar tanto com uma vida de felicidade 
ao lado de Lola, ela, sem explicao, morreu, me deixando 
sozinho. Como posso acreditar em um Deus que deixa uma 
criana linda como a Maria sem me e pai?
 Tem razo em pensar isso, mas se acreditssemos que 
existe um Deus que, por ser Deus, s pode ser perfeito, 
portanto no pode errar, entenderamos, com mais 
facilidade, que para tudo existe sempre uma razo. Que nada 
que nos acontece  novidade para Ele. Se aceitarmos a vida 
como ela vem, acreditaremos que, por pior que seja o 
momento que estamos vivendo, nunca estamos ss. Por pior 
que possa ser o problema, ele tem hora para comear e para 
terminar, j que, para todo problema sempre existe uma 
soluo e ela vir, com certeza.
 Ainda continuo achando impossvel que um ser humano 
possa aceitar tudo isso que a senhora disse.
 Est certa. Por isso, Deus, que tudo sabe e que a todos 
conhece, d a oportunidade de renascermos hoje e 
continuarmos nascendo, vivendo, morrendo e renascendo, 
at entendermos e aceitarmos. A isso se d o nome de 
evoluo. Muitos j aprenderam e ocupam hoje um ar de 
destaque no plano espiritual. Ns teremos de viver ainda 
muitas vidas para entendermos e aceitarmos que somente o 
bem, o amor e o perdo podem nos aperfeioar e nos fazer 
caminhar.
 Se for assim, vou ter de renascer muitas vezes, pois  
muito difcil entender e aceitar tudo isso.
 Todo esprito, quando nasce, traz consigo a vida que 
planejou. Nada acontece sem ter sido planejado.
 Est dizendo que eu escolhi viver da maneira que vivo? 
Na pobreza, trabalhando muito para ter quase nada? Que 
escolhi perder Lola no momento mais feliz da minha vida?
 Sim, escolheu, Rafael, e no s voc, mas todos 
planejaram, e ele aceitou e foi aceito pelos outros para ser 
responsvel por Maria e por Carmem tambm.
 Pela Carmem, pela Maria ? Por qu?
 Logo saber. Agora, vamos despertar Carmem e tentar 
fazer com que ela entenda que o que est fazendo com 
Maria s far mal a si mesma.
 Vamos fazer, sim. Ela precisa despertar para o bem.
 Sabe que, embora possamos tentar, Manolo, caber a ela a 
escolha do caminho que deve trilhar. Depois que ela 
escolher o caminho, vocs podero ou no continuar a 
jornada juntos.
 Caminhando juntos?
 Sim, vocs esto juntos h muito tempo. Um sempre 
ajudando o outro na caminhada. Esto ligados pelo amor e 
pelo dio. Podero seguir adiante, quando existir s o amor e 
o perdo. Carmem, se retornar ao caminho e cuidar de 
Maria com amor e carinho, poder seguir ao lado de vocs; 
caso contrrio, ter de ficar pelo caminho e caber a cada 
um de vocs escolher ficar e esperar por ela ou continuar a 
jornada.. Podero fazer o que quiserem, pois nada ser 
pedido ou criticado. Agora, vamos despertar Carmem.
Isabel direcionou as mos para Carmem que dormia 
profundamente. Ela respirou fundo, seus olhos espirituais 
viram a todos e se admirou. Teve dificuldade quanto a Isabel 
e Manolo, mas reconheceu Rafael e Lola prontamente.
Ao ver Lola, Carmem sentiu um dio imenso, ia gritar que 
ela no podia estar l, pois estava morta e que fora ela a 
responsvel, mas, como sempre, pensou um pouco e, 
abrindo os braos, disse, sorrindo:
 Lola, pensei que voc estivesse morta! Como estou feliz 
em ver voc!
Lola, embora estivesse com muita raiva por tudo o que ela 
estava fazendo com Maria, percebeu o que Carmem estava 
pretendendo. Olhou para Isabel, que sorriu e disse:
 Ela no est morta, Carmem. Est bem viva.
 No estou entendendo o que a senhora est dizendo. Eu 
estava l quando ela morreu, vi seu corpo sendo jogado ao 
mar.
 O que voc viu morto e jogado ao mar foi o corpo dela, 
mas seu esprito continua vivo, muito vivo.
 Como pode ser verdade isso que a senhora est falando? 
No pode ser. Nunca ouvi falar disso! Sempre acreditei, no 
muito, que, quando eu morresse, ia para o cu ou para o 
inferno. Nunca imaginei que continuaria como era, com um 
corpo igual ao que eu tinha...
 No s voc, mas muitas pessoas pensam assim e quando 
retornam e se do conta de que a vida continua, de que 
existem Leis para serem cumpridas, entre elas a de Ao e 
Reao, percebem o imenso tempo que perderam 
praticando o mal contra outras e, principalmente, contra si 
mesmas.
 Que religio  essa da qual nunca ouvi falar?
 No se trata de religio, mas do esprito, reencarnado 
com religio ou sem nenhuma. Chama-se a Lei da evoluo, 
do aperfeioamento. O corpo, a encarnao e a 
reencarnao so instrumentos preciosos para que essas Leis 
possam ser praticadas. Embora nunca tenha ouvido falar 
delas, muitos orientais, africanos e indianos, h muito 
tempo, j as conhecem.
 Encarnao? Reencarnao? Do que est falando?
 De que o esprito nasce, morre e renasce muitas vezes, 
Carmem, quantas vezes forem necessrias para o seu 
aperfeioamento. Somente agora o povo ocidental est 
preparado para conhec-las tambm. Est nascendo aos 
poucos, na Frana, uma doutrina que explica tudo isso. Em 
breve, estar percorrendo o mundo e todos podero tomar 
conhecimento de tais Leis.
 Embora esteja vendo voc, Lola, custa-me acreditar.
 Tambm estou intrigado, Carmem. Como pode ser uma 
coisa dessa?  falou Rafael.
 No sei, mas, de qualquer maneira, estou feliz por ver 
voc, Lola  disse, sorrindo, demonstrando uma felicidade 
que no sentia. Voltando-se para Rafael, continuou:
 Voc tambm deve estar muito feliz, no , Rafael?
 Estou! Claro que estou, Carmem! Voc sabe como sofri e 
ainda sofro por ela. Sabe que morro de saudade e nunca 
pensei que tornaria a v-la! Linda como sempre! Bendito 
seja esse esprito que no morre!
Lola no se conteve:
 Por que est agindo assim, Carmem? Por que finge uma 
felicidade que no sente?
 No estou entendendo o que est dizendo, Lola...
 Claro que est, Carmem! Voc pensava que eu estava 
morta porque foi voc mesma quem providenciou isso!
 Eu?! Voc est enganada! Eu era e sou sua amiga! 
Lola ia se jogar sobre ela, mas foi contida por Manolo:
 No faa isso, Lola. No deixe que o dio prejudique seu 
esprito. Deixe nas mos de Deus.
Carmem, percebendo que havia sido descoberta, em 
lgrimas, disse:
 No posso continuar negando, mas fiz aquilo em um 
momento de desespero... tenho sofrido muito por isso... 
vocs devem saber o motivo que me levou a cometer tal 
desatino...
 Conhecemos o motivo, sim, Carmem, mas nem ele nem 
outro qualquer deve servir de desculpa para se cometer um 
crime, se tirar uma vida e se praticar maldade contra um 
esprito irmo, preso no corpo de uma criana que no pode 
se defender.
 A senhora tem razo. Por isso, estou tentando me 
redimir. Estou cuidando da Maria, no , Rafael?
 Est sim, Carmem, e muito bem.
 No est, no, Rafael! Ela est fazendo minha filha sofrer 
muito!
 O que est dizendo, Lola?
  isso mesmo, Rafael! Ela est fazendo a minha menina 
sofrer muito e isso precisa terminar!
Carmem, em desespero por ser descoberta, disse, em 
lgrimas:
 Estou apenas cuidando da sua educao, Lola. Ela precisa 
conhecer os limites...
Lola ia continuar a conversa, mas Isabel interferiu:
 No estamos aqui para criarmos energias de dio ou 
rancor. Estamos aqui, Carmem, para que entenda que o 
caminho que est seguindo s vai lhe trazer muito 
sofrimento. Maria est, sim, sob sua responsabilidade e cabe 
a voc e ao Rafael fazerem com que ela cresa com 
tranqilidade. Ela tem muito para realizar na Terra e vocs 
se comprometeram a ajud-la a crescer.
Rafael, que no estava entendendo aquele assunto, 
perguntou:
 No sei do que a senhora est falando, mas, no momento, 
o nico que est me preocupando  saber o que voc est 
fazendo com a Maria, Carmem?
 Agora no, Rafael. J disse que estamos aqui para 
tentarmos consertar o que est errado.
O tom de voz de Isabel foi forte e decisivo. Todos pararam 
de falar e ficaram olhando para ela que continuou:
 Assim como quando encarnado o esprito no sabe e no 
pode viver isolado e precisa pertencer a um grupo, depois do 
desencarne acontece o mesmo. O esprito precisa caminhar 
sempre em grupo. Esses grupos se formam atravs de 
afinidades, do amor e, muitas vezes, para um melhor 
aperfeioamento, do dio. Alguns espritos evoluem mais 
rpido do que os outros e cabe a cada um a escolha de 
continuar seguindo e ajudando aquele que ficou para trs ou 
continuar caminhando. Isso est acontecendo, agora, com 
vocs. Carmem e Rafael tm o compromisso de ajudar Maria 
na sua misso de resgate. Os outros vieram apenas para lhes 
dar suporte na caminhada. Lola e Manolo, ajudados por 
mim, deram a vida terrena para Maria. Vocs, e Julian em 
outros tempos, ao lado dela, cometeram erros deplorveis e 
decidiram que nasceriam juntos para resgat-los.
 Julian tambm?
 Sim, ele tambm foi parte importante nos erros do 
passado. Ainda no  a hora, mas chegar o momento em 
que ter a oportunidade de escolher, ajudar Maria, redimir-
se ou continuar no erro. Para isso, ainda encontraro outros 
que os auxiliaro nessa empreitada.
 Se for verdade tudo o que a senhora est falando, vai ser 
fcil, j que est tudo planejado.
 Tudo foi planejado, sim, Carmem, aqui, no plano 
espiritual, aps o retorno de um longo tempo na escurido e 
sofrimento, mas, quando encarnado, com o peso da carne e 
as tentaes do mundo, o esprito, muitas vezes, usa do seu 
livre-arbtrio, esquece o que prometeu, toma caminhos 
diferentes daqueles planejados e volta a cometer os mesmos 
delitos de antes, s vezes at se comprometendo ainda mais.
 Livre-arbtrio? O que  isso?
 Uma das principais Leis de Deus, Carmem. Com ele, o 
esprito, apesar de suas promessas, pode escolher o caminho 
que desejar.
 Por que Deus no exige que todos cumpram seus desejos, 
j que , sendo Deus, tudo pode?
 Poderia mesmo, mas Ele no quer. No quer filhos 
bonecos, sem vontade, mas espritos livres, que encontrem 
seu prprio caminho, sem interferncia.
 Sendo verdade o que est dizendo, se  assim que 
funciona, por que no nos lembramos do passado, no seria 
mais fcil?
 Seria mais fcil, mas quase improvvel o perdo e o 
resgate, porque, muito mais do que se imagina, na nossa 
caminhada, encontramos inimigos ferrenhos, espritos aos 
quais fizemos muito mal e no seria fcil uma aproximao 
se ns ou eles nos lembrssemos do passado. Alm do mais, 
qual seria o aprendizado se soubssemos quem foi nosso 
amigo ou inimigo? Imaginem saber que seu pai, me ou 
irmos fizeram um mal muito grande contra voc. Eles 
seriam aceitos? Quando, Deus coloca inimigos sob o mesmo 
teto, com laos sanguneos muito fortes, faz com que o 
esquecimento d a todos a oportunidade de redeno, 
pedindo perdo ou perdoando. Deus  sbio e tudo o que faz 
est sempre certo. Se todo esprito confiasse na Sua bondade 
e sabedoria, muito sofrimento seria evitado, mas como isso 
ainda est longe de acontecer, o esprito continuar 
trilhando seu caminho, cheio de ansiedade e de sofrimento.
 Embora no soubesse dessas coisas, estou fazendo o 
possvel para ajudar Maria.
 Est mesmo, Rafael. Quanto a voc, Carmem, est tendo 
a oportunidade, mas no est cumprindo sua parte naquilo 
que planejou.
Carmem ficou pensando por um tempo. Depois disse, 
chorando, e todos perceberam que o choro era verdadeiro.
 Quando acordar, vou me lembrar do que conversamos 
aqui?
 Somente de algumas coisas. Os ensinamentos recebidos 
durante o sono servem para que o esprito, quando est 
descumprindo o que prometeu, possa retornar ao caminho. 
Para que isso possa acontecer sem interferncia,  necessrio 
que dos sonhos reste muito pouco.
 Isso no  justo! Preciso me lembrar do que conversamos 
aqui!
 Que bom seria se fosse fcil assim, mas no , Carmem. 
Ao acordar, no se lembrar de que esteve aqui e do que 
conversamos. Lembrar vagamente ter sonhado com a Lola, 
nada, alm disso. Continuaremos ao seu lado, mandando-lhe 
bons pensamentos e tentando evitar que faa mal a Maria, 
mas isso s depender de voc. Com a sua atitude, poder 
fazer com que ela volte antes do tempo, antes de ter 
completado sua misso e, assim, estar acarretando no s a 
perda da encarnao dela, como a sua prpria redeno e um 
tempo precioso que poderia ser s de felicidade. Ento ter 
de esperar at que tenha novamente a oportunidade de 
renascer. Poder tambm fazer que seus amigos se cansem 
de tentar ajud-la e a abandonem ao seu prprio destino.
 Isso est errado. Como vou saber o que realmente 
acontece?
 Est tudo certo, Carmem, pois, se voc se lembrasse do 
que conversamos aqui, mudaria sua atitude no pelo amor, 
pelo perdo, mal, sim, pelo medo, assim no haveria 
arrependimento nem evoluo.
 Sinto muito por tudo o que fiz contra voc e contra sua 
filha, Lola. Agora que sei de tudo isso, prometo, novamente, 
que vou fazer tudo para que ela seja uma menina feliz e que 
possa cumprir o destino que foi programado...
 Obrigada, Carmem. Voc no pode ser to m. Seu 
esprito, como todos os outros, deve ter sentimentos de 
carinho e de bondade.
Espero que, realmente, consiga fazer com que a minha 
menina possa crescer saudvel e feliz.
 Ser que algum dia poder me perdoar sinceramente por 
todo o mal que lhe fiz?
Lola olhou para Manolo e para Isabel, que sorriram.
 Confesso que achei que isso nunca seria possvel, mas, 
diante de tudo o que dona Isabel falou, no posso continuar 
com esses sentimentos de dio e vingana. Tambm vou 
estar ao seu lado, ajudando-a no que for possvel.
 Obrigada, Lola. Prometo que vou tentar. Prometo que 
vou fazer tudo para que isso acontea.
 No prometa o que talvez no possa cumprir, Carmem. 
Ao ouvir aquilo, Carmem se voltou para Isabel:
 Por que est dizendo isso? Acha que no vou conseguir, 
mesmo sabendo que  o meu dever e o cumprimento de 
uma promessa?
 Como j disse, quando estamos aqui, na espiritualidade, 
nossa viso de mundo  outra e acreditamos poder fazer 
muitas coisas, mas, quando estamos na carne, as coisas 
mudam de figura e, na maioria das vezes, fazemos o 
contrrio do prometido.
 Entendi isso, mas sinto que vou fazer tudo o que estiver 
ao meu alcance para que ela seja feliz.
 Agora, seu esprito, fora da carne, est recebendo muita 
energia e pode ver as coisas com mais clareza, mas quando 
retornar ao corpo, agir como encarnado e ainda ter 
momentos em que precisar fazer escolhas. Queira Deus que 
consiga fazer as escolhas certas. Estamos aqui ajudando no 
que for possvel.
 A senhora est me assustando. Acha mesmo que no vou 
conseguir?
 Voc pode conseguir tudo o que quiser, se aceitar a vida 
como ela se apresenta e no tentar mudar, usando maldade e 
dio. Muitas pessoas, antes de dormirem, rezam o Pai-
Nosso, mas falam somente pela boca. O Pai-Nosso  uma 
orao maravilhosa, a nica que Jesus nos ensinou, mas, na 
hora do sofrimento, das escolhas, todos se esquecem das 
palavras mais bonitas que existem nela; "seja feita a Vossa 
vontade" e no aceitam o momento que esto vivendo. No 
aceitam que nem tudo o que desejam ser bom para seu 
esprito e sua evoluo. Isso est acontecendo com voc 
agora, Carmem. No aceita que Rafael no a ame e culpa 
Maria por isso, quando, na realidade, esse amor no serviria 
para o seu aperfeioamento e sua evoluo.
 Sinto que, se for assim, nunca vou evoluir e que j estou 
fadada ao fracasso.
 Foi para isso que renasceu, para superar suas fraquezas e 
entender que a vida na Terra  passageira, mas que o esprito 
 eterno. No est fadada a praticar o mal; ao contrrio, 
todos nascem para fazer o bem, mas quase sempre mudam 
de idia. Tem direito a fazer qualquer escolha, porm ser 
responsvel por ela e receber de volta exatamente o 
resultado dessa escolha.
 Assim a senhora est, mesmo, me assustando.
 No  essa aminha inteno, mas, sim, a de preveni-la 
por tudo o que est por vir.
 Como saber se estou fazendo a escolha certa?
 Quando essa escolha no prejudicar algum e s lhe fizer 
feliz. Quanto a isso no precisa se preocupar. Sempre que 
existir um momento de escolha, estaremos ao seu lado, 
dando-lhe bons pensamentos e a intuio do que deve fazer. 
Caber a voc aceitar ou no.
 No momento em que resolvi colocar aquele pano 
contaminado sobre o corpo de Lola fiz uma escolha?
 Infelizmente, sim.
 A senhora no estava l para me impedir?
 Sim, eu e Manolo, mas, por mais que tentssemos ,foi em 
vo. Voc estava dominada pelo dio, pela inveja e pelo 
cime. No nos ouviu.
 Pelo que entendi, fiz uma escolha errada...
 Sim e ter de responder por ela.
 Como?
 Ainda no sei. Quando voltar para c, juntos, novamente, 
discutiremos esse assunto. Por ora, deve se dedicar somente 
a fazer Maria feliz.
 A senhora acha que vou conseguir me redimir?
 Claro que vai, minha filha. Todo filho de Deus sempre 
encontra o Seu caminho. Tenho f e certeza de que 
conseguir. Ao menos, estamos todos torcendo para isso. 
Alm disso, ter a seu lado Rafael, Julian e outros amigos que 
ainda encontrar pelo caminho. 
Carmem olhou para Lola e, chorando sinceramente, disse: 
 Obrigada por me perdoar e me dar essa nova chance.
 Sinto que, apesar de o meu perdo estar lhe fazendo bem, 
faz muito mais a mim.  muito triste ter esses sentimentos 
de dio, ira e vingana, como aqueles que eu estava 
sentindo.
Carmem, em lgrimas, tentou sorrir. Isabel disse:
 Est na hora de voltarem ao corpo. Quando acordarem 
sob as luzes que estaremos lhes enviando, se sentiro muito 
bem. Isso durar por um bom tempo. Depois, embora 
continuemos ao lado de vocs enviando luzes de energia, 
podero ou no receb-las.
 No entendi. No so todos que podem receber as luzes e 
energia?
 No, Carmem. As luzes s conseguem atingir aqueles que 
esto predispostos a receb-las. Elas so como se o prprio 
Deus viesse nos visitar. Quando, encarnados, convidamos 
algum para nos visitar, arrumamos a nossa casa da melhor 
maneira possvel e procuramos deixar tudo em ordem para 
que a nossa visita se sinta bem. Como queremos que Deus 
entre no nosso corao se ele estiver sujo e desarrumado, 
cheio de mgoa, dio, cime e tantos outros sentimentos 
negativos?
Todos ficaram calados, somente pensando nas palavras dela. 
Com carinho, Isabel fez com que voltassem ao corpo que 
dormia tranqilo. Depois, ela e Manolo ficaram por um bom 
tempo enviando luzes brancas de paz sobre eles.
 
A festa da colheita

Na manh seguinte, Carmem acordou. Olhou para o lugar 
onde Maria dormia, mas ela no estava l. No se preocupou, 
pois, como acontecia algumas vezes, Maria acordava durante 
a noite e ia para junto de Rafael. Deitava-se encostada em 
suas costas e dormia tranqila. Por onde estava podia ver o 
rosto da menina, pensou:
Ela  muito bonita. E s uma criana e no tem culpa de 
Rafael no gostar de mim. Como pude fazer aquelas coisas 
com ela? No sei por que, mas sinto que preciso mudar meu 
comportamento. Sinto que preciso criar essa menina com 
amor. Talvez, assim, quem sabe, Rafael possa vir a gostar de 
mim.
Ficou ali por algum tempo olhando para a menina e sentindo 
uma ternura nunca antes sentida. Lola viu que o quarto todo 
estava iluminado no s pela luz do sol, que nascia, mas 
tambm pelas luzes que eles enviavam.
 Parece que a nossa conversa deu certo, dona Isabel. 
Carmem acordou diferente.
 Tem razo e, com isso, pode receber as energias 
mandadas por ns. Se continuar assim, ficar cada vez mais 
forte.
 Estou feliz por isso, pois sinto que Maria no vai sofrer 
mais.
 Por enquanto, Carmem est sob nossa influncia. Vamos 
torcer para que continue assim.
Rafael abriu os olhos e, ao sentir Maria em suas costas, sorriu 
e virou-se para v-la. Assim que se virou, viu Carmem que 
olhava para ele:
 Ela veio novamente dormir comigo  disse, sorrindo.
 Sabe que sempre faz isso. Acho que s consegue dormir 
bem sentindo sua presena.
Com carinho, Rafael virou-se, retirou o bracinho das costas 
dele e beijou o rosto da menina. Levantou-se. Carmem 
estava muito bem, disse:
 Hoje vou com Maria at o armazm, preciso escolher o 
tecido para fazer a nossa roupa da festa.
 Faa isso, Carmem. Escolha um bem bonito. Depois da 
festa, vamos receber o nosso dinheiro e poderemos ir 
embora.
 Quer mesmo ir para uma cidade maior?
 Quero sim. Sinto que l a nossa vida ser melhor. Agora 
preciso ir. Julian e seus irmos logo estaro aqui para tomar 
caf. Precisamos trabalhar muito para ensacar a colheita.
Ele pegou gua da chaleira que estava sobre o fogo, colocou 
p de caf em um coador de pano e jogou a gua fervendo. 
Logo um aroma delicioso de caf inundou todo o quarto. 
Estava tomando, quando Julian chegou e, logo depois, os 
rapazes. Terminaram de tomar caf e foram embora. 
Carmem permaneceu deitada por mais um tempo, depois se 
levantou. Tambm tomou caf e, aproximando-se de Maria 
que ainda dormia, disse, baixinho:
 Acorde, Maria. Hoje vamos comprar o tecido para o seu 
vestido.
A menina ouviu-a chamando, mas vendo que Rafael no 
estava mais ali, fingiu estar dormindo. Carmem insistiu:
 Acorde, Maria. O dia da festa est chegando! Ns duas 
precisamos ficar bonitas!
Vendo que no havia maneira de continuar fingindo e, 
percebendo pela voz de Carmem que ela estava diferente, 
abriu os olhos.
Ao ver que a menina estava acordada, Carmem beijou sua 
testa:
 Sei que voc tem medo de mim, por tudo que j lhe fiz, 
mas prometo que, de hoje em diante, vai ser diferente. 
Nunca mais vou ser ruim com voc.
A menina estranhou aquele tom de voz, no acreditou, mas, 
mesmo assim, se levantou. Carmem continuou:
 Vou preparar po e caf para que voc coma, depois 
vamos sair. Preparou caf com leite e colocou manteiga em 
um pedao de po. 
Maria, que estava com fome, comeu num instante. Depois, 
Carmem colocou um vestidinho azul, que era o melhor que 
a menina tinha. Aps vesti-la, tomou uma certa distncia:
 Voc  mesmo bonita, Maria.
Maria estava estranhando aquela conversa. No conhecia a 
mulher que estava ali, mas permaneceu calada, fazendo tudo 
o que Carmem mandava. Carmem tambm se vestiu e 
saram. Enquanto caminhavam, Carmem, segurando na mo 
de Maria, disse:
 Sei que fiz muita maldade com voc, Maria, mas no se 
preocupe, isso no vai tornar a acontecer. No sei o que 
aconteceu, mas acordei diferente. Sinto que preciso proteger 
voc e vou fazer isso. 
Maria ouviu, embora no acreditasse que algum dia aquilo 
pudesse acontecer. Respirou aliviada.
Chegaram ao armazm. Carmem escolheu um tecido rosa 
para fazer o vestido de Maria e um estampado, com o fundo 
azul e flores amarelas. Sabia que aquele tipo de roupa no era 
usado pelas mulheres casadas, mas pensou:
 festa... Rafael vai me achar linda... sinto que, na noite da 
festa, vamos nos tornar marido e mulher de verdade.
Comprou brincos no formato de argolas grandes que sobre 
seus cabelos negros ficariam muito bonitos. Com o tecido 
nas mos, foram at a casa de Ana que, ajudada por outras 
mulheres, ia costurar todos os vestidos. Precisava se 
apressar, mas sabia que daria tempo. Assim que chegaram, 
Carmem mostrou os tecidos:
 Ana, comprei estes tecidos. Quero ficar bem bonita e a 
Maria tambm, no , Maria?
A menina, desconhecendo a mulher que falava com ela, 
sorriu:
 Ela vai ficar linda, sim, Carmem. Embora, mesmo vestida 
de trapos, ela  linda. Vou escolher um modelo bem bonito. 
Preciso de ajuda para dar tempo.
 No sei costurar, mas se me ensinar, vou fazer o melhor. 
Ana sorriu e, mostrando uma cadeira, disse:
 Sente-se, Carmem. Vou lhe ensinar. Logo mais, outras 
mulheres viro, s assim, com todas trabalhando, a roupa 
estar pronta para a festa. No se esquea de que preciso, 
ainda, fazer as camisas e calas dos homens.
Carmem sentou-se. Ana deu-lhe uma agulha, linha e um 
tecido. 
Do lado de fora, crianas brincavam. Maria ouvia, mas sabia 
que poderia brincar, pois Carmem no permitia. Para sua 
surpresa, ouviu:
 V brincar com as outras crianas, Maria. 
A menina, com medo e no entendendo o que estava 
acontecendo ficou parada. Carmem insistiu:
 Pode ir, Maria. Tenho muito trabalho. Cuidado para no 
se machucar. Cuidado com a mo.
A menina, no entendendo o que estava acontecendo, 
lentamente saiu da casa e foi para junto das outras crianas. 
Carmem continuou ali. Outras mulheres chegaram e, 
alegremente, falando sobre a festa, comearam a ajudar Ana 
que lhes ensinava com pacincia.
Daquele dia em diante, Carmem mudou com Maria. Cuidava 
dela com carinho, tratava sua mo para que no 
infeccionasse e permitia que brincasse com as outras 
crianas. Maria estranhou, mas estava feliz e no quis saber 
do motivo.
O dia da festa, finalmente, chegou. Pablo providenciou 
muita carne e cerveja que mandava vir de uma fbrica de 
fundo de quintal no Rio de Janeiro. Todos colocaram suas 
roupas novas, que Ana conseguiu terminar a tempo. 
Carmem colocou em Maria o vestido novo e uma fita, na 
mesma cor do vestido, nos cabelos longos e pretos. Assim 
que ficou pronta, Maria olhou em um pequeno espelho e 
gostou do que viu:
 Voc est linda, Maria!
 Estou, sim. Este vestido ficou lindo!
 Ficou mesmo. Ana escolheu um modelo muito bonito. 
Agora, vou me trocar. Voc pode ir mostrar o seu vestido, 
mas no v para longe. Seu pai deve estar chegando para se 
trocar tambm.
Maria, empolgada e com a mo quase sarada, sorriu e saiu. 
Carmem colocou seu vestido. Pela primeira vez, depois que 
se casou, vestia uma cor que no fosse preta. Soltou os 
cabelos longos muito pretos, mas que viviam sempre presos. 
Prendeu-os, s que, dessa vez, colocou neles uma fita e 
deixou-os soltos nas costas. Passou um pouco de batom e p 
de arroz. Beliscou o rosto para que ficasse vermelho em 
determinado, lugares. Olhou no espelho:
Estou mesmo muito bonita. No entendo por que as 
mulheres da minha idade, com apenas vinte anos, s por 
serem casadas, tenham de vestir roupas escuras. Estou to 
mais bonita com este vestido colorido. Tenho certeza de que 
hoje Rafael vai me notar.
Rafael chegou em seguida. Encontrou Maria, que brincava. 
Ao v-la, entusiasmado e ignorando Carmem, disse:
 Voc est linda, Maria!
Ela jogou-se em seus braos e, sorrindo, disse:
 Estou mesmo! Eu vi no espelho!
 Agora, continue brincando, preciso me trocar.
Entrou em casa. Carmem estava diante do espelho. Ele, no 
notando que ela estava com roupa nova e clara, disse:
 Estou atrasado. Estava fazendo as ltimas contas da 
colheita, parece que temos um bom dinheiro para receber.
Carmem, calada, andou de um lado parta outro na esperana 
de que ele a notasse e elogiasse, mas isso no aconteceu.
Depois de Rafael ter se trocado, foram para o ptio da 
fazenda, onde tudo estava preparado para a festa. A alegria 
era geral. Naquele momento, ningum se lembrava do 
quanto haviam sofrido para chegar ali. S pensavam na festa 
e no quanto poderiam comer e se divertir.
Quando estavam todos reunidos, Pablo e Maria Augusta 
apareceram na varanda. Ao lado deles, estava uma moa de 
mais ou menos dezenove anos, loira e com os olhos muito 
azuis. Lembrava dona Maria Augusta, que tambm era loira. 
Pablo, com um largo sorriso, disse:
 A colheita foi muito boa, melhor do que eu esperava, por 
isso, nada mais justo que todos se divirtam, comam e bebam 
 vontade.
Hoje  proibido pensar em plantao e colheita. Quero que 
conheam minha filha, Berenice. Ela chegou hoje da 
Espanha e vai ficar aqui por algum tempo. Essa festa vai ser 
em homenagem a ela. Agora, comecem a festa!
Todos olharam a moa que, sem jeito, sorriu. A msica 
comeou a tocar. A carne, que j estava na brasa, foi servida. 
Logo, todos estavam danando, menos Rafael, que apenas 
observava. Carmem se aproximou:
 Vamos danar, Rafael?
 No sei danar, Carmem, dance voc.
 No posso danar com outro, Rafael. Para todos os 
efeitos, sou mulher.
 Pode danar com seus irmos ou com Julian. 
Ela, que j estava com raiva por ele no haver notado sua 
roupa nem como estava bonita, se afastou. Seu corao batia 
forte. Sentia vontade de chorar. Distante, voltou a olhar para 
Rafael, que ensaiava alguns passos com Maria, que ria, feliz.
No adianta, por mais que eu faa, ele nunca vai me notar! 
S pensa naquela mulher! Ser que nem depois de morta vai 
me dar sossego! Olhe como ele fica com a filha dela! Odeio 
essa menina! 
Ficou olhando-os de longe. Julian se aproximou:
 Vamos danar, Carmem?
Em outras circunstncias, ela no iria, mas estava muito 
brava, aceitou. Comearam a danar. Durante a dana, Julian 
disse:
 Est linda, Carmem! Quase no a reconheci!
 Obrigada, Julian, ao menos voc notou!
 Por que est dizendo isso, Carmem? Rafael no viu como 
voc est bonita?
 No! Ele s tem olhos para essa menina!
 No sei como ele pode fazer isso. Voc  uma moa 
muito bonita. Posso dizer que  a mais bonita da festa!
 Obrigada.
A msica parou. Julian, ainda segurando sua mo, disse:
 Carmem, sei que o casamento de vocs no existe, que 
mentiram por causa da Maria, por isso quero lhe dizer uma 
coisa.
 O qu, Julian?
 Gosto de voc desde que a vi no navio. Pretendia dizer-
lhe isso, assim que chegssemos. Quem sabe, comearamos 
a namorar para nos conhecer melhor, mas as coisas se 
precipitaram e, por causa da Maria, voc acabou se 
envolvendo com o Rafael. Sempre achei que isso era um 
erro. No sei como isso pode ser consertado, s sei que 
estou apaixonado e quero ficar com voc.
Ao ouvir aquilo, Carmem empalideceu:
 Nunca imaginei isso, Julian. Voc nunca deixou 
transparecer...
 No podia. Queria primeiro chegar aqui e ganhar muito 
dinheiro para poder oferecer uma boa vida a voc, mas, 
hoje, depois de v-la to bonita, no resisti.
Carmem ficou sem saber o que dizer. Afastou-se de Julian e 
foi para junto de Rafael, que olhava Maria correndo e 
brincando com as outras crianas. Quando ela se aproximou, 
ele disse:
 Ela est linda, no  Carmem? A cada dia que passa, fica 
mais parecida com a Lola.
Aquelas palavras entraram como espinhos no corao de 
Carmem, que, por estar com muita raiva, no soube o que 
dizer.
No tem jeito mesmo, ele nunca vai se esquecer daquela 
mulher. No enquanto essa menina viver! Preciso mesmo 
me livrar dela!
Lola, que estava ali ao lado de Isabel e Manolo, ao ouvir 
aquilo se desesperou:
 Ela vai machucar a minha filha novamente, dona Isabel!
 Infelizmente, parece que vai mesmo, Lola. Est 
novamente tomada de dio e cime, por isso no consegue 
mais receber nossas luzes e energias.
 Por que acontece isso? Enquanto estava recebendo as 
luzes, parecia bem.
 Aps a conversa que tivemos durante a noite, ela 
entendeu e deixou de ter sentimentos de dio e mgoa. Isso 
acontecendo, seu campo de energia ficou aberto e, assim, 
pde receber luz e energia de que precisava para viver bem 
e caminhar para a felicidade, mas, agora, diante desses 
sentimentos que est tendo, seu campo energtico se fechou 
e, por mais que tentemos, no conseguimos atravess-lo.
Maria, alheia a tudo o que estava acontecendo, continuava 
brincando. Estava correndo, quando tropeou e caiu. 
Berenice, que andava ali, comendo e bebendo, levantou-a e, 
com carinho, perguntou:
 Voc se machucou?
 S um pouquinho aqui no joelho.
Rafael, que estava do outro lado, ao ver que Maria cara, 
correu para junto dela. Quando chegou, Berenice olhava o 
joelho da menina. Ele, afobado, perguntou:
 Voc se machucou, Maria?
Berenice levantou os olhos para responder, mas no 
conseguiu. Parou olhando para ele que tambm a olhava e 
que tambm ficou sem saber o que dizer. Apenas os olhos 
conversaram entre si. Maria, que sabia o que acontecia, 
respondeu:
 S machuquei um pouquinho o joelho, papai. 
Berenice e Rafael ficaram se olhando por alguns segundos, 
depois, desviaram os olhos.
 Ainda bem, minha filha. Pensei que tivesse se 
machucado mais. Obrigado, moa, por t-la ajudado.
 No foi nada. Eu estava perto.
Maria, embora mancando, se afastou para continuar 
brincando. Rafael e Berenice ficaram parados sem saber o 
que fazer. Ela foi a primeira a dizer:
 A sua filha  uma menina muito bonita. 
Ele, emocionado, sem saber o motivo, respondeu:
 , sim,  a razo da minha vida.
 Meu nome  Berenice, mas o senhor deve saber.
 Sei, sim. Vi quando seu pai a apresentou. O meu nome  
Rafael, trabalho aqui na fazenda.
 A festa est muito boa, no est? Meu pai se esmerou. Ele 
est muito feliz com a colheita.
 Tambm estamos. Para isso trabalhamos muito. A 
senhorita vive na Espanha?
 Sim. Terminei meus estudos e agora vim para c para 
ficar por algum tempo. Vim somente para conhecer esta 
terra da qual meus pais tanto gostam. Depois, preciso 
retornar para a Espanha. Tenho l um compromisso muito 
importante.
 Por que no veio com seus pais?
 Embora eles morem aqui h muito tempo, eu nunca quis 
vir, preferi ficar morando com minha av. Agora que 
conheci o Brasil, sinto por no ter vindo antes. A imagem 
que tinha daqui era bem diferente da realidade. Isto aqui  
uma maravilha. Estou muito triste de ter de ir embora, mas 
no existe soluo. Preciso mesmo ir. Isso  uma pena...
 No momento, tambm estou achando.
Estavam conversando como se j se conhecessem e se 
esqueceram de que a festa transcorria. As pessoas no 
notaram, pois estavam bebendo, danando e comendo. 
Somente Carmem, que estava do outro lado, conversando 
com Julian, viu quando Maria caiu. A princpio, no deu 
importncia, mas, ao ver Rafael conversando com aquela 
moa to bonita e filha do patro, se irritou:
Por que ele est conversando tanto com ela? Ser que esto 
se gostando? Isso no pode acontecer! Ele  meu, somente 
meu!
Lola, ao ver a sua reao, disse:
 A senhora sabe que tenho motivos para no gostar das 
atitudes dela, mas, por outro lado, sua situao  difcil...
 Por que est dizendo isso, Lola?
 Ela gosta de Rafael. Para esta festa, se preparou com todo 
esmero, no para si, mas para que ele a notasse. Isso no 
aconteceu, acho que qualquer pessoa sentiria o mesmo que 
ela.
 Tem razo, mas ela est cometendo o mesmo erro de 
muitos.
 Que erro?
 Nem sempre o que desejamos  o melhor para o nosso 
crescimento espiritual. Nem sempre, ou melhor, nunca 
deveramos deixar a nossa felicidade nas mos de outros. Ela 
precisava ter se arrumado, sim, mas para ela mesma, para 
que se sentisse bem, no por causa dele.
 Mas ela gosta muito dele...
  verdade, mas isso no lhe d o direito de exigir que ele 
tenha o mesmo sentimento para com ela. No podemos 
forar uma situao.
 J que sabemos isso, por que permitir que tudo acontea?
 Nada acontece por acaso, Lola. Berenice e Rafael 
precisavam se encontrar. Um faz parte da caminhada do 
outro. Quanto  situao que estamos presenciando, s posso 
lhe dizer que est tudo certo. Durante as vrias encarnaes, 
cometemos muitos acertos, mas muito mais erros. A cada 
reencarnao, as situaes nas quais fracassamos se repetem 
para que tenhamos a chance de resgatar erros passados. Elas 
se repetiro at conseguirmos super-las. Por vrias vezes, 
Carmem, por gostar de Rafael, sentiu-se dona dele. Ter de 
aprender que ningum  dono de ningum e que o esprito 
 livre para escolher o caminho que desejar. Vamos esperar 
que Carmem, dessa vez, consiga superar isso que ela chama 
de amor e caminhe para um amor maior.
 Ouvindo a senhora dizer, parece fcil, mas, quando se 
vive a situao, achamos que, se no conseguirmos o que 
queremos, nunca seremos felizes.
 Tem razo, parece. Isso tambm faz parte do 
aprendizado. Com o tempo, o esprito aprender a esperar, a 
entregar sua vida nas mos de Deus, pois somente Ele sabe o 
que  o melhor para cada um.
 A senhora tem razo no que diz, mas, mesmo assim, 
continuo achando ser muito difcil aceitar.
  difcil, mas, para isso, temos toda a eternidade e vrias 
encarnaes para entender e aprender.
 No momento, estou pensando em Maria. Precisamos 
fazer alguma coisa!
 Sabe que nada podemos fazer, Lola. Existem entre todos, 
algumas pendncias que precisam ser resolvidas.
 Mas Maria  ainda uma criana! No tem como se 
defender...
 J lhe disse que, embora o corpo seja de criana, o 
esprito  velho e j viveu muito. Durante essa vivncia, 
acumulou erros e acertos. Isso aconteceu entre eles e esta 
encarnao  mais uma oportunidade que Deus est lhes 
dando para um resgate final. Depender somente deles. 
Neste momento, exatamente por Maria estar em um corpo 
de criana, cabe  Carmem escolher o caminho que deseja 
seguir. Depende somente dela. Nada podemos fazer. A nica 
coisa que podemos fazer  permanecer ao lado de Carmem, 
enviando, quando possvel, quando ela permitir, energias de 
amor e perdo.  s o que podemos fazer e continuaremos 
fazendo.
Impotente, Lola comeou a chorar e voltou o olhar para 
Carmem que, tomada de dio e cime, se afastou de Julian e 
caminhou em direo a Rafael que, distrado como estava, 
no percebeu. Berenice olhou para o lado onde o pai estava 
e percebeu que ele estava olhando. Com um sorriso, disse:
 Agora preciso ir, foi um prazer conhecer voc.
 Tambm estou feliz por isso, quem sabe, poderemos 
conversar outras vezes.
 , quem sabe...
Quando Carmem se aproximou, ela j havia se afastado. 
Tomada de dio e cime, Carmem perguntou:
 O que voc estava falando com aquela moa, Rafael?
 Nada, Carmem. Maria caiu e ela a ajudou.  uma moa 
muito simples, embora seja rica. Gostei muito de conversar 
com ela. Espero poder voltar a fazer isso.
 No pode fazer isso!
Rafael, desconhecendo os sentimentos dela para com ele, 
estranhou:
 Por que est dizendo isso, Carmem?
 Voc, enquanto conversava com ela, pareceu ter se 
esquecido de que  um homem casado.
Rafael s agora se deu conta de que Carmem estava com 
cimes. Preocupado, disse:
 Voc est com cime, Carmem? No somos casados de 
verdade! Fizemos apenas um acordo.
Ela, vendo que havia deixado transparecer o que sentia, 
pensou e falou rpido:
 No estou com cime. Voc tem razo, no somos 
casados, mas, para todos os efeitos, as pessoas pensam que 
somos e eu no quero passar por uma mulher trada! Tenho 
vergonha.
 Todos quem, Carmem? Aqueles que vieram conosco no 
navio sabem o que aconteceu. Sabem que nosso casamento 
no existe!
 Eles sabem o que aconteceu no navio, mas no sabem o 
que tem acontecido desde que chegamos e comeamos a 
morar juntos. Por favor, para no me envergonhar, no 
quero que converse mais com essa mulher!
 Essa mulher, como voc diz,  uma moa muito fina e 
educada. No conversamos nada de importante, mesmo 
assim, voc no tem o direito de falar ou exigir qualquer 
coisa de mim! Agora vou embora!
 Pode ir, mas no se esquea de levar sua filha! Vou 
danar com Julian e aproveitar a festa. No posso ficar 
tomando conta dela!
 No se preocupe com isso! Posso muito bem tomar conta 
dela! Dizendo isso, Rafael se afastou e caminhou para onde 
Maria estava brincando.
 Vamos embora, Maria. J est tarde.
 Ainda  cedo, papai. Quero brincar mais um pouco.
 J brincou bastante. A festa est acabando e as pessoas j 
esto indo embora. Vamos.
 contragosto, a menina o acompanhou. Carmem, com 
dio, ficou ali olhando enquanto ele se afastava.
Ele no pode se interessar por outra mulher, no pode! 
Enquanto se afastava, Rafael pensava:
Ser que Carmem gosta de mim como homem? No, estou 
ficando louco. Ela sempre me considerou como irmo e  o 
mesmo que sinto por ela. Devo estar imaginando coisas. 
Comeo a achar que esse casamento foi um grande erro. 
No posso continuar preso a algum de quem no gosto. 
Somente ao conhecer Berenice me dei conta disso. Ela  
uma moa adorvel, alm de muito bonita, seus olhos so 
maravilhosos. Tm um brilho como nunca vi. No vai gostar 
de algum como eu, mas, se gostasse o que eu ia fazer? 
Preciso encontrar uma maneira de consertar esse erro...
Carmem, tomada de dio, se aproximou de Julian:
 Vamos danar, Julian? 
Ele, surpreso, respondeu:
 Claro que sim, Carmem.
Voltaram a danar. Ele, que estava ao lado deles quando 
discutiram, sabia que ela s estava querendo devolver a 
ofensa que julgava ter recebido de Rafael. Mesmo assim, 
ficou feliz. Sorrindo, enlaou-a nos braos e saram 
danando.
Carmem, embora danasse com Julian, no conseguia se 
esquecer de Rafael conversando com Berenice.
O olhar dele, enquanto conversava com ela,  o mesmo que 
tinha ao lado de Lola. Ele est gostando dela e isso no pode 
acontecer! No pode e no vai! Se ele no ficar comigo, no 
vai ficar com ningum mais.
Julian, no imaginando o que ela pensava, estava feliz por t-
la nos braos e tambm pensava:
Sei que ela nunca me olhou como homem, mas sei esperar. 
Essa cena com Rafael? Ser que ela est com cimes? No, 
no, pode ser. Ela somente ficou envergonhada. Amo 
Carmem e quero que seja minha mulher. Quero viver ao 
lado dela e ter uma famlia.
Carmem continuava pensando:
Ele est gostando dela! Isso no pode acontecer! Essa moa, 
alm de bonita, tem muito dinheiro! Preciso pensar em uma 
maneira de evitar qu se prolongue o que est comeando!
Enquanto danavam, Julian disse:
 Est muito brava, no , Carmem?
 Por que est dizendo isso?
 Vi como voc ficou quando Rafael conversava com a 
filha do patro.
 Est enganado, sabe que no tenho nada com Rafael. 
Somos apenas amigos e s estamos juntos por causa da 
Maria. Enquanto esse casamento durar, no quero ser 
envergonhada por ele.
 Falando assim, enche meu corao de esperana. Naquele 
momento, pensando em uma maneira de atingir Rafael e se 
vingar dele, ela sorriu e apertou a mo de Julian que, 
entendendo o gesto, tambm sorriu.
 Que bom que voc no gosta dele. Eu, ao contrrio, gosto 
muito de voc e sei que poderemos ser felizes.
 S est se esquecendo de uma coisa, Julian.
 Do qu?
 Embora meu casamento seja de mentira, perante a lei ele 
existe. Nunca poderemos ficar juntos.
 Tem razo, mas  preciso encontrar uma soluo. O que 
fizeram, embora fosse necessrio, foi um erro. No  justo 
que fiquem presos a um casamento que na realidade no 
existe.
 Tambm estou achando que foi um erro, mas, agora, no 
h soluo. Estamos presos um ao outro.
 Tem de existir uma soluo, Carmem!
Naquele momento, com medo de que Rafael a abandonasse 
por outra mulher, em seu pensamento, encontrou uma 
soluo.
 A nica soluo seria eu ficar viva, mas isso no vai 
acontecer, Rafael  muito jovem e forte.
Ele, a princpio, no entendendo qual era o real desejo dela, 
disse:
  verdade, ele  jovem e forte. Por isso, se formos 
esperar, vai demorar muito.
 Vai mesmo, Julian. Como est vendo, no existe soluo. 
Estou presa para sempre...
A msica terminou. Antes de se separaram, Carmem 
apertou mais uma vez a mo de Julian que sentiu que havia 
esperana de conseguir o que queria, mesmo no sendo 
casados.
Quando ela descobrir que gosta de mim, se entregar sem 
pensar. Embora tenha de ser escondido, no precisamos nos 
casar... 
A msica terminou e eles se afastaram. Carmem disse:
 Agora preciso ir, Julian. Embora meu casamento seja de 
mentira, para todos, ele  verdadeiro e ser at o dia em que 
fique viva.
Sorrindo, afastou-se e foi para casa. Julian ficou ali, pensando 
no que ela havia dito.
Rafael no vai morrer to cedo. Sendo assim, jamais poderei 
ficar com Carmem a no ser escondido, mas, pensando bem, 
da maneira como a conheo, sei que  uma mulher honesta 
e no vai querer viver ao meu lado sem ser casada. Preciso 
encontrar outra soluo...
Carmem, ainda tomada de dio e cime, chegou a casa. 
Maria estava deitada na cama e Rafael no colcho no cho. 
Ele contava uma histria para a menina. Entrou e, ao v-lo 
com todo aquele carinho para com Maria, raivosa, pensou:
No tem jeito mesmo, ele nunca vai se esquecer daquela 
mulher nem vai se apaixonar por qualquer outra. Por que 
isso acontece? Por que ele no gosta de mim? Seria tudo 
mais fcil se ele me quisesse.
Pegou sua roupa de dormir, foi para a cozinha, vestiu-se e 
voltou, deitou-se de costas para eles e fechou os olhos.
Lola, que a tudo acompanhava, disse:
 Ela tem razo, dona Isabel. Seria muito mais fcil.
 Seria, mas no haveria aprendizado algum. Carmem est 
novamente, como j aconteceu outras vezes, na hora de 
decidir.
 Pelo que entendi, ela insinuou que Julian deve matar 
Rafael, foi isso mesmo?
 Sim. Como disse, as situaes se repetem. Carmem, 
muitas vezes, usou o amor de Julian para fazer com que ele 
cometesse um crime. Infelizmente, sempre conseguiu. 
Esperamos que, dessa vez, ela mude de idia ou que ele 
resista.
 Ele vai fazer o que ela quer?
 No sei. Ele tambm est passando por um momento de 
aprendizado, de usar seu livre-arbtrio. Outras vezes ele 
falhou e atendeu ao que ela queria. Tomara que, dessa vez, 
ele resista para que possa continuar caminhando e no perca 
a oportunidade que est tendo com esta encarnao, para 
que ela no seja perdida como j foram tantas outras
  tudo muito complicado.
 No, Lola, ao contrrio,  tudo muito simples. Somos ns 
que complicamos.
 No, dona Isabel. Carmem est em uma situao muito 
difcil.
 Sim, mas est tambm num momento de escolha e 
aprendizado. J que no podemos interferir no seu livre-
arbtrio, vamos esperar para ver o que acontece.
Rafael acompanhou os passos de Carmem, mas ficou calado. 
Antes mesmo de terminar de contar a histria, Maria, 
cansada pelo muito que brincara, naquele dia, adormeceu. 
Ele, ao ver que ela estava dormindo, sorriu. Levantou-se, 
beijou sua testa. Cobriu-a com o cobertor, tendo cuidado 
com sua mo. Foi at o fogo, pegou uma caneca, colocou 
caf que estava em um bule sobre o fogo e saiu. Sentou-se 
em um banco construdo com um tronco de rvore. Tomou 
um gole da caf, olhou para o cu que estava estrelado e 
com a lua cheia. Seu corao encheu-se de emoo:
Como  linda a natureza e como Deus  perfeito. Deu esta 
terra para vivermos com tudo o que  necessrio para 
sermos felizes. Temos uma terra boa que nos d comida em 
abundncia. Temos os rios com gua pura. Alm deles, h os 
mares cheios de peixes, contudo, mesmo assim, o ser 
humano nunca est feliz. Olhe o que est acontecendo 
agora. Descobri que Carmen gosta de mim de uma maneira 
diferente da que eu pensava e desejava. Ao mesmo tempo, 
sinto por essa moa algo que julguei que nunca mais sentiria 
desde que Lola morreu. Tanto eu como Carmem estamos 
percorrendo um caminho errado. No tenho certeza, mas se 
estiver gostando mesmo de mim, jamais vai ficar comigo da 
maneira como quer e eu jamais vou poder ficar com 
Berenice da maneira que quero. Estou ficando louco! No 
aconteceu nada entre ns, apenas conversamos como 
pessoas educadas. Ela jamais se interessaria por algum como 
eu. Sinto muito, pois gostaria de t-la como minha mulher, 
de viver com ela para o resto da minha vida, mas isso nunca 
vai acontecer. O que vou fazer se no conseguir tirar do 
corao esse sentimento? Por que as coisas so to difceis 
para mim?
Terminou de tomar o caf, entrou em casa e se deitou. 
Ainda pensando em Berenice, demorou a dormir.
Carmem, embora de olhos fechados, acompanhou todos os 
seus passos. Enquanto ele estava l fora, tambm pensava:
Ele est l fora, provavelmente pensando naquela moa. Ser 
que vai ser sempre assim? Antes, ele pensava em Lola, agora 
nessa moa, Ser que nunca vai pensar em mim como 
mulher? No sei quando, mas um dia ele vai me notar e vai 
saber que o meu amor  imenso. Com essa moa, embora 
saiba que seja difcil, no me preocupo, pois, se eles 
insistirem, terei de fazer com ela o mesmo que fiz com Lola 
e farei com qualquer outra mulher que interferir no meu 
caminho. Ele tem de ficar comigo! Se isso no acontecer, 
no ficar com mais ningum! Prefiro v-lo morto!
Ficou ali por um bom tempo pensando, at que, tambm 
cansada pelo longo dia de preparao da festa, adormeceu.
Berenice tambm estava deitada, mas no conseguia dormir. 
No conseguia tirar do pensamento os olhos de Rafael e o 
que sentiu ao v-los:
O que foi aquilo que senti quando olhei para os olhos 
daquele moo? Nunca havia sentido algo parecido. Por que 
no consigo esquec-lo? Por que seu sorriso e seus olhos no 
saem do meu pensamento?
Ficou com sede. Levantou-se, foi at a cozinha, pegou um 
copo de cristal, colocou gua e, com ele na mo, foi para o 
quintal. L fora, tambm olhou para o cu e tambm se 
encantou com o que viu:
Como a noite est linda. Como  bonita esta terra, este cu. 
Como poderamos ser felizes se tudo pudesse ser da maneira 
como desejamos, mas no . Sinto por aquele moo algo que 
nunca senti, mas sei que isso  totalmente impossvel. Ele, 
alm de ser um trabalhador imigrante com o qual meu pai 
jamais permitiria que eu me envolvesse,  um homem 
casado.
No adianta, o que estou desejando jamais poder acontecer. 
Estamos muito distantes um do outro. Ns nos conhecemos 
muito tarde.
Terminou de beber a gua e com o corao apertado, voltou 
para seu quarto, deitou e depois de muito virar na cama, 
adormeceu.
Julian, depois que Carmem foi embora, ficou na festa ainda 
por mais algum tempo conversando com as pessoas. Depois, 
como todos comearam a ir embora, resolveu tambm ir. 
Ao passar em frente a casa de Carmem, parou por um 
instante.
Com tanta mulher no mundo, por que fui gostar logo da 
Carmem? Quem sabe, com o tempo, ela entenda que me 
ama e se volte para mim. No sei... vou esperar que isso 
acontea...
Entrou em casa. Pedro e Pepe no estavam l. A ltima vez 
em que Julian os viu, estavam danando felizes. Julian 
deitou-se e, pensando em Carmem, tambm adormeceu.
Lola, ao ver todo aquele conflito, perguntou:
 Que momento  esse que esto vivendo, dona Isabel?
  o momento decisivo. Novamente, esto juntos e 
novamente chegou o momento de deciso. Caber  
Carmem, como sempre, decidir o destino de todos. Vamos 
esperar que, dessa vez, ela use de sabedoria.
 Tomara que sim, dona Isabel, para o bem de Maria.
 De todos eles, Lola. De todos eles...
 Nunca imaginei que a vida pudesse trazer tantos 
conflitos. Vivi muito pouco tempo na Terra, no tive tempo 
para enfrentar conflitos. O nico foi a ameaa de ficar longe 
de voc, Manolo, mas logo foi resolvido.
  verdade, Lola, nossos conflitos foram logo resolvidos 
porque, alm de nos amarmos, renascemos apenas para 
ajudar Maria a renascer e a se encontrar com eles. Quando 
isso aconteceu, nossa misso terminou e pudemos retornar 
para casa.
 Ele tem razo, Lola, foi isso o que aconteceu. Os espritos 
caminham em grupos, alguns caminham mais na frente, 
outros mais atrs. Aqueles que esto na frente, como 
acontece com vocs, podem, se quiserem, continuar a 
jornada sozinhos, mas, na maioria das vezes, como est 
acontecendo agora, preferem ficar e ajudar de todas as 
maneiras aqueles que ficaram para trs.
 Est dizendo que estamos  frente? Que somos espritos 
superiores?
Isabel riu e respondeu:
 No, Lola. No somos espritos superiores, estamos longe 
disso. Somente estamos alguns passos  frente, mas, para 
sermos espritos superiores, temos, ainda, muito para 
caminhar.
Lola respirou fundo. Olhou com carinho para Manolo que, 
sorrindo, beijou sua testa. Isabel sorriu ao ver o amor que 
existia entre eles disse:
 Bem, por ora, nosso trabalho aqui terminou. Podemos 
voltar ao stio e descansar, porque amanh ser outro dia.
 Nesta noite no vamos conversar com eles?
 No, Lola. Daqui para frente, isso no ser mais possvel. 
Esto em um momento de deciso e devero resolver 
sozinhos, sem interferncia.
 A senhora no disse que nunca estamos ss?
 Nunca estamos ss, nos momentos de desespero, quando 
precisamos de energia e paz, mas nos momentos de deciso, 
quando deve ser usado o livre-arbtrio, no podemos 
interferir. Vamos embora. 
Abraados, concordaram e, em poucos instantes, 
desapareceram.




Reencontro

Rafael abriu os olhos, estranhou que Maria no estivesse 
dormindo em suas costas, olhou para a cama e viu que ela 
dormia serenamente. Pensou:
Ela brincou muito, est cansada e no deve ter acordado 
durante a noite. Ainda bem, porque ela, nas minhas costas, 
no deixa que eu durma bem, mas o que vou fazer, se ela 
gosta?
Olhou para Carmem que tambm dormia:
Preciso encontrar uma soluo para o nosso caso. No sei o 
que aconteceu quando olhei para aquela moa. Ela  to 
linda e seus olhos so maravilhosos.
Ainda deitado de costas e olhando para o teto, passou a mo 
pela cabea como se quisesse fazer com que aquele 
pensamento sumisse, mais no adiantou:
Devo estar louco! Como me atrevo a pensar em uma moa 
como aquela? No h esperana alguma. Ela  rica e bonita, 
vai querer o que com um bronco como eu que no tenho 
onde cair morto? Porem, nunca havia pensado nisso. Desde 
que Lola morreu, decidi dedicar minha vida a Maria, mas, 
depois do que senti e estou sentindo, pode ser que, embora 
no seja com essa moa, outra pode aparecer e eu me 
apaixone novamente. Isso poder acontecer no s comigo, 
mas com Carmem tambm. Ela poder encontrar algum de 
quem goste realmente e no poder realizar seu desejo por 
estar presa a mim. Isso no  justo para nenhum de ns.
Levantou-se, foi at o fogo e tomou um pouco do caf do 
dia interior. Poderia fazer um novo, mas no quis acordar 
Carmem e, com o aroma do caf fresco, isso aconteceria. 
Depois de tomar caf, saiu. L fora, olhou para o cu 
novamente. O dia estava clareando:
Hoje  domingo, poderia dormir at mais tarde, mas no 
agento ficar na cama. J estou acostumado a acordar a esta 
hora. Est quente, vou at o rio tomar um banho. Logo mais 
o padre Toms, como faz todos os domingos, vem at aqui, 
na fazenda, para rezar a missa.
Procurando fazer o menor barulho possvel, entrou em casa, 
pegou uma toalha e foi para o rio.
Carmem, embora fingisse dormir, estava acordada e viu 
quando ele saiu. Pensou:
Ontem exagerei. O cime me cegou e disse coisas que no 
deveria ter dito. Rafael ficou nervoso e com razo. Sei que 
no existe nada entre ns, mas no me conformo. Sempre o 
amei e preciso conquist-lo definitivamente. Vou tambm 
at o rio tomar banho e conversarei com ele como se nada 
tivesse acontecido. Continuarei me dedicando a ele e a 
Maria. Com minha dedicao, ele vai ter de me notar e 
entender de uma vez por todas que s eu sou a mulher da 
sua vida e que, juntos, poderemos ser felizes para sempre. 
Agora vou me levantar, pegar uma toalha e ir ao encontro 
dele.
Enquanto ela pensava isso, Rafael ia para o rio. Quando 
estava chegando, seu corao bateu mais forte. Berenice 
estava l, sentada  margem, olhando a gua que corria 
tranqila. Emocionado, aproximou se
 Bom dia.
Ela se assustou, voltou-se e, ao ver que era ele, sorriu.
 Bom dia. Acordou cedo?
 Sim. Eu costumo me levantar todos os dias a esta hora. 
No consegui ficar na cama. Mas acho que a senhorita no 
est acostumada a acordar cedo.
 No mesmo, mas no consegui dormir bem esta noite. 
Como no conseguia dormir, resolvi vir at aqui para pensar 
na minha vida.
Carmem se aproximou e, de longe, viu que os dois 
conversavam. Seu corao novamente se encheu de dio.
De onde estava, no podia ouvir o que falavam, mas podia 
ver que estavam bem prximos.
Sou mesmo uma boba! Fico fazendo tudo para que ele me 
note, mas, no adianta! Ele gostou mesmo dessa moa e, 
pelo que estou vendo, ela dele. Ontem, quando 
conversavam e, antes de ele ir embora, devem ter marcado 
encontro aqui. Eu no estava aqui quando eles se 
encontraram, devem ter se beijado muitas vezes! Ela no 
conhece nossa histria, deve pensar que ele  casado, mas, 
mesmo assim, no se importou! Devem ter rido muito de 
mim. Sou mesmo uma idiota!
Aps passarem a noite no stio, pela manh, Isabel, Lola e 
Manolo voltaram para ficar ao lado deles. Lola, ao ouvir o 
que Carmem pensava, se assustou:
 No aconteceu do modo como ela est pensando, dona 
Isabel! Eles se encontraram por acaso! No planejaram! 
Isabel sorriu:
 Ns sabemos disso, Lola, mas ela no. A pessoa, quando 
est com cime, no enxerga a realidade, somente aquilo 
que deseja ver. Normalmente, constri em sua mente uma 
histria diferente da que est acontecendo, diferente da 
realidade. Isso  triste, pois s causa sofrimento 
desnecessrio. O cime  um dos sentimentos que mais faz 
sofrer tanto aquele que sente, como aquele que  a causa 
dele.  como se fosse uma priso em que a porta da cela 
dificilmente ser aberta. Somente o amor espiritual, sem 
paixo, poder fazer com que isso acontea.
 Por que as pessoas sentem cime?
 Porque, ao julgarem amar algum, sentem-se donos da 
pessoa, mas, na realidade, no so. O esprito  livre, 
portanto no tem dono. Ningum, por mais que julgue amar, 
pode obrigar que esse amor seja correspondido. O esprito 
vive na Terra pouco tempo. O ideal seria que usasse esse 
tempo para aprender, se aperfeioar, mas isso no acontece. 
Na maioria das vezes, perde um tempo precioso com dio, 
cime e sofrimento desnecessrios. O sentimento de posse 
faz com que o esprito sofra muito.
 A senhora diz que no se pode obrigar, mas na vida no  
bem assim. As pessoas, quando gostam, exigem 
exclusividade e no aceitam que outra interfira.
 Sei que  isso que acontece, mas no deveria. Quando 
existe amor verdadeiro, no h traio. Quando se tem 
certeza do amor do outro, no existe cime. Carmem est 
morrendo de cime porque sabe que Rafael no a ama e 
quer obrig-lo a ter um sentimento para com ela que ele no 
tem e nunca ter. Isso j vem acontecendo h vrias 
encarnaes. Ela tem fracassado sempre pelo mesmo 
motivo. Tem cometido crimes e levado Julian a cometer 
tambm. Dessa vez, est novamente tendo a oportunidade 
de se redimir. Isso s acontecer quando entender que todos 
so livres para escolherem o caminho que desejam seguir e 
que ningum pode interferir nessa escolha, quando 
entender que, por mais que julgue amar Rafael, isso no 
passa de iluso e que a nica coisa verdadeira  o amor 
espiritual e este no passa, necessariamente, pelo ato sexual. 
O amor da carne, por maior que possa parecer, no resiste ao 
tempo. O corpo muda e os sentimentos tambm. Aquilo que 
hoje  to importante para ela, amanh, poder deixar de ter 
o mesmo valor. Tanto Rafael como ela deixaro de ter a 
beleza que s a juventude traz. Quando chegar essa hora, s 
resiste o amor verdadeiro, que  o espiritual.
 Entendo o que a senhora est dizendo, mas, quando na 
carne, como a senhora gosta de dizer, as coisas so 
diferentes. Ningum conhece o amor sem que seja atravs 
do sexo. Normalmente, como est acontecendo agora com 
Carmem, sente-se realmente dona do outro. Ela sente 
cimes porque gosta muito dele, dona Isabel.
 Nem sempre isso  verdade, Lola. No  amor que leva ao 
cime, mas, sim, o medo de ser trocado por outro. A isso se 
d o nome de orgulho. O cime  a causa de muito 
sofrimento e de muitos crimes, Lola. Em nome dele, muito 
mal tem se praticado.
 Entendo o que a senhora est dizendo, mas quando se 
ama  difcil no se ter cime.
 Para isso  que renascemos tantas vezes, Lola, para 
aprender. Para ser feliz, o esprito precisa ser livre e deixar 
que os outros sejam.
Voltaram o olhar para Rafael que, sem imaginar que 
Carmem estava ali, sorrindo, perguntou:
 O que uma moa bonita como a senhorita pode ter para 
pensar? Alm de bonita, tem educao e  rica...
 Embora tenha e seja tudo isso que o senhor acha 
importante,  justamente isso que faz com que eu seja 
infeliz.
 No estou entendendo. Como isso pode acontecer?
Ela ia responder, mas, para que isso acontecesse, teria de 
dizer que era justamente a distncia social que impedia que 
ela fosse feliz ao lado dele. Alm do mais,  claro, ele ser 
casado, mas preferiu ficar calada e apenas sorriu. Ele, 
tambm sorrindo, perguntou:
 Posso me sentar ao seu lado?
 Claro que sim. Vamos, juntos, ver o sol nascer. Com essa 
toalha na mo, parece que veio tomar banho...
 Foi isso mesmo que vim fazer, mas posso deixar para 
depois. Prefiro ficar aqui conversando com a senhorita.
Ela voltou a sorrir:
 Para comear, podemos deixar isso de senhorita e senhor 
para l. O que acha?
 Acho muito bom, mas no posso me esquecer de que  a 
filha do patro.
 E o que isso importa? Sou apenas uma moa como 
qualquer outra, com tristezas e alegrias. Ser filha do patro  
apenas uma situao. 
Ele sorriu e se sentou.
 A senhorita acabou de chegar. Nunca esteve aqui?
 Como lhe disse ontem,  a primeira vez. Embora meus 
pais j estejam morando aqui h muito tempo, nunca tive 
vontade de vir. Achava este pas atrasado, mas, pelo que 
estou vendo, aqui  maravilhoso. Um lugar bom para viver. 
Estou impressionada...
  verdade. Eu, ao contrrio, quando resolvi vir, achava 
que este pas era maravilhoso e que o dinheiro crescia em 
rvores. 
Ela comeou a rir alto:
 Pensou isso mesmo?
 Sim, os folhetos que chegaram pedindo imigrantes para 
trabalharem aqui, embora no dissessem isso, claramente, 
insinuavam.
 Quando chegou aqui o que encontrou?
 Algo totalmente diferente. Muito trabalho e somente a 
esperana de conseguir algum dinheiro para poder ir 
embora.
 Pretende voltar para a Espanha?
 Quando vim para o Brasil, achava que encontraria uma 
terra disposta a me dar muito dinheiro para que eu pudesse 
voltar e, com dinheiro, ter uma vida melhor. Hoje no sei 
mais. Infelizmente, no encontrei aquilo com que sonhei. 
Aqui se trabalha muito e as condies de vida so pssimas.
 O que pretende fazer?
 Tenho esperana de que, em uma cidade grande, 
conseguindo montar o meu negcio, possa realizar meus 
sonhos.
 Que negcio?
 Aprendi com meu pai que aprendeu com o dele a 
construir coisas, como portas, pontes, janelas de ferro. Na 
Espanha, eu tinha oficina, mas, com o que aconteceu l, 
perdi tudo. Meu sonho  conseguir recuperar. Isso s vai 
acontecer depois de acertar as contas com seu pai, pegar o 
dinheiro a que tenho direito e ir embora. E voc pretende ir 
embora?
 No, por enquanto. Pretendo conhecer um pouco mais 
deste pas e das pessoas.
 Tomara que consiga. Desculpe o que vou dizer, mas 
fiquei impressionado com a sua beleza.
Ela sentiu que todo o sangue de seu corpo subia para seu 
rosto e que estava vermelha.
 Embora tenha gostado do que disse, acho que no deveria 
dizer, afinal,  um homem casado...
Rafael lembrou-se de Carmem:
 Acho que ela no se importaria, porque, realmente, 
embora vivamos juntos, no somos casados nem temos uma 
vida como marido e mulher.
 No estou entendendo. Como pode ser isso? Aquela 
menina linda no  sua filha?
  complicado mesmo, mas, se quiser e tiver pacincia, 
posso lhe contar.
 Gostaria muito. Estou intrigada e curiosa. Como isso pode 
ser? Viver junto com uma pessoa, morar na mesma casa e 
no ter uma vida de casado...
Ele sorriu:
 Como j lhe disse,  uma longa histria. S posso lhe 
garantir que no sou casado. Vivo com ela, mas no como 
marido e mulher.
 Continuo no entendendo...
 Quando tudo aconteceu, pareceu ser o certo, mas s 
agora percebi a imensa bobagem que fiz.
 Que bobagem?
 Vou lhe contar o que aconteceu em minha vida.
 Estou curiosa. Por favor, conte. No consigo imaginar o 
que possa ter acontecido para que esteja em uma situao 
dessa...
Rafael contou tudo o que havia acontecido desde que sara 
da Espanha.
Terminou, dizendo:
 Quando tudo aconteceu, no imaginei que um dia 
poderia me arrepender. Na poca s me preocupei com 
Maria. Agora, acho que deveria ter pensado mais.
 Tambm acho, mas, por outro lado, se no tivesse feito o 
que fez, o que teria sido dela? Onde estaria?
 Tem razo, mas agora estou preso a um casamento que 
no existe. Vi Carmem danando com Julian. Ela deve estar 
pensando o mesmo que eu. Ela tambm pode gostar de outra 
pessoa e no vai poder ficar ao lado dela, por estar presa a 
mim. 
 No tem como desfazer o que foi feito? 
 No sei, mas acho que no. Quando chegamos e 
mentimos, nos deram um documento de casados. Aqui no 
existe divrcio, portanto, estou casado sem estar.
 Acredito que, se conversar com um juiz, contar como 
tudo aconteceu, ele entender e poder anular o casamento.
 J pensei nisso, mas tenho medo, Berenice. Mentimos 
primeiro para as autoridades e poderemos ser presos. Depois, 
para podermos ficar aqui e com Maria, mentimos para seu 
pai. Precisamos fazer isso, se ele soubesse que Maria no era 
nossa filha, no teria deixado que ela ficasse aqui.
 J se passou muito tempo. Qualquer juiz poder ver o 
amor de vocs para com Maria e o dela para com vocs e 
entender que, na ocasio, era a nica coisa que poderiam 
ter feito e que foi e  o melhor na a menina. Acho que deve 
fazer isso. Essa situao no  justa nem com voc nem para 
Carmem. No  justo que continuem em uma situao que 
s traz tristeza para os dois. Cada um de vocs tem o direito 
de ser feliz com uma pessoa de quem goste realmente.
 No sei se vai dar certo, mas vou tentar. A primeira coisa 
a fazer  contar para Carmem o que est acontecendo. Acho 
que ela vai entender e ficar feliz se encontrarmos uma 
maneira de nos separarmos para que tambm possa seguir 
sua vida. Sei que, no momento, ela est confusa, mas, com o 
tempo, entender que  o melhor para ns. Vi como Julian a 
olhou. Acho que est gostando dela. 
 Faa isso, Rafael. Precisa decidir sua vida.
 Nunca pensei que esse dia chegaria. Sempre acreditei que 
nunca esqueceria de Lola e que viveria somente para Maria, 
mas agora, depois de conhecer voc, desejo do fundo do 
corao que nada daquilo tivesse acontecido. No sei como 
explicar, mas, assim que a vi, meu corao bateu forte. Acho 
que estou apaixonado. 
Ela voltou a ficar vermelha.
 O que est dizendo?
 Voc disse que no dormiu bem esta noite, eu tambm 
no. No consegui esquec-la por um momento. Hoje cedo, 
quando acordei vim para c, tomar um banho para ver se 
esfriava a cabea.
Ela olhou para ele e os olhos se encontraram outra vez. O 
mesmo que haviam sentido na noite anterior voltou a 
acontecer. Um estranho arrepio percorreu os corpos deles. 
Sem que tentassem impedir, olhando-se nos olhos, ele a 
abraou, aos poucos foram se aproximando e beijaram-se 
com paixo.
A princpio, ela se assustou, mas, aos poucos, se entregou 
quele beijo, tambm com paixo. No adiantava querer 
esconder. No sabiam como explicar, s sentiam que 
estavam perdidamente apaixonados.
Depois de um longo beijo, soltaram-se e ele disse:
 Desculpe, mas no consegui evitar. No entendo o que 
est acontecendo. Embora s a tenha conhecido agora, 
tenho a impresso de conhec-la h muito tempo. Sei que  
uma loucura e que nunca poderemos ficar juntos. No s 
pela minha situao, mas por voc se a filha do patro. No 
consigo evitar, estou loucamente apaixonado por voc.
Ela, tremendo de emoo pelo beijo, disse:
 Tambm no sei explicar como, mas o mesmo est 
acontecendo comigo. Tambm no consegui esquec-lo por 
um minuto sequer e por isso no consegui dormir direito. 
Por isso, quando acordei, vendo que era muito cedo, mas 
que no conseguia dormir novamente, resolvi sair e vim dar 
aqui. Estava olhando para a gua e pensando na minha vida.
 Sinto que no poderei mais viver sem voc. Vou 
conversar com Carmem e, depois, se ela concordar, vamos 
procurar um juiz para ver se conseguimos anular um 
casamento que, na realidade, nunca existiu. Depois, vou 
conversar com seu pai e vamos ficar juntos para sempre.
 Isso no vai acontecer, Rafael. Isso  impossvel...
 Tem razo. Estou delirando. Voc  instruda, filha do 
patro enquanto eu sou quase analfabeto e no tenho nada 
de meu.
 No  esse o motivo.
 Qual  ento?
 Sou mulher...
 No estou entendendo. O que tem que  mulher?
 Meu pai, por ser muito rico, no quer que sua fortuna seja 
dividida, por isso j me prometeu a um rico espanhol. Vou 
ficai aqui por algum tempo, depois preciso voltar para a 
Espanha. Vou me casar com um homem que  muito mais 
velho do que eu e pelo qual no sinto nada.
 Isso no pode acontecer! No  justo!
 Tambm acho, mas o que posso fazer? Sabe que a mulher 
no tem direito algum. Vive sobre o jugo dos pais, depois do 
marido e, por fim dos filhos. No pode decidir sua vida, pois 
 julgada incapaz. No existe escolha, preciso obedecer ao 
meu pai e vou me casar com aquele que ele escolheu...
 No! Isso no pode acontecer! Nunca imaginei que me 
apaixonaria novamente, agora que isso aconteceu, no vou 
deixar que me escape assim como aconteceu com Lola. Com 
ela foi mais forte do que eu, no pude evitar, mas com voc 
 diferente, vou lutar com todas as armas que tiver!
 Que armas, Rafael? No temos nenhuma...
 No sei, Berenice, mas precisa ter uma soluo. Depois 
que a ha situao com a Carmem for resolvida, vou 
conversar com seu pai e, se ele no aceitar, com o dinheiro 
que vou receber da colheita, iremos fugir.
 No podemos fazer isso, Rafael. Sabe que no poderemos 
viver sem nos casarmos. Sabe que a sociedade condena 
aqueles que vivem juntos sem ser casados. Os filhos que 
porventura nascerem dessa unio sero marcados, ofendidos 
e magoados. No existe soluo, Rafael...
 Voc acha justo nos magoarmos, ficarmos separados por 
causa do que as pessoas pensam ou vo dizer?
 No acho, Rafael, mas a vida  assim. Embora acredite 
que isso demore a acontecer, tenho esperana de que, um 
dia, a mulher possa ser livre, possa trabalhar, ter seu prprio 
dinheiro e, com ele, se sustentar e assim decidir sua vida. 
Possa errar ou acertar, mas ser livre, ser dona de seu destino. 
Hoje, infelizmente, isso no  possvel. Preciso viver o meu 
tempo e obedecer ao meu pai. Quem sabe minha filha ou 
minha neta consiga viver livre para ser feliz ao lado de quem 
ama e escolheu. 
Ele ouviu desolado o que ela disse e teve de concordar.
 Realmente, tem razo. A mulher no tem lugar na 
sociedade. Ns, os homens, aprendemos isso assim que 
comeamos a dizer as primeiras palavras.Tambm no acho 
justo, mas isso precisa mudar! Algum precisa comear! No 
precisa esperar que sua filha ou neta faa isso, Berenice! 
Voc pode comear! Pode se rebelar e escolher o seu 
caminho! Escolher viver ao meu lado! Garanto que farei o 
possvel para que seja feliz!
Com carinho, ela passou a mo por seus cabelos:
 Para voc  fcil dizer isso, Rafael,  homem, mas, para 
mim no . Sou covarde, no sei como lutar, como enfrentar 
o meu pai.
 Voc no me ama realmente.
 Ainda no entendo como aconteceu, mas aconteceu. No 
sei se  amor, mas nunca senti por ningum o que estou 
sentindo por voc. Esse desejo de ficar ao seu lado para 
sempre.
Ele, desesperado, segurou as mos dela e beijou com 
carinho:
 Se for verdade, precisa lutar pelo nosso amor, Berenice. 
Precisa acreditar que, apesar da pobreza, poderemos ser 
felizes...
 No sei o que fazer. Fui criada para obedecer, no sei 
fazer outra coisa.
 Vai aceitar se casar com um homem a quem no ama?
 No sei. Como j disse, sou covarde, tenho medo de 
desobedecer a meu pai e depois me arrepender.
 Vai se arrepender, por qu? Nada poder ser pior do que 
viver ao lado de uma pessoa de quem no se gosta, 
Berenice...
Ela, sentindo-se impotente e sem foras para lutar, comeou 
a chorar. Ele, entendendo que a situao dela no era fcil, 
abraou-a com carinho e ficaram assim, calados.
Lola, que estava ali ao lado de Isabel e Manolo, ao ver aquilo, 
abismada, perguntou:
 O que est acontecendo aqui, dona Isabel? 
Isabel sorriu e respondeu:
 Nada que no tivesse sido programado, Lola. Voc no se 
lembra ainda, mas Berenice tambm faz parte do grupo e da 
histria de vocs. Ela tambm est caminhando junto a 
vocs durante muito tempo.
 O que vai acontecer? Eles no vo conseguir ficar juntos. 
Parece impossvel...
 Para Deus essa palavra no existe, Lola. Para Ele, tudo  
possvel.
 Podemos ajudar de alguma maneira? Rafael  muito bom, 
merece ser feliz.
 Sabe que a deciso cabe a cada um deles. O que podemos 
fazer  mandar luzes e energias para que possam ter 
tranqilidade e paz. Somente isso.
Lola comeou a rir.
 Do que est rindo, Lola?  perguntou Manolo. 
 Estou me lembrando de quando eu vivia na Terra. Assim 
como muitos outros, eu achava que as pessoas, depois que 
morressem, pudessem nos ajudar. Quantas vezes pedi ajuda 
a minha av que no conheci, pois, quando nasci, ela j 
havia morrido. Agora, vejo que, mesmo depois de morto, 
nada podemos fazer, pois cada um tem suas prprias 
escolhas,  dono de seu futuro. 
  isso mesmo, Lola. Esse  um engano que muitos 
cometem. Quando morremos, chegamos aqui da mesma 
maneira que ramos quando vivamos na Terra, com nossos 
defeitos e qualidade. Precisamos trabalhar muito para 
conseguir uma nova oportunidade de renascer. No 
adquirimos poder algum e, mesmo que isso acontecesse, 
nunca poderamos interferir no livre-arbtrio de cada um.
 Estou entendendo isso somente agora. O que vamos 
fazer? O que Carmem vai fazer agora que descobriu que 
Rafael e Berenice esto se encontrando? O que vai fazer com 
Maria?
 Todas essas perguntas somente o tempo responder, Lola. 
De nossa parte, vamos continuar ao lado deles at que tudo 
termine. Agora vamos enviar muita luz sobre os dois para 
que tenham foras e possam enfrentar o que est por vir.
Imediatamente, Isabel e Manolo comearam a jogar luzes 
sobre eles. Lola, que ainda no havia adquirido esse poder, 
ficou encantada, apenas observando. 
Berenice, como se tivesse recebido um novo alento, disse:
 Sei que gosto de voc, Rafael, e que poderemos ser 
felizes. Para isso acontea, vou lutar com todas as minhas 
foras. Sinto que sou capaz de enfrentar meu pai. Agora, 
preciso ir embora. J est na hora de todos acordarem e 
preciso estar sentada  mesa do caf. Se no fizer isso, 
levantarei suspeitas e isso no pode acontecer, antes de eu 
ter certeza do que quero fazer.
 Est bem, faa isso. Hoje  tarde, quando estiver 
escurecendo, virei at aqui e, se puder, venha tambm. 
Precisamos conversar, precisamos ficar juntos nem quem 
seja por apenas alguns minutos.
 Vou tentar sair sem que ningum me veja, mas isso  
quase impossvel. Minha me est sempre ao meu lado. De 
qualquer maneira, se eu no vier, foi porque no consegui, 
mas estarei pensando em voc. Disso pode ter certeza.
 Vou estar aqui e se no vier, amanh a esta hora vou estar 
novamente e todos os dias, at que consiga vir.
Com carinho, ele puxou novamente seu rosto e beijou seus 
lbios, deixando nela um prazer indescritvel. Depois se 
levantaram e ela, correndo, se afastou. Ele ficou olhando at 
que ela desaparecesse, depois sentou-se e ficou olhando a 
gua correr mansamente.
Carmem ficou escondida e a tudo assistiu. Viu quando eles 
se beijaram e como conversaram e riram. Sentiu tanto dio 
que no conseguia nem pensar. Sua vontade era a de matar 
os dois. Depois que Berenice foi embora, tomada de dio, 
pensou:
Eles pensam que vo ficar juntos, mas no vo! Agora 
mesmo vou at a casa do pai dela e contar o que est 
acontecendo. Quero s ver o que ele vai fazer quando 
souber que a filha est namorando um imigrante! Ele vai 
ficar louco e vai mandar Rafael embora daqui!
Furiosa, levantou-se e saiu correndo em direo  casa de 
Pablo.
Quando estava quase chegando, parou:
Espere, no posso fazer isso. Pois, se fizer, o patro no vai 
mandar s Rafael embora, mas a todos ns e no sei quanto 
dinheiro temos que receber e, se for pouco, no temos para 
onde ir. Vamos precisar continuar aqui. Preciso esperar a 
diviso do dinheiro, depois vou contar.
Mais calma, voltou para casa.
 
Conversa definitiva

Carmem, chorando e com dio, entrou em casa. Olhou para 
Maria que ainda dormia serenamente. Com raiva, pensou: 
Ele s tinha olhos para voc e agora, para ela! Isso no vai 
ficar assim e a nica maneira de me vingar dele  atravs de 
voc! 
Com raiva, acordou a menina, sacudindo-a com fora: 
 Acorde, Maria! Vai ficar dormindo at quando? 
Maria acordou assustada e, ao olhar para Carmem, viu aquele 
olhar to seu conhecido e que h muito tempo no via. 
Comeou a tremer de medo. Sabia que o sofrimento ia 
recomear. Em silncio, mas chorando, se levantou. 
Carmem, tomada de dio, disse:
 Pode se levantar! Pensa que a vida  assim fcil? Pensa 
que pode dormir o quanto quiser enquanto eu trabalho? 
Nada disso! De hoje em diante vai ter de trabalhar tambm 
e, se contar para seu pai, eu queimo a sua outra mo! Voc  
um estorvo na minha vida e o motivo de todo meu 
sofrimento!
A menina, sem saber o motivo daquilo, se levantou e ficou 
olhando Carmem, que continuou:
 Hoje  domingo, seu pai est em casa e voc precisa se 
trocar para ir  missa, mas a partir de amanh, tudo vai ser 
diferente! Ande, levante e se troque! Vou lhe dar um pouco 
de caf, mas sem po, e no se atreva a dizer ao seu pai que 
est com fome!
Deu o caf para a menina e depois colocou o vestido usado 
na festa e que, depois daquele dia, seria guardado e s 
voltaria a ser usado nos domingos para a missa.
Em silncio, Maria, embora estivesse com fome, se calou e 
obedeceu a tudo o que ela ordenava.
Depois de vestir Maria e lhe dar o caf, Carmem tambm se 
vestiu. Colocou o mesmo vestido que usara na festa, os 
brincos, penteou os cabelos e pintou os lbios. Olhou no 
pequeno espelho que havia ali e pensou:
Estou bonita, como ele pode no me notar?
Rafael, depois de ficar algum tempo olhando a gua, entrou 
no rio com a roupa. Ficou ali nadando por algum tempo e 
pensando:
Jamais poderia imaginar que sentiria isso novamente, que 
me interessaria por outra mulher, mas aconteceu. Ao 
mesmo tempo em que estou feliz, sei que esse amor  
impossvel, somos muito diferentes. Ela  educada e eu um 
bronco, quase analfabeto, que no tenho coisa alguma para 
lhe oferecer. Mesmo que nosso amor no d certo, preciso 
acertar minha situao com Carmem, no podemos 
continuar assim. No podemos continuar presos a um 
casamento que no existe.
Saiu da gua, tremendo, se enrolou na toalha e voltou para 
casa Quando entrou, Maria estava sentada na cama. Quando 
viu Rafael entrar, seus olhos brilharam, queria contar a ele o 
que Carmem estava fazendo, mas o medo fez com que se 
calasse.
Enquanto ele, na cozinha, tirava as roupas molhadas e 
trocava por secas, disse, entusiasmado:
 Maria! Como voc est bonita! J tomou caf?
A menina olhou para Carmem, que vendo que Rafael 
olhava, sorriu. Maria, embora visse que ela sorria, ainda com 
medo, respondeu
 J tomei, pai.
Saindo da cozinha e j trocado, ele disse:
 Que bom. Precisa comer muito para poder crescer. 
Depois que eu tomar o meu, vamos para a missa.
Carmem apenas acompanhava aquela cena.
Berenice tambm chegou a casa, que estava em silncio. 
Ouviu somente, um pequeno barulho vindo da cozinha, 
onde duas mulheres preparavam o caf. Em silncio, subiu 
as escadas e foi para seu quarto. Momentos depois, desceu 
como se estivesse no quarto at aquele momento.
Ao chegar  sala de refeies, seus pais j estavam sentados  
mesa. Sentou-se e olhou a mesa farta. Pensou em Rafael:
Gosto dele, mas ser que conseguirei viver na pobreza? Ser 
que serei feliz no tendo o que comer, a no ser pouca 
coisa? No sei... Fui criada com tudo. Nunca sequer soube o 
que era ou me preocupei com a pobreza. No sei o que 
fazer... Sinto que o amo e que, se ele tivesse dinheiro, 
poderamos ser felizes, mas no consigo me ver pobre e sem 
poder comer tudo de que gosto nem ficar sem roupas e jias 
a que estou acostumada. Dormir em uma boa cama com 
colcho e travesseiros macios. Ser que serei feliz ao lado 
dele?
Ser que se escolher ficar com ele, depois de algum tempo, 
no vou me arrepender? No sei o que jazer. Quando estou 
ao seu lado, tudo parece ser mais fcil, mas agora, vendo 
tudo o que posso perder, sinto muito medo... 
Aps o caf, acompanhada de seus pais, foi at a capela. 
Enquanto isso, Rafael tomava caf e comia po somente com 
manteiga. Maria olhava. Estava com fome, mas ficou calada. 
Sabia que todos os domingos, aps a missa, sempre era 
servido caf para o padre que vinha da Vila, quando, ao lado 
dele, todos comiam. Sabia que l, no meio das outras 
pessoas, poderia comer sem que Carmem pudesse castig-la. 
Depois de tomar o caf, Rafael olhou para Carmem, 
ignorando que ela estava bem vestida e pintada. Disse:
 Depois da missa, precisamos conversar, Carmem.
Ao ouvir aquilo, ela, desconfiando de que ele queria falar 
sobre Berenice, mas fingindo no saber que eles haviam se 
encontrado, perguntou:
 Conversar sobre o qu, Rafael?
 Um assunto muito srio, mas vamos deixar para depois. 
Agora est na hora da missa. Vamos rezar para que Deus nos 
ajude.
Ela, fingindo estar tudo bem, ficou calada e apenas sorriu.
Saram e os trs, como se fosse uma famlia perfeita, foram 
para a capela, onde outras pessoas j se encontravam.
Durante a missa, enquanto todos rezavam, Carmem pensava:
Ele vai falar sobre aquela moa. Ser que quer se separar para 
ficar com ela? Isso eu no vou permitir! Ele  meu! Para que 
isso acontecesse, matei Lola e matarei quantas vezes for 
preciso! Ele pode no querer ficar comigo, mas no vai ficar 
com mais ningum, prefiro que morra!
Enquanto o padre rezava a missa, a maioria das pessoas 
acompanhava com f. Cada um fazia seus prprios pedidos. 
A orao do padre e dos outros fez com que a pequena 
capela ficasse toda iluminada. Isabel, ao ver aquele ambiente 
de luz, sob os olhos de Manolo e Lola, se aproximou de 
Carmem e disse:
 Carmem, voc precisa esquecer o dio que est sentindo 
e entender que Rafael nunca foi e nunca ser seu. No da 
maneira como deseja. Ele no  seu nem de ningum, pois o 
esprito  livre para caminhar da maneira que quiser. Por 
isso, se insistir nesses pensamentos destrutivos, causar mal 
a ele, mas muito mais a voc. J passou tantas vezes por isso, 
j sofreu tanto no vale e ainda no aprendeu. Sua vida no 
pode se resumir a Rafael. Apesar dele, precisa encontrar o 
caminho de bem e seguir para a Luz. Tem muito para fazer. 
Entre tantas coisas, tem o dever e a misso de criar Maria 
com carinho para que ela possa crescer feliz e cumprir sua 
misso. Pense, minha filha, pense...
Carmem, como se estivesse ouvindo, sentiu que seu corao 
enchia se de paz. Pensou:
Ser que  justo o que estou fazendo com a Maria? Ela no 
tem culpa de Rafael no gostar de mim. Eu queria tanto 
poder esquec-lo e continuar a minha vida sozinha. Por que 
no consigo? Por que fiz aquela maldade com a Lola? Do que 
adiantou? Ele no me quer e nunca vai querer. O melhor a 
fazer  deixar que ele siga seu caminho e eu, tentar seguir o 
meu. Meu Deus, preciso conseguir esquecer Rafael...
Isabel, ao ver o que ela pensava, sorriu:
 Viram como um ambiente de paz e orao ajuda nos 
momentos de deciso? Aqui, cercada de tanta luz, Carmem 
no tem condies de ter maus pensamentos.
 Tomara que ela continue assim, no , dona Isabel?
 Tomara, Lola. Essa seria a melhor soluo para todos, 
mas, principalmente, para ela.
O desejo deles no demorou muito para terminar, pois, 
durante a missa, Berenice e Rafael ficaram trocando olhares 
que no foram notados pelas outra pessoa, apenas por 
Carmem.
Eles no esto conseguindo disfarar! No param de se olhar! 
No vou permitir que fiquem juntos, no vou!
A missa terminou e, como sempre acontecia, uma grande         
mesa feita de madeira e coberta com um pano branco j 
estava preparada. Caf, chocolate e po com manteiga foi 
servido. Todos, alegremente comearam a comer. Rafael, ao 
lado de Maria, disse:
 Venha comer, Maria. Aproveite. 
Maria olhou para Carmem, que ainda envolvida pela luz, 
sorriu. Pegou um pedao de po, colocou manteiga. Depois, 
colocou chocolate quente em uma caneca e entregou para a 
menina que, com fome, sem pensar, comeu e bebeu 
rapidamente.
 Coma devagar, Maria. Voc precisa mastigar... 
Ela olhou para Rafael, sorriu, mas no parou de comer. 
Temia que Carmem se arrependesse e mudasse de idia.
A hora do caf terminou. O padre subiu em sua charrete e 
voltou para a Vila. As mulheres tiraram as canecas e pratos 
que estavam sobre a mesa. Todos comearam a voltar para 
suas casas. Rafael e Carmem tambm. Enquanto 
caminhavam, ele disse:
 Maria, fique brincando com as outras crianas, preciso 
conversar com sua me.
Maria, mais uma vez, olhou para Carmem, que, sabendo o 
que ele queria conversar, com medo, mas ainda envolvida 
pela Luz, sorriu. 
A menina, embora com medo, no esperou muito e saiu 
correndo junto das outras crianas que brincavam.
 Agora, Carmem, vamos at o rio. L  um lugar sossegado 
e podemos conversar com tranqilidade.
Ela, embora temesse aquela conversa, sabia que ela era 
inevitvel. Calada, comeou a caminhar em direo ao rio. 
Quando chegaram, sentaram-se. Ela, ainda calada, ficou 
esperando que ele falasse. Depois de algum tempo, ele disse:
 Carmem, estive pensando na nossa situao e no 
podemos continuar assim. 
 Assim como, Rafael?
 Permanecer casados sem estarmos na realidade. Somos 
jovens e no podemos continuar presos um ao outro. Tanto 
eu como voc podemos encontrar algum de quem 
gostemos no como irmos, mas homem e mulher. No  
justo nem podemos continuar vivendo da maneira como 
estamos. Novamente o dio invadiu Carmem, mas, 
dissimulada como sempre, enquanto ele falava, pensava:
Pode querer o que quiser, pode no ficar comigo, mas nunca 
vai ficar com outra nem que para isso eu tenha de matar 
voc! 
Fingindo aceitar o que ele dizia, falou:
 Tambm tenho pensado muito sobre isso, Rafael. Quando 
mentimos, foi por uma boa causa, mas, agora, o tempo 
passou e Maria no corre mais perigo, s no imagino como 
isso pode ser feito, pois, para todos os efeitos e para todos os 
que moram aqui, somos casados e, neste pas, no existe 
divrcio.
 Sei disso, mas estive pensando. Podemos ir at um juiz e 
contarmos como tudo aconteceu. Talvez ele entenda e anule 
nosso casamento e, assim, poderemos continuar nossas 
vidas.
Ao ouvir aquilo, ela, que pensava no haver uma maneira de 
se separarem, estremeceu. Ficou algum tempo sem saber o 
que dizer. Ele, percebendo que ela estava intrigada, 
perguntou:
 O que voc acha, Carmem. Vamos procurar um juiz?
 No sei, Rafael. Tenho medo, no pode se esquecer de 
que mentimos para as autoridades e que poderemos at ser 
presos por isso.
 Tambm j pensei nisso, mas o que no podemos  
continuar assim como estamos. Acho que, se contarmos ao 
juiz como tudo aconteceu, ele vai entender. No sei o que 
vai acontecer, mas preciso tentar.
 Por que est pensando isso, agora, Rafael? Encontrou 
alguma mulher de quem goste realmente?
Ele, sabendo que no era hora de contar a verdade, mentiu:
 No. No se trata disso. Ontem voc, durante a festa, fez 
uma cena que me preocupou. Quando me viu conversando 
com a filha do patro, agiu como se fssemos casados, 
quando, na realidade, no somos.
Ela, fingindo entender a situao, tambm mentiu:
 No sei o que deu em mim. Talvez por esquecer que 
nosso casamento  uma mentira e por imaginar que todos 
pensem que ele exista, me senti trada e motivo de risos para 
todos, mas sei que estava errada. Tem razo. Precisamos 
acertar essa situao. Faa como quiser.
 No vai ficar brava comigo?
 No, Rafael, claro que no. Tambm preciso continuar 
minha vida.
 Que bom. Estava com medo de que no entendesse o que 
eu queria dizer. Sendo assim, j que est de acordo, assim 
que acertamos as nossas contas com o patro, poderemos ir 
para uma cidade e procurarmos um juiz.
Ela, embora estivesse com o corao cheio de dio, sorriu:
 Vamos fazer isso, Rafael.
 Que bom que entendeu, Carmem. Agora podemos ir para 
casa e fazer o almoo. Ainda faltam alguns dias para 
terminarmos de despachar a colheita. Depois, acertaremos as 
contas, iremos embora e nossa vida ser diferente.
 Est certo, Rafael,  o melhor que pode ser feito.  disse, 
cheia de dio.
Enquanto se levantavam, ela pensava:
Est achando que me engana! Vi como se beijaram...est 
apaixonado por aquela moa e quer me trocar por ela, mas 
isso no vai acontecer! Voc  meu, somente meu!
Uma enorme nuvem negra envolveu Carmem. Isabel e 
Manolo continuavam a jogar luzes, mas estas no 
conseguiam penetrar a nuvem negra. Lola disse:
 A luz no consegue penetrar essa nuvem mesmo, dona 
Isabel? 
 Ela se deixou envolver por sentimentos de dio e cime. 
No momento em que permitiu que isso acontecesse, nossa 
luz no tem fora para ajud-la.
 Agora estou entendendo melhor. Quando estamos 
envolvidos pelo mal, no h como sermos ajudados...
 Sim, Lola. Infelizmente. Como j lhe disse, temos nosso 
livre-arbtrio e contra ele no h nada que possa se fazer. No 
momento em que permitimos que sentimentos sombrios 
nos invadam, estamos dando fora para que energias 
negativas tomem conta de todo o nosso esprito.
 Ela no tem como ser ajudada?
 Tem, sim, claro que tem. No momento em que entender 
que aquilo que est desejando no  o melhor para si e 
mudar sua faixa de pensamento, nossa Luz poder invadi-la 
novamente e toda ajuda lhe ser prestada.
 S depende dela?
 Sim, s depende dela. Vamos esperar. Quando sua 
encarnao foi planejada, ficou decidido que, se nada mudar, 
ela ainda tem muito tempo de vida na Terra. Tempo 
suficiente para que mude e, se isso acontecer, estaremos 
aqui para ajud-la na caminhada. Vamos continuar jogando 
Luz, mesmo sabendo que no a est atingindo, e 
conversando tambm. Quem sabe consigamos chegar nela.
Assim falando, continuou jogando luz.
Rafael e Carmem se levantaram e caminharam em direo a 
casa. Quando passaram por onde deixaram Maria, ela 
brincava com as crianas.
 Vamos cham-la, Rafael?
 No, Carmem. Ela est brincando. Deixe assim.  criana, 
precisa brincar.
Ela, com raiva, mas fingindo, disse:
 Tem razo,  apenas uma criana... 
Continuaram caminhando e ela pensando:
Preciso conversar com Julian, s ele poder me ajudar. No 
consigo me ver longe de Rafael, nem ele junto de outra 
mulher! Ele quer me trocar por ela, mas isso no vai 
acontecer!
Isabel, ainda jogando luzes, ficou olhando com tristeza.
 Infelizmente, parece que tudo vai se repetir e que, 
novamente ela vai conseguir envolver Julian em seus 
crimes.
 Ele vai deixar se envolver?
 No sei, Lola. Das outras vezes, por causa desse amor que 
ele julga sentir por ela, ajudou-a a cometer crimes terrveis. 
Por isso, renasceram juntos novamente, para que, dessa vez, 
pudessem evitar cometer os mesmos crimes, se redimir e 
resgatar os erros passados. Vamos pedir a Deus que 
consigam, mas parece que est difcil. Na espiritualidade, 
antes de renascerem e aps passarem um longo tempo de 
sofrimento nas trevas, prometeram que seria diferente. 
Escolheram a vida e os desafios que queriam ter. O pedido 
deles foi atendido e tudo foi feito como desejaram, mas 
parece que, com a fora da carne os sentimentos 
condenveis ganharam fora e tudo o que prometeram foi 
esquecido.
 Isso  uma pena.
 Tem razo, Lola,  uma pena, mas nada pode ser feito.
 O que acontecer se no conseguirem resistir?
 Passaro novamente um longo perodo nas trevas, onde 
vivero momentos de desespero e sofrero muito, mas, 
depois, tero outra vez a oportunidade de uma nova 
encarnao para tentarem novamente.
 Vamos torcer para que consigam nesta e, assim, possamos 
continuar caminhando juntos.
 Vocs podem, se quiserem, continuar sozinhos. No 
existe razo alguma para que isso no acontea. J esperaram 
muito tempo por Carmem e Julian.
Lola olhou para Manolo que sorriu:
 Sabemos disso, dona Isabel, que podemos continuar, mas 
esse no  o nosso desejo. No nos lembramos do passado, 
mas sabemos que existe uma forte ligao entre todos ns. 
Por isso continuaremos ao lado deles, at que possamos 
seguir todos juntos, no , Lola?
 , sim, Manolo. J que estamos juntos na caminhada, 
vamos continuar at quando for preciso.
Isabel, ao ouvir aquilo, sorriu:
 Sabia que no poderia esperar outra coisa de vocs. 
Mesmo estando ciente de que vai ser difcil fazer com que 
Carmem mude de idia, vamos continuar ajudando naquilo 
que for possvel e entregar a vida deles nas mos de Deus.
 Vamos fazer isso, dona Isabel.
Isabel, embora soubesse que as luzes que mandava teriam 
dificuldades para penetrar a nuvem preta, continuou 
insistindo em jogar luzes sobre Carmem.
 
O pior dos sentimentos

Naquela tarde, como acontecia em todos os domingos, as 
mulheres preparavam petiscos enquanto os homens jogavam 
cartas em vrias mesas espalhadas pelo ptio.
Carmem, depois de haver conversado com Rafael e ao ver 
como ele e Berenice se olharam durante a missa, enquanto 
ajudava as outras mulheres, ficou imaginando uma maneira 
de impedir que ficassem juntos. Olhando para ele, que 
jogava cartas, pensou:
Est pensando que vai ficar com ela? Que vai me jogar no 
lixo? No vai no, no vou permitir!
Enquanto colocava os petiscos sobre a mesa, olhou para 
Julian, que tambm jogava:
Depois do que ele me disse ontem, acho que faria qualquer 
coisa para ficar comigo. Preciso pensar em uma maneira de 
fazer com que me ajude. Sei que, apaixonado do jeito que 
est, vai fazer tudo o que eu quiser. 
Berenice, em casa e aps o almoo, estava na sala lendo um 
livro. Lendo no, olhando, pois embora o livro fosse bom, 
ela no conseguia acompanhar a leitura. Seu pensamento 
estava voltado para Rafael:
Por que no consigo me esquecer dele? Por que aqueles 
olhos no saem do meu pensamento? Isso no pode 
continuar. No posso tentar me enganar. Ele  muito 
diferente de mim. No posso me imaginar vivendo uma vida 
de pobreza. Prefiro me casar com um homem rico, embora 
muito mais velho. 
Levantou-se e ficou andando de um lado para outro. Sua 
me, tambm lia um livro, ao ver a impacincia dela, 
perguntou:
 O que est acontecendo com voc, Berenice? Por que 
est to inquieta?
 No sei mame, acho que a comida no me fez bem. Vou 
caminhar um pouco para ajudar na digesto.
 V, minha filha. Voc est assim porque deve ter comido 
demais no almoo.
Berenice sorriu e, dando adeus para a me, saiu e comeou a 
andar. Embora no quisesse, quando se viu, estava no ptio 
onde os trabalhadores jogavam alegremente. Carmem foi a 
primeira a v-la aproximando:
O que ela quer aqui? Como se atreve a aparecer? Veio atrs 
dele. Essa moa no vale nada! Mesmo pensando que ele  
casado, ainda vem atrs dele! Preciso, mesmo, dar um fim 
nisso!
Disfarando sua real inteno, Berenice se aproximou:        
 Boa tarde, parece que o jogo est muito bom.
Josefa, que no imaginava o que estava acontecendo, foi 
quem recebeu:
 Boa tarde, senhorita! Mas o que a traz aqui?
 Nada, estava sem ter o que fazer e comecei a andar. No 
sabia que se divertiam tanto aos domingos  tarde.
 Todos os domingos os homens jogam cartas e ns, as 
mulheres, ficamos conversando, jogando conversa fora para 
passar o tempo  disse rindo.  Comemos, bebemos e 
jogamos. A senhorita quer um refresco?
 No, obrigada, s estou mesmo andando. Vou at o rio 
para relaxar.  disse, olhando para Rafael que, ao v-la ali, 
sentiu que corao subia  boca.
Berenice, percebendo que ele havia entendido o recado, 
sorrindo se afastou.
Rafael seguiu-a com os olhos, o que foi notado por Carmem. 
Ela  mesmo atrevida! Como pode vir at aqui e, 
descaradamente, mandar esse recado para ele?
Rafael terminou de jogar a partida e, levantando-se, disse 
para Pepe:
 Jogue no meu lugar, Pepe. Estou cansado de perder.
 Voc perdeu mesmo, Rafael. O que est acontecendo, sua 
cabea est onde?
 No sei, estou preocupado em terminar logo o trabalho 
aqui para podermos ir embora. Agora que est chegando a 
hora, nunca pareceu to distante. Jogue no meu lugar, vou 
at a casa e volto logo.
Ningum, a no ser Carmem, que estava atenta, desconfiou 
do que estava acontecendo nem se preocupou com Rafael se 
afastando.
Ele vai atrs dela! Vo se encontrar e se beijar novamente! 
So dois traidores! Vou matar os dois!
Rafael, sem imaginar o que Carmem pensava, se levantou e 
caminhou em direo ao rio. Assim que chegou, encontrou 
Berenice, que estava sentada olhando a gua. Sentou-se ao 
lado dela e, antes de dizer uma palavra, abraou-a e beijou-a 
apaixonadamente. 
Berenice, ao mesmo tempo em que se assustou, adorou 
aquele beijo. Quando ele a soltou, intrigada e preocupada 
por aquilo que estava sentindo, disse: 
 No sei por que estou aqui...
 Pelo mesmo motivo que eu. No consegue me esquecer. 
Sei disso, pois no consigo esquecer o seu olhar, o seu 
sorriso.
Antes que ela dissesse algo, ele abraou-a e beijou-a 
novamente, em seus braos, pensou: 
No tem jeito, quero esse homem para mim. No me 
importam as conseqncias! Vou ficar com ele para o resto 
da minha vida... 
Ele, completamente apaixonado, disse: 
 Desde ontem  noite, na festa, quando a vi, no consigo 
mais esquecer de voc. Agora mesmo, embora estivesse 
jogando, meu pensamento estava em voc.
 O mesmo aconteceu comigo. Estou ansiosa e aflita, 
sentindo uma enorme necessidade de ver voc, de estar ao 
seu lado. O que  isso Rafael? O que est acontecendo?
 Nada que j no tenha acontecido antes. Estamos 
apaixonados.
Novamente ele abraou-a e beijou-a. Ela se entregou, com 
paixo, aquele beijo.
Depois do beijo, ficaram um longo tempo abraados, sem se 
preocupar que algum os visse.
 O que vamos fazer, Rafael? Nunca poderemos ficar 
juntos. 
 Por que no? Sei que existe uma diferena muito grande 
entre ns, mas, mesmo assim, vou dizer algo que, desde 
Lola, nunca pensei em dizer outra vez. Quero me casar com 
voc. Quero viver ao seu lado para sempre...
 Tambm quero, mas isso  impossvel, meu pai nunca vai 
permitir.
 Voc no precisa da autorizao dele. Pode fazer com sua 
vida o que quiser.
 Sabe que no  assim. Devo, sim, obedincia ao meu pai. 
Preciso fazer o que ele deseja. Ainda no tenho vinte e um 
anos.
 No precisa obedecer! Pode lutar contra isso! Voc 
mesma disse que a mulher deveria ser livre para escolher o 
seu destino. Pode comear essa mudana. Precisa lutar por 
aquilo que deseja. Quanto sua idade, no tem importncia, se 
precisar, ficaremos longe, escondidos em um lugar onde 
ningum vai nos encontrar!
Ela, soltando-se dele, com lgrimas nos olhos, disse:
 No posso! Ele sempre me deu de tudo e j pensou no 
futuro! No posso contrari-lo, pois, se fizer isso, ele poder 
me tirar do testamento e eu ficarei sem dinheiro algum para 
viver.
 No precisamos de dinheiro para sermos felizes, 
Berenice! Nosso amor ser suficiente para que isso acontea.
 No sei, mas me parece que isso no  verdade. No 
consigo pensar em viver na pobreza em que voc vive. No 
saberia viver tendo vontade de comer alguma coisa e no 
poder, querendo comprar um vestido ou jias e no poder 
ter...
 Vou trabalhar muito e nada vai faltar para voc...
 Por mais que trabalhe, nunca conseguir me dar aquilo a 
que estou acostumada.
Sem que ele esperasse, ela se levantou e saiu correndo. 
Enquanto corria, disse:
 No posso fazer isso! Nunca mais quero ver voc! Vou 
esquecer voc, esse beijo e tudo o mais!
Ele, sem saber o que fazer, com o corao apertado, ficou 
olhando enquanto ela se afastava.
Carmem, que o seguiu e viu tudo o que aconteceu, com dio 
e cime, tambm a acompanhou com os olhos.
Ela foi embora correndo. O que ser que aconteceu? Com 
que loucura ele a beijou. Como gostaria de ser beijada assim 
e isso vai acontecer, pois se no acontecer, ele tambm no 
vai ficar com ela!
Rafael, desesperado, ficou ali, sentado e olhando para a gua.
Ela tem razo. Como pode deixar uma vida de luxo para 
viver ao meu lado, j que nada tenho para lhe oferecer...
Carmem, vendo que Berenice fora embora e que Rafael 
continuava ali, voltou para o ptio. Assim que chegou, olhou 
para Julian que tambm a olhava. Ela, sabendo que ele era a 
sua nica soluo, com um olhar significativo, tambm 
sorriu. Ele entendeu aquele sorriso e aquele olhar. Sabia que 
o caminho estava aberto para o que queria: o amor dela.
Ela continuou ali, andando em volta de Julian que, 
percebendo seus movimentos, pensou:
Vou sair daqui e ver se ela me segue. Acho que a minha 
declarao de ontem fez com que ela pensasse em mim de 
uma maneira diferente.
Assim pensando, levantou-se da mesa de jogo e deu seu 
lugar para o marido de Josefa que esperava ansioso, algum 
perder para poder jogar.
Olhando mais uma vez para Carmem, ele sorriu e se afastou. 
Ela percebeu qual era sua inteno, depois de algum tempo, 
foi ao seu encontro.
Ele passou pela casa de Rafael, chamou e, vendo que no 
havia ningum, foi para a sua casa, que ficava ao lado. 
Entrou, bebeu gua e se sentou, pensando em Carmem.
Ela chegou logo em seguida. Sabendo que Rafael estava no 
rio, sem preocupao alguma, foi para a casa de Julian. Assim 
que entrou, ele que estava sentado em uma cadeira, se 
levantou. Ela, sem nada falar, abriu os braos. Ele, abismado, 
abraou-a e beijou-a com a paixo que sempre sentiu por ela.
O beijo foi longo e caloroso. Da parte dele, com amor, da 
dela, somente como forma de colocar seu plano em ao.
Depois do beijo, ela, fingindo uma timidez que, na realidade 
no sentia, disse:
 Desculpe, Julian, mas eu queria muito fazer isso.
 No tenho o que desculpar, Carmem. Desde que a 
conheci tenho sonhado com isso e se no tivesse de mentir 
que era casada com Rafael eu teria conversado com voc h 
mais tempo.
 Tambm, assim que o vi, me apaixonei, mas nunca pensei 
que sentisse algo por mim. Nunca deixou transparecer.
 No sabia se o seu casamento havia se consumado. Nem 
Rafael e nem voc nunca falaram a respeito.
 Nosso casamento no se consumou, Julian. Vivemos uma 
mentira. Isso nunca me preocupou, pois achava que no 
havia soluo e que estava tudo bem, mas agora  diferente.
 Diferente, por qu?
 Descobri que voc sente por mim o mesmo que eu por 
voc. 
 Gosta mesmo de mim, Carmem?
 Sim, Julian, e muito. Muitas vezes tenho acordado  noite 
e no conseguido dormir, s pensando em voc, mas nunca 
imaginei que pensasse o mesmo.
 Sempre fui apaixonado por voc, Carmem.
 Eu tambm, mas, infelizmente, nunca poderemos ficar 
juntos.        
 Por qu?
 Embora meu casamento no seja de verdade, ele existe 
no papel. Para todos os efeitos, sou mulher de Rafael e, 
como lhe disse ontem, nunca poderei me casar com outro a 
no ser que fique viva.
 Isso est fora de cogitao, Carmem. Rafael  jovem e vai 
viver muito ainda.
 Como v, para ns no h soluo.
Ele ia abra-la novamente, mas ela, continuando com seu 
plano se afastando, disse:
 No, Julian. No podemos fazer isso. Embora no seja 
verdade, sou uma mulher casada e no posso trair a 
confiana de Rafael. Vou continuar amando voc, mas, 
como at agora, precisamos continuar separados.
 No precisamos, Carmem. Vou conversar com Rafael, ele 
vai entender e aceitar.
 Sei que ele vai entender, mas no quero ser apontada 
como uma mulher que vive com um homem sem ser 
casada. No posso, sinto muito. Pode imaginar como estou 
sofrendo por ter de ficar separada de voc, mas no tem 
outro jeito. Acho que no nasci para ser feliz.
Com lgrimas nos olhos, mas sorrindo por dentro, ela saiu 
correndo. Ele, abismado, ficou sem saber o que fazer.
Carmem, sabendo que seu plano estava dando certo, feliz, 
voltou para junto dos outros que continuavam jogando, 
comendo e bebendo, Assim que chegou, olhou para Rafael e 
pde perceber que ele estava preocupado.
Que ser que aconteceu? Por que ela foi embora daquela 
maneira. Tambm no me importo. Agora j sei o que fazer. 
Eles vo me pagar por essa traio.
Berenice chegou a casa. Sua me continuava na sala. Olhou 
para a me e, sem nada dizer, foi para seu quarto. Assim que 
chegou, jogou-se sobre a cama e comeou a chorar.
O que est acontecendo comigo? No posso gostar dele da 
maneira como estou gostando. Ele no tem nada para me 
oferecer. Acho que a melhor coisa a fazer  nunca mais me 
aproximar dele. Vou me casar com aquele homem que pode 
continuar me dando o que sempre tive e at mais. Porm, 
quando estou ao lado de Rafael, sinto que nada disso tem 
importncia e o que vale mesmo  saber que, ao seu lado, 
com seu amor, serei feliz. O que vou fazer, meu Deus? 
Rafael voltou a sentar-se  mesa de jogo e a jogar, mas seu 
pensamento no estava no jogo:
Ela tem razo. O que posso lhe oferecer? Nada! No tenho 
dinheiro. Agora estou esperando o acerto de contas para 
poder ir embora, tentar meu prprio negcio e ter uma nova 
vida, mas, por mais que eu melhorar, nunca conseguirei dar 
a ela o que quer, est acostumada e merece...
 O que est acontecendo, Rafael, no est prestando 
ateno ao jogo?
 Sinto muito, Pepe, mas estou preocupado com o acerto 
de contas. Parece que vai nos sobrar um bom dinheiro e 
precisamos pensar para onde vamos.
 Como voc, tambm estou preocupado, mas hoje, no 
vamos resolver nada.  domingo, amigo! Trabalhamos tanto 
durante a semana, merecemos este dia de descanso, de ficar 
assim, sem nada fazer.
 Tem razo, vamos ao jogo e, agora, preparem-se, porque 
vou ganhar todas. 
Riram e continuaram jogando.
Julian voltou e, sem nada dizer, sentou-se em uma cadeira 
ao lado da mesa. Ficou acompanhando o jogo e pensando.
O que vou fazer? Sempre amei essa mulher e agora, que sei 
que ela me ama tambm, no posso mais viver sem ela. Mas 
como isso vai acontecer? Ela tem razo, no pode ser 
apontada como uma mulher separada. A soluo, mesmo, 
seria Rafael morrer, mas isso no vai acontecer to cedo. Ele 
 jovem e forte.
Carmem, fingindo no notar, olhava para Julian, 
demonstrando amor. 
Ele est desesperado e logo far tudo o que eu quiser. 
Preciso fazer de maneira que ningum desconfie de ns. 
Depois que tudo estiver terminado vou pensar o que fazer 
com Julian. De uma coisa tenho certeza, Rafael no vai ficar 
comigo, mas com ela tambm no! Prefiro que ele morra 
antes de isso acontecer...
Assim, cada um preso em seu prprio pensamento, passou o 
resto da tarde de domingo.
 Ela vai conseguir o que est tramando, dona Isabel?
 Para o bem deles, espero que no, Lola. Embora j tenha 
conseguido envolver Julian muitas vezes. Espero que, desta 
vez, ele consiga reagir.
 A senhora no sabe mesmo o que vai acontecer? No 
disse que antes de renascermos,  colocado em ao um 
plano escolhido por todos os envolvidos?
 Sim,  verdade. Antes de renascer, o esprito escolhe a 
maneira como vai viver. Escolhe o que ser melhor para o 
seu aperfeioamento, mas, quando na Terra, na maioria das 
vezes, o que foi planejado fica para trs, a fora dos 
sentimentos o afasta daquilo antes planejado. Por isso, nunca 
sabemos o que pode acontecer, depende de cada um, de 
cada livre-arbtrio.
 Como  difcil, dona Isabel. Embora saiba que ela est 
errada, que no se pode obrigar ningum a nos amar, se me 
colocasse em seu lugar, no sei o que faria.  muito difcil 
sermos rejeitados, trocados por outra pessoa.
 Voc mesma disse, Lola. No podemos obrigar ningum 
a nos amar. Isso  uma coisa que ela precisa aprender e, mais 
cedo ou mais tarde, aprender. Talvez no seja nesta 
encarnao nem na prxima, mas um dia acontecer. Deus 
no tem pressa. Ele d todas as oportunidades para que seus 
filhos encontrem o caminho do bem. Tem toda a eternidade 
para esperar.
 Para que isso acontea  necessrio que o esprito tenha 
uma perfeio difcil de conseguir.
 Difcil, sim, mas no impossvel. No existe perfeio e 
Deus no quer isso, Lola. O que ele quer  que continuemos 
caminhando para a nossa prpria felicidade. Mesmo 
alcanando um nvel mais alto na espiritualidade,  preciso 
uma constante vigilncia, pois, a qualquer momento, 
podemos nos deixar envolver pelas ondas do mal.
 Mesmo um esprito superior est sujeito a isso?
 Muito mais um esprito dito superior, pois, quanto maior 
o conhecimento, mais ser exigido. Os sentimentos 
humanos, mesmo depois que o esprito deixa a matria, 
continuam ao seu lado. Entre eles, o orgulho, que  o 
principal causador da queda de muitos espritos. Contra ele  
que o esprito superior tem de tomar cuidado.
 O orgulho?
 Sim, sem ele no existiriam os demais sentimentos 
negativos. O causador da dor do cime  o orgulho ferido. 
Se no fosse ele, ningum se importaria com o que o outro 
faz, mas aquilo que as outras pessoas possam pensar ou dizer 
 que faz com que o orgulho venha  tona e o cime 
floresa.
 Est dizendo que, enquanto no dominarmos o orgulho, 
nunca chegaremos  perfeio?
 Chegarmos  perfeio, no, Lola. Perfeito somente 
Deus, que  nosso criador. Ns seremos sempre 
caminhantes na procura da luz do Pai. Mas, se conseguirmos 
dominar o orgulho, estaremos dando um grande passo.
 Carmem, continuando com seu plano, est se afastando 
do caminho, no est?
 Sim e, infelizmente, por ser fraco, levando Julian com 
ela. 
 Tomara que mude de idia e recupere a razo. 
 Tomara, Lola... Tomara...
 
Acerto de contas

Berenice relutou em se encontrar com Rafael, mas, com o 
tempo, entendeu que no seria possvel ficar longe e no 
importava o que acontecesse. No o deixaria. Combinaram 
que todos os dias, antes do amanhecer e antes que as pessoas 
acordassem, ela sairia de casa para se encontrar com ele 
naquele lugar no rio. O encontro seria por pouco tempo, o 
suficiente para que pudessem ficar juntos por algum tempo. 
Era o que faziam. Encontravam-se, beijavam-se, 
conversavam um pouco e cada um voltava para sua casa. 
Carmem, sempre que Rafael saa, ia atrs e ficava escondida. 
Com o corao cheio de dio, olhava o que faziam. Assim 
que Berenice ia embora, ela voltava correndo para casa, 
deitava-se e quando Rafael chegava fingindo dormir, ficava 
imaginando uma maneira de terminar com aquilo.
Em um desses encontros, Berenice disse:
 Rafael, estive pensando muito a nosso respeito e, por 
mais que eu lute contra, no tem jeito. Amo voc e quero 
ficar ao seu lado para o resto da minha vida.
Ele sorriu, puxou-a para junto de si, beijou sua testa:
 Tambm estive pensando muito sobre ns, Berenice, e 
cheguei  concluso de que no  justo que voc mude a 
direo da sua vida por minha causa. No tenho nada para 
lhe oferecer e voc, com tempo, depois que passasse essa 
paixo que est sentindo agora, com certeza me odiaria por 
viver na pobreza de uma maneira como nunca viveu antes.
 No, Rafael, isso no vai acontecer! Tenho certeza de que 
o amo!
 Amo voc e muito, mas no adianta querermos esconder 
a realidade. Nunca poderemos ficar juntos.
 Temos de ficar, Rafael. No sei mais viver sem voc.
 Talvez exista uma soluo.
 Qual?
 Por quanto tempo voc vai ficar aqui no Brasil.
 Por quase um ano, at eu completar vinte e um anos. 
Depois, eu e minha famlia vamos para Espanha e me 
casarei. Isso foi o que meu pai combinou com o homem 
com quem ele quer que eu me case.
 Temos um ano para resolver a nossa vida. Daqui a alguns 
dias vou receber o dinheiro da colheita. Com ele, vou para 
uma cidade maior. Sei que, com minha profisso, poderei 
ganhar um bom dinheiro e dar a voc no uma vida igual  
que tem hoje, mas tambm no de misria como a que vivo. 
Assim que receber o dinheiro que seu pai me deve pela 
colheita, vou embora e voc precisa me prometer que vai 
esperar que eu venha busc-la, pois  isso que vou fazer, 
assim que tiver uma boa casa para voc morar. Vai me 
esperar?
 Claro que vou, Rafael! Esperarei o tempo que for 
necessrio Amo voc e s quero ficar ao seu lado, no me 
importo em que circunstncias.
Beijaram-se novamente.
Carmem, que a tudo assistia, viu quando se beijaram. Furiosa 
pensou:
No consigo ouvir o que esto falando, mas, com certeza, 
esto falando de mim. Podem se encontrar e se beijar o 
quanto quiserem, mas no vo ficar juntos! No vo mesmo! 
No vou permitir!
Voltou para casa, furiosa. Olhou para Maria e disse:
 Voc  a culpada por ele no me querer! Por sua causa ele 
no conseguiu esquecer sua me e, agora, est apaixonado 
por aquela mulher! Voc  um monstro! Eu odeio voc e 
toda sua raa! Por isso, no vai comer nada e vai ficar em p, 
l naquele canto, sem se mexer! No se atreva a contar para 
ele, se fizer isso, da prxima vez, vou queimar seu rosto! 
No se atreva a chorar, se seus olhos ficarem vermelhos, 
nem sei o que vou fazer!
A menina, tremendo de medo, calada, desviou o olhar. 
Carmem continuou:
 Fique esperta, deixe essa boneca a no cho e, se aparecer 
algum, voc precisa se abaixar e fingir que est brincando 
com ela!
A menina, sem ter como se defender, obedeceu. No 
contenta Carmem pegou uma brasa no fogo e queimou suas 
costas. Maria embora sentisse muita dor, sabia que no podia 
gritar. Ento, chorou baixinho e procurou engolir os soluos. 
Fora de si, Carmem gritou: 
Isso  para voc saber que eu a odeio e que  a culpada de 
toda a infelicidade! Nesse lugar onde est queimado 
ningum vai ver e, se contar para algum, vou queimar 
muito mais! Dizendo isso, puxou os cabelos da menina da 
nuca para cima, o que causou uma dor imensa.
Minha vontade  matar voc de tanto bater com aquela 
correia, s no fao porque vai ficar marcada! Mas ficar em 
p no deixa marca e onde eu queimei no aparece. Por isso 
no se mexa! 
Isso se repetiu todos os dias. As costas da menina estavam 
com marcas terrveis de queimaduras. Ela, muitas vezes, 
teve vontade de contar a Rafael, mas o medo que sentia era 
imenso, o que fazia com que se calasse. Procurando no 
chorar, pensava:
No posso contar, mas por que ela no gosta de mim, o que 
foi que fiz?
Ficava parada. Seu corpo, suas costas e muito mais suas 
perninhas doam, mas, apavorada, calava-se. 
Lola, impotente ao ver o sofrimento da filha, pedia  Isabel:
 Por favor, dona Isabel, faa alguma coisa. Ela no vai 
suportar,  muito pequena.
 A nica coisa que posso fazer  influenciar Josefa para 
que v at l.
 Por que Josefa?
 Ela tem uma aura aberta, o que facilita a minha 
comunicao. Assim dizendo, colocou sua mo em direo  
garganta de Josefa:
 Josefa, v at a casa de Carmem. Maria est precisando de 
sua ajuda.
Sem entender o porqu, Josefa sentia vontade de ir at a casa 
de Carmem e sempre encontrava Maria em p, mas a 
menina, assim que a via, abaixava-se e fingia estar brincando 
com a boneca. Em silncio, agradecia por todo o tempo em 
que ela ficava conversando com Carmem, pois eram os 
nicos momentos em que podia descansar o corpinho. Sabia 
que, assim que Josefa fosse embora, teria de voltar a ficar em 
p at um pouco antes de Rafael chegar e, em silncio, 
rezava para que Carmem no a queimasse novamente.
Todos os dias, quando voltavam do trabalho e antes de irem 
para casa os homens passavam pelo armazm, sentavam-se 
nas mesas espalhadas por ali, jogavam palito, domin e 
bebiam cachaa ou cerveja.
Naquela tarde, Julian, ao ver que Rafael estava distrado 
jogando, sem nada dizer, saiu e foi para a casa de Carmem. 
Assim que chegou encontrou Maria em p. Ela, que estava 
de costas olhando para a parede, no viu quando ele chegou, 
por isso no se abaixou para fingir brincar com a boneca. 
Intrigado, perguntou:
 Por que voc est em p, Maria? Carmem, que no 
esperava que ele viesse quela hora, se assustou
 Ela est brincando com a boneca, no , Maria?
A menina, olhando para ela e conhecendo aquele olhar, 
respondeu:
  isso mesmo, Julian. Estou brincando com a minha 
boneca de pano.
Carmem, percebendo que Julian queria conversar com ela, 
com a voz carinhosa, disse:
 Agora, Maria, v brincar l fora. Canso de dizer que 
precisa brincar, mas no sei por que voc no gosta. V, 
brinque s um pouco. No pode crescer sozinha sem brincar 
com outras crianas.
A menina, agradecendo a Julian em pensamento, saiu 
correndo. 
Carmem se voltou para ele:
 O que est fazendo aqui a esta hora, Julian?
 Pensei em voc o dia inteiro, Carmem. No podemos 
continuar assim.
Ela abriu os braos e ele, desesperado, louco de amor, 
abraou-a e beijou-a com carinho e paixo. 
Aps o beijo, ela se afastou:
 Tambm pensei em voc o dia inteiro. No d mesmo 
para continuar assim, mas o que vamos fazer?
 Podemos conversar com Rafael. Ele vai entender, 
Carmem
 Sei disso, mas j lhe disse que no poderia viver com um 
homem sem ser casada.
 Estive pensando. Assim que recebermos o dinheiro, 
vamos embora para um lugar onde ningum nos conhea. 
Podemos dizer que somos casados. Assim no haver 
comentrio algum.
Ela, ainda envolvida pela nuvem negra, olhou para ele, 
sorrindo. Devagar, foi abrindo os botes da blusa que estava 
usando. Ele, parado, quase petrificado, acompanhou seus 
movimentos e, aos poucos, viu surgir um dos seios que 
Carmem deixou  mostra. Com a mo, ela escondeu o outro. 
Ele, desesperado pelo desejo, caminhou em sua direo e 
quis abra-la novamente, mas ela, sorrindo, afastou-se, 
voltou a abotoar a blusa, o que o deixou mais desesperado 
ainda. Ela, percebendo que ele estava sentindo, disse:
 No adianta, no poso ser sua, Julian. No tem jeito, no. 
A soluo  se eu ficar viva. 
 Sabe que isso no vai acontecer, Rafael no vai morrer, 
Carmem. Ele  jovem.
 Sei disso, mas podemos dar um jeito...
 O qu?  perguntou, assustado. 
 Podemos dar um jeito para que isso acontea...
Ele, sem querer entender o que ela estava insinuando, 
desesperado, perguntou:
 O que est dizendo, Carmem?
 Isso mesmo o que voc est pensando, Julian. Podemos 
dar um jeito para que eu fique viva...
 Est insinuando que matemos Rafael?
  a nica soluo que encontrei para que possamos ficar 
juntos. 
Ele arregalou os olhos:
 Como pode pensar uma coisa como essa, Carmem? Ele  
nosso amigo! Estamos juntos desde o incio da viagem!
Ela, chorando, mostrando uma cara de impotncia, disse:
 Tem razo. No sei como fui pensar isso. No tem jeito 
mesmo, nunca poderemos ficar juntos.
 Vamos encontrar outra soluo, Carmem. 
 No tem outra, Julian. Pensei muito. Pense voc, talvez 
encontre outra soluo. Agora, acho melhor que v embora, 
est na horta de Rafael chegar. No quero que ele o 
encontre aqui.
 No tem problema, ele no vai chegar. Est l no 
armazm jogando. Alm do mais, mesmo que chegue, no 
vai se preocupar. Sabe que somos amigos, tambm no vai se 
importar, j que no existe nada entre vocs.
 Sei disso, mas, mesmo assim, no quero dar motivos para 
falatrio. V, agora, Julian. Sabe como essa gente gosta de 
falar...
 Est bem. No quero que falem mal de voc. Vou 
embora, mas, antes, me d mais um beijo.
Ela sorriu, abriu os braos e beijaram-se mais uma vez. 
Depois ela se afastou:
 Agora, v e pense em algo para resolver o nosso 
problema.
 Vou pensar Carmem, vou pensar. No suporto mais ficar 
longe de voc sem t-la como minha mulher.
 Eu tambm estou desesperada, Julian, mas sabe que no 
posso. 
Ele, desesperado, saiu. Ela sorriu.
No vai demorar muito para ele fazer o que eu quiser. Est 
em minhas mos. Por outro lado, Julian tem razo, assim 
que recebermos o nosso dinheiro e formos embora daqui, 
no que vamos ficar juntos, como ele pensa, mas Rafael 
estar longe dessa moa e, com o tempo, vai se esquecer 
dela. Eu, estando ao seu lado, poderei fazer com que me 
note, com que goste de mim como mulher. Essa  a nica 
soluo para que Rafael no morra.
Os dias foram passando. Carmem, quando Julian no vinha a 
sua casa, ia a casa dele e se insinuava, sem, contudo, permitir 
que ele fizesse algo alm de beij-la. Ele, desesperado, a cada 
dia que passava, procurava encontrar uma maneira para ter 
aquela mulher por completo. Um dia, enquanto pensava, 
parou, levantou-se e continuou pensando:
Acho que ela tem razo, no h outra sada. Vamos ter de 
matar Rafael. No, no posso pensar isso! Ele  meu amigo! 
Alm do mais, posso ser preso e ficar sem ela da mesma 
maneira. Preciso afastar esses pensamentos. Ele  meu 
amigo, no posso fazer isso. Mesmo que no fosse, jamais 
me imaginei matando um ser humano...
Naquela semana, aps muito trabalho, os colonos 
terminaram de despachar a mercadoria. Na sexta-feira, Pablo 
pediu a Tonho que os reunisse no ptio da casa-grande. 
Todos, reunidos e ansiosos, esperavam pelas palavras do 
patro. Embora no soubessem quanto tinham para receber, 
sabiam que a colheita havia sido boa e que receberiam um 
bom dinheiro. Antes de irem para o ptio, Rafael disse:
 Hoje, finalmente, vamos saber quanto dinheiro temos 
para receber. Depois, precisamos planejar o nosso destino. 
Aqui no podemos continuar, precisamos melhorar de vida 
e isso no vai acontecer aqui.
Pedro, Pepe, Julian e Carmem ouviram o que ele disse. 
Carmem, enquanto Rafael falava, olhava para Julian sorrindo 
com os olhos e demonstrando amor. Ele percebeu o olhar e 
seu corao se encheu esperana.
Ainda bem que chegou o dia de recebermos o nosso 
dinheiro e com ele poderemos ir embora daqui para um 
lugar onde ningum nos conhea. S assim, poderemos 
iniciar uma nova vida. Sei que no poderemos nos casar e 
que ela no quer viver ao meu lado sem estar casada, mas, 
com o tempo, vou fazer com que aceite. Ela me ama, eu a 
amo, no  justo ficarmos separados.
Carmem, sorrindo, tambm pensava:
Ele est totalmente em minhas mos e, em pouco tempo, 
far tudo o quiser. Est pensando que vou ficar ao seu lado, 
coitado, isso nunca vai acontecer...
Saram de casa e foram para o ptio da casa-grande, onde 
quase todos estavam reunidos e esperanosos, esperando 
para saber quanto dinheiro lhes sobraria. Pablo apareceu no 
alto da escada e falou:
 Bem, a colheita terminou e j foi toda vendida. Na 
prxima semana, vou receber o dinheiro da venda e cada 
um receber o que tem por direito. Sabem que a colheita foi 
melhor do que a esperada, por isso, no se preocupem. O 
trabalho de todos ser recompensado.
Todos aplaudiram. Ele continuou:
 Tonho, d a cada um o papel onde est o valor que tm 
para receber.
Tonho, obedecendo ao patro, foi chamando cada um por 
seu nome e entregando um papel onde havia vrios 
nmeros. Rafael, quando pegou seu papel e ao ver o que 
tinha para receber, arregalou os olhos e disse:
 Nunca pensei que seria tanto. Mesmo pagando a metade, 
o aluguel da terra, ainda vai sobrar muito! Acho que vamos 
mesmo poder ir embora e mudar de vida!
Todos, ao receberem o papel, tiveram a mesma reao de 
Rafael e sorriam felizes. Aps terem recebido o papel e 
terem tempo de ver os nmeros, olharam para Pablo que 
disse:
 Como esto vendo, receberam de acordo com aquilo que 
vocs mesmos marcaram. No houve mudana alguma. S 
resta uma coisa. 
Todos, intrigados, olharam para ele, que continuou:
 No sei quanto cada um gastou no armazm, por isso, 
para que possam receber o dinheiro,  preciso que cada um 
v at l e pegue a caderneta que est em seu nome e j est 
somada. 
Eles, que haviam se esquecido desse detalhe, com o papel na 
mo, foram at o armazm. L, Custdio, que era quem 
tomava conta, foi distribuindo as cadernetas.
Assim que olharam os valores, ficaram preocupados. Rafael, 
nervoso, disse:
 Depois de pagarmos o que devemos, no vai sobrar quase 
nada! No vamos ter dinheiro para ir embora!
Os outros tambm se revoltaram. Alguns no tinham o que 
receber e estavam at devendo, outros, como no caso de 
Rafael, tinham to pouco que no poderiam imaginar como 
sair dali.
Custdio, que estava acostumado quilo e ao ver que no 
conseguiria cont-los, disse:
 Esperem a, no tenho nada com isso! Podem olhar a 
caderneta e tudo o que est marcado foi comprado por vocs 
e assinado. Mesmo aqueles que no sabem assinar o nome, 
colocaram uma marca qualquer. No marquei nada que no 
compraram. No tenho o que fazer e se tiverem alguma 
reclamao, podem ir falar com o patro.
Os colonos no aceitaram e comearam a gritar mais alto. 
Tonho que a tudo acompanhava, com a voz firme, gritou:
 Podem parar com isso! Quando chegaram, eu mesmo e 
depois o patro explicamos como ia ser o trabalho e a diviso 
do dinheiro. Vocs, por no terem de pagar na hora, se 
endividaram no armazm e agora no querem pagar? Isso 
no est certo. Aquele que tem dinheiro para receber pode 
pegar e ir embora. Aquele que est devendo, vai ter que 
ficar trabalhando at pagar a conta, depois pode ir embora e 
ningum vai impedir. Agora, acho melhor cada um voltar 
para sua casa, esfriar a cabea e ver o que vai fazer.
Impotentes, sabendo que no adiantaria falar com o patro 
porque, realmente, como no tinham nada quando 
chegaram, foram obrigados a comprar, alm da comida, tudo 
o que precisavam dentro de uma casa. Tinham, mesmo, 
usado o dinheiro e precisavam pagar, mesmo sem saber que 
Pablo cobrava o dobro do valor real da mercadoria, 
Desanimados e calados, foram saindo e voltando para suas 
casas. Cada um pensando, com tristeza, que o seu sonho 
havia terminado e que tudo o que tinham idealizado nunca 
seria conquistado.
Julian, desesperado, pensava:
Isso no pode ser verdade. O que vou fazer agora, para ficar 
com Carmem? Ela j disse que no vai ficar comigo sem se 
casar. Sem dinheiro o que vou fazer? Eu amo essa mulher e, 
se no a tiver, vou enlouquecer.
Carmem tambm pensava:
No podemos ir embora e Rafael vai continuar se 
encontrando com ela! Indo embora, havia uma soluo para 
que Rafael se esquecesse dessa moa e eu, estando ao seu 
lado, com muito carinho, ia conseguir fazer com que 
gostasse de mim. Ficando aqui isso no vai acontecer. No 
posso permitir que fiquem juntos. Preciso voltar ao meu 
plano original. Ele pode no querer ficar comigo, mas no 
ficar com ela tambm, prefiro que morra! 
Rafael, desiludido ao ver que tanto trabalho no havia dado 
resultado algum, tambm pensava:
No tem jeito, nasci para trabalhar muito e ser pobre. 
Continuando aqui, no tenho o que oferecer a Berenice. Ela 
diz que no se importa, mas sei que  somente agora que 
est apaixonada e empolgada.  muito jovem e, para ela, no 
passa de uma aventura. Sei que, no fundo, jamais ia ter 
coragem de deixar a vida que tem e muito menos de 
desobedecer ao pai. Indo embora, eu tinha esperana de 
poder lhe oferecer uma vida melhor. Ficando aqui, tudo vai 
continuar como sempre. Ela vai embora, vai se com aquele 
homem. Ele pode lhe dar tudo quilo que nunca vou poder 
dar. Eu no tenho o que fazer apenas aceitar a minha sina. 
Desesperados e sem alternativa, os colonos foram saindo e 
indo para suas casas.
Rafael e os outros fizeram a mesma coisa. Assim que entrou 
em casa, Rafael tomou um pouco de caf e, sentando-se 
sobre a cama, ficou com o olhar distante.
Carmem, ao ver como ele estava, com sinceridade, 
perguntou: 
 O que vamos fazer agora, Rafael? 
Ele, irritado, se levantou: 
 No sei Carmem! No sei! Ou melhor, sei, vamos 
continuar nesta vida, trabalhando muito sem conseguir coisa 
alguma! E s isso o que podemos fazer! Nunca vamos ter 
dinheiro para sair daqui!
Ela, percebendo que ele estava nervoso, se calou. Maria, 
tomando cuidado para no mexer muito as costas, pois 
estava com uma ferida aberta, causada pela brasa que 
Carmem havia acabado de queimar, assim que a outra havia 
sarado, abraou-o com carinho. 
Julian e os meninos, tambm desanimados, preferiram no 
entrar. Foram para a outra casa que ficava ao lado e onde 
moravam e tambm ficaram pensando no que poderiam 
fazer. 
Durante o resto daquele dia, no conversaram mais. No 
tinham que dizer.
 
Deciso inesperada

Na manh seguinte, Rafael acordou diferente. Tomando 
caf, disse:
 Carmem, estive pensando muito e acho que encontrei 
uma soluo.
 Qual Rafael?
 Eu no lhe contei, mas estou apaixonado e me 
encontrando com Berenice, a filha do patro.
Ela estremeceu:
 agora que ele vai me contar que quer ficar com ela. 
Pensou isso, mas preferiu mentir:
 Eu sei Rafael. Alis, todos sabem.
 Como sabem! Tomamos o maior cuidado.
 Nem tanto. Embora, acho que, para no me magoar, 
ningum me contou, percebi pelos olhares. Alm disso, um 
dos filhos da Josefa me contou que viu vocs na margem do 
rio.
 Nunca imaginei que isso tivesse acontecido. Por outro 
lado,  melhor. Vai ficar mais fcil a nossa conversa.
 Que conversa?
 Estive conversando com ela e, sabendo que seu pai nunca 
vai aceitar o nosso amor, resolvemos fugir, ir embora.
 O qu? Est louco?  ela, sem se conter, perguntou 
gritando.
 No estou louco, Carmem. Estamos apaixonados e j que 
da colheita restou um pouco de dinheiro, estive pensando 
que, assim que receber e dividir o que sobrou, eu, sendo o 
nico que tenho uma profisso, sou tambm o nico que 
tem chance de, com esse dinheiro, ir para a cidade, 
conseguir um bom emprego e ganhar o suficiente para todos 
ns. Assim que conseguir, todos podero ir morar na cidade. 
Quando chegar l, a primeira coisa que preciso fazer  
conseguir uma casa para mim e a Berenice e, depois, uma 
para vocs.
 Ela vai com voc, Rafael?
 No sei ainda, Carmem. Ela disse que vai, mas estou com 
um pouco de medo.
 Medo do qu?
 Ela est acostumada com tudo nesta vida, preciso podei 
lhe dar o melhor. Tenho medo de que, se no conseguir 
isso, com o tempo, ela sentir falta daquilo que tem e poder 
at me odiar. Tambm penso que isso pode acontecer, mas, 
quando disse isso a ela, no quis nem me ouvir. Disse que 
me ama e que ficar o meu lado seja de que maneira for. Por 
enquanto, no podermos nos casar, mas ela no se importa. 
Assim que eu conseguir tudo e vocs forem para a cidade, 
vamos at um juiz, contamos o que aconteceu e pediremos 
que anule nosso casamento. Assim poderei me casar com ela 
e voc poder encontrar algum de quem goste e que 
tambm goste de voc e poder ser feliz. At l, precisamos 
ter pacincia. Essa  a nica soluo que encontrei. Vou 
conversar com o Julian e com os meninos e ver se me 
emprestam o dinheiro que pertence a eles.
Ao ouvir aquilo, Carmem estremeceu:
Ele no pode ir embora sem mim, muito menos ao lado dela. 
Estando longe e, ao lado dela, vai me esquecer. Diz que est 
preocupado conosco, mas isso  mentira! O que quer mesmo 
 ficar com ela! No, no posso permitir. No tem jeito 
mesmo, ele nunca vai me querer, mas com ela tambm no 
vai ficar!
Embora pensasse isso, como sempre, dissimulou:
 Acho que voc est certo, Rafael.  uma tima soluo. 
Voc  mesmo o nico que tem chance e merece ser feliz 
ao lado dela. Faa isso, converse com Julian e os meninos. 
Acho que eles no vo se importar em dar o dinheiro a 
voc. Enquanto isso, vamos ficar aqui trabalhando, 
esperando a sua volta.
Maria, tambm ao ouvir aquilo, estremeceu, mas de medo. 
Sem olhar para Carmem, quase chorando, disse:
 Pai, no quero ficar aqui, me leva com o senhor...
 No posso minha filha. No tenho ainda um emprego 
nem um lugar para morar. Eu e a Berenice, se ela for, somos 
adultos e podemos ficar at sem comer, mas voc  ainda 
uma criana e no pode passar por isso. No se preocupe, vai 
ficar aqui com Carmem e os meninos, eles vo cuidar bem 
de voc e, quando eu voltar, vou levar voc para morar em 
uma casa bonita como nunca teve. Estando aqui mesmo 
longe, vou saber que est comendo e sendo bem tratada.
 No quero ficar aqui, pai, quero ir com o senhor...
Carmem, temendo que Maria contasse alguma coisa, com a 
voz melosa e fingindo, como sempre, disse:
 Seu pai tem razo, Maria, no precisa se preocupar, eu e 
os meninos vamos tomar conta de voc. Eu, principalmente 
que fico com voc o dia inteiro, vou continuar cuidando 
como sempre fiz. Vai ficar bem, no se preocupe.
A menina olhou para ela, com muito medo, e como j 
conhecia aquele olhar, chorando, calou-se.
 Carmem, embora no tenha certeza quanto ao nosso 
futuro e se essa minha ida para outra cidade vai ser melhor, 
preciso tentar, pois, se continuar aqui  que no vamos ter 
chance alguma.
 Para todos ns, vai ser difcil ficar longe de voc, mas no 
tem mesmo outra soluo. Pode ir e no se preocupe com 
nada, s no se esquea de mandar notcias.
 Claro que vou escrever todas as semanas contando como 
esto s coisas e assim que estiver tudo bem, vocs tambm 
vo e vamos como uma famlia.
 V tranqilo, Rafael.
 Ainda bem que voc entendeu. Agora vou conversar 
com os meninos e ver se no se importam de me dar o 
dinheiro que  deles. 
Rafael beijou Maria na testa e saiu. 
Carmem se voltou para ela e, com dio, disse:
 Est vendo como eu tinha razo? Ele no se preocupa 
comigo e nem com voc, seu pensamento  s para ela! 
Mesmo assim, voc quase contou o que eu fazia, se tivesse 
feito isso, agora eu estaria queimando o seu corpo 
novamente, com uma brasa, mesmo antes de a outra ferida 
ter sarado! Fique calada! Nunca conte a ele ou a ningum o 
que se passa aqui em casa! Agora preciso pensar no que vou 
fazer para evitar que ele fique com ela!
A menina, com muito medo e imaginando que sua vida seria 
bem pior sem Rafael por perto, calada, abaixou a cabea e 
chorou baixinho.
Carmem ficou calada por um tempo, apenas pensando, 
depois, disse:
 Vamos at o armazm. Preciso comprar uma coisa.
 No quero ir...
Pegando a menina pelo brao e sacudindo, disse:
 Voc no tem querer! Estou mandando e tem que me 
obedecer! No pode ficar sozinha aqui em casa! Por mim eu 
a deixaria sem me importar com o que poderia lhe 
acontecer, mas preciso me preocupar com o que as outras 
pessoas vo dizer se ficar sozinha. Pare de chorar, levante e 
venha comigo!
Maria, impotente diante de tudo o que acontecia e sem 
poder contar a ningum, levantou-se e a acompanhou.
Enquanto caminhava at o armazm, Carmem segurava na 
mo dela e, sorrindo, cumprimentava todos que encontrava 
pelo caminho.
As pessoas que conheciam toda a histria se admiravam da 
dedicao dela para com a menina.
Ao chegar ao armazm, Carmem disse:
 Seu Custdio, l em casa tem alguns ratos. O senhor tem 
algum veneno forte para acabar com eles?
 Aqui tem muito rato, mesmo, mas pensei que, assim 
como a maioria das pessoas, estivesse acostumada e no se 
preocupasse com eles.
 No sei as outras pessoas, mas eu tenho muito medo e a 
Maria tambm, no , Maria?
A menina levantou os olhos e com a cabea disse que sim. 
Custdio olhou para ela e percebeu que estava triste e, com 
os olhos vermelhos de chorar. Preocupado, perguntou:
 Aconteceu alguma coisa para que esteja triste e chorando, 
Maria?
Antes que ela respondesse, Carmem interferiu:
 Aconteceu, seu Custdio. O Rafael vai embora e ela est 
triste por isso, no , Maria?
Outra vez, a menina acenou com a cabea.
 Ele vai embora, ?  perguntou curioso.
 Vai sim. Vai tentar a vida na cidade grande. Est com 
muita esperana.
 Ele  trabalhador e vai conseguir.  o melhor que pode 
acontecer para vocs, pois, se continuarem aqui, nunca vai 
melhorar de vida
 Estou um pouco preocupada, mas tambm acho que  
uma esperana de dias melhores.
  mesmo.
 Agora, quanto ao veneno para os ratos, o senhor tem 
algum que seja forte o bastante para acabar com todos?
 Tenho, sim, mas precisa tomar cuidado. Este aqui  forte 
mesmo. Deixe longe da menina, apenas uma colher de caf 
pode causar a morte. Tome cuidado Maria, no chegue perto 
deste p.
 Ela no vai chegar, no, seu Custdio. Mesmo assim, para 
prevenir, vou colocar em um lugar bem alto, onde ela no 
possa alcanar.
Dizendo isso e sorrindo, pegou o pacotinho que ele lhe 
estendia. Com o pacotinho na mo, sorriu novamente e saiu, 
segurando Maria com a outra mo.
Em silncio, a menina a acompanhou. Enquanto caminhava, 
Carmem pensava:
 isso mesmo que vou fazer. Agora que j estou com o 
veneno, vou conversar com Julian. Sei que vou ter um 
pouco de trabalho, mas, no final, vai fazer o que quero. Est 
completamente apaixonado e far tudo o que eu quiser com 
a esperana de me ter. O ideal seria eu matar Berenice, 
como fiz com Lola, mas como isso  impossvel, pois nunca 
vou conseguir ficar perto dela, vou matar Rafael, pois prefiro 
que ele morra a ficar com ela ou outra mulher qualquer!
Chegaram a casa. Carmem, com raiva, disse:
 Vou guardar o veneno aqui no armrio. Est em um lugar 
bem baixo, onde voc pode pegar. Quando sentir que a vida 
 ruim e decidir que no quer mais viver, basta pegar um 
pouco, colocar no leite e tomar. Num instante voc vai 
deixar de existir e vai descansar no inferno para sempre, 
onde a sua me deve estar!
Maria, calada, ficou olhando Carmem colocar o pacotinho 
no armrio. Pensou:
Depois que o meu pai for embora, vai ser ainda pior. Ela, 
sem ele por perto, vai fazer muito mais coisa ruim comigo. 
Vai me machucar muito mais. Ela tem razo, o melhor 
mesmo  eu morrer, mas no quero ir para o inferno, quero 
ir para o cu, encontrar a minha me. Ela disse que minha 
me est no inferno, mas eu sei que no est... Ela est no 
cu me esperando...
Lola que estava ali e acompanhou tudo, chorando, disse:
 No, minha filha, no pense assim. Voc  muito 
importante e sua vida tambm. Eu amo voc e vou ficar aqui 
ao seu lado, mas ainda no  hora de voltar...
Isabel e Manolo sorriram. Lola voltou-se para Isabel:
 Dona Isabel, ela est pretendendo fazer o que estou 
pensando?
 Est sofrendo muito e se sente incapaz de se defender, 
Lola, e est pensando em pr fim  sua vida, sim.
 Ela quer se matar?
 Quer. Est com muito medo com o que vai lhe acontecer 
depois da partida de Rafael.
 Essa Carmem  um monstro! Como pode fazer essas 
coisas com uma criana? Eu mesma se pudesse, a mataria!
 Cuidado com o que diz e com o que sente Lola. No 
deixe seu nvel de energia cair, pois, se isso acontecer, no 
poder mais ficar ao lado da Maria. Ter de ir embora. Nossa 
presena aqui  com a tentativa de fazermos com que 
Carmem entenda que est errada, possa se arrepender e 
volte para casa vitoriosa.
  pedir demais, dona Isabel. Como posso ajudar uma 
pessoa como ela? Alm do mais, no acredito que isso v 
acontecer. Ela  muito m e no vai se arrepender.
 No sabemos Lola. Para isso estamos aqui.
 O que vai acontecer com Maria e Rafael? Ela vai 
conseguir fazer com que a minha filha se mate e Julian mate 
Rafael?
 No sabemos. Vamos esperar para ver o que acontece. 
Como j lhe disse, tudo depende do livre-arbtrio de cada 
um. Quanto  Maria e ao Rafael, no se preocupe. Embora 
no possamos proteger o corpo fsico deles nem interferir 
ou impedir que Carmem faa o que est pretendendo, 
estaremos aqui para proteger os seus espritos.  Eles se forem 
vitimas dela, no ficaro desamparados. O mesmo no posso 
dizer que acontecer com ela. Pode at conseguir o que 
deseja, mas no dia em que tiver de deixar a Terra e voltar 
para a casa do Pai, estar sozinha  merc daqueles que 
escolheu por companhia e posso lhe dizer que a companhia 
deles no costuma ser agradvel.
 A senhora disse que todos tm uma misso e que Maria 
tem uma muito importante e que Rafael precisa ajud-la. 
Sendo assim, se eles morrerem antes do tempo, no 
cumpriro a misso?  O que vai acontecer?
 Antes de renascerem, sabiam que isso poderia acontecer. 
Maria e Rafael, alm de virem com suas prprias misses 
para cumprir, quiseram e sabiam que a misso maior deles 
era a de tentar mudar Carmem e, se no conseguissem, 
teriam de voltar e deixariam para uma prxima encarnao a 
misso que no puderam cumprir nesta. Alm de todas as 
dividas, Carmem ter mais essa, a de ter impedido que 
espritos amigos caminhassem, continuassem sua jornada. 
 Afinal, existe mesmo justia depois da morte. Sempre 
ouvi dizer isso, mas nunca acreditei. Vi tantas pessoas ruins 
terem uma boa vida, diferente de mim, que nunca fiz mal a 
ningum.
 Deus  um Pai justo. Por isso, todos devero passar por 
sua justia, recebendo o bem quando merecem e o mal 
quando tambm merecem. Para isso, nos deu o direito da 
escolha. Tudo o que aconteceu estava previsto. Todos vocs, 
juntos com Carmem, escolheram a vida que queriam ter.  
Por mais que a senhora diga isso, no consigo me conformar 
que tenha escolhido a vida que tive. Que tenha escolhido 
ver minha filha sofrer tanto.
 Maria tambm estava presente quando decidiram. Ela, 
alm de vir para ajudar Carmem, veio tambm para ajudar a 
si prpria. 
 No estou entendendo, dona Isabel...
 Ela  um esprito suicida. Por muitas vezes j colocou fim 
 vida. Desta vez, escolheu, novamente, se colocar  prova. 
Antes de renascer, prometeu que seria diferente, que no se 
mataria, mas, pelo que estamos vendo, parece que esse 
sentimento est voltando muito forte.
 Ela tem razo, dona Isabel! Como pode suportar tanto 
sofrimento?
 De outras vezes, teve sempre uma vida boa. Teve boa 
sade, famlias que a amaram e lhe deram tudo para ser feliz, 
nunca deu valor. Sempre procurou e encontrou motivos 
para ser infeliz e se suicidar. Desta vez escolheu vir em uma 
situao diferente. Seria pobre e rf, no teria aquilo que 
sempre teve. Poderia ser criada por Carmem ou no, 
dependendo do que Carmem faria com voc. Como vimos, 
com a atitude dela, tomou sob sua responsabilidade a criao 
de Maria. Sendo assim, Maria, alm de ser pobre, tem 
tambm de aceitar no ter uma famlia verdadeira e sofrer 
todo tipo de maldade. Agora, sim, vai ter motivo para ser 
infeliz e, se conseguir sobreviver ao desejo suicida, estar 
dando passo enorme em direo  Luz. 
 Ser que ela vai conseguir?
 Espero que sim. Para isso, estamos aqui agora e quando 
no pudermos, outros espritos amigos estaro sempre ao seu 
lado. Ela nunca ficar sozinha. Sempre ter sobre si luzes de 
novas energias para que possa resistir.
 Estava tudo previsto?
 Sim, j no ouviu dizer que uma folha da rvore no cai 
sem a vontade de Deus?  isso o que acontece com Seus 
filhos. Ele os deixa  vontade para que possam escolher e 
decidir sobre suas aes. Quando escolhem, ele apenas acata.
 Sim, mas tambm nunca acreditei muito nisso. 
Isabel sorriu:
 Voc e muitos outros espritos renascidos.
Manolo a abraou com carinho:
 No fique assim, Lola. Como viu, ela tem suas culpas para 
resgatar. Ns cumprimos a nossa misso. Demos a ela a 
oportunidade de renascer e, agora, ficaremos ao seu lado 
pelo tempo que for necessrio.
 Sei disso, Manolo, mas teria sido tudo to diferente se 
voc no tivesse morrido nem a senhora, dona Isabel. 
Estaramos at hoje no stio, vivendo em paz como vivemos 
naquele tempo.
 Sim, mas voc no teria encontrado Carmem e Rafael e 
isso precisava acontecer. Carmem precisava ter a 
oportunidade de criar Maria com amor e de no cometer os 
mesmos crimes de sempre, matar voc e a Rafael.
 Embora eu no queira admitir, no final, est tudo sempre 
certo mesmo.
 Est mesmo, Lola. Agora, precisamos ajudar Maria. 
Manolo vamos jogar muita luz sobre ela. As luzes faro com 
que tenha alguns momentos de paz.
Jogaram luzes sobre Maria que, evitando olhar para Carmem, 
sentada na cama, tremia de medo. Aos poucos foi se 
acalmando. Pensou em sua me que sempre via em sonhos.
Me, sei que est perto de mim. No deixe que ela continue 
machucando...
Lola, chorando, sabendo que no podia jogar luzes por no 
as ter, mesmo assim, com amor e vontade de ajudar a filha, 
estendeu as mos na inteno de tambm ter luz para poder 
jogar.
Isabel sorriu, com um gesto, fez com que luzes brancas 
tambm sassem das mos de Lola que, ao ver, se 
emocionou:
 Tambm estou tendo luz? Obrigada, dona Isabel!
 No me agradea, mas, sim, a voc prpria. Com o gesto 
de amor e o desejo de ter luz para poder doar, conquistou, 
sem saber, o direito  luz.
Lola olhou para Manolo que tambm sorria e chorava ao 
mesmo tempo.
 Voc conseguiu meu amor. Sempre soube que 
conseguiria, nunca imaginei que fosse to rpido.
 Esse  um dos milagres do amor e do Pai, Manolo.
 Sei disso, dona Isabel. Sempre confiei no Seu amor.
Feliz, Lola continuou jogando luzes que ficaram cada vez 
mais forte. Maria, parecendo sentir a presena dela, pensou: 
Minha me est aqui, sim. Sei que est, me ajude, mame.... 
Lola sorriu:
 Estou fazendo tudo o que posso minha filha. Sei que, 
desta vez, voc vai conseguir.
Maria, parecendo ouvir, olhou para Carmem que estava de 
costas e no viu:
Ela vai deixar de ser ruim... Sei que vai...
Isabel sorriu e continuaram jogando luzes sobre ela.

Dominada pelo mal

Rafael foi at a casa ao lado, onde moravam Julian e os 
rapazes. Entrou, viu que Julian estava deitado e que parecia 
dormir. Os rapazes no estavam. Devagar se aproximou e 
chamou baixinho:
 Julian... Julian...
Julian acordou e, ao v-lo ali, se assustou. Sentou-se na 
cama:
 Rafael! O que est fazendo aqui? Aconteceu alguma coisa?
 Aconteceu, mas no se preocupe, no  nada grave. 
Preciso conversar com voc e com os meninos. Sabe onde 
eles esto?
 Estavam chateados com o resultado de tanto trabalho e 
disseram quem iam at o armazm para jogar um pouco. Eu 
fiquei aqui pensando na vida e adormeci sem perceber. O 
que quer tanto conversar?
 Tive uma idia e acho que  a soluo para os nossos 
problemas.
 Que idia?
Rafael contou tudo o que havia pensado. Julian ouviu com 
ateno. Quando terminou de falar, perguntou:
 O que acha da minha idia, Julian?
 J contou para Carmem?
 Sim, acabei de contar.
 O que ela disse?
 Achou uma boa idia e que, realmente, somente eu 
tenho uma chance.
 O que vai acontecer com Maria. Ela vai com voc?
 No, no posso lev-la. No sei como vai ser. Preciso me 
instalar primeiro, ter um trabalho que garanta o sustento de 
todos vocs at que arrumem um emprego. Somente depois 
disso, ela poder ir. Quanto a isso, estou indo 
despreocupado. Sei que Carmem cuida muito bem dela e 
continuar cuidando. Ela gosta muito daquela menina, assim 
como gostava da me dela. Quando Lola estava morrendo, 
ela prometeu que cuidaria da Maria e est fazendo isso. 
Estamos na situao em que estamos por causa dela, para que 
Maria no nos fosse tirada.
 Quanto a isso, no precisa se preocupar, mesmo. Ela 
cuida at demais. No deixa que a menina brinque muito 
com as outras crianas com medo de que ela se machuque. 
Outro dia eu falei com ela. Disse que a menina precisava 
brincar mais, mas ela falou que tem medo, pois, se acontecer 
alguma coisa, aqui no temos assistncia alguma e at chegar 
 vila, talvez no d tempo. Por isso prefere ficar com ela 
dentro de casa. Ela me lembrou que, mesmo assim, tomando 
conta da maneira como toma, Maria queimou a mo no 
fogo, voc lembra? Imagine se no tomasse. Crianas so 
muito atrevidas e no tm medo de coisa alguma.
 Embora tambm ache que Maria deveria brincar, 
Carmem tem razo, Julian. Pois, se acontecer alguma coisa, 
no temos, mesmo, assistncia alguma. Por isso vou sem me 
preocupar. Sei que Maria ficar em boas mos e tambm, se 
precisar, voc e os meninos esto aqui para qualquer 
emergncia.
 Quanto a isso, pode ficar tranqilo. Vamos cuidar das 
duas. Voc disse que queria conversar comigo e com os 
garotos.  somente para contar que vai embora?
 No, Julian. Para fazer o que estou pensando, vou 
precisar de dinheiro. Preciso chegar, me instalar e esperar 
at arrumar um trabalho. No sei se voc j sabe, mas estou 
apaixonado pela Berenice.
 A filha do patro? Est louco, Rafael?
 Tambm acho que estou louco, mas no tive como evitar. 
Parece que o destino est do nosso lado. Sem querer, nos 
encontramos no rio. Foi onde tudo comeou.
 No me diga uma coisa como essa Rafael. No consigo 
acreditar.
 Pois acredite. Aconteceu mesmo. Por isso, preciso 
trabalhar muito para poder oferecer uma boa vida a ela.
 Est louco mesmo e parece que gosta, mesmo, dela, no 
?
 Estou apaixonado, Julian. O dia em que se apaixonar 
entender isso. Ver que somos capazes de fazer qualquer 
coisa para ficar com a mulher que amamos.
 , talvez um dia eu saiba.  disse, pensando em Carmem 
e no que ela havia lhe pedido. Continuou:  Sei disso, mas 
no acha que deveria pensar mais um pouco. Ela  uma 
moa que foi criada com tudo. Est acostumada a comer 
bem, viver em uma boa casa e a ter boas roupas e jias. Acha 
que ela vai ser feliz ao seu lado sem nada isso?
 Eu conversei a esse respeito com ela, mas no quis me 
ouvir, disse que vai esperar que eu volte. Disse que, embora 
seu pai queira, ela jamais se casar com aquele homem que 
ele quer.
 Que homem?
 Um espanhol que  muito rico e velho.
 Tome cuidado, Rafael.
 Cuidado com o qu?
 De ter muita expectativa, de acreditar que ela o ama 
realmente e que, quando voltar, ela j no esteja mais aqui. 
Sabe que ela, como mulher, deve obedincia ao pai. Ele 
nunca vai permitir que ela se case com algum que no tem 
onde cair morto. Alm do mais, o outro pode dar a ela tudo 
a que est acostumada. A diferena entre vocs  muito 
grande, Rafael.
 Ela disse que vai lutar contra a vontade do pai nem que 
para isso perca a herana, que vai ficar ao meu lado nem que 
para isso tenha de trabalhar.
 Trabalhar onde, Rafael? A mulher no tem trabalho, a 
no ser trabalhos braais que ela no suportaria.
 No sei Julian. No sei o que vai acontecer. No momento, 
s estou pensando que existe uma esperana e que quero me 
agarrar a ela com todas as minhas foras.
 Est certo, mas no faa isso por ela, e sim por voc, por 
Maria.
 Talvez voc tenha razo, mas prefiro acreditar que, 
quando voltar, ela vai estar me esperando.  o que posso 
fazer. Estou apaixonado e no posso correr o risco de ficar 
sem ela nem de v-la se casando com outro.  melhor me 
arrepender por ter feito do que ao contrrio. Voc no acha 
que, pela mulher amada, devemos fazer qualquer coisa?
 Acho que sim, Rafael... Acho que sim...
 Para que possa fazer isso, vou precisar ficar com todo o 
dinheiro que sobrou do nosso trabalho. Sei que uma boa 
parte dele  de vocs. Preciso que me emprestem. Prometo 
que vou devolver e que vou mandar buscar vocs. O 
dinheiro, para todos ns, no  muito, e no vai ajudar, mas 
vai dar para eu comear uma vida e mandar buscar vocs.
Julian ficou com os olhos distantes, pensando:
Carmem concordou. Est me mandando um recado que 
quer ficar sem ele. Sem ele aqui, vai ser mais fcil eu pedir a 
ela que se entregue a mim. Preciso conseguir isso, pois, se 
no conseguir, vou ficar louco. Sinto que ela tambm quer. 
S no aceita, agora, por ele estar por perto. Assim que ele 
estiver longe, no vai demorar muito para que ela se 
entregue totalmente ao nosso amor. Ele tem razo, por amor 
se faz qualquer coisa. Ele indo embora no vou precisar 
fazer o que Carmem quer. At ele voltar, tudo estar 
resolvido.
Rafael, ao ver que Julian estava distante, preocupado, 
perguntou:
 O que est pensando, Julian? Est com medo de que eu 
no volte ou mande chamar vocs? Est com medo de que 
eu no devolva o dinheiro? No se preocupe com isso. Eu 
vou fazer o que estou dizendo
Julian comeou a rir:
 Nem por um momento eu pensei isso, Rafael. Sei que vai 
fazer o que est dizendo. Sei que vai voltar. Sabe por que 
tenho tanta certeza?
 No, por que Julian? 
Julian comeou a rir:
 No est levando Maria com voc. Por isso, estou 
tranqilo. Poderia nos esquecer, ficar com nosso dinheiro, o 
que sei que no vai fazer, mas se esquecer da Maria, deixar 
que ela fique aqui sozinha vivendo da maneira que vivemos 
se puder lhe dar uma vida melhor. Tenho certeza de que 
jamais ia fazer isso.
Rafael tambm riu.
 Embora me conhea h pouco tempo, voc sabe que eu 
jamais ia abandonar Maria. Prometi  Lola que ia cuidar dela 
e vou cumprir a minha promessa.
 Sei, por isso pode ficar com a minha parte do dinheiro. 
Para mim sozinho, ele  pouco. No tenho uma profisso 
como voc para arriscar. Acredito que os meninos tambm 
no se incomodaro. Alm de o dinheiro ser pouco para 
dividir, eles so ainda muito crianas para se aventurarem. 
Aqui no precisamos de dinheiro. Vamos continuar 
trabalhando e comprando tudo o que precisarmos no 
armazm.
 Obrigado, Julian! Sabia que entenderia!
 V com Deus, meu amigo. Espero que tudo d certo e 
que volte logo, vitorioso.
 Eu vou voltar. Agora preciso conversar com Carmem, 
contar a ela que voc concordou em me dar a sua parte do 
dinheiro. Depois vou o armazm falar com os meninos
 Faa isso. Eles no se importaro, pois esto na mesma 
situao que eu. O dinheiro que tm no d para tentar uma 
nova vida. Somente voc tem essa chance. 
Rafael saiu e ele ficou pensando:
Eu devia ter contado a ele a minha situao com Carmem, 
mas, alm de ela no querer, agora, ele indo embora, no vai 
ser necessrio fazer o que ela est pensando. Vamos deixar o 
tempo passar e ver o que vai acontecer...
Sorrindo, feliz, Rafael foi para casa. Encontrou Maria em p. 
Assim que ele entrou, ela se abaixou e pegou a boneca de 
pano que estava no cho. Aproveitou para se sentar um 
pouco. Carmem estava junto ao fogo. Entrou, dizendo:
 Julian concordou Carmem. Disse que confia totalmente 
em mim e tambm acha que sou o nico que tem chance.
 Sabia que ele ia aceitar.  o melhor para todos ns. 
Maria, com o olhar triste, apenas olhou. Rafael, preocupado, 
perguntou:
 Por que est triste Maria?
Com medo de que Maria contasse o que acontecia 
realmente, Carmem respondeu:
 Ela j est sentindo saudade de voc. No quer que voc 
fique longe. No  isso, Maria?
Maria, fazendo esforo para no chorar, pensou em contar o 
motivo de sua tristeza, mas ficou com medo e com a cabea 
fez um sinal concordando.
 No fique triste, Maria. Vai ser por pouco tempo. Eu 
preciso fazer isso. Quando voltar, voc vai morar em uma 
casa linda.
Maria, com os olhos cheios de lgrimas, olhou para Carmem, 
depois para ele, sorriu e o abraou com carinho. Ele 
correspondeu ao abrao e no imaginando tudo o que ela 
estava sofrendo, sorrindo, disse:
 Sei que voc  valente e vai me esperar sem chorar. 
Agora preciso ir at o armazm. Julian disse que os meninos 
esto l. Preciso conversar com eles para poder ir embora o 
mais rpido possvel.
Carmem pensou rpido:
 Leve a Maria com voc. Vai embora e, antes de ir, precisa 
ficar mais tempo com ela.
Maria no entendeu, mas tambm no se importou. O que 
queria mesmo era ficar longe dela. Segurou na mo de Rafael 
que, sorrindo, disse:
 Est bem, Maria. Carmem tem razo, precisamos ficar 
mais tempo juntos. Vamos?
Saram. Carmem esperou um pouco, depois foi para a casa 
de Julian, que continuava deitado. Sorrindo, ela entrou. Ele, 
ao v-la, estranhou:
 O que est fazendo aqui, Carmem?
 Rafael foi para o armazm. Aproveitei para vir aqui e ver 
voc. Estava com saudade. No consigo me esquecer de 
voc nem por um minuto.
Dizendo isso, voltou a abrir a blusa e a mostrar, agora, os 
dois seios.
Ele, que estava deitado, levantou-se e foi at ela. Quando 
chegou perto, ela fechou a blusa e, sorrindo, disse:
 Calma, Julian. Depois que nos casarmos, vamos ter muito 
tempo.
 Por que no pode ser agora, Carmem? Por que est 
fazendo isso comigo? Sabe como desejo voc e est ficando 
cada dia pior.
  perigoso, Julian. Rafael pode voltar a qualquer 
momento.
 No, Carmem. Ele acabou de sair. No vai voltar to 
cedo. Vai ficar um bom tempo conversando com os 
meninos. Eu estou ficando desesperado. Amo voc de todo 
o meu corao e quero viver ao seu lado pelo resto da minha 
vida.
 Tambm amo e tambm quero viver com voc para o 
resto da minha vida, mas, por enquanto, no pode ser. Sabe 
que, enquanto eu for casada, nada poder acontecer entre 
ns.
 Agora no precisamos esperar mais. Rafael vai embora.
 Isso no tem importncia, pois, mesmo ele no estando 
aqui, vou continuar casada com ele e no posso ter nada 
com voc. Sei que quer que eu seja sua. Tambm quero, mas 
isso s vai acontecer, quando eu ficar viva.
 Rafael no vai morrer, ele  muito forte...
 J disse a voc que, quanto a isso, podemos dar um jeito.
 O que est falando, Carmem? Est dizendo que podemos 
matar Rafael?
 Sim, amo voc, mas no podemos ficar juntos, enquanto 
ele viver. A soluo  apressarmos sua morte. J pensei em 
como fazer isso, preciso de sua ajuda.
 No posso fazer isso, Carmem. Ele  meu amigo... 
Ela abriu a blusa novamente s que, dessa vez, se 
aproximou. Quando ele esticou a mo para segurar, ela, 
sorrindo, se afastou:
 No podemos Julian. No por enquanto.
 Deixe ao menos que eu sinta voc.
 Logo vai poder me sentir e fazer muito mais. S 
precisamos colocar em prtica o meu plano. Depois que 
tudo terminar, vou ser sua para sempre.
Assim dizendo, voltou a fechar a blusa e saiu correndo. Ele, 
desesperado, ficou sem saber o que fazer:
O que vou fazer? Eu amo essa mulher. Sinto que estou 
pronto para fazer tudo o que ela quiser, at mesmo matar 
meu amigo, desde que ela seja minha...
Carmem entrou em casa. Estava confiante de que seu plano 
daria certo:
Ele est transtornado. Falta pouco para fazer o que eu quero. 
Tem de ser antes de Rafael ir embora. No posso deixar que 
se v. No posso correr o risco de que me esquea e isso vai 
acontecer, pois ele s pensa naquela moa. Sei que, quando 
voltar, vai ser para ficar com ela e isso no vou deixar que 
acontea. Ele  meu! S meu!
Alguns minutos depois, Julian, desesperado, entrou:
 Carmem, no posso continuar assim. Voc se insinua, 
mas no aceita o meu amor. Estou ficando louco! Vou fazer 
o que quer. Qual  o seu plano?
Ela pegou o pacotinho com o veneno:
 Este veneno  muito forte. Basta s um pouco para ele ter 
morte instantnea. Vai ser to rpido que ele nem vai sentir.
 Como vou fazer isso?
 Rafael vai avisar a todos que vai embora e, como 
despedida, voc convida a ele e a alguns amigos para uma 
pescaria. Quando estiverem l, todos bebendo, basta voc 
colocar um pouco deste veneno na bebida dele e pronto, 
tudo vai estar terminado. Vamos ficar juntos para o resto da 
nossa vida.
 Preciso mesmo fazer isso?
  a nica maneira de poder ficar comigo, Julian. Como 
voc disse, ele  forte e no vai morrer to cedo. No acho 
justo, sendo to nova e amando voc como amo, ficar presa 
a um homem de quem no gosto. Amo voc, Julian...
 Se algum descobrir? Posso ser preso!
 Ningum vai descobrir. Estaro todos bbados e pensaro 
que ele teve um ataque do corao. Isso aconteceu com o 
Manolo, marido da Lola.
 Aqui as pessoas podem aceitar isso, mas a polcia vai ser 
enganada tambm?
 Est se esquecendo de que somos imigrantes sem 
dinheiro. A polcia no vai perder tempo. Para se ver livre, 
vai aceitar o que disserem. Vai ficar tudo bem, Julian. No se 
preocupe...
 Est bem. Vou fazer o que quer.
Ela, sorrindo e feliz por ter conseguido o que queria, o 
abraou e permitiu que ele colocasse a mo sobre seu seio, 
mas por cima da roupa, o que ele fez com paixo e loucura.
Quando ele ficou mais atrevido, ela se afastou:
 Precisamos esperar Julian. Agora est perto do dia de 
ficarmos juntos. Depois que ele morrer, precisamos esperar 
um tempo. Depois anunciaremos o nosso casamento, mas 
enquanto isso no acontece, nada impede que possamos nos 
encontrar escondido, sem que ningum saiba.
 Est certo. Vou agora mesmo at o armazm dar a idia 
da pescaria como despedida.
Dizendo isso, ele saiu. Ela ficou exultante. As nuvens negras 
que a envolviam se transformaram em vultos que, felizes, 
rodopiavam  sua volta. 
Lola ao ver aquilo se assustou:
 Quem so eles, dona Isabel?
 So as companhias que ela escolheu. Assim como nossas 
luzes trazem paz e tranqilidade, porque s tm amor, essas 
nuvens que a envolvem so formadas de dio, rancor, 
mgoa, cime e todo sentimento negativo que voc possa 
imaginar, fazem com que todos esses sentimentos negativos 
aflorem com mais fora. Embora Carmem no saiba, traz, 
tambm, muito sofrimento para aqueles que fazem uso dela. 
Com essa atitude, permitindo que o mal tome conta do seu 
esprito, Carmem acaba de se condenar por vontade prpria. 
Est ligada a eles e, contra isso, nada podemos fazer.
 Eles conseguem se aproximar de qualquer um?
 Conseguem.
 Est dizendo que todos esto  merc dessas energias?
 Sim. Todos esto, mas elas s conseguiro se aproximar, 
se encontrarem ambiente prprio para isso. Carmem traz 
dentro de si muita maldade. Apesar de todo o tempo em que 
estamos tentando fazer com que mude que se regenere e 
possa nos acompanhar, ela sempre volta a cometer os 
mesmos crimes, as mesmas maldades. Por isso, essas 
energias conseguiram envolv-la dessa maneira. Assim 
como quando se tenta viver com dignidade, nossas luzes de 
paz e amor estaro sempre presentes, trazendo paz e 
tranqilidade. Cada um escolhe a companhia que deseja. 
Existem espritos amigos, mas tambm os inimigos que esto 
sempre preparados, para, a qualquer momento, se vingarem 
de algum mal sofrido. Existem outros espritos que, embora 
no conheam sua vtima, mas, por terem morrido em 
depresso e, mesmo depois da morte continuarem com ela, 
se aproximam daqueles que, por no aceitarem a vida como 
se apresenta, se deixam envolver por ela. Na maioria das 
vezes, o encarnado que comea a sofrer de depresso no 
tem motivo algum para isso, mas acredita ter. Espritos 
depressivos que esto passando se aproximam e, aos poucos, 
vo tomado conta do seu esprito, que passa a ter 
sentimentos que no so dele, mas sim deles, dos espritos 
depressivos. A presena deles faz com que esprito fique 
sempre mais fraco e seja levado, muitas vezes, at o suicdio, 
que  o desejo final deles. Entretanto, para que isso 
acontea,  necessrio que o esprito, como est 
acontecendo com Carmem, esteja aberto para isso, esteja 
com suas energias baixas, contaminadas por sentimentos 
ruins.
 Ento a depresso no  daquele que a sente?
        No, Lola.  daquele que o encarnado aceitou por 
companhia. Por isso no existe remdio para a depresso. 
Somente o prprio encarnado, sabendo que  um esprito 
livre e que no pode ser aprisionado por nada nem ningum, 
se tomar o seu lugar, poder afastar essa presena indesejvel 
e tambm a depresso para sempre.
 O esprito no pode ser envolvido a no permitir que isso 
acontea?
 No. O esprito  livre e, por ser livre, pode escolher a 
companhia que deseja ao seu lado, assim como Carmem est 
fazendo. Tanto o esprito  livre que nem Deus, que  o seu 
criador, no o aprisiona, mas, ao contrrio, d a cada um o 
livre-arbtrio para que possa dividir o que deseja para si. 
Alguns demoram mais que os outros, mas todos um dia, 
chegaro, sem que sejam aprisionados nem dominados ou 
exigido deles que faam o que no querem. Somos livres, 
Lola!
 Isso pode demorar muito tempo...
 Pode, sim, Lola, mas no se esquea de que Deus tem 
toda a eternidade para esperar.
  confortvel saber isso, mas por que s depois de mortos 
e voltando para c  que temos todo esse conhecimento?
 Justamente pelo esprito ser livre  que tem de ter a 
liberdade de escolher a companhia que quiser. At esse 
direito ele tem e, como todas as outras Leis, no podemos 
interferir. Apenas aguardar que o esprito acorde e 
reconhea o seu lugar.
 Entendi... Nada pode mesmo interferir na deciso do 
esprito
 Nada nem ningum encarnado ou no. Somos livres, 
Lola. Deus nos fez assim e  dessa maneira que nos quer. 
Livres para escolhermos o caminho e a companhia que 
desejamos seguir e ter.
 Julian aceitou fazer o que Carmem quer. O que vai 
acontecer com ele?
 Essa  outra prova de que o esprito  livre, mas tambm 
que a liberdade tem um preo. Julian, como j aconteceu 
outras vezes, sabe que matar  errado, mesmo assim, pensa 
em cometer um assassinato Se fizer isso, estar condenado a 
muita dor e a uma nova encarnao com muito sofrimento. 
Poder tambm no cometer o crime e, assim, continuar a 
jornada. Essa Lei se chama Ao e Reao, que quer dizer: 
tudo o que um esprito, encarnado ou no, fizer receber em 
troca na mesma quantidade e proporo.
 Essa lei  justa, dona Isabel?
 Sim. Lola. Todas as Leis Divinas so justas e delas esprito 
algum pode escapar.
 Apesar de tudo, tenho pena dele. S est fazendo isso por 
muito amor.
 No. Isso no  desculpa. O amor no justifica um erro, 
pois sabe que matar  errado. Ele ser responsvel por aquilo 
que fizer e ter que pagar por isso.
 Ele ainda pode mudar de idia?
 Claro que sim, at o ltimo instante. Sempre  tempo do 
arrependimento e da mudana.
 Deus queira que ele acorde e no faa o que est 
pretendendo.
 Deus queira Lola... Deus queira... 
Carmem, feliz por ter conseguido o que queria, pensava: 
Ele vai matar Rafael e pode ficar esperando que eu vou ser 
sua mulher. Isso nunca vai acontecer! Eu, apesar de ser 
mulher, sou livre! Conquistei essa liberdade no dia em que 
meus pais morreram. Naquele dia, achei que era responsvel 
pelos meus irmos, mas no sou! Eles esto crescidos e j 
podem se cuidar sozinhos! Depois que tudo estiver 
terminado, vou embora e s vou levar aquela menina 
horrorosa! Se ela no fosse to parecida com a me, Rafael 
teria se esquecido dela e estaria comigo! Ela  a culpada por 
ele no me querer! Podia deix-la aqui, mas, se fizer isso, ela 
seria bem cuidada pelo Julian e, se ele for preso, pelos meus 
irmos e por todos aqueles que vieram no navio e conhecem 
sua histria. No vou permitir que isso acontea! Ela vai 
comigo e, assim que chegar a uma cidade grande, eu a deixo 
em qualquer lugar e desapareo. Ela vai ser encontrada pelas 
autoridades e como no vo me encontrar, vai ser levada 
para um orfanato que  o seu lugar! Justamente aquilo que 
Lola no queria! S assim minha vingana vai ser completa.
Lola ficou apavorada:
 Maria no tem culpa, dona Isabel! Por que ela a odeia 
tanto?
  comum isso acontecer, Lola. Quando se est 
apaixonado e no se  correspondido, a culpa  colocada em 
outro, nunca em si mesmo ou no parceiro. Carmem no 
gosta da maneira como pensa gostar, o que no aceita  a 
rejeio. Agora, envolvida como est por essas energias 
negativas, seu dio por Maria crescer mais e no podemos 
precisar o que poder acontecer. Vamos incentivar essa idia 
nela,  o melhor que pode acontecer para a menina.
 No entendi...
  melhor que ela a abandone do que continuar 
torturando-a como est fazendo. Como isso tambm estava 
previsto, podemos interferir no sentido de que acontea.
 Estava previsto Maria ir para um orfanato?
 Sim. Mesmo que Carmem no tivesse feito o que fez, 
voc morreria de qualquer maneira e, se Rafael e ela no 
tivessem decidido ficar com Maria, a nica soluo seria 
essa.
 Eu, quando morri, pedi para no deixarem que ela fosse 
para um orfanato. Hoje, penso diferente, por mais que sofra 
em um orfanato, ser menos do que tem sofrido ao lado de 
Carmem.
 Tambm seria uma soluo para evitar quer Maria volte a 
cometer o suicdio.
 Tudo foi pensado...
 Sim. Sempre . No se preocupe, no final, sempre acaba 
tudo bem. A no ser para Carmem que, se continuar 
deixando-se envolver por essas energias ruins, mesmo 
depois do seu desencarne, essas energias continuaro ao seu 
lado, causando-lhe sofrimentos terrveis. Ela ainda perder a 
oportunidade que teve com esta encarnao.
 Por outro lado, de tudo o que ela est pensando, de uma 
coisa est certa: hoje, ela  uma mulher livre.
 Sim. Isso  importante, pois a mulher tem o mesmo valor 
e capacidade do que o homem,  igual a ele em tudo. Ao 
contrrio do que dizem, o crebro das mulheres no  
menor que o dos homens e por terem o corpo mais frgil, 
no precisam de proteo. Isso tudo com o tempo vai passar 
e a mulher ter liberdade total e poder fazer com sua vida o 
que quiser.
 A senhora acha que isso pode acontecer?
 S no acho, como vai acontecer, mas com liberdade 
vem a responsabilidade. A mulher  o seio da famlia e dela 
depende o bem estar de todos. Se ela, para ser livre, deixar 
de lado esses valores, s ser infeliz e trar infelicidade para 
todos que a cercam.
 Isso pode acontecer?
 Pode. A mulher, por ser o esteio da famlia, sempre ter 
sobre si a responsabilidade da mesma. Para ser livre, ter de 
ter o seu prprio dinheiro, ter de trabalhar fora, o que hoje 
 inconcebvel, mas ter, tambm, de continuar cuidando da 
famlia e isso ser muito trabalhoso. Demorar muito tempo 
para que consiga conciliar tudo.
 H ainda muita luta pela frente, dona Isabel.
 H sim, Lola, mas ela ter de ser travada para a evoluo 
espiritual. No deve existir diferena entre sexo, pois o 
esprito no tem sexo. Tanto  que renascemos algumas 
vezes mulheres e outras, homens, dependendo da nossa 
necessidade.
Enquanto elas conversavam, Carmem continuava pensando: 
O que ser que est acontecendo no armazm? Julian vai 
saber fazer o seu papel?
Quando Julian chegou ao armazm, Rafael terminava de 
contar para Pepe e Pedro a sua inteno. Os meninos 
ouviam atentamente. Julian se aproximou e ficou esperando 
a resposta deles. Pepe olhou para Pedro e, aps alguns 
segundos, disse:
 Sendo o mais velho, concordo com sua idia, Rafael. 
Somos ainda muito jovens e no temos uma profisso, como 
voc, para nos arriscarmos em uma aventura. Por mim, tudo 
bem. E voc, Pepe, o que acha?
 Por mim, tambm. V, Rafael, faa o que est 
pretendendo e, quando encontrar uma casa e um trabalho, 
sei que vai avisar e vamos at voc.
Rafael, rindo, disse:
 Podem ter certeza de que vou fazer isso. Por enquanto, 
continuem trabalhado. Assim que eu estiver bem, volto aqui 
para buscar todos vocs.
Comearam a rir. Julian, tambm rindo, demonstrando uma 
felicidade que no sentia, falou:
 Estou muito feliz por ter dado tudo certo, Rafael. Que tal, 
antes de ir embora, comemorarmos com uma pescaria? 
Todos poderiam ir. Estamos cansados de tanto trabalhar sem 
resultado. Vamos, ao menos, pescar, comer e beber  
vontade!
Todos os que estavam ali e ouviram a conversa aplaudiram a 
idia de Julian. Rafael, feliz, respondeu:
 Essa  uma tima idia, Julian. Hoje  sexta-feira. No 
domingo, vamos pescar e, na segunda-feira bem cedo, vou 
embora e seja tudo o que Deus quiser.
 Sei que Ele s quer o seu bem, Rafael.
 Obrigado, Pepe. Espero que isso seja verdade.
Rindo, continuaram ali, bebendo e jogando. Maria, 
segurando a mo de Rafael, antevendo como seria sua vida 
depois que ele fosse embora, sentiu vontade de chorar.
Julian, embora sabendo que havia conseguido o que 
Carmem queria, sentiu seu corao apertado.
Infelizmente, Rafael, todos esses sonhos no vo ser 
realizados. Embora seja a ltima coisa que eu queria fazer, 
vou ter de matar voc. Amo e desejo Carmem com loucura 
e se o preo para ficar com ela  esse, sinto muito, meu 
amigo, mas vou pagar...


Momento de deciso

Enquanto Rafael conversava no armazm, Carmem, em 
casa, nervosa, esfregava as mos e andava de um lado para 
outro.
Por que esto demorando tanto para voltar? O que ser que 
est acontecendo? Ser que Julian conseguiu convencer 
Rafael a ir pescar? No sei... Ele  um fraco. Sinto que no 
vai ter coragem.
Olhou para um relgio pendurado na parede. Por haver 
gostado muito dele, quando o viu no armazm, no resistiu e 
o comprou. Nervosa, continuou pensando.
Est na hora do jantar. No estou mais agentando ficar sem 
saber o que est acontecendo. Com a desculpa de que 
preciso dar comida para aquela imprestvel, vou at o 
armazm descobrir o que est acontecendo e por que esto 
demorando tanto.
Pegou um leno, colocou na cabea e foi para o armazm. 
Quando chegou, viu que Rafael estava jogando domin e 
que Julian, ao lado da mesa, observava. Aproximou-se, e 
com a voz carinhosa, disse:
 Maria, vim buscar voc. Est na hora de comer. A 
menina, com medo e sentindo-se protegida perto de Rafael, 
disse:
 No estou com fome. Vou quando meu pai for.
 Precisa comer agora. Est na hora. Precisa comer agora, 
para poder dormir cedo...  continuou, falando com 
carinho na voz.
 No estou com fome.
 Precisa vir Maria, se no comer agora, vai ficar muito 
tarde...
 Deixe a menina, Carmem. Quando terminar esta partida, 
vou embora e ela vai comigo.
Julian, que a viu chegar, ficou acompanhando a conversa. 
Carmem olhou para ele, sorriu:
 Est bem, Rafael. Vou ficar esperando por vocs. 
Olhou novamente para Julian, voltou a sorrir e foi embora. 
Julian entendeu o recado e, assim que ela saiu, percebeu que 
todos estavam preocupados com o jogo ou bebendo. Sem 
nada dizer, se afastou e foi ao encontro dela.
Assim que entrou, ela, nervosa, perguntou:
 O que aconteceu, Julian? Os meninos deram o dinheiro 
para o Rafael?
 Fique calma, Carmem. Tudo est caminhando de acordo 
com o que planejou.
 Est mesmo? Conte como foi!
Ele contou tudo o que havia acontecido e terminou, 
dizendo:
 Est tudo certo, Carmem. Eles aceitaram a pescaria de 
domingo e Rafael ficou muito feliz.
Quando ele disse isso, ela, no conseguindo esconder a 
felicidade que sentia, jogou-se sobre ele e o beijou, fingindo 
paixo.
Ele, a princpio, se assustou, mas, depois, correspondeu ao 
beijo com loucura e tentou jog-la sobre a cama, mas ela se 
afastou:
 J lhe disse que, antes de ficar viva, no podemos fazer 
o que ns dois queremos, Julian, mas agora est perto. Estou 
muito orgulhosa de voc e agora sei por que me apaixonei 
dessa maneira! Depois que tudo terminar, vamos ser felizes 
para sempre, voc vai ver.
 Estou esperando esse dia com loucura. No consigo 
pensar em outra coisa, em ter voc, finalmente, nos meus 
braos para sempre.
 Eu tambm, ainda mais que nunca tive outro homem. 
Voc vai ser o primeiro...  disse com o olhar malicioso.
  verdade o que est dizendo?
 Claro que . Logo vai poder conferir. Nunca namorei 
ningum. Meus pais s permitiriam quando aparecesse um 
rapaz que eles achassem ser bom o bastante para mim. De 
preferncia com dinheiro. Depois, resolvemos fazer esta 
viagem. E voc sabe o que aconteceu. Rafael nunca tocou 
em mim. Somos apenas amigos. Eu amo voc, Julian, e 
quero ser s sua. Por isso, preciso ser livre...
Ele, que j a amava e estava ficando quase louco, ficou pior 
ainda
 Carmem, vou fazer qualquer coisa, o que quiser para, 
finalmente, ter voc em meus braos.
 Ento, no domingo, quando forem pescar, faa o que 
falei. Prometo que, se tudo der certo, se Rafael morrer, vou 
ser sua no domingo mesmo.
 Vai cumprir essa promessa?
 Claro que vou, pois assim como voc, no vejo a hora...
Ele caminhou na sua direo e ela permitiu que ele a 
beijasse. Abrindo a blusa novamente, dessa vez, deixou que 
ele colocasse uma das mos em um dos seus seios, mas, em 
seguida, se afastou e fechou a blusa, deixando-o mais 
desesperado ainda.
 Agora v embora, Julian. Rafael deve estar chegando. Ele 
sabe que Maria precisa comer.
 Est bem, estou indo, mas no vou me esquecer um 
minuto sequer de voc e vou ficar esperando que domingo 
chegue logo para, finalmente, conseguir fazer o que mais 
desejo.
Ela sorriu, beijou-o de leve nos lbios. Ele, feliz, saiu e foi 
para sua casa.
Assim que ele saiu, ela sorriu:
Pode ficar esperando sentado. Nunca vou ser sua. Amo 
Rafael e s ia ser dele, como no me quer s vou me 
entregar a um homem que possa me dar tudo o que desejo. 
Nunca a um igual a voc que no tem onde cair morto!
Rafael, segurando Maria pela mo, chegou logo em seguida. 
Entrou e, feliz, disse;
 Est tudo certo, Carmem. Os meninos concordaram em 
me emprestar o dinheiro. Agora, estou tranqilo, sabendo 
que vou poder recomear!
 Que bom Rafael. Tenho certeza de que vai conseguir 
vencer. Vou ficar aqui esperando por voc.
 Pode ficar sossegada. Logo venho buscar todos. Alm de 
vocs, espero que Berenice tambm resolva me 
acompanhar. Ela est preocupada, com medo da pobreza.
 Se eu fosse ela, tambm estaria, Rafael. Ela, por mais que 
pense e imagine, nunca conseguir chegar perto de saber o 
que significa realmente ser pobre.
 Sei disso, e entendo a sua posio, mas, se me amar 
realmente, como diz, vai me seguir e vai viver da maneira 
que for preciso. Acredito que, com o meu trabalho, vou 
conseguir lhe dar uma boa vida.
 Tomara que consiga o que tanto deseja.
Embora dissesse isso sorrindo, por dentro estava cheia de 
dio. 
Alheio ao que ela pensava, Rafael disse:
 Agora vamos comer e depois dormir. Amanh, preciso 
acordar cedo para me encontrar com Berenice e contar o 
que aconteceu.
 Vamos fazer isso. A comida j est pronta. Rafael pegou 
um prato, colocou comida dentro e deu a Maria que, com 
fome, comeou a comer rpido. Ele, sem saber que a 
menina, muitas vezes, ficava sem comer, sorrindo, disse:
 Coma devagar, Maria. Quando terminar, se quiser, tem 
mais. O prato no vai fugir.
Ela sabia que, depois que ele partisse, ficaria por muito 
tempo sem comer novamente. Por isso, no ouviu e 
continuou comendo sem parar.
Rafael colocou comida em outro prato e sentou-se na cama, 
ao lado da menina, e tambm comeu.
Carmem, que a tudo observava, pensou:
Coma mesmo, pois essa vai ser uma das ltimas comida que 
vai ter. Aquela menina rica no vai querer viver como pobre 
e, mesmo que quisesse, no vai ser ao seu lado! Voc no 
me quis, tambm no vai ficar com ningum.
Julian, em casa, enquanto jantava, lembrava-se dos beijos de 
Carmem e de sua promessa.
Sei que o que vou fazer  errado, mas no tenho outro 
caminho. Amo Carmem e se  s assim que vou conseguir 
ficar com ela, vou ter de fazer o que deseja. s vezes, tenho 
medo de a polcia desconfiar e descobrir que fui eu. No 
quero ficar preso, pois, alm de perder minha liberdade, 
posso perder Carmem para sempre. Por outro lado, como ela 
disse ningum est preocupado com a morte de um 
imigrante pobre. Eles no vo dar muita ateno. Sei que vai 
ser difcil, mas vou ter de fazer.
Depois de comer e tomar caf, Rafael beijou Maria e a 
colocou na cama, em seguida se deitou. Cansado pela 
emoo do dia e desejando que a manh logo chegasse para 
poder conversar com Berenice, adormeceu.
Carmem, no tendo o que fazer e rodeada pelos vultos 
negros, fez o mesmo. Deitou-se, mas no conseguia dormir. 
Olhando para Rafael pensava:
Por que voc me obrigou a fazer isso, Rafael? Teria sido mais 
fcil me amar. No entendo por que no me quis. Sou jovem 
e bonita. Qualquer homem, assim como o Julian, ia fazer 
tudo para me ter. Voc, que poderia me ter a qualquer 
momento, no me quer. Sinto muito, pois, por causa disso, 
vai ter de morrer.
Os vultos que estavam ao seu lado sorriam felizes. Estavam 
conseguindo o que queriam.
No eram ainda cinco horas da manh, quando o relgio 
despertou. Rafael, rapidamente, para no acordar Carmem e 
Maria, desligou-o. Levantou-se e, procurando fazer o menor 
barulho possvel, saiu.
Chegou ao lugar de sempre, onde se encontrava com 
Berenice. Ela no havia chegado. Sentou-se na margem do 
rio e ficou esperando.
Alguns minutos depois, Berenice chegou:
 Desculpe Rafael, me atrasei. O relgio no despertou. 
Ainda bem que, como acordo todos os dias a esta hora, j 
me acostumei e acordei sozinha.
 No faz mal, o importante  que voc veio. Eu estava 
morrendo de saudade.
 Eu tambm e preocupada com sua viagem.
 Preocupada por qu?
 Tenho medo de no voltar a v-lo. Meu pai, depois que 
receber o dinheiro da colheita, que  muito, disse que vamos 
para a Espanha e que vai providenciar o meu casamento. 
No sei se vou ter coragem de desobedecer a ele.
 Sei que vai ser difcil, Berenice, mas voc tem de fazer 
isso. Preciso de um tempo para poder acertar a minha vida e 
poder levar voc para viver ao meu lado.
 Quanto tempo vai demorar Rafael?
 No sei, no posso lhe dizer. S sei que vou fazer o 
possvel para que seja bem rpido.
 Eu amo tanto voc. Por que, s por ser mulher, no 
posso decidir a minha vida, no posso escolher com quem 
quero ficar?
 Voc pode Berenice!
 No, Rafael, no posso. Se desobedecer a meu pai, ele me 
tira de seu testamento e ficarei sem dinheiro algum.
 No precisamos de dinheiro para ser feliz, Berenice. O 
importante  que continuemos nos amando como agora. O 
resto vamos conseguir com o tempo. O mais importante  
que vamos estar juntos. Somente isso.
Dizendo isso, puxou-a para junto de si e beijou-a 
apaixonadamente. Ela, sem conseguir resistir, entregou-se 
quele beijo e quele amor.
Depois do beijo, ainda nos braos dele, ela falou: 
 s vezes, penso que seria melhor esquecer voc e aceitar 
o casamento que meu pai escolheu, mas quando estou ao seu 
lado e em seus braos, como agora, e recebendo seus beijos, 
sinto que no conseguirei viver sem isso. Amo voc, Rafael, 
e quero ficar ao seu lado, seja da maneira como for, no me 
importando com as conseqncias.
 Tambm no sei viver sem voc. No se preocupe, vou 
trabalhar muito para dar a voc tudo a que est acostumada.
Ela sorriu:
 Est bem. Mesmo que no consiga me dar tudo a que 
estou acostumada, seu amor ser o suficiente para que eu 
seja feliz.
Ele sorriu e voltou a beij-la.
 Agora preciso ir embora. Meus pais vo acordar e no 
podem saber que no estou em casa. Minha av est 
chegando hoje. Ela  uma mulher maravilhosa. Vive cem 
anos  frente do nosso tempo. Adoro conversar com ela. 
Quando chegar, vou contar a nosso respeito e ver o que diz.
 Est bem, v. Amanh no vou poder me encontrar com 
voc.
 Por qu?
 Os rapazes resolveram fazer uma pescaria como festa de 
despedida. Vamos para o local da pescaria bem cedo, mas, na 
segunda-feira, vou estar aqui para me despedir. Depois, vou 
embora e seja o que Deus quiser.
 Est bem. Tambm estarei aqui.
Depois de dar um ltimo beijo, ela se levantou e foi embora. 
Ele continuou ali, pensando em como teria de trabalhar para 
dar a ela a que merecia.
Assim que ela se afastou, Carmem, que os observava, fez o 
mesmo. 
O sbado passou com todos preparando aquilo que 
precisavam levar para a pescaria. Carmem deixou que Maria 
ficasse com Rafael, para poder, sem que ningum 
percebesse, encontrar-se com Julian. Deu-lhe vrios beijos, 
o que o convenceu ainda mais de que deveria fazer o que ela 
queria. Maria, embora brincasse, sempre ficava ao lado de 
Rafael, que no percebeu a agonia da menina.
Na manh seguinte, o dia ainda no havia clareado e os 
homens estavam prontos para a pescaria. As mulheres 
ficaram encarregadas de preparar o almoo. Deixariam tudo 
pronto e s esperariam que eles chegassem para fritar os 
peixes que trariam.
Carmem, embora ajudasse no preparo da comida, no 
deixava de pensar:
Hoje  o dia decisivo. Assim que chegar a notcia de que 
Rafael morreu, preciso me desesperar para que no haja 
desconfiana alguma sobre num. Quanto ao Julian, no me 
importo com o que possa lhe acontecer.
Os homens chegaram ao local onde sabiam que havia muito 
peixe. Acenderam um fogo e colocaram sobre ele pedao de 
carne que comearam a assar. O cheiro de carne assada logo 
invadiu todo o lugar. Eles, enquanto jogavam as varas na 
gua e ficava esperando o peixe morder a isca, cortavam 
pedaos de carne e iam comendo acompanhada com cerveja 
ou cachaa.
Julian ficou o tempo todo acompanhando os movimentos de 
Rafael. Quando viu que ele foi at onde a carne assava, 
vendo que chegara o momento, acompanhou-o:
 Enquanto voc pega a carne, Rafael, eu vou encher duas 
canecas com cerveja.
 Faa isso, Julian.
Julian pegou uma garrafa de cerveja que Pablo mandava vir 
do Rio de Janeiro de uma fbrica de fundo de quintal, que 
por todos era considerada muito boa. Antes de colocar a 
cerveja na caneca de alumnio, pegou o pacotinho de 
veneno que Carmem havia lhe dado e colocou metade 
dentro da caneca, depois, jogou a cerveja por cima. Em 
seguida, colocou no lugar onde sabia que Rafael, aps pegar a 
carne, se sentaria para comer, pegaria a caneca com o 
veneno e beberia.
Isabel, Lola e Manolo, que estavam ali, viram que vultos 
negros estavam  distncia, mas no se aproximavam.
 Olhem esses vultos.
 Estou vendo, dona Isabel, mas no entendo.
 O que no est entendendo, Lola?
 Eles, embora estejam em volta de Julian, no se 
aproximam totalmente como fizeram com Carmem, por 
que, dona Isabel?
 No podem se aproximar, porque Julian, embora seja um 
esprito fraco e ainda preso s paixes, sempre foi bom. 
Nunca teve maus sentimentos e sempre se deixou levar por 
Carmem, como est acontecendo agora, a cometer um 
crime, mas ainda tem proteo divina. Estamos aqui para lhe 
dar a chance de que seus bons sentimentos aflorem e ele 
no cometa o crime.
 E se ele cometer?
 A, sim, infelizmente, ser envolvido totalmente por 
esses vultos e levado com eles para um lugar que esprito 
algum gostaria de estar.
 J que est tendo essa chance, no podemos ajud-lo de 
alguma maneira?
 Podemos e vamos fazer Lola. Neste momento, vamos 
entrar em orao e jogar muita luz sobre ele e conversar, 
tentando fazer com que mude de idia.
Julian, olhando para Rafael, pensou:
Perdo, Rafael, mas no tenho o que fazer. Amo Carmem e 
s vou poder ficar com ela, quando voc morrer.
Isabel, Lola e Manolo olharam-se e, imediatamente, 
entraram em orao. As luzes, agora, no saam s das mos, 
mas de todo o corpo dos trs. Qualquer um que conseguisse 
ver aquela cena no poderia deixar de se emocionar.
 
A verdade sempre aparece

Carmem, embora ajudasse na preparao do almoo, no 
conseguia tirar os olhos da estradinha por onde os homens 
deveriam chegar ou deles vir avisar que Rafael estava morto.
Como estava nervosa, esqueceu-se de Maria que, 
aproveitando, brincava feliz, com as outras crianas.
Deixou cair um garfo. Josefa, que percebeu o nervosismo 
dela, perguntou:
 Est nervosa, Carmem?
Carmem, sem tirar os olhos da estradinha, no ouviu Josefa 
que voltou a perguntar:
 Est nervosa, Carmem?
Agora, ouvindo e pensando rapidamente, respondeu:
 Estou sim, Josefa. Rafael vai embora.
 Fiquei sabendo, meu marido estava no armazm e ouviu 
Rafael conversando com seus irmos. Mas no fique 
preocupada, vai ser bom para vocs.
 Sei disso, mas no consigo deixar de ficar preocupada. 
No sabemos como vai ser, se ele vai conseguir, mesmo, um 
trabalho e uma casa.
 Ele vai, Carmem. Tem uma boa profisso.
 Espero que sim, Josefa.
Continuaram a preparar o almoo.  medida que o tempo 
passava e ningum aparecia para avisar que Rafael estava 
morto, ela ficava mais nervosa.
No estou entendendo, por que esto demorando tanto? 
Ser que Julian conseguiu? Ele  mesmo um imprestvel.
Em um segundo em que se distraiu olhando uma panela, 
ouviu o murmurinho das mulheres falando ao mesmo 
tempo. Tremendo, olhou para a estradinha e, para seu 
desespero, viu que os homens estavam chegando. Vinham 
conversando e rindo. Entre eles, alegremente, estavam 
Julian e Rafael, que caminhavam lado a lado.
Ao ver Rafael vivo, ficou possessa e, tremendo de dio, foi 
para casa.
Julian viu quando ela se afastou. Disse:
 Agora que voc j sabe sobre mim e a Carmem, Rafael, 
vou at sua casa conversar com ela.
 Faa isso, Julian. Diga a ela que pode ficar sossegada e que 
estou feliz por vocs. Logo mais, conversarei com ela.
 Est bem.
Alegremente, Julian foi at a casa de Carmem. Assim que 
entrou ela, furiosa, perguntou:
 O que aconteceu, Julian? Por que no fez o que 
combinamos?
 No foi preciso, Carmem! Agora podemos ficar juntos 
sem problema algum.
 O que est dizendo?
 J estava tudo pronto como combinamos. Eu havia 
colocado o veneno na cerveja e perto dele, quando ele ainda 
agachado junto ao fogo e de costas para mim, disse:
 Julian, tenho notado os seus olhares para com Carmem. 
Est gostando dela, no est?
 Levei um susto e fiquei sem saber o que responder. 
Rafael olhou para trs e, ao ver a expresso do meu rosto, 
sorriu:
 No precisa ficar assim, Julian. Sei que est gostando dela 
e, pelos olhares dela, parece que est sendo correspondido. 
Estou muito feliz por isso. Gosto da Carmem como se fosse 
minha irm e sei que, ao seu lado, ela ser protegida e feliz. 
Assim que me instalar, vou procurar um juiz, conseguir a 
anulao do nosso casamento e vocs podero se casar. Ser 
a primeira coisa que vou fazer. Sei que Carmem  muita 
apegada  Maria, que a considera como uma filha, e que 
voc gosta muito dela tambm. Quando me casar com 
Berenice, no seria justo levar a menina comigo. Carmem 
sofreria com essa separao e ela no merece. Maria tambm 
sentiria muito sua falta. Quando vocs se casarem, vou ficar 
tranqilo, pois sei que as duas ficaro protegidas. O meu 
desejo  que sejam felizes.
Ela, possessa, permaneceu calada. Ele, empolgado, 
continuou:
 Ele j sabia do nosso amor, Carmem. Disse que est feliz, 
por sabe que, ao meu lado, voc estar protegida. Disse que a 
primeira coisa que vai fazer quando chegar  cidade  
procurar um juiz para saber como fazer para anular o 
casamento de vocs e, assim, poderemos nos casar. Ele disse 
Carmem, que vai deixar Maria ficar aqui! J pensou? Voc 
no vai sofrer por ficar sem ela!
 O que voc fez depois, Julian?  Carmem perguntou, 
querendo que ele morresse.
Julian estava to feliz por no ter matado Rafael que no 
ouviu o que ela perguntou e continuou falando:
 Rafael tambm falou que, j que todos sabem que o 
casamento de vocs  de mentira, se quisermos, ele 
conversar com as pessoas, contar o que est acontecendo 
e poderemos passar a viver juntos desde agora.
Carmem, agora sentindo at falta de ar, to nervosa estava, 
voltou perguntar:
 O que voc fez Julian?
 Ao ouvir aquilo, olhei para a caneca com o veneno que 
estava ao lado de Rafael e que, a qualquer momento, ele 
poderia pegar para beber. Levantei rapidamente e, fingindo 
escorregar, derramei toda a cerveja com o veneno. Rafael 
viu e, rindo, perguntou:
 O que aconteceu, Julian?
 Eu estava feliz e, ao mesmo tempo, nervoso, Carmem. 
Tambm rindo, respondi:
 Olhe como sou desastrado, Rafael. Derrubei sua cerveja, 
mas no se preocupe, vou encher a caneca novamente.
 No  desastrado, Julian, s pensou que eu no tivesse 
notado os olhares trocados por vocs.  disse, rindo.
 Respirei fundo e aliviado, Carmem, e tornei a encher a 
caneca de cerveja, s que, dessa vez, sem o veneno. 
Entreguei a caneca para ele que, sorrindo, aceitou e 
bebemos juntos. Estou muito feliz, Carmem, pois voc agora 
j pode ser minha para sempre!
Julian no sabia, mas naquele momento em que ele jogou a 
caneca com o veneno fora, os vultos negros que estavam se 
aproximando dele se afastaram.
Isabel, Lola e Manolo tambm estavam ali. Ela, sorrindo, 
disse:
 Graas a Deus, com sua prpria vontade e um pouco da 
nossa ajuda, ele conseguiu fazer o que era certo. Mudando 
de idia, depois de muitas encarnaes, conseguiu se libertar 
da influncia de Carmem e conquistou o direito de seguir 
caminhando.
Lola e Manolo, abismados, ao verem aquilo acontecer, 
ficaram sem saber o que falar.
 Ainda bem. Como pode ser, dona Isabel?
 O poder da orao  muito forte, Lola. Alm disso, mais 
uma vez chegou a hora de Julian decidir o que desejava para 
sua vida, de exercer seu livre-arbtrio e, apesar de Carmem, 
deixar seus bons sentimentos falarem mais alto. Muitas vezes 
ele j passou por momentos de deciso igual a este e 
fracassou. Hoje, deu um passo importante. Venceu.
Olharam para os vultos negros que se afastaram. Isabel sorriu 
e enquanto eles se afastavam, disse:
 Mais uma vez, com a ajuda da deciso de Julian, a fora 
da luz venceu as trevas.
 Ns estvamos vendo os vultos, mas me deu a impresso 
de que eles no nos viam. Aconteceu isso mesmo?
 Aconteceu, Lola. Eles no podem nos ver a no ser que 
permitamos, embora soubessem que estvamos por perto, 
como sabiam, tambm, que no poderamos interferir. 
Assim como ns, eles conhecem a Lei. Quando Julian 
mudou de idia, eles no tinham mais o que fazer e foram 
embora, se juntar queles que esto ao lado de Carmem.
 Ela tambm vai ter a mesma chance que Julian teve?
 Claro que vai, Lola. Ela  filha do mesmo Pai que est 
sempre disposto a perdoar a seus filhos, no importando o 
crime que tenham cometido. Isso no quer dizer que o filho 
no sofrer algum tipo de punio. No nosso caso, embora 
no parea, a punio  ter de renascer trazendo dvidas, 
resgates e misses para serem cumpridos. Misses essas, que, 
quase nunca so reconhecidas pelos que as cumprem, 
menos ainda, pelos outros.
 No entendi dona Isabel.
 Uma misso no precisa ser alardeada, no precisa ser 
algo reconhecido pela sociedade. Rafael, Maria e vocs dois 
tinham por misso ajudar Carmem e Julian. Eles precisavam 
vencer o apego para poderem continuar caminhando. A sua 
misso, Lola, era ajudar Maria a nascer, nas condies em 
que nasceu, para que encontrasse Carmem, Rafael e Julian. 
Voc, antes de renascer, sabia que no ficaria com ela, pois 
ela possua a misso de ajudar as mulheres. A minha misso 
foi ajudar vocs, no primeiro momento, para que ela tivesse 
um lugar para nascer e ser protegida. Como podem ver, ns 
tnhamos uma misso que no nos daria fama, dinheiro nem 
glria, mas, por outro lado, era muito importante para que 
Carmem e Julian tivessem a chance de continuar 
caminhando.
 Entendi...
 Eu j disse que tudo  muito simples no plano espiritual, 
Lola. Somos ns quem complicamos.  Isabel disse, rindo.
 A senhora falou em apego. O que quis dizer?
 O apego  uma das principais causas para que o esprito 
pare no caminho. Para renascer precisamos de outros que se 
proponham a fazer com que isso acontea. Como 
renascemos em um corpo de criana, enquanto crescemos, 
encontraremos outros que nos ajudaro. Os amigos esto ao 
nosso lado em qualquer momento e os inimigos nos 
mostram nossas falhas. Para que possamos crescer, 
precisaremos ter coisas. Depois que o nosso corpo cresce, 
comeamos a pensar com clareza. Na maioria das vezes, 
ficamos presos a essas coisas e pessoas. Passamos a nos sentir 
como se fssemos donos tanto das coisas como das pessoas, 
quando, na realidade, isso no existe. Ningum  dono de 
nada nem de ningum. Como j disse, somos espritos livres 
e no podemos ser aprisionados. Quando sentimos aquilo 
que muitos dizem ser amor, sentimo-nos donos da pessoa 
amada, o que causa, muitas vezes, a perda da chance de 
caminhar. Em nome desse amor, muitos crimes foram 
cometidos. Acabamos de ver um que, graas a Deus, no foi 
concretizado, mas esteve perto disso. O mesmo acontece 
com as coisas que precisamos ter para poder viver com um 
corpo. A isso tambm nos sentimos presos e donos, mas, 
tambm, na realidade, isso no acontece, pois quando 
terminar o nosso tempo de vida na Terra ou em outro lugar 
teremos de voltar e sozinhos. Tanto as pessoas que 
conhecemos e que julgamos amar ou aquelas que somente 
fizeram parte da nossa caminhada, como as coisas que 
conseguimos, no nos pertencem, apenas nos foram 
emprestadas para nos ajudarem a sobreviver, a resgatar e a 
cumprir a nossa misso. Portanto, para que possamos 
caminhar, precisamos aprender a exercer o desapego e isso 
no  fcil. Muitos ficaram pelo caminho por causa disso. 
Julian e Carmem tm esse sentimento muito forte. Ele 
sente-se dono dela e ela de Rafael. Isso tem feito com que, 
atravs de muitas encarnaes, eles tenham se perdido no 
caminho e tenham sofrido muito.
 Todos sentem cimes daquilo que conseguem comprar e 
das pessoas a quem amam.
 Sim,  verdade, mas, precisam aceitar que nada lhes 
pertence, que s esto tendo uma oportunidade de conhecer 
pessoas e de ter coisas para poder caminhar.
 Ouvindo  senhora falar, parece que tudo  perfeito.
 Mas  perfeito, Lola! Deus, por ser Deus, no erraria 
nunca  disse rindo.  Agora, olhem o resultado do que 
estou dizendo.
Eles olharam para onde ela apontava e viram Carmem. Ao 
ouvir o que Julian contava e a sua felicidade por no ter 
matado Rafael, ela, que j estava nervosa, ficou mais ainda. 
Perdeu o controle e gritou
 Eu sabia que voc era um covarde e que no conseguiria 
fazer o que prometeu, mas no pensei que fosse tanto! Est 
falando que vamos nos casar, que podemos ficar juntos a 
partir de agora? Est louco? Isso no ia e nunca vai 
acontecer! Voc  um fraco! Eu nunca seria sua mulher, 
mesmo que tivesse feito o que pedi, imagine sem fazer? 
Pode esquecer, jamais vou ser sua, Julian! Para mim, voc 
no representa nada! Nada, ouviu!
Ele, atnito com o que ouvia, desesperado, perguntou:
 O que est dizendo, Carmem?
Ela, transtornada e sem conseguir se controlar continuou:
 Isso mesmo que ouviu! Nunca tive inteno de me casar 
com voc! S fiz aquilo porque precisava da sua ajuda para 
matar Rafael
 O qu?
 Isso mesmo o que ouviu. Precisava da sua ajuda! Sabe por 
qu? Porque eu amo Rafael e s no me entreguei a ele, 
porque no aceitou,        no quis! Ele me considera como a 
uma irm! Voc disse que ele vai se casar? No vai, no! Sabe 
por qu? Eu no vou permitir! Prefiro que ele morra!
Parado, sem saber o que fazer, Julian se recusava a acreditar 
no que estava ouvindo. Desesperado, disse:
 Voc no pode estar dizendo a verdade, Carmem. No 
posso acreditar...
 Pois est ouvindo e vai ouvir muito mais! Embora ele no 
me quisesse, eu era feliz somente por viver ao seu lado, por 
sentir a sua presena, mas isso terminou no dia em que essa 
moa apareceu e ele se apaixonou por ela! No posso aceitar 
que ele v embora e que s pense nela! Que v se casar com 
ela ou com outra qualquer! Por isso, prefiro que morra! Por 
isso pedi a voc que me ajudasse e que o matasse!
 No pode ser Carmem. O que est dizendo no pode ser 
verdade...
 Acha que no pode, mas  verdade! Como pde acreditar 
que gostava de um homem covarde como voc e que no 
tem nada para me oferecer?
 O que fez comigo, Carmem? Sabendo do meu amor, me 
usou para que eu cometesse um crime?
Ela, mais descontrolada ainda e com os vultos, felizes, 
rodopiando a sua volta, riu e falou:
 Foi isso mesmo que fiz e voc acreditou! Pensei que 
conseguiria fazer com que atendesse ao meu pedido, mas, 
como est vendo, no presta para nada! Eu odeio voc e esse 
amor ridculo!
 No fale assim, Carmem. Meu amor  sincero. Gosto 
realmente de voc.
 No continue com isso, Julian! Agora no tenho mais 
motivo para ouvir voc e suas baboseiras! Entenda de uma 
vez para sempre: eu amo Rafael e no vou ficar sem ele!
 Ele no gosta de voc da maneira que quer Carmem. Ele 
ama Berenice e vai se casar com ela...
 No gosta hoje, mas um dia vai gostar! Quanto a se casar 
com ela, isso sim  que nuca vai acontecer! No vou 
permitir, antes que isso acontea, ele vai morrer!
Julian abaixou a cabea, pois no conseguiu evitar que 
lgrimas cassem de seus olhos. Ela estava to nervosa que 
no percebeu e continuou:
 Quanto a eu ficar com aquela menina horrorosa, nem 
pensar! Quero que morra tambm! Eu a odeio por ser filha 
daquela mulher que quase me roubou Rafael e s no 
conseguiu, porque fui mais esperta e a matei antes!
 Como? O que est dizendo?
 Isso mesmo que ouviu, eu a odeio como odiava sua me! 
Por mim, se ela morresse agora, como aconteceu com sua 
me, seria muito bom! S fingi gostar dela, por saber quer 
Rafael queria isso, nada alm! No representa nada para 
mim! Ela s serviu para que eu pudesse me casar com ele!
Sem conseguir ouvir mais, tremendo de dio e de desiluso, 
ele, tentando esconder as lgrimas, saiu e foi para sua casa.
Rafael, envolvido na preparao dos peixes, no viu quando 
ele saiu da casa de Carmem.
Julian, sabendo que os rapazes estavam preocupados com os 
peixes, assim que entrou em casa, deixou que um soluo 
profundo explodisse, partindo do fundo do peito. Sem 
conseguir se controlar sentiu as lgrimas caindo por seu 
rosto, mas no tentou evitar. No consigo acreditar que ela 
me disse tudo aquilo. Como pude aceitar fazer o que ela 
queria? Usou do meu amor, me enganou e mentiu todo 
tempo. Eu deveria ter desconfiado, pois, se ela me amasse 
realmente, e seu casamento sendo de mentira, no havia 
motivo para a morte de Rafael, mas apaixonado como estava, 
no parei para pensar Estava cego...
Ainda soluando e chorando, pegou um leno que estava no 
bolso e enxugou o rosto, mas no conseguia parar de pensar:
Aquilo que ela disse sobre Lola  grave, mas muito mais o 
que disse sobre Maria. Com todo aquele dio que ela 
demonstrou sentir pela menina, o que ser que ela tem 
feito? Ser que a tem machucado? Mais tarde vou conversar 
com a Maria e saber o que tem acontecido.
Assim que Julian saiu, Carmem, depois de alguns minutos, 
deu-se conta do que, levada pelo dio, havia feito.
O que fui fazer? Como me descontrolei dessa maneira? 
Julian, magoado como est, pode contar a Rafael o que eu 
disse e, se ele fizer isso, no posso nem imaginar qual ser 
sua reao, muito mais quando souber sobre Lola e Maria. 
Quando ele e Julian perguntarem a ela o que tenho feito, 
sabendo que foram eles que descobriram e no ela que 
contou, vai perder o medo e contar que eu a deixei em p, 
sem comer e mostrar os lugares do corpo que queimei com 
as brasas e que hoje esto escondidos pela saia comprida. 
No sei o que vo fazer. Eu no devia ter deixado marca, 
mas nunca pensei que algum descobrisse nem que ela, com 
o medo que estava contasse. Preciso pensar em uma maneira 
de consertar o que fiz...
Preocupada, esfregando as mos, ficou procurando uma 
soluo para o problema que ela mesma havia criado. Depois 
de muito pensar, chegou a uma concluso:
J sei o que fazer. Julian, apesar de nervoso, ainda me ama e 
deseja. Basta eu usar isso e ele far tudo o que eu quiser.
Olhou no espelho, colocou uma saia e blusa claras, passou o 
pente sobre os cabelos e um pouco de batom nos lbios. 
Olhou novamente para o espelho e sorriu.
Sou muito bonita, mesmo. Por que Rafael no enxerga isso? 
No posso pensar nisso agora. Preciso me concentrar em 
Julian. Ele, sim, agora  o problema.
Confiante, saiu e foi para a casa de Julian. 
Rafael viu quando ela saiu e entrou na casa de Julian. Sorriu: 
Ela est toda arrumada. Parece que eles esto bem mesmo e 
vo ficar juntos. Ainda bem, pois s assim poderei ir embora 
tranqilo, sabendo que Maria ficaro bem com ele cuidando 
delas.
Voltou a comer, brincar e a conversar com os outros que 
faziam o mesmo.
Carmem chegou  casa de Julian e, ainda da porta, viu que 
ele estava deitado. Perguntou: 
 Posso entrar Julian?
Ao ouvir aquela voz, ele, sem acreditar, levantou-se da 
cama:
 O que voc quer aqui, Carmem?
 Precisamos conversar...
 No temos o que conversar. Voc j disse tudo o que 
precisava dizer.
  por isso que estou aqui, Julian. Tudo aquilo que falei 
no era verdade. Inventei s para deixar voc ficar nervoso. 
Foi bobagem, eu sei, mas, sem pensar eu fiz. Fiquei nervosa 
quando vi Rafael voltando e me descontrolei, mas eu gosto 
mesmo  de voc... Falou, sorrindo e passando as mos pelos 
cabelos negros e longos. 
Ele, nervoso, gritou:
 Pare Carmem. No precisa continuar mentindo. Agora 
sei quem voc  e no vou acreditar em uma s palavra sua.
 Voc precisa acreditar. Eu gosto mesmo de voc, Julian.
 Ele, com raiva, fez um gesto com as mos e a cabea. 
Num sinal de cansao, voltou para a cama e sentou-se.
 Estive pensando, Julian. Voc disse que Rafael sabe sobre 
ns e est disposto a conversar com as pessoas. Se ele fizer 
isso, vamos viver juntos a partir de agora. Nada impede que 
isso acontea. No sei por que eu no queria viver com voc 
sem ser casada. No h motivo para isso. Todos sabem que 
meu casamento no existe. Vamos ser felizes para sempre...
Embora ele ouvisse o que ela dizia, no parecia dar 
importncia. Ela percebeu e, com medo, ficou desesperada.
 Precisa voltar a confiar em mim, Julian. Quero de 
verdade ficar com voc para sempre...
Ele voltou a se levantar e, com o brao, apontou para a porta 
e quase fora de si, gritou:
 V embora, Carmem! V antes que eu perca a cabea e 
lhe d uma surra!
Ela, vendo que no estava conseguindo convenc-lo, abriu 
os botes da blusa e deixou os seis de fora. Com a voz 
carinhosa, disse:
 Olhe Julian. Venha at aqui, pode tocar. Eles, assim como 
eu, so seus.
Ele, ao ver novamente aquilo que era o seu maior sonho, se 
levantou.
Ela, percebendo que ele estava impressionado, passando as 
mos pelos seios, continuou:
 Isso mesmo, Julian. So seus, pode tocar e fazer o que 
quiser. De hoje em diante, sou toda sua.
Ele balanou a cabea novamente fazendo um sinal negativo 
e voltou para a cama.
Sem perder o controle, ela continuou:
 Por que est fazendo isso? Eu sei e voc tambm que  o 
que mais deseja...  tambm o meu maior desejo... Venha, 
Julian. Venha at aqui...
Ele olhou para ela por alguns minutos. Mesmo no 
querendo, seus olhos insistiam em se desviar para o que ela 
mostrava totalmente. Ele sentiu desejo, mas, ainda com 
raiva, voltou a gritar:
 V embora, Carmem. No me faa perder a cabea e 
fazer o que no quero! Se continuar aqui, no vou me 
controlar e vou bater em voc! O que vai ser um escndalo!
Agora, desesperada, vendo que ele se recusava, pensou: 
Ele no me quer mais. Vai contar tudo a Rafael. No posso 
permitir. Se ele fizer isso, vai ser o meu fim. Eu vou ter de ir 
embora daqui e no sei para onde. No, preciso fazer com 
que volte a confiar em mim. Sei que apesar de tudo o que 
aconteceu, ele ainda me ama e me deseja e que no ir 
resistir por muito tempo.
Em uma ltima tentativa, abriu os botes da saia, o que fez 
com que ela casse e seu corpo ficasse todo  mostra. 
Caminhou em direo a ele que, ao ver aquilo, arregalou os 
olhos. As mulheres, naquele tempo, usavam saias e vestidos 
compridos e meias, por isso no aparecia nem o calcanhar. 
Para um homem, ainda mais apaixonado como ele, ver um 
corpo inteiro era algo impensvel. Muito mais por ser aquele 
que ele tanto desejava. Por alguns minutos, ele ficou parado 
olhando.
 Pode olhar Julian e, se quiser, at tocar. Quero ser sua 
mulher. Quero me deitar com voc agora mesmo.
Ele, sem se mover, continuou olhando para aquele corpo to 
desejado e pelo qual estava disposto a cometer um crime. 
Permaneceu parado, calado e somente olhando.
 Venha, Julian. Sei que  o que mais deseja. Sou toda sua 
da maneira que quiser...
Ele, como se voltasse de uma viagem, com raiva gritou:
 Pode parar Carmem! Vista suas roupas! Tem razo, era 
tudo o eu mais desejava, mas isso foi antes de saber quem 
voc  e do que  capaz de fazer. Depois de saber como 
voc  maldosa, sinto nojo s de pensar em tocar esse corpo! 
V embora! Saia daqui, antes que eu perca a cabea!
Ele gritava raivoso. Ela, vendo que no conseguia convenc-
lo, levantou a saia e abotoou a blusa, dizendo:
 Eu gosto de voc, Julian. No pode fazer isso. Quero ficar 
com voc... Viver ao seu lado para sempre...
 No, no  verdade! No gosta de ningum nem de voc 
mesma! Est aqui porque, quando percebeu que tinha se 
desmascarado, ficou com medo que eu contasse a Rafael 
quem voc  realmente! Foi por isso que veio at aqui e se 
colocou nessa situao ridcula. Voc no me engana mais, 
Carmem. Est com medo, mas no precisa ficar. No vou 
contar a Rafael o que quase fiz. Primeiro, porque morreria 
de vergonha se ele soubesse que eu quase o matei por sua 
causa. Segundo, ele est indo embora e, se souber a verdade, 
no vai mais querer ir embora e isso no vai ser bom para ele 
nem para mim e seus irmos. Pode ir embora tranqila. No 
precisa tentar me enganar novamente. Eu vou ficar calado, 
mas, depois que ele for embora, vou conversar com Maria e 
descobrir o que tem feito com ela e, se voc a machucou de 
alguma maneira, contarei a todos e vou ficar com ela at o 
dia em que ele voltar.
Ela, tentando se defender, chorando disse:
 Nunca fiz mal algum para aquela menina! Disse que vai 
cuidar dela, como? Precisa trabalhar.
 Isso no  da sua conta, mas fazendo essa pergunta est 
confirmando que fez mal a ela, mesmo? Posso at perdoar a 
voc por ter me enganado. Sou adulto e sei me defender, 
mas se machucou Maria de alguma maneira, ela, que no 
sabe nem pode se defender, isso no vou perdoar, Carmem!
 Nunca fiz mal a ela, justamente por ser uma criana e no 
poder se defender. Eu estou com ela h tanto tempo. Eu 
disse que no gostava dela, mas estava mentindo. Foi s na 
hora da raiva. Eu gosto dela e cuido dela como se fosse 
minha filha.
 Espero que ao menos isso seja verdade, Carmem.
 Pode no acreditar, mas eu gosto de voc e quero ficar ao 
seu lado, Julian.
No suportando mais, ele levantou o brao novamente, ia 
bater, mas parou:
 V embora, Carmem! Voc  doente,  louca!
Ao ouvir aquilo, ela ficou furiosa e, com o rosto 
transtornado, gritou:
 No sou louca! No sou louca! Somente amo, nada, alm 
disso!
 V embora, Carmem! V embora, seno eu no vou me 
preocupar com o que pode acontecer e, agora mesmo, vou 
at Rafael e conto toda a verdade. V embora!
Ela, vendo que no havia mais o que fazer ali, saiu e foi para 
junto do rio. Precisava pensar.
Lola, vibrando de alegria, quase gritou:
 Ele conseguiu dona Isabel! No acreditou nela! Vai cuidai 
da Maria! Minha filha no vai mais sofrer e no vai ter 
motivo para se matar.
  verdade, Lola. Finalmente, aps muitas encarnaes, 
ele conseguiu se libertar definitivamente da influncia de 
Carmem e, como um esprito livre, escolher o caminho que 
desejou. Estou feliz por mais um do nosso grupo estar 
pronto para continuar caminhando ao nosso lado. Vamos 
esperar que Carmem tambm mude e consiga encontrar o 
caminho. Agora, est na hora de nos colocarmos em orao 
para agradecer a Deus, por mais esse filho prdigo que 
retorna para Ele.
Sorrindo, entraram em orao.
        
Persuaso

Carmem, quando chegou ao rio, sentou-se a sua margem e 
ficou pensando:
Como fui me descontrolar daquela maneira? O que fui fazer? 
E agora? Se Julian perguntar, Maria vai falar tudo o que 
tenho feito e ele, com a raiva que est de mim, vai contar a 
Rafael. No imagino o que ele, quando souber, vai fazer 
comigo. Por que fui deixar aquelas marcas? Podia ter deixado 
que ficasse em p e sem comer, seria o suficiente para que 
sofresse tudo o que me faz sofrer e no ficariam marcas, no 
pensei que esse dia chegaria. Tambm, agora no adianta 
arrependimento, preciso encontrar uma maneira de fazer 
com que Rafael no descubra.
Ficou ali por muito tempo, tentando encontrar uma soluo 
para o que tinha feito. Depois de muito tempo, sorrindo, 
levantou-se. 
J sei o que vou fazer e vai ser agora mesmo!
Rpido, caminhou em direo ao armazm. Quando chegou 
ali, sorrindo, como sempre, disse:
 Seu Custdio, preciso dar um presente para Maria. O 
senhor tem alguma coisa bem bonita?
 Outro dia, quando ela veio aqui com o pai, estava 
olhando esta fita para os cabelos, acho que vai gostar de 
ganhar.
 Sendo assim, vou levar e dar a ela de presente. O senhor 
tem papel para presente? Quero embrulhar para ficar bem 
bonito.
 Tenho, sim. Olhe este que bonito!
  mesmo, vou embrulhar agora mesmo.
Aos olhos dele e com carinho, ela embrulhou a fita e, 
sorrindo, novamente, foi embora.
Ele, olhando-a se afastar, pensou:
Ela gosta muito daquela menina e, se eu no soubesse que 
no  sua me, no ia acreditar. Mesmo no sendo sua filha, 
tem muita dedicao e carinho.
Carmem chegou ao lugar onde todos estavam. Maria 
continuava brincando e Rafael conversando. Aproximou-se 
e, sorrindo, perguntou:
 Est tudo bem, Rafael?
 Est, Carmem, e parece que com voc e o Julian tambm. 
Ela sorriu e, calada, se afastou. Foi at Maria:
 Maria, venha comigo, olhe o que comprei para voc. 
Desconfiada, a menina olhou o pacotinho que ela lhe 
mostrava.
 O que  isso?
 Um presente para voc.
 Para mim? Por qu?
 Por nada. S achei bonito e quis comprar e dar de 
presente a voc. Sei que vai gostar. Fiquei sabendo que faz 
muito tempo que voc est querendo.
 O que ?
 Vamos at em casa e eu mostro a voc.
 No quero ir. Vou depois junto com meu pai e a a 
senhora me d.
 No pode ser Maria. Precisa ser em casa. Quando vir o 
que comprei, vai querer usar e mostrar ao seu pai. Sei que 
ele vai gostar muito.
Embora desconfiada, a curiosidade infantil fez com que a 
acompanhasse.
Carmem, carinhosamente, pegou em sua mo e foram para 
casa. Quando chegaram, Maria, na sua inocncia, perguntou:
 O que foi que comprou?
Carmem, dando o pacotinho para ela, disse:
 Pode abrir. Sei que vai gostar. 
Maria abriu o pacotinho e, realmente, gostou:
 Eu tinha visto essa fita l no armazm e queria muito, s 
no pedi por que sei que meu pai no tem dinheiro para 
essas coisas.
 O seu Custdio me contou que voc gostou, por isso 
resolvi comprar. S que para eu dar a voc, precisa fazer algo 
para mim.
 O qu?
 Tenho sido muito m com voc, no tenho?
A menina, com medo, abaixou a cabea e no respondeu. 
Carmem, pegando a fita e um pente, enquanto penteava os 
cabelos dela, com a voz carinhosa, insistiu:
 Eu sei que tenho sido m e me arrependo muito. No 
devia ter feito o que fiz com voc, mas, daqui para frente vai 
ser diferente. Vou ser de verdade uma boa me. Prometo 
que nunca mais vai acontecer e que, quando seu pai for 
embora, vou cuidar muito bem de voc, vou ser uma 
verdadeira me. Pode acreditar...
Maria, desconfiada, levantou a cabea e olhando nos olhos 
de Carmem, perguntou:
 Vai ser minha me de verdade? Vai ser uma me boa 
como  a Josefa?
Carmem, feliz por perceber que a menina estava acreditando 
no que ela dizia, abraou-a e beijou-a com carinho.
 Agora, para que eu possa ser essa me que voc quer, 
precisa me ajudar.
Maria se afastou e voltou a olhar, novamente, e desconfiada, 
para ela:
 Ajudar, como?
 Preste bem ateno no que vou lhe dizer.
A menina continuou olhando para seus olhos e, com a 
cabea, concordou. Carmem sentou-se na cama, pegou-a no 
colo e, beijando seus cabelos, disse com cuidado:
 O Julian vai perguntar se eu a trato bem e se  feliz ao 
meu lado. Voc precisa dizer que sim e que eu sou a melhor 
me do mundo e que gosta muito de mim.
 No  verdade...
 Sei que no fui uma boa me, mas, se fizer o que estou 
falando, vou ser a melhor me do mundo... Pode ter certeza.
 Vai, mesmo?
 Vou, sim. Estou dizendo que vou...
Assustada, Carmem percebeu que no estava conseguindo 
convencer a menina:
 Precisa fazer o que estou dizendo, Maria. Se no fizer, 
Julian vai contar para seu pai. Ouviu quando ele disse que 
no pode levar voc com ele, porque precisa trabalhar e no 
tem com quem deixar voc. O Julian vai contar e eles vo 
brigar comigo e me mandar embora. Seu pai, no tendo 
como cuidar de voc, vai levar voc para um orfanato.
 O que  um orfanato?
  um lugar muito feio, onde moram crianas que no tm 
pais ou eles no as querem. L as crianas sofrem muito. 
Muito mais do que voc sofria comigo e no se esquea de 
que agora no vai sofrer mais. L, eles no queimam com 
brasas s as costas, mas o corpo todo e quando chega a noite, 
colocam as crianas em um quarto escuro cheio de rato e 
barata.
Maria, amedrontada e desesperada, ficou calada e olhando 
para Carmem que, ansiosa, esperava para ver o que ela ia 
dizer.
 A senhora falou que vai ser uma boa me e  verdade que 
meu pai disse que no tem como me levar com ele. Ele disse 
mesmo, eu ouvi. Ento, se o Julian perguntar no vou contar 
o que aconteceu. Vou falar o que a senhora mandou. Quero 
muito ter uma me.
Carmem, feliz por ter conseguido o que queria, abraou 
Maria e beijou seu rosto:
 Voc vai ter uma me de verdade, Maria! Vai ver que 
estou dizendo a verdade! Nunca mais vou fazer aquelas 
coisas ruins com voc.
Enquanto isso, Julian, em seu quarto, pensava em tudo o que 
havia acontecido:
Ela no presta mesmo! Como que, por medo, teve coragem 
de fazer tudo o que fez aqui? Estava pronta para se entregar 
para mim. No vale nada, mesmo! Como fui me deixar 
enganar dessa maneira? Pensando no que ela falou sobre a 
Maria, s agora estou percebendo que a menina vivia 
sempre triste e quase no falava. Parecia estar sempre com 
muito medo. Prestando bem ateno, ela  muito magrinha 
e plida. Meu Deus ser que tem passado fome? Ser que 
Carmem no lhe d comida? O que ser que ela tem feito 
com a menina? Vou agora mesmo conversar com a Maria e 
saber o que tem acontecido e se Carmem realmente a 
maltratou. Mesmo morrendo de vergonha, preciso contar 
tudo ao Rafael. Preciso proteger essa criana!
Assim pensando, saiu e foi at a casa de Carmem. Chegou no 
momento em que ela saa com Maria que, feliz por ter uma 
me de verdade e com a fita que ganhou nos cabelos, ao v-
lo, sorriu.
Ele desconfiou, pois nunca havia visto a menina to feliz.
 Voc est bem, Maria?
 Estou Julian, por que est perguntando?
 Est mesmo?
 Estou, j disse que estou.
 A Carmem  uma boa me para voc?
Maria olhou para Carmem que, diferente das outras vezes, a 
observava com carinho.
Tranqila com aquele olhar desconhecido, ela,sorrindo, 
respondeu:
 , sim, Julian  a melhor me do mundo e eu gosto muito 
dela!
Ele, no acreditando muito no que ouvia, disse:
 No precisa ficar com medo, Maria, pode dizer a verdade, 
nada mais vai lhe acontecer.
Carmem, percebendo que ele no estava convencido e que, 
se continuasse com aquelas perguntas, Maria poderia lhe 
contar a verdade, apertou a mozinha dela, com carinho. A 
menina entendeu o recado e, sorrindo, disse:
 No estou com medo, Julian. Estou dizendo a verdade. 
Ela  uma boa me e eu gosto muito dela. Agora vamos 
comer, me? Estou com fome.
Carmem olhou para Julian e sorriu daquela maneira que ele 
conhecia e que o deixava louco. Em seguida, ainda 
segurando na mo da menina, disse:
 Vamos, Maria. Vamos comer. Sei que est com fome. 
Estavam se afastando, quando ele chamou:
 Maria! Espere.
A menina, sob o olhar preocupado de Carmem, se voltou.
 O que voc quer Julian?
Ele se ajoelhou, pegou sua mozinha e, olhando bem em 
seus lhos, respondeu:
 Sei que est dizendo a verdade, mas se acontecer alguma 
coisa com voc, no precisa ficar com medo, pode me 
contar. Est bem?
 Est bem, Julian, mas no vai acontecer nada, no , me?
 , sim, Maria. Nunca aconteceu nem vai acontecer. 
Agora vamos comer.
Segurando a menina pela mo, afastou-se de Julian que, 
calado, as acompanhou com os olhos.
No sei, no, mas Maria est diferente. Nunca a vi to feliz. 
O que ser que Carmem fez para que ela mudasse dessa 
maneira. No sei, mas vou descobrir...
Maria, feliz, segurando a mo de Carmem, chegou perto de 
Rafael:
 Pai, olha que fita bonita eu ganhei! 
Rafael olhou para ela e, sorrindo, beijou seu rosto:
  linda mesmo, minha filha, mas no precisa de uma fita 
para ficar bonita! Voc j nasceu linda!
 Pai, quando voltar da viagem, vai me levar junto?
 Claro que sim! S no levo agora, porque no tenho 
ningum para cuidar de voc. No se esquea nunca de que 
eu adoro essa menina linda e vou dar a voc tudo nesta vida! 
Vai ser feliz, vou fazei de tudo para que isso acontea.
A menina abraou-o e beijou-o no rosto.
 Vou ficar esperando o senhor. Sei que vai voltar logo.
 Vou sim. Agora, v brincar, j est quase escurecendo. Eu 
e sua me vamos ajudar a arrumar essa baguna que fizemos.
Sem medo e, pela primeira vez, tranqila, Maria foi para 
junto das outras crianas.
Lola, emocionada, perguntou:
 Ela no vai mais maltratar Maria, dona Isabel?
 Espero que no. Talvez, por medo de que Julian venha a 
descobrir, tome mais cuidado. Ao menos por um tempo, 
Maria ficar bem Graas a Deus...
 Ainda bem, dona Isabel. Minha menina j sofreu tanto... 
Isabel sorriu.
 Voc est ansiosa Lola, e isso no faz bem. A ansiedade  
uma das principais causas do sofrimento. Saber esperar e 
confiar  o caminho para a paz do esprito. Tudo tem hora e 
momento certo para acontecer e, quando no acontece,  
porque no estava na hora ou no era para ser. Neste 
momento, Maria e Carmem esto travando uma batalha de 
reconciliao, esperemos que seja a ltima. Carmem est 
tendo toda a ajuda necessria. A descoberta de Julian foi para 
que ela possa parar e refletir sobre o que tem feito e mudar 
de atitude. Queira Deus que ela aproveite.
 No  possvel conter a ansiedade...
 Quando aprender a confiar na bondade de Deus e a crer 
que nada acontece que no seja para o bem, a ansiedade, aos 
poucos, desaparecer.
 No sei... Ainda acho muito difcil.
 No se esquea de que tem uma eternidade para aprender 
Lola.  Isabel disse, rindo.

Maldade final

Os imigrantes, embora estivessem desiludidos com o 
resultado do trabalho e sabendo que teriam de continuar 
trabalhando na fazenda, sem ter o que fazer, aceitaram e 
festejaram aquele dia. Depois de passarem um dia feliz, 
como estava escurecendo, resolveram que era hora de 
arrumar tudo. 
Durante todo o tempo, apesar de tambm tomar parte da 
festa e ajudar na arrumao, Julian no tirava os olhos de 
Maria, que brincava.
Ela est diferente, mesmo. Parece feliz de verdade...
J estava escuro quando terminaram de arrumar tudo. 
Carmem, Rafael e Maria entraram em casa.
Ele sentou-se na cama com Maria ao seu lado.
 Vocs esto com fome?
 Eu estou!
 Eu sabia minha filha. Voc brincou tanto que se esqueceu 
de comer, no foi?
Ao ouvir como Carmem falou com carinho, Maria, 
acreditando que ela ia mesmo ser uma boa me, sorriu:
 Acho que foi isso mesmo que aconteceu, me.
 No tem problema. Vou esquentar comida para voc. E 
voc, Rafael, tambm est com fome?
 Estou. Falei muito, mas comi pouco, agora, estou com 
fome. 
Carmem foi at o fogo e colocou arroz e feijo em uma 
panela e, enquanto esquentava, ela misturava. Em outra 
panela, havia um pedao de carne.
Enquanto ela esquentava a comida, Rafael, sem imaginar o 
que ela pensava, disse:
 Fiquei feliz em saber que voc e Julian esto se 
entendendo. Estava preocupado, por deixar voc sozinha 
somente com Maria e seus irmos. Agora, sabendo que est 
com ele, sei que vo estar protegidos. Fique tranqila, 
porque, assim que eu chegar  cidade, a primeira coisa que 
vou fazer  procurar um juiz e conseguir a anulao do 
nosso casamento e a vocs vo poder se casar.
 Eu e Julian no estamos juntos, Rafael. Estamos apenas 
comeando a conversar. No sei se gosto dele o suficiente 
para me casar.
 Ele  um bom rapaz, Carmem, e sei que vai fazer voc 
muito feliz.
 Estou pensando...
 Eu no preciso pensar Carmem. Amo Berenice e sei que 
vamos ser felizes. Sinto que fomos feitos um para o outro. 
Vou trabalhar muito e ela ser feliz ao meu lado.
 Tem certeza de que gosta mesmo dela?
 Tenho Carmem. Depois de Lola, no pensei que isso 
aconteceria novamente. Voc sabe que amei Lola de 
verdade e jurei nunca mais me interessar por outra mulher, 
mas, depois que Berenice apareceu, no tenho como 
explicar, s sei que a amo de verdade. Berenice  linda, 
inteligente, sabe conversar e tem boas maneiras. Eu a adoro 
por isso!
Carmem, ao ouvir aquilo, sentiu que seu o dio aumentava. 
Os vultos negros, embora estivessem ainda ao seu lado, 
estavam quietos, mas ao ouvirem o que ela pensou, se 
alteraram e comearam a rodopiar em sua volta. Um deles, 
rindo com maldade, disse:
Viu por que ele a escolheu? Viu as diferenas que existem 
entre vocs duas? Voc  burra, no sabe ler, nem 
conversar, muito menos tem boas maneiras. Ela tem tudo 
isso, alm de muito dinheiro. Ele nunca vai ficar com voc! 
Nunca! Nunca!
Ela, parecendo ouvir o que ele dizia, pensou:
Voc no vai se casar com ela! No vai! Eu amo voc e no 
vou deixar que se afaste de mim para ficar com ela ou com 
qualquer outra. No me importam as qualidades que possam 
ter. Matei Lola. Como no consigo me aproximar dessa outra 
a, vou matar voc, mas com ela no vai ficar!
Colocou a comida sobre a mesa.
 Est quente, podem vir comer. 
Maria, feliz pela maneira como Carmem vinha tratando-a, 
correu e sentou-se  mesa. Rafael veio em seguida e sentou-
se tambm. Colocaram a comida no prato e comearam a 
comer. Carmem ficou em p, pensando:
Preciso pensar em alguma coisa para impedir que ele fique 
com ela.
Por que aquele imprestvel do Julian no fez o que pedi? Se 
ele tivesse feito, agora estaria tudo resolvido. 
O vulto, ansioso e nervoso, continuando a rodopiar ao seu 
lado, disse:
Ele no fez, mas voc pode fazer... No mesmo instante, ela 
pensou:
Ele no fez, mas eu posso. Basta colocar o veneno no caf e 
ele morre, ningum vai desconfiar. Espere, ningum no. 
Julian vai saber que fui eu vai me denunciar. Fazendo isso, 
posso ser presa. No, preciso dar um fim nos dois e, depois, 
na peste dessa menina! 
Assim pensando, imediatamente disse:
 Rafael, vou fazer caf, no quer chamar o Julian para vir 
tomar tambm?
Ele, pensando que ela queria ficar ao lado de Julian, sorriu e, 
levantando-se, disse:
 Pode ir fazendo o caf que vou chamar o Julian. 
Ele saiu, ela pegou gua da chaleira que estava sempre sobre 
o fogo e coou o caf. O cheiro invadiu todo o ambiente. 
Rafael, chegando  casa de Julian, encontrou-o deitado e 
sozinho.
 Onde esto os rapazes, Julian? 
Ele, rindo, respondeu:
 Esto de namorico.
 No diga?
  verdade, Rafael. Desde o dia da festa. O Pepe est 
namorando a filha do Manuel e o Pedro, a do Miguel. Parece 
que  srio.
 No diga!  verdade?
  sim, e eles quase no ficam mais aqui.
 Eles esto amando e voc sabe como  o amor, no , 
Julian. Por ele somos capazes de fazer qualquer coisa. No 
v o que estou fazendo, me arriscando em uma aventura que 
no sei se vai dar certo, somente para poder dar  Berenice 
tudo o que ela precisa e merece.
Julian sentiu vontade de contar tudo o que havia acontecido, 
mas ficou com medo da reao de Rafael.
Ele est indo embora, no vale  pena estragar seus sonhos. 
Estou aqui e vou ficar de olho na Carmem para ver se ela faz 
alguma coisa contra Maria e, se fizer, a, sim, contarei para 
todos e vo saber o que fazer com ela...
 O que veio fazer aqui, Rafael?
 Carmem est fazendo caf, eu vim buscar voc para 
tomar tambm.
 Eu no quero Rafael, obrigado.
Ele, achando que Julian estava com vergonha de ir com ele, 
disse:
 No faa isso, Julian. Vou ficar aqui s at amanh. 
Vamos ficar mais algum tempo juntos.
Julian, sabendo que aquilo se tratava de mais uma tentativa 
de Carmem para convenc-lo de que havia mudado, no 
queria ir, mas diante da insistncia de Rafael, aceitou:
 Est bem, vamos, Rafael.
Saram e entraram em casa. Carmem estava terminando de 
coar o caf. Assim que entraram, ela olhou para Julian:
 Que bom que veio Julian. Fiz este caf especialmente 
para voc. Sente-se.
Ao ouvir aquilo, Rafael sorriu e pensou:
 Esto mesmo apaixonados... 
Carmem colocou caf nas canecas.
De onde Maria estava podia ver todos os movimentos dela. 
Para seu desespero, viu quando ela pegou o pacotinho de 
veneno no armrio. Deduziu que ela estava colocando o 
veneno no caf que ia servir para Rafael e Julian. Ficou 
desesperada e comeou a tremer. Rafael percebeu
 O que foi Maria? Por que est tremendo assim? 
Carmem, que havia colocado o veneno nas canecas deles, 
pegou a sua e colocou ao lado. Vendo que Maria tremia, mas 
no sabendo o motivo, disse:
 Deve ter sido o sol. Ela brincou o dia inteiro, mas tomem 
o caf, seno vai esfriar.
Maria, desesperada, olhava com horror para as canecas, mas 
no conseguia falar.
 No fique preocupado, Rafael. Ela est bem, s um pouco 
cansada. Depois de tanto sol, pode pegar um resfriado. Tome 
o caf e voc tambm, Julian.
 Vamos tomar Carmem, mas, antes, faa um ch daquelas 
ervas que  bom para resfriado. Assim a Maria toma antes de 
ficar doente.
Ela, no querendo contrari-lo, concordou:
 Est bem, s que as ervas esto penduradas do lado de 
fora. Vou pegar.
Lola, ao ver aquilo, ficou desesperada:
 Ela vai matar os dois, dona Isabel! Coitadinha da minha 
filha, mas por que ela no conta e impede essa maldade? 
Julian est pronto para ouvir tudo o que ela tem para dizer.
 No se esquea de que, embora eu tenha dito que ela  
um esprito velho, por enquanto est em um corpo de 
criana, portanto, sente-se sem proteo. Est com medo. 
Carmem mais uma vez vai cometer os mesmos crimes. Por 
muitas vezes, ela matou voc, Julian e Rafael. Tudo sempre 
se repete para que o esprito possa resistir s suas fraquezas. 
Parece que, dessa vez, tambm ela no vai conseguir resistir.
Carmem, totalmente envolvida pelos vultos negros, saiu para 
pegar as ervas. Julian, desconfiado, olhou para Maria e para 
seus olhinhos que iam da caneca de Carmem para a caneca 
deles. Ele, parecendo entender o que ela queria dizer, trocou 
sua caneca pela de Carmem. Rafael viu aquilo, no 
entendeu. Julian, com a ponta dos dedos, fez sinal para que 
ele se calasse. Ele, sem entender ou imaginar o que estava 
acontecendo, se calou.
Carmem voltou com as ervas, colocou dentro da chaleira 
que estava no fogo e sentou-se.
 Pronto, o ch j vai ficar pronto, Maria. Voc vai tomar e 
dormir bem.
Julian olhou primeiro para Carmem, depois para Rafael:
 Foi muito bom ter ido me chamar, Rafael. Preciso lhe 
dizer uma coisa.
Carmem, ao ouvir aquilo, estremeceu. 
Ele vai contar. O que vou fazer?
Antes que ela pudesse fazer qualquer coisa, Julian 
continuou:
 Estou feliz por voc ter aceitado o meu amor com 
Carmem e lhe dizer que pode ir embora tranqilo. Eu 
cuidarei dessas duas mulheres preciosas que no so s suas, 
mas minhas tambm.
Rafael sorriu e Carmem respirou aliviada e, num gole s, 
tomou todo o caf que estava na caneca.
 No vo tomar o caf?
Rafael ia tomar, mas Julian segurou sua mo:
 Espere um pouco, Rafael.
Rafael parou com a caneca quase junto  boca. Carmem 
comeou a tremer, tentou se levantar, mas no conseguiu. 
Olhou para Julian que sorria e Maria que, desesperada, agora, 
chorava sem parar.
Carmem, sem conseguir se segurar caiu e em sua boca uma 
espuma branca e estranha se formou.
Rafael se assustou. Levantou-se da cadeira e correu para 
junto de Carmem que dava o ltimo suspiro.
Nesse mesmo instante, os vultos negros a pegaram e a 
levaram. Ela, sem poder se libertar, foi gritando e pedindo 
socorro.
 Para onde eles a esto levando, Dona Isabel?  Lola 
perguntou, horrorizada.
 Para onde quiserem Lola. Voc no se lembra, mas, assim 
como eu, j esteve nesses lugares muitas vezes e posso lhe 
dizer que  um lugar horrvel, onde esprito algum queria 
estar.
Lola se abraou a Manolo e comeou a chorar.
Rafael, junto ao corpo de Carmem, desesperado, tentava 
reanim-la. Julian permaneceu sentado como estava. Maria 
estava soluando e quase no conseguia respirar.
 Carmem? Carmem? Abra os olhos, o que aconteceu?
 No adianta Rafael, ela est morta.
 Morta, como, por qu?
 Morreu com seu prprio veneno...
 Que veneno, Julian? Como pode ficar a, parado como se 
no se importasse? Voc a envenenou?
 Ela colocou veneno no nosso caf, Rafael. Desconfiei 
quando vi Maria, de repente ficar agitada e olhando para 
nossas canecas com caf. Ela deve ter visto quando Carmem 
colocou o veneno no caf.
Maria, assustada com o que viu, continuava soluando sem 
conseguir parar. Julian voltou-se para ela:
 Foi isso que aconteceu, no foi, Maria? Voc viu quando 
ela pegou o veneno e colocou no caf?
Maria, soluando muito, quase no conseguiu responder, 
somente mexeu com a cabea, dizendo que sim.
 No estou entendendo, por que ela ia querer colocar 
veneno no nosso caf, Julian?
 Vou lhe contar algo que j devia ter contado, mas relutei, 
tive vergonha e no tive tempo. Achei que conhecia 
Carmem, mas no conhecia. Nunca pensei que seria capaz 
de fazer o que fez.
 Conte logo, Julian! O que aconteceu?
Julian pegou as canecas com caf, colocou sobre o armrio. 
Depois, foi at o fogo, colocou gua na chaleira para ferver.
 Agora, sim, vamos tomar um bom caf.
 Pare de andar de um lado para outro, Julian! Preciso saber 
o que aconteceu!
Julian voltou a se sentar e, calmamente, comeou a falar:
 Vou lhe contar Rafael. Talvez, quando eu terminar de 
falar, voc me odeie e nunca mais queira conversar comigo, 
mas esse  um risco que tenho de correr.
Contou tudo como havia acontecido. Rafael ficou o tempo 
todo calado e, embora ouvisse se recusava a acreditar. 
Julian terminou de contar, dizendo:
 Essa  toda a verdade, Rafael. Sei que deve estar surpreso 
e com raiva, e se no quiser mais falar comigo, vou 
entender.
 Voc ia me matar, Julian?
 Sei que no serve como desculpa, mas eu estava to louco 
de amor e de desejo por ela que fiquei cego e no me dei 
conta do que ia fazer. Graas a Deus e aos anjos, na hora 
certa, voc comeou a falar dizendo saber do nosso amor e 
que no se importava, e eu derrubei a cerveja com o 
veneno. Voc se lembra?
 Sim, mas no posso acreditar. Carmem era muito boa, 
no pode ter feito isso.
Maria que, enquanto Julian falava, conseguiu se acalmar e 
parar de chorar, ao ouvir Rafael dizer aquilo, gritou:
 Ela fez sim, pai! Ela era muito ruim!
 Por que est dizendo isso, Maria? Ela fez alguma maldade 
com Voc?
A menina levantou a blusa que vestia e mostrou suas costas 
toda marcada com as brasas. Tinha ainda uma ferida que no 
estava curada.
 Ela queimou a minha mo tambm. 
Rafael e Julian arregalaram os olhos.
 Foi ela?
 Foi, ela disse que eu tinha mexido no fogo, mas era 
mentira. Ela queimou!
 No pode ser Maria, por que no me contou?
 Fiquei com medo, pai. Ela falava que se eu contasse, ia 
me queimar mais ainda...
Rafael, chorando, abraou a menina.
 Perdo, Maria... Como pude ser to cego e no perceber 
o quanto voc estava sofrendo...
 Voc no podia imaginar Rafael. Ela era mentirosa e 
soube enganar a todos ns. Eu s percebi que havia alguma 
coisa errada com Maria, porque estava desconfiado. E 
quando Maria de repente ficou desesperada daquela maneira 
sabia que precisava descobrir qual era o motivo e que no se 
tratava de gripe. Olhando para ela, vi que seus olhinhos iam 
de uma caneca para outra. Resolvi trocar as canecas para ver 
o que acontecia. Maria, hoje mesmo, perguntei se voc 
estava bem se era feliz e se Carmem era uma boa me e voc 
disse que sim. Por que mentiu?
A menina voltou a chorar:
 Ela disse que ia ser uma boa me, igual  dona Josefa, e 
me deu at esta fita. Disse tambm que, se eu contasse pra 
voc, meu pai ia me mandar para um orfanato e no quero 
ir. L tem um quarto escuro com barata e rato. Eu tenho 
medo de rato.
 Como ela pde mentir assim para voc, Maria? Eu nunca 
ia mandar voc para orfanato algum. Alm disso, no 
orfanato no existe quarto escuro nenhum. Foi tudo mentira 
dela. Quando sua me morreu, prometi que ia cuidar bem de 
voc, mas no fiz isso, me descuidei e voc ficou esse tempo 
todo sofrendo na mo dessa louca!  disse com raiva, 
olhando para o corpo de Carmem largado no cho. Por que 
no contou, minha filha?
 Pensei que estivesse falando a verdade e eu queria tanto 
uma me...
Rafael abraou-a:
 Na chore mais, minha filha. Isso tudo j passou e, de hoje 
em diante, ningum vai mais lhe fazer mal. Vou ficar atento, 
mas sempre que tiver algum problema, nunca esconda de 
mim nem de Julian. Estamos aqui para proteger voc. 
Entendeu? Prometi a sua me que cuidaria de voc e faltei 
com a promessa. Ela, de onde estiver, deve estar com muita 
raiva de mim.
 Ela no est, no, pai. Ela  um anjo e anjo no tem raiva.
Lola, chorando e rindo, abraou Manolo, que disse:
 Est vendo, Lola. Durante o tempo todo em que 
estivemos aqui, quase no falei, pois confiava em Deus que 
tudo acabaria bem. Nossa filha est bem e vai ficar melhor 
ainda.
Lola sorriu e olhou para Rafael que, chorando, disse:
 Quanto a voc, Julian, eu no aceito, mas entendo. Da 
maneira como estou apaixonado por Berenice, no sei se no 
teria feito o mesmo que voc. Portanto, daqui para frente, 
vamos deixar tudo isso para trs e continuar a nossa vida da 
melhor maneira possvel. Agora, precisamos contar aos 
outros, o que aconteceu. Precisamos contar a verdade, pois, 
se no fizermos isso, ningum vai entender o que 
aconteceu. Precisamos tambm avisar ao seu Pablo para que 
ele possa mandar chamar a polcia.
 Vamos fazer isso, Rafael. Vou chamar a Josefa para que 
fique com a Maria, enquanto cuidamos de tudo.
Saiu da casa e foi at a cerca que dividia as duas casas. 
Chamou Josefa que, ouviu e saiu:
 O que foi Julian, aconteceu alguma coisa?
 Aconteceu, Josefa, ser que d para voc vir at aqui? 
Josefa, preocupada pelo tom da voz dele, correndo, saiu pelo 
seu porto e entrou pelo deles. Quando chegou  porta, 
mesmo antes de entrar, viu Carmem deitada.
 O que ela tem Rafael?  perguntou assustada  Parece 
que est morta?
 Est, Josefa...
 Como, o que aconteceu?
 Morreu envenenada.
 Envenenada, ela se matou?
 No, ela colocou veneno no nosso caf e tomou sem 
saber.
 No estou entendendo...
 Tambm no entendo, mas aconteceu. No precisa 
entrar. Vamos nos sentar naquele banco, precisa saber de 
tudo o que aconteceu.
Tremendo e assustada, ela se sentou. Julian comeou a 
contar tudo. Quando terminou, ela, com raiva, perguntou:
 Ela machucou voc, Maria?
A menina no respondeu, apenas levantou a blusa e mostrou 
as costas.
 Meu Deus! Como ela pde fazer uma coisa como essa, 
ainda mais para uma criana! Ela era um monstro! Por que 
no me contou quando ela queimou sua mo, Maria?
 Ela estava com medo, Josefa. No podemos nos esquecei 
de que  apenas uma criana.
Josefa, chorando, abriu os braos e Maria correu para eles. 
Abraou-a com carinho:
 Coitadinha. Como sofreu sem nada dizer.
 Eu queria ter uma me como a senhora... 
Lola, ao ouvir aquilo, no se conteve:
 Isso no  justo, dona Isabel! Por que tive de morrer e 
no pude criar a minha filha? Eu que tinha tanto amor para 
lhe dar? Por que ela teve de ficar sozinha nas mos de 
Carmem, um monstro? No est certo! No est certo!
 Tudo est sempre certo, Lola. No ficou ao lado dela, 
porque a experincia no era sua. Como esprito amigo e 
companheiro de jornada, voc emprestou seu corpo para 
que ela pudesse nascer, Maria teria que fazer o resto do 
caminho sozinha. Foi preciso que fosse assim. Ela mesma, 
quando escolheu, pediu sua ajuda e voc aceitou.
 Mesmo assim  muito sofrimento para uma criana. Eu 
poderia ter morrido quando ela tivesse mais idade.
 Agora tudo passou. Daqui para frente, com a morte de 
Carmem sua vida tomar outro rumo. No haver mais 
sofrimento e ela poder se dedicar  misso que veio 
cumprir.
 No entendi...
 Maria, alm de trazer sua prpria misso, que s poder 
ser cumprida quando for adulta, veio tambm para ficar ao 
lado de Carmem ajud-la a vencer esse amor doentio que 
julga sentir por Rafael. Se Carmem a houvesse aceitado 
mesmo, como uma verdadeira me, teria vencido sua 
fraqueza. Agora, Maria vai se preparar para a sua misso que 
 muito importante para a evoluo dos espritos 
encarnados.
 Pode dizer que misso  essa?
 Por enquanto ainda no, pois, embora esteja tudo 
planejado tambm pode ser mudado por ela no meio do 
caminho. S podemos pedir a Deus que isso no acontea.
 E se acontecer?
 No se preocupe. A evoluo no pode parar. Outro 
esprito ter de tomar seu lugar para cumprir a misso que 
era dela.
 Bem, no sei se vai conseguir, mas s de saber que daqui 
para frente no sofrer mais, estou contente.
 Estamos Lola... Estamos...
Depois de contar tudo para Josefa, Julian foi at a casa 
grande e contou a Pablo que, nervoso, disse:
 Isso vai ser um problema. Preciso mandar chamar a 
polcia, onde essa mulher estava com a cabea? Era louca?
Julian no respondeu e voltou para junto de Rafael. 
Berenice, que estava ao lado do pai e da me, ouviu tudo o 
que Julian falava:
Rafael nunca desconfiou de que ela gostasse dele. Embora 
ela tenha feito tudo errado, sentia, mesmo, um verdadeiro 
amor e, por ele, foi capaz de tudo...
A polcia foi chamada e o delegado, aps ouvir o que Julian e 
Rafael tinham para contar e ver o corpinho de Maria, no 
teve dvidas de que eles estavam falando a verdade.
O corpo de Carmem foi levado. A notcia correu rpida e 
todos, acreditando que pudesse ser verdade que ela houvesse 
feito aquilo, que os tivesse enganado daquela maneira, 
faziam questo de que Maria mostrasse as costas. A revolta 
foi geral. Pensamentos de dio foram dirigidos  Carmem. 
As pessoas no sabiam, mas a cada pensamento de dio ou 
raiva, tipo de flecha se formava e atingia Carmem 
profundamente, causando muita dor.
Ela se viu em um lugar escuro, malcheiroso e lamacento. 
Podia vir gemidos e gritos desesperados, mas no podia 
precisar de onde vinham. Seu corpo doa atingido pelas 
flechas enviadas por todos os que conheciam a histria. Os 
vultos que a seguiram durante o tempo todo agora tomaram 
forma e se transformaram em monstros que fizeram com 
que ela ficasse correndo de um lado para outro, fugindo e 
tentando se esconder deles e das flechas que no paravam de 
chegar. Seu desespero era imenso.
Isabel, Lola e Manolo acompanhavam o que acontecia e, 
seguindo as flechas, puderam ver Carmem naquela situao. 
Lola, embora tivesse motivo para odi-la, sentiu pena:
 Coitada, dona Isabel. Ela est desesperada. Essas flechas 
que a esto atingindo esto sendo formadas pelos 
pensamentos das pessoas?
 Ela est desesperada, sim, Lola, mas isso  o resultado das 
escolhas que fez. Quanto s flechas que esto vendo, sim, 
realmente so formadas pelos pensamentos daqueles que 
vibram com dio, rancor ou mgoa. Da mesma forma, 
quando o pensamento  de amor, saudade e carinho, bolas 
de luz so formadas e atingem diretamente aqueles para os 
quais so dirigidas e lhes causam muita paz e felicidade. Isso 
no acontece somente com os desencarnados, com os 
encarnados  a mesma coisa. Sempre que se pensa em outro 
com um sentimento bom, bolas de luz so formadas e 
chegam ao seu destino. Da mesma maneira, quando os 
sentimentos so ruins, flechas so formadas e, dependendo 
do merecimento, atingem ou no aqueles para quem foram 
dirigidas
 Dependendo do merecimento?
 Claro, Lola. No seria justo que algum que no 
merecesse recebesse o mal.
 O que acontece com essas flechas quando no 
conseguem atingir aquele para o qual foram dirigidas?
 Elas, depois de formadas, no podem desaparecer e, no 
conseguindo atingir aquele para o qual foram destinadas, 
voltam para quem s formou.
 Recebem de volta?
 Sim, tudo o que desejaram de bom ou ruim. Novamente 
entra em ao a lei do livre-arbtrio. Cada um pode escolher 
a companhia que quer ter ao seu lado, como pode, tambm, 
enviar e receber pensamentos de amor ou de dio. Receber 
de volta de acordo com o que escolher.
 A Lei  justa mesmo, dona Isabel...
 Voc tinha alguma dvida quanto a isso?  Isabel 
perguntou rindo.
Lola voltou o olhar para Carmem, que ainda continuava 
correndo.
 No podemos fazer nada para ajudada, dona Isabel?
 No por ora, Lola. Ela escolheu seu destino e ter de 
viver por algum tempo com o que escolheu. Quando chegar 
a hora, ser resgatada e ter uma nova chance.
 Nova chance?
 Sim, Lola. Deus, como nosso criador, no tem pressa e 
tem todo o tempo do mundo para esperar. Ele sabe que, 
mais cedo ou mais tarde, Carmem encontrar o Seu 
caminho. E, pode ter certeza de que esse dia chegar para 
todos.
Somente Rafael compareceu ao enterro de Carmem. Foi 
obrigado ir por ser seu marido legal.
Quando voltou, foi at o rio, sentou-se e ficou pensando em 
tudo me havia acontecido e em Lola: Lola, quando entramos 
naquele navio, tnhamos o corao cheio de sonhos. Esta 
seria a terra da felicidade, onde tudo daria certo, mas eram 
somente sonhos, no passavam disso, de sonhos. Depois de 
tanto sofrimento para chegar aqui e de tanto trabalho, estou 
da mesma maneira que quando samos da Espanha. Vivendo 
na misria e quase passando fome. O pior de e que no 
entendo qual foi o motivo de voc ter morrido to jovem e 
linda, com uma vida toda pela frente e deixado sua filha 
comigo, um fracassado. Chego at a pensar que Deus 
realmente no existe, pois, se existisse, no permitiria que 
algo assim acontecesse. No sei, mas parece que est tudo 
errado nessa vida. Deve estar brava por eu no ter cuidado 
da Maria. Estava envolvido com o trabalho, mas deverias ter 
notado que ela estava magra e mal nutrida e que vivia 
sempre triste, mas no notei. Nunca imaginei que Carmem 
fosse uma doente e que fizesse todas aquelas barbaridades 
com ela, mas prometo que ela no vai sofrer nunca mais. 
Tomarei cuidado e prestarei mais ateno. Eu amei voc 
verdadeiramente e amo sua filha. No sei explicar o que 
aconteceu, mas hoje amo Berenice. Apesar de ter certeza de 
que ela me ama, entendo por que no quer ir comigo para 
uma aventura que no sei se vai dar certo. No posso ficar 
bravo por isso. Ela tem medo da pobreza que no conhece e 
eu, que conheo, sei que tem razo. O que tenho para lhe 
oferecer? Nada! No sei se vou viajar. No posso levar a 
Maria, porque no tenho quem cuide dela nem um lugar 
para ficar, mas, por outro lado, se continuar aqui, nada vai 
mudar e eu no vou poder dar, para ela nem para Berenice a 
vida que merecem. No sei o que fazer. Sei que deve estar 
em um lugar muito bom, porque voc, como diz Maria, era 
um anjo. Por isso, vou pedir, que, por favor, se puder me 
ajude. Estou perdido e sem saber que rumo tomar. Onde 
estiver, receba meu beijo, carinho e muita saudade. Ainda 
amo voc. 
No mesmo instante, bolas de luz partiam da cabea de Rafael 
e atingiam Lola que, ao receb-las, sentiu muita paz e 
vontade de chorar de tanta emoo. Olhou para Isabel e 
Manolo que sorriram. 
 Est vendo, Lola, era disso que eu estava falando. Viu o 
que pode fazer um pensamento de amor? Que paz e 
felicidade trazem? 
Lola, com lgrimas nos olhos e emocionada, no conseguiu 
falar. Isabel, sorrindo, olhou para sua mo. Lola, 
entendendo, tambm sorriu e estendeu as mos e delas 
saram luzes que atingiram o corao de Rafael diretamente.
Assim que as luzes o atingiram, Rafael deu um suspiro 
profundo e, sorrindo, pensou:
Voc est aqui, Lola. Posso sentir a sua presena. Obrigado 
por estar ao meu lado.
Sorrindo e com as foras renovadas, abaixou-se e molhou o 
rosto com aquela gua lmpida que, alheia a tudo que 
acontecia, continuava correndo, indo para longe, conhecer 
outros recantos.

Deciso de vida

 Rafael estava distrado em seus pensamentos. No viu 
quando Berenice se aproximou e se sentou ao seu lado. 
Assustado, perguntou:
 O que est fazendo aqui, Berenice, h esta hora? Algum 
pode nos ver!
 No me preocupo mais com isso, Rafael.
 O que est dizendo?
 Que no me preocupo mais com isso.
 Algum pode nos ver e contar para o seu pai.
 Eu j contei.
 O qu?
 Eu j contei tudo sobre ns.
 Por que fez isso?
 Depois que Carmem e a me da Maria morreram to 
jovens, fiquei pensando que no sei por quanto tempo vou 
viver. Poder ser muito, como tambm poder ser pouco. 
Portanto, se eu viver muito, vou ter uma vida infeliz ao lado 
de um homem de quem no gosto e se eu viver pouco, 
deixarei de ficar ao seu lado, o amor da minha vida. Por isso, 
decidi que prefiro lutar ao seu lado por uma vida melhor do 
que ser infeliz sem voc.
Ele abraou-a e beijou-a com carinho:
 Disse isso ao seu pai?
 Disse. Ele ficou muito bravo e, como sempre, falou a 
mesma coisa. Que estou fazendo isso porque sou mulher e 
no penso e que, por eu ser mulher, devo obedincia a ele e 
que, tambm por ser mulher, no tenho capacidade para 
escolher o que eu quero para a minha vida. Ele j havia 
decidido que eu ia me casar com aquele homem que tem 
muito dinheiro. Se eu for embora com voc, posso me 
esquecer de que sou sua filha, vai me tirar do testamento e 
vou ficar sem nada. Disse que quer ver como eu vou viver 
sem o dinheiro dele e sem tudo aquilo que ele me d e a que 
estou acostumada.
 O que disse a ele?
 Que eu, justamente por ser mulher, precisava provar a ele 
e a mim mesma ser capaz de me cuidar e que no seria mais 
comprada pelo dinheiro dele ou de outro homem qualquer. 
Sou mulher, mas tenho um crebro, muitas vezes melhor do 
que o de qualquer homem, portanto, sou igual! A mulher 
precisa ser livre, Rafael! No pode continuar vivendo  
sombra do homem, sendo dominada, vendida como se fosse 
escrava e como meu pai quer fazer. Nunca mais vou aceitar 
isso dele ou de qualquer outro homem! Foi por isso que eu 
disse que escolhi ficar ao seu lado. Lutaremos juntos por 
uma vida melhor! A vida  muito curta, se no fizer isso 
agora, talvez no tenha tempo de fazer nunca mais! Talvez 
eu morra antes disso! No sei o que vai acontecer, mas essa  
a minha contribuio para que, no futuro, a mulher seja 
livre, tome conta da sua vida e do seu destino, escolha com 
quem quer se casar. Como voc disse, no preciso esperar 
que minhas filhas ou minhas netas faam isso, eu estou 
comeando!
 No devia ter feito isso, Berenice. Ele tem razo. O que 
tenho para oferecer a voc? Nada! Estava indo embora para 
tentar uma vida melhor. Nem sabia se ia dar certo, mas 
precisava fazer, agora...
 Agora o qu, Rafael?
 No posso mais ir embora. No tenho como levar Maria 
comigo, nem posso deixar que ela fique sozinha. Depois do 
que aconteceu no confio em mais ningum. Quando sua 
me morreu, eu prometi que cuidaria bem dela, mas no 
cumpri essa promessa. No me dei conta do quanto ela 
estava sofrendo e isso no vou me perdoar nunca...
 No teve culpa. No podia saber o que acontecia. Quanto 
a ir embora, precisa ir, pois, se continuar aqui, nunca ter o 
seu negcio de ferro com que tanto sonha. Precisa fazer 
isso, Rafael. No pode desistir.
 Quero me convencer disso, mas devia ter prestado mais 
ateno  Maria.
Percebendo que ele no entendia ou no ouvia o que ela 
dizia, irritada, se levantou:
 Pare com isso, Rafael! Pare de se fazer de vtima!
 O que est dizendo? Estou desconhecendo voc!
  para desconhecer, mesmo! Depois que tive a coragem 
de dizer tudo o que disse ao meu pai, sou outra mulher! 
Quero ficar ao seu lado para sempre, mas se for para 
lutarmos juntos. Agora, se for para ver voc dessa maneira, 
derrotado e se destruindo, eu no quero voc, vou embora 
sozinha!
 Parece que voc no viu o que aconteceu com a Maria! 
No viu o quanto ela sofreu nas mos daquela louca?
 O que ela passou, no tem como se esperar que no sinta 
e que se esquea facilmente! No temos como consertar o 
que foi feito. Daqui para frente, voc deve se preocupar em 
lhe dar uma boa vida para que possa crescer tranqila. Ela  
ainda muito pequena, com o tempo, esquecer. Ficar do 
jeito que voc est no vai ajudar Maria, voc e muito 
menos a ns!
 No estou entendendo o que est falando! Sabe que no 
poso deixar que ela fique sozinha!
 Todos na fazenda a adoram, ainda mais depois do que 
aconteceu. Pode deixar com qualquer um ou com todos, ela 
ser bem tratada.
Alm do mais, eu, indo com voc, cuidarei dela com todo 
amor e carinho e farei com que se esquea desse tempo 
ruim por que passou.
 Voc vai cuidar dela?
 Sim, por que no!  apenas uma criana e, por sinal, 
linda!
 Em voc eu confiaria. Mas, como voc disse, no temos 
dinheiro, vamos ter de trabalhar os dois. No podemos levar 
Maria!
 Ela no vai ser problema alguma. Quando resolvermos o 
que faremos com a nossa vida, tudo isso se arranjar. O 
importante  que fiquemos juntos e, com nosso amor, 
consigamos superar todos os problemas que esto por vir. Eu 
amo voc, Rafael...
 Embora esteja feliz, estou tambm com um pouco de 
medo de que voc se arrependa.
 Esse  problema meu Rafael. No sei se vou me 
arrepender ou no, s sei que preciso fazer.  melhor me 
arrepender por no ter dado certo do que por no ter feito.
 Est bem, meu amor. Vamos ser felizes! 
Beijaram-se novamente.
 Agora preciso ir. Minha av vai chegar a qualquer 
momento, estou morrendo de saudade dela. Depois, vamos 
conversar e marcar o dia de irmos embora.
 Seu pai vai permitir? No vai fazer nada para impedir?
 Ele disse que no. Tambm no est acreditando que eu 
v embora. Disse que no vai mais me dar dinheiro, acha 
que vou desistir, mas no vou. Agora vou embora.
Ela se afastou e ele, com o corao cheio de amor e 
felicidade sorriu ao v-la se afastando. Depois, voltou a 
sentar e a pensar:
Tudo vai dar certo. Preciso pensar assim! Preciso ter 
esperana! Agora vou conversar com os meninos. Com a 
morte de Carmem, eles ficaram sozinhos, mas eu vou 
continuar ao lado deles. So muito garotos e ainda no 
podem ficar sozinhos. Quando tudo der certo na minha 
vida, como acho que vai dar, eu venho buscar os dois e, se 
Julian quiser, vai poder ir tambm. Embora tenha quase me 
matado, entendo tudo por que estava passando e a fora que 
tem o amor e muito mais o desejo.
Levantou-se e foi embora. Quando estava passando pela 
casa-grande, viu que uma carruagem se aproximou e que 
dela desceram duas senhoras. Berenice desceu a escada 
correndo e abraou uma delas, depois, pareceu ser 
apresentada  outra e entraram.
Essa deve ser a sua av.
Assim que elas entraram, ele, sabendo que poderia passar 
sem ser visto, fez isso e foi ao encontro de Julian. Quando se 
aproximou, viu que Maria brincava feliz, com os filhos de 
Josefa. Sorriu:
Agora ela est feliz.        
Foi para a casa de Julian. Entrou.
 Ol, Julian. Podemos conversar?
 Claro que sim, Rafael. Entre, sente-se a. Estou 
terminando de coar caf.
Rafael sentou-se. Julian serviu o caf e, enquanto bebiam, 
ele contou tudo o que havia conversado com Berenice e 
terminou, dizendo
 No sei se tudo vai sair como estamos planejando, mas 
acredito que sim. A vontade  imensa. Quando isso 
acontecer, no vou me esquecer de voc nem dos rapazes. 
Volto aqui e todos vo embora comigo.
 Nunca esperei outra coisa de voc que no fosse isso, 
Rafael. Sei que no mereo, por isso agradeo muito pelo 
que quer fazer por mim.
 Tudo aquilo j passou, Julian. Fomos enganados. Daqui 
para frente, precisamos pensar s no futuro.
 Obrigado, meu amigo. Agora, v em paz. Vamos ficar 
aqui torcendo por vocs. Falou em levar Maria. Penso que 
no deveria fazer isso, Rafael. No sabe como vai ser a vida 
de vocs. Pelo visto, Berenice com toda sua fora, vai querer 
trabalhar e Maria seria um empecilho
Por isso, pode deixar que ela fique aqui. Alm de mim, todos 
vo cuidar Mela. Ela pode ficar bem com Josefa que, 
praticamente, j a adotou.
 No sei Julian. Prometi que ia cuidar dela.
 Ela no ficar desamparada, Rafael. Quando voltar, ela vai 
estar aqui esperando por voc, linda e feliz. Pode ter certeza 
disso. Ela vai estar bem e muito feliz por sua volta.
 Vou pensar Julian, e conversar com Berenice.
Saiu dali e foi at Maria que brincava feliz com os filhos de 
Josefa. Olhou e ao ver que ela estava bem, no quis 
interromper, apenas sorriu e pensou:
Lola, acho que agora ela vai ser feliz. 
Lola ouviu e, sorrindo, disse:
 Eu tambm, Rafael... Eu tambm. Obrigada por ser quem 
...




O destino de cada um

No dia seguinte, no horrio de sempre, Rafael foi para o rio, 
no mesmo lugar onde se encontrava com Berenice. Ficou l 
por algum tempo, mas ela no apareceu. Depois de muito 
esperar, pensou:
Ela no veio. Seu pai no deve t-la deixado sair. Sabia que 
ele ia fazer de tudo para impedir aquilo que ele julga ser uma 
loucura. Pensando bem, no posso dizer que est errado, 
pois eu mesmo no sei se o que estou fazendo  o certo. 
Berenice tem razo em escolher a segurana que o 
casamento com um homem rico pode lhe dar.
Depois de se convencer de que ela no viria, foi embora. 
Estava passando, quando viu que a mesma carruagem se 
aproximava. Escondeu-se e, quando ela passou por ele, pde 
ver que dentro estava Berenice e as duas senhoras.
Ela est indo embora. Sua av deve ter conversado com ela e 
ela entendeu que o nosso amor nunca ia dar certo. Como 
pude imaginar que ela ia largar tudo a que est acostumada 
para ter uma vida de pobreza? Isso a nunca ia acontecer. 
Agora, preciso pensar o que e como vou fazer. Vou ter, 
mesmo, de deixar Maria aqui, mas, como disse o Julian, no 
vai ter problema, pois todos vo cuidar dela. Preciso ir e 
vencer!
Sentiu o corao apertado e lgrimas querendo cair por seu 
rosto. Apertou os olhos para impedi-las e foi para casa.
Julian chegou e ele contou o que havia acontecido.
 Voc est se precipitando, Rafael. No sabe o que 
aconteceu realmente.
 Vi quando ela foi embora. A av e o pai devem t-la 
convencido de que o melhor seria, mesmo, ir para a 
Espanha e se casar com aquele homem.
 Est bem, j que pensa assim, no tenho o que fazer. E 
agora?
 Vou continuar com meus planos. Preciso deixar Maria 
aqui com vocs, mas vou voltar o mais rpido possvel.
 Quanto a isso j disse para no se preocupar. Pode ir 
tranqilo, Rafael. Ela vai ficar bem aqui.
 Voc  mesmo um grande amigo.
 Por mais que eu faa nunca vou me perdoar por aquilo 
que quase fiz.
 Esquea disso, meu amigo. Vamos pensar no futuro. 
Agora preciso conversar com Maria e explicar o que vou 
fazer e o porqu.
Saiu dali e foi encontrar Maria que ainda brincava. Assim 
que se aproximou da menina, ela o viu e correu para abra-
lo. Ele, depois de abra-la, disse:
 Preciso ir embora, Maria. No se preocupe, vai ter de 
ficar aqui, mas vai ser por pouco tempo. Vai ser difcil ficar 
longe de voc, mas prometo que volto o mais rpido que 
puder. Acha que pode ficar sem mim?
Ela olhou para Josefa que acabara de sair da casa e ouviu o 
que Rafael dizia. Sorriu:
 Pode ir, pai. Agora eu tenho uma me. 
Rafael olhou para Josefa:
 Pode ficar com ela, Josefa? Vai ser por pouco tempo.
 No se preocupe Rafael. Pode ir sossegado. Ela vai ficar 
bem. Vou cuidar dela como se fosse minha filha, como 
cuido dos meus filhos.
 Obrigada, Josefa. No sei como agradecer, s Deus 
mesmo pode fazer isso.
Emocionada, Josefa sorriu e, com a voz embargada, gritou:
 Vamos entrar crianas, est na hora de comer.
Rafael, tranqilo por saber que Maria ficaria bem, entrou em 
casa, pegou suas poucas roupas, colocou-as em uma das 
malas que trouxe na viagem e com tudo pronto, pensou:
Amanh vou embora. Fui um louco em achar que uma 
mulher como Berenice ia deixar tudo o que tem para viver 
ao meu lado. Embora esteja triste, pela Maria e por mim, 
preciso ir embora e tentar uma vida melhor. Sei que vou 
conseguir.
Colocou a mala no cho e saiu. Estava entardecendo. 
Naquela noite, se despediria de Maria, pois, quando sasse 
pala manh, ela estaria dormindo e no gostaria de acord-la.
Assim que saiu, viu que Berenice se aproximava 
acompanhada pelas duas mulheres:
 Que est fazendo aqui, Berenice?
 Minha av e a dona Maria das Graas queriam conhec-lo 
e  Maria tambm. Onde ela est?
 Na casa da Josefa, deve estar jantando. Pensei que tivesse 
ido embora.
 Por que pensou isso?
 Vi quando vocs saram na carruagem. Pensei que 
estivessem voltando para a Espanha...
Elas se olharam e sorriram. Olga, a av de Berenice, foi 
quem falou:
 Estava enganado, meu rapaz. No estvamos indo para a 
Espanha. Fomos somente at a cidade.
 No estou entendendo...
 Sei que no est, mas no se preocupe, logo entender. 
No tem um lugar onde eu possa me sentar. J estou velha, 
portanto me canso  toa.  disse rindo.
Rapidamente, ele puxou dois bancos feitos de madeira que 
estavam ali e elas se sentaram. Ele e Berenice ficaram em p. 
Sem entender o que estava acontecendo, ele olhava ora para 
Berenice, ora para a av.
 Queria conhecer o homem que virou a cabea da minha 
neta. Agora que estou conhecendo, descobri o que 
aconteceu. Ela tem razo, voc  um belo homem.
Ele, envergonhado, abaixou a cabea.
 No fique assim. Voc sabe que  bonito, mas a minha 
visita tem outra razo.
Ele, intrigado, voltou a olhar para ela, que continuou:
 Quando a Berenice me contou o que estava acontecendo 
e que meu filho disse que ia deix-la sem dinheiro algum, 
me revoltei e me lembrei do que tinha acontecido na minha 
vida. Tambm, por ser mulher, tive de obedecer ao meu pai, 
abandonei o homem que amava, me casei com outro que eu 
mal conhecia e fui infeliz pelo resto da minha vida. No tive 
a coragem que Berenice est tendo. A nica coisa que posso 
fazer agora  ajud-la no que for possvel. J estando velha e, 
com a vinda de Berenice para c, mesmo que voltasse para 
se casar, iria embora com o marido e eu ficaria sozinha. 
Achei que a melhor soluo seria vender todos os meus 
bens e passar o resto do tempo que me falta ao lado da 
minha famlia.
Ainda sem entender o que significava tudo aquilo, Rafael 
olhou para Berenice, que sorriu. A senhora continuou:
 Tenho muito dinheiro e pouco tempo para gastar. Vocs 
esto comeando a vida e vo precisar de dinheiro. Hoje, 
pela manh, fomos at o banco na cidade e peguei uma boa 
quantia para que possam comear. Com esse dinheiro, voc 
vai poder iniciar o seu negcio sem problema algum e logo 
estar muito bem, desde que permita que minha neta 
trabalhe e lute ao seu lado e seja uma mulher com sua 
prpria opinio e, por fim, prove que a mulher pode pensar 
e agir, pode ser livre para escolher o seu destino. O resto do 
dinheiro vai ficar no banco. Instru o gerente de que esse 
dinheiro  todo de Berenice e ela poder pegar quando 
quiser. Ela foi  primeira da famlia que teve essa coragem. 
Estive pensando que, se eu tivesse tido a coragem que ela 
teve e feito o que ela fez, hoje, a histria no se repetiria, 
pois ela j seria uma mulher livre.
Ela lhe entregou um pacote. Rafael no imaginava a quantia 
de dinheiro que tinha dentro, mas, pelo tamanho, podia 
deduzir que era muito.
Ele, abismado, olhou para Berenice que sorria. A senhora 
continuou:
 Sei que est louco de vontade de abraar minha neta, 
pode fazer! Faa de conta que no estamos aqui.
Eles abraaram-se, felizes. Nesse instante, Maria saiu da casa 
de Josefa e, ao ver aquelas senhoras, tmida, se aproximou de 
Rafael que ao v-la, pegou-a nos braos e rodou-a. Sem saber 
o que estava acontecendo, ela somente ria.
A senhora que estava acompanhando Olga,vendo tudo o que 
acontecia, sorria e, ao ver Maria, seus olhos encheram-se de 
gua.
Olga percebeu:
 Vamos, Maria das Graas, faa o que tem vontade.
Ela, olhando para Maria e, com os olhos cheios de lgrimas, 
disse:
 Maria, venha at aqui.
Tmida e sem entender, a menina olhou para Rafael que, 
com a cabea, concordou. Assim que se aproximou, a 
senhora pegou suas mozinhas e, olhando em seus olhos, 
tentando no chorar, disse:
 Meu nome  Maria das Graas e sou sua av.
Ao ouvir aquilo, Rafael, surpreso, olhou para Berenice que, 
com a cabea, fez um sinal para que continuasse ouvindo. 
Maria das Graas continuou, agora olhando para Rafael:
 Meu marido morreu e eu fiquei sozinha. Quando isso 
aconteceu, percebi que o dinheiro e tudo mais no passavam 
de iluso. Meu marido, que foi sempre to apegado a ele, 
morreu e nada levou. Por causa de dinheiro, ele afastou 
nosso nico filho. No pude nem ir ao seu enterro nem 
conhecer minha neta. Vendi tudo o que tinha e me dediquei 
a encontrar voc, Maria. Sabia que devia estar em algum 
lugar aqui, no Brasil. Atravs de Maria Augusta, a me de 
Berenice, soube que, na poca, tinham vindo para c muitos 
imigrantes. Com o corao cheio de esperana vim e, 
quando cheguei, Berenice me contou toda a histria. 
Descobri que minha neta estava aqui sendo criada por voc. 
Sei que sofreu muito nas mos de uma mulher ciumenta, 
mas agora todo sofrimento terminou.
Ao ouvir aquilo, Rafael se desesperou:
 A senhora veio para levar Maria? No pode fazer isso! Ela 
 minha filha! Est registrada no meu nome! No vou 
permitir.
Maria, assustada ao ouvir e ver o desespero de Rafael se 
afastou e abraou sua perna. Maria das Graas percebeu.
 Fique calmo, no pretendo tir-la de voc. Estou velha e 
no vou viver o tempo suficiente para v-la crescer, mas 
quero que ela tenha uma vida boa. Para que isso acontea, 
tenho muito dinheiro e no tenho o que fazer com ele.
Rafael voltou a olhar para Berenice:
  isso mesmo o que est ouvindo, meu amor. Parece que 
hoje voc ganhou um premio do cu. Est rico!
Maria das Graas continuou:
 O dinheiro est todo no banco. Hoje fui l para coloc-lo 
todo em seu nome. Sei que vai us-lo para o bem da minha 
neta.
Rafael ficou mudo. A senhora continuou:
 S queria pedir uma coisa, no sei se podero me atender.
 O que a senhora deseja?
 Como disse, estou sozinha e velha. Gostaria, que, se 
vocs permitissem, me deixassem morar junto da minha 
neta, para poder passar o tempo que me resta de vida ao lado 
dela.
 A senhora est dizendo que quer morar conosco?
 Isso mesmo, Berenice. Sei que quer ser livre e que para 
isso precisa trabalhar ao lado de seu marido. Enquanto 
estiver trabalhando, eu poderei tomar conta dela.
Berenice e Rafael se olharam. Maria,  distncia e em 
silncio, ouvia tudo, mas no entendia muito bem o que 
estava acontecendo.
 Est bem. No haveria ningum melhor do que a senhora 
para cuidar dela. Vai morar conosco.
 Obrigada, minha filha! Deus a abenoe... Berenice olhou 
para Rafael e, sorrindo, disse:
 Ele j me abenoou, dona Maria das Graas... J 
abenoou...
 Venha at aqui, Maria.
Maria olhou para Rafael, que sorriu.
A menina se aproximou. Maria das Graas novamente pegou 
em suas mos e, olhando em seus olhos, disse:
 No precisa ficar com medo. Sou sua av e quero 
somente o seu bem. Jamais eu ia tirar voc de seu pai.
A menina, ainda desconfiada, perguntou:
 O que  uma av?
 Bem... Dizem que av  me duas vezes...
 Ento... Eu que no tinha me nenhuma, vou agora ter 
duas?
 Trs, Maria. Berenice tambm vai ser uma me para voc.
 Isso mesmo, Maria. Vou ser sua me e voc, de hoje em 
diante, vai ser muito feliz.
 Uma av, Maria, alm de ser me duas vezes, gosta muito 
de contar histrias. Vou contar muitas sobre outra av que 
voc tem e que a ama muito. Alm de tios e primos 
tambm. Voc tem uma famlia muito grande e, quando 
crescer mais um pouco, se seu pai deixar, vou levar voc 
para que todos a conheam e tambm possa conhec-los.
 O que est acontecendo, dona Isabel? Ela quer levar 
Maria para conhecer a minha famlia, minha me?
 Isso mesmo que est vendo, Lola. Deus, quando seus 
filhos encontram o caminho, d a eles tudo em abundncia. 
Rafael, apesar de tudo o que passou no se revoltou e s quis 
progredir para dar a Maria muita felicidade.  assim, minha 
filha, que Deus trabalha. Ele sempre abenoa seus filhos, 
embora, muitas vezes no seja com dinheiro.
 Est dizendo que de, hoje em diante, Maria no vai sofrer 
mais?
  isso que estou dizendo, Lola. Todos vocs, em primeiro 
lugar, vieram para ajudar Carmem a encontrar o caminho. 
Caso ela tivesse conseguido, o futuro seria diferente. Ela se 
casaria com Julian e viveriam felizes, pois ele sempre a amou 
e faria com que ela o amasse tambm. Caso no conseguisse, 
como infelizmente aconteceu, tudo tem de ser mudado. 
Rafael, com o dinheiro que recebeu, no vai mais para uma 
cidade grande, mas para uma Capital. Com seu negcio, 
faro contratos governamentais para construir pontes, portas 
de cemitrios e de bancos. O dinheiro que est recebendo 
hoje vai se multiplicar. Com ele, mais tarde, seguiro Julian, 
os rapazes e Josefa com seu marido e filhos. Julian e os 
rapazes encontraro espritos que esto  espera deles e 
continuaro a jornada. Berenice e Rafael tero quatro filhos. 
A primeira ser uma menina que vai se chamar Olga em 
homenagem  av. No dia em que Berenice estiver voltando 
do hospital, trazendo sua primeira filha nos braos, vai 
encontrar seu pai, que vai lhe dizer mais ou menos isso:
 Conversei muito com Maria das Graas e ela me contou o 
que aconteceu com o marido dela. Disse que ele, apesar de 
todo dinheiro que tinha, morreu sozinho e triste por no ter 
aceitado o que seu filho queria e, por ignorncia, nem 
mesmo foi ao seu enterro, mas o que mais sentia era no ter 
podido conhecer sua neta. No quero cometer o mesmo 
erro. Sua me me disse que voc ia voltar hoje para casa, 
trazendo minha neta e eu, se voc deixar, gostaria muito de 
conhec-la.
Berenice vai chorar e dizer:
 Claro, meu pai... Ela est ali,  linda, no ?
 Isso vai acontecer, dona Isabel?  Lola perguntou, com 
lgrimas nos olhos.
 Vai, Lola. Para que Maria possa cumprir sua misso,  
preciso que cresa feliz e saudvel. Para que isso acontea, 
todos aqueles que so responsveis por ela precisam estar na 
mesma situao.
 Deus  mesmo sbio, dona Isabel. Depois, o que vai 
acontecer? Estou curiosa.
Pablo vai comear a tomar parte da vida da filha. Seguindo 
conselhos de Rafael, entender que o dinheiro no tem 
tanto valor como ele acha, vai passar a tratar de modo 
diferente seus empregados. Quando Maria crescer mais um 
pouco, vai, sim, para a Espanha com Maria das Graas para 
conhecer sua famlia e levar um pouco de felicidade para sua 
me que no consegue se esquecer de voc e se perdoar por 
no a ter ajudado. Maria, quando ficar moa, vai comear 
sua misso. Comear sendo uma das principais lutadoras 
para que a mulher possa ter direito ao voto. Depois de 
conseguir, com a ajuda de Berenice e sua filha, Olga, 
comprar uma casa, onde dar assistncia a mulheres e seus 
filhos, vitimas de maridos violentos. Alem de dar abrigo, 
dar tambm uma profisso para que elas, sozinhas, possam 
seguir em frente.
 Ela no vai se casar e ter filhos?
 Vai, claro que vai. Ter quatro filhos, todos homens, aos 
quais ela ensinar a amar e respeitar as mulheres. Tanto eles 
como seu marido estaro sempre lutando ao seu lado. Alm 
de criar seus filhos, passar toda sua vida lutando pelos 
direitos das mulheres e vai conseguir, no tudo, porque no 
ter tempo, mas vai dar passos significativos em direo  
liberdade da mulher. Levar to a srio sua misso, que, 
embora muitas vezes o desejo de se matar volte a atac-la, 
envolvida pelo trabalho, expulsar esses pensamentos e, se 
Deus quiser, no se matar nesta encarnao, afastando 
assim, para sempre, o desejo suicida. Enfim, se as escolhas 
no forem mudadas e nada acontecer para que os planos 
sejam tambm mudados, esse  o destino de cada um. Como 
pode ver Lola, Deus, quando seus filhos fazem bem suas 
escolhas e conseguem fazer um dcimo do que prometeram 
antes de renascer, lhes d bens em abundncia para que 
possam continuar sem problema algum. Ele  mesmo um Pai 
maravilhoso.
 Tem razo, dona Isabel. Estou feliz que tudo termine 
assim, que cada um encontrar seu caminho. Garanto que da 
maneira como as coisas estavam, no pensei que terminasse 
assim. No via caminho para Rafael nem para Maria.
 Isso sempre acontece. Quando a vida no caminha da 
maneira que queremos, costumamos nos desesperar, mas 
logo mais  frente, veremos que alguma coisa acontecer ou 
algum aparecer para nos dar um novo rumo. Deus no 
abandona Seus filhos nunca.
 A senhora tem razo. Quando morri e deixei minha filha 
sozinha, fiquei com medo de que ela fosse sofrer muito, mas 
no aconteceu. Ela, embora tenha sofrido um pouco, vai ter 
o resto da vida para ser feliz. Depois de tudo o que 
aconteceu, entendo o motivo de eu ter partido.
 Tem de agradecer, mesmo, Lola. Agora que tudo est 
bem e cada um  dono de seu prprio destino, precisamos ir 
embora. Temo muito trabalho a fazer. Precisamos, daqui a 
algum tempo, quando Carmem entender o que fez e 
novamente desejar se redimir, busc-la e planejar a prxima 
encarnao, que, infelizmente, no vai ser das mais fceis. 
Esperamos que, dessa vez, ela consiga. Para isso, estaremos, 
todos ns, ao seu lado novamente.
 Um dia ela vai conseguir, no vai?
 Claro que vai. Como j disse, Deus tem uma eternidade 
para esperar por Seus filhos prdigos. Vamos embora? H 
muito trabalho nos esperando.
Manolo e Lola sorriram e, dando-se as mos, desapareceram.

Eplogo

O trnsito estava parado e a noite estava quente. Eram mais 
de oito horas da noite. Maristela, dentro do carro, estava 
nervosa, exausta e pensava:
No suporto mais esta vida! Mais um dia tive de ficar at 
mais tarde no escritrio e agora tenho de suportar este 
trnsito e este calor insuportvel. Estou cansada de ter de 
viver assim! Por que teve de ser assim? Por que o Joo Paulo 
teve de ser mentiroso e traidor? Sei que fui eu quem no 
quis mais que ele continuasse em casa, mas estou cansada...
Quando conseguiu chegar a casa, j eram quase nove horas 
da noite. Irritada, entrou.
Sua me, que estava vendo televiso, assim que ela entrou, 
se levantou:
 Ainda bem que chegou. Estava preocupada.
 No precisa se preocupar, me! Sabe que quase sempre 
sou obrigada a ficar at mais tarde no escritrio.
 Como voc demorou, o jantar esfriou. Enquanto toma 
banho, vou aquecer.
Maristela foi para o seu quarto. Entrou, olhou no espelho: 
Estou um bagao. Cansada de tanto trabalhar. Mas, enfim, o 
que posso fazer, fui eu quem escolhi. Joo Paulo era um 
marido ruim e traidor. Descobri que, enquanto eu 
trabalhava, ele tinha uma poro de mulheres e, vrias 
vezes, quando ficou violento, me bateu. Por no querer 
terminar o meu casamento nem ficar sozinha, suportei o 
mais que pude, mas precisei mand-lo embora. Agora estou 
aqui, sozinha, trabalhando para criar meus filhos. Que vida  
esta, meu Deus do cu?
Tomou banho e, ainda secando os cabelos com uma toalha, 
foi para a cozinha ao encontro da me, que estava colocando 
a comida sobre a mesa:
 No suporto mais essa vida, me!
 O que aconteceu para estar assim, Maristela?
 O que aconteceu? Estou cansada desta vida! Preciso 
trabalhar feito louca para poder me manter e s crianas. 
Tenho tambm de me preocupar com as contas e despesas 
da casa. Com a escola das crianas! No suporto mais! 
Enquanto isso, Joo Paulo deve estar numa boa, com uma 
poro de mulheres e nem est se lembrando dos filhos! No 
agento mais!
 No reclame, minha filha. Agradea por ter uma profisso 
que permite que voc faa tudo isso e, por ser independente 
financeiramente, ter podido mandar o seu marido embora. 
Em outros tempos, por no ter direito a coisa alguma nem 
mesmo a um trabalho, para poder criar seus filhos, teria de 
agentar a traio e a violncia sem reclamar. Muitas 
mulheres lutaram e dedicaram suas vidas para que, hoje, 
voc tivesse esse direito, o de ser livre e de escolher seu 
destino.
 Por um acaso, eu pedi para que mulher alguma fizesse 
isso? Nunca me perguntaram se era o que eu queria! Pois 
fique sabendo que o que mais queria, neste momento, era 
ser dondoca, ficar s cuidando da casa e dos meus filhos e 
gastando o dinheiro do meu marido! Ter um homem para 
me sustentar! Cansei de ser livre!
 No fale assim, minha filha. No sabe o que est dizendo. 
No sabe o que  no ter direito algum...
 Eu e que no sei o que  viver sem ter de me sacrificar 
tanto! Luclia, balanando a cabea, sorriu.
 Venha, sente-se e coma. Amanh ser outro dia e 
pensar diferente e melhor.
 Acho que no, me! Estou mesmo cansada desta vida! 
Quero ser dondoca! Quero ter um homem que cuide da 
minha vida e no me importo com o que tenha de fazer para 
ter isso!  gritou.
Ao ouvir aquilo, Luclia voltou e, visivelmente alterada, 
disse baixo
 Isso mesmo, faa isso, porque aquelas mulheres, s quais 
voc no pediu e nem lhe perguntaram se queria que 
lutassem por voc fizeram isso para que, hoje, voc pudesse 
fazer o que est fazendo.
 O qu?
 Pensar, ter suas prprias idias, escolher o seu destino, ter 
sua vida em suas mos e, finalmente, ter o direito e poder 
falar o que sente, mesmo que seja esse monte de bobagens 
que est falando!
Dizendo isso, Luclia, a passos largos e, nervosa, saiu e foi 
para seu quarto.
Maristela se sentou e ficou pensando.
Lola que passava ali acompanhada de Isabel, desacreditando 
no que ouvia, perguntou:
 O que significa isso, dona Isabel? Depois de tudo o que 
aconteceu, hoje, as mulheres pensam assim?
 Algumas, Lola... Algumas... Muitas no querem pagar o 
preo da liberdade que s vezes  muito alto, como est 
acontecendo com Maristela que, para poder ser livre, precisa 
trabalhar muito. Outras no conseguem ficar sem um 
homem do lado para mostrar s outras pessoas ou somente 
para demonstrar que no esto sozinhas. Existem, ainda 
hoje, mulheres que se deixam abater por maridos violentos 
que as espancam e aos filhos e no lhes do valor algum.
 No consigo acreditar que isso esteja acontecendo. No 
acredito que ainda existam mulheres que se deixam dominar 
pelas aparncias! Que se deixam dominar pelo medo de 
agressores covardes! Ento, toda aquela luta no adiantou? 
Continua tudo igual? Por que hoje isso ainda acontece?
 Isso acontece, porque, at hoje, muitas mulheres no 
aceitaram que so espritos livres e que no podem ser 
aprisionadas por nada em ningum. Entretanto, existem 
mulheres que assumiram seus lugares e so profissionais 
competentes, boas me e esposas, assim como Maristela. 
Apesar de tudo o que ela disse, jamais se conformaria em ser 
dominada por um homem que no a respeitasse. Por causa 
da luta anterior, hoje, a mulher, em qualquer situao boa ou 
ruim, graas a todas aquelas que vieram antes e brigaram 
muito, pode usar seu livre-arbtrio, escolher como quer 
viver, com quem quer viver e a companhia com a qual 
deseja caminhar. Hoje ela  livre, Lola, e dona do seu 
destino, coisa que, antes, no acontecia. Tudo o que est 
acontecendo significa, tambm, que o esprito nunca est 
contente com o que tem ou consegue e  essa insatisfao 
que faz com que no pare de evoluir, no pare de caminhar 
e, assim, os espritos, acertando ou errando, um dia, 
chegaro  Luz.
Lola ficou calada, lembrando-se de tudo o que havia 
acontecido. Isabel, ao v-la pensativa, sorriu e disse:
 Vamos embora, no se esquea de que estvamos indo 
nos encontrar com Maria, Julian, Rafael e Manolo. Hoje, 
como sabe, depois de muito tempo, Carmem vai planejar sua 
prxima encarnao e precisamos estar ao seu lado para 
poder ajudar em tudo o que for preciso.
 Vamos renascer, dona Isabel.
 Isso vai depender de cada um de ns. Vamos decidir se 
queremos continuar ajudando Carmem. Por muito tempo 
temos feito isso. Hoje, podemos deixar que venha sozinha e, 
assim, continuar o nosso caminho.
 Eu no sei quanto aos outros, mas, com certeza, quero 
estar ao lado dela, dona Isabel.  um esprito amigo 
precisando de ajuda.
 No esperava outra coisa de voc, Lola. J conversei com 
Maria, Rafael, Julian e Manolo. Eles pensam da mesma 
maneira que voc. Voc sabe que a encarnao dela vai ser 
muito sofrida e quem estiver ao lado dela, provavelmente, 
sofrer tambm.
 Sei, dona Isabel, e no me importo porque sei, tambm, 
que nunca estarei sozinha. E digo mais, dona Isabel: demore 
o tempo que demorar, vou ficar sempre ao lado de Carmem. 
Como  senhora sempre fala. Se Deus que  Deus vai esperar 
por ela uma eternidade toda, quem sou eu para me recusar?
Isabel sorriu. Lola olhou mais uma vez para Maristela que, 
agora, jantava e, inconformada, deu a mo a Isabel e 
desapareceram.
